RUBY

Virginia C. Andrews

Digitalizado por Ftima Chaves


PrLOGO

Nos primeiros quinze anos da minha vida, o meu nascimento e os acontecimentos que o rodearam permaneceram um mistrio; um mistrio to grande como o nmero de estrelas
que brilham no cu da noite sobre o bayou, ou como a dvida quanto ao lugar onde o peixe-gato se escondia nos dias em que o grandpre nem um conseguia apanhar para
sobreviver. S conheci a minha me atravs das histrias que a grandmre Catherine e o grandpre Jack me contavam e pelas poucas fotografias amareladas que havia
l em casa, em molduras de estanho. Desde que me lembro, sempre me senti culpada diante da sua sepultura, em cuja lpide simples se podia ler:

Gabrielle Landry

Nascida a 1 de Maio de 1927 Falecida a 27 de Outubro de 1947

Isto porque a data do meu nascimento e a data da morte da minha me eram uma s. Sempre que chegava o dia do meu aniversrio, apesar do grande esforo que a grandmre 
fazia para tomar aquela data feliz, nesse dia e nessa noite eu sentia o corao pesado com uma culpa secreta. Sabia que tambm a ela lhe custava estar alegre nesse 
dia.

No entanto, alm da triste morte da minha me no dia em que nasci, existiam outras questes obscuras que eu nunca tentara indagar, pois, mesmo que o soubesse fazer, 
tinha demasiado medo de provocar aquela expresso sria e fechada no rosto da grandmre, geralmente sempre to carinhoso. Havia dias em que ela se sentava na cadeira 
de baloio e fixava o seu olhar em mim durante horas. Fossem quais fossem as respostas, a verdade tinha desfeito a vida dos meus avs, levando o grandpre Jack a 
ir viver sozinho na cabana do pntano. e, a partir desse dia, a grandmre Catherine no conseguia pensar no ma-
rido sem que o desgosto lhe magoasse o corao e a revolta transparecesse no seu olhar.

O desconhecido habitava na nossa casa do byouI; jazia nas teias de aranha que transformavam os pntanos num mundo encantado nas noites de luar e cobria os ciprestes 
to completamente quanto o musgo que lhes forrava os ramos. Podia ouvi-lo nas sibilantes e mornas brisas de Vero e na gua que batia contra as rochas. Detectava-o 
at mesmo no olhar penetrante do falco-dos-pntanos, cujos olhos debruados a amarelo seguiam atentamente cada um dos meus movimentos.

Evitava as respostas com a mesma intensidade com que as desejava. Palavras com peso e poder suficiente para manter afastadas duas pessoas que se deviam amar e respeitar 
apenas podiam encher de medo o meu corao.

Na Primavera, sentava-me  janela do meu quarto e contemplava a escurido dos pntanos na noite quente, para que a brisa que vinha do golfo do Mxico refrescasse 
o meu rosto enquanto ouvia o piar da coruja.

Porm, em vez de escutar o pio singular "huuu, hutiu, huuu", pensava ouvir "porqu, porqu, porqu" e tentava aconchegar-me de forma a que o tremor do meu corpo 
no acelerasse o bater do corao.

Bayou.- regies pantanosas do deita do Mississpi onde habitam os Cajuns. (N. da T. )
LIVRO UM
1 OS PODERES DA "GRANDMeRE"

Um bater forte e desesperado na porta de entrada ecoou pela casa e interrompeu o trabalho da grandmre Catherine e o meu. Nessa noite estvamos l em cima no grenier, 
a sala do tear onde transformvamos o algodo virgem em mantas que vendamos  porta de casa nos fins-de-semana em que os turistas visitavam o bayou. Contive a respirao, 
o bater fez-se ouvir de novo, mais forte e mais acelerado.

- Vai l abaixo ver quem  ,Ruby - ordenou a grandmre Catherine sussurrando. - Depressa. Se for o teu grandpre Jack encharcado em usque outra vez, fecha imediatamente 
a porta - acrescentou. Mas algo de estranho na forma como a grandmre abria os olhos escuros mostrava que ela sabia que era uma outra pessoa, trazendo-nos algo bem 
mais assustador e desagradvel.

Uma forte brisa havia perfurado as espessas camadas de nuvens que nos enclausuravam como uma cortina, ocultando o quarto de lua e as estrelas do cu de Abril da 
Luisana. Nesse ano, a Primavera tinha sido quase Vero. Os dias e as noites eram to quentes e hmidos que os meus sapatos pareciam estar molhados todas as manhs. 
Ao meio-dia, o Sol brilhava com uma intensidade tal que os mosquitos e as moscas voavam freneticamente em busca de uma sombra fresca. Nas noites de luar, via-se 
bem os locais que as aranhas do pntano escolhiam para construir as teias gigantescas onde apanhavam escaravelhos e mosquitos. Nas janelas, tnhamos redes prprias 
para deter os insectos e para permitir entrar qualquer brisa fresca proveniente do golfo.

Desci apressadamente as escadas e atravessei o corredor estreito que unia a parte de trs da casa  da frente. Foi ento que a viso do rosto de Theresa Rodrigues 
comprimido contra a Porta de vidro abrandou a minha pressa e imobilizou os meus Ps. Estava branca como um lrio, trazia o cabelo negro em p e um olhar aterrorizado.
-A tua grandmre? - gritou, quase histrica.

Chamei a grandmre e depois dirig-me para a porta. Theresa era uma rapariga baixa e robusta, trs anos mais velha que eu. Aos dezoito anos, era a mais velha de 
cinco irmos e eu sabia que a me dela j se encontrava  espera de um outro filho.

- Que se passa, Theresa? - perguntei, aproximando-me dela no patamar. - Foi a tua me?

Ela rompeu imediatamente num pranto, cujos soluos projectavam o volumoso peito para cima e para baixo, enquanto escondia o rosto com as mos. Olhei para trs e 
vi a grandmre Catherime descer as escadas, olhar para Theresa e fazer o sinal da Cruz.

- Fala depressa, rapariga - ordenou a grandmere Catherine, dirigindo-se a passos largos para a porta.

- A minha me... deu  luz... um beb morto - murmurou Theresa.

- Mon Dieu - exclamou a grandmre Catherine, benzendo-se novamente. - Eu bem o senti - sussurrou com o olhar posto em mim. Recordei ento o momento nessa noite em 
que, enquanto tecamos, a grandmre havia erguido a cabea para ouvir os rudos nocturnos. O grito de um mapache soara tal como o choro de uma criana.

- O meu pai mandou-me vir cham-la - gemeu Theresa entre soluos. A grande Catherine fez um sinal afirmativo e apertou a mo de Theresa para a consolar.

- Vou imediatamente.

- Obrigada, Mistress Landry, muito obrigada - disse Theresa, abandonando logo de seguida o patamar e correndo para a noite escura, deixando-me confusa e assustada. 
A grandmre Catherine estava j a juntar as suas coisas e enchia um cesto de tiras de carvalho. Voltei rapidamente para dentro.

- Que quer Mister Rodrigues, grandmre? Que pode a grandmre fazer por eles?

Sempre que a grandmre era chamada a meio da noite, tratava-se normalmente de algum que estava muito doente ou com muitas dores. Fosse qual fosse o motivo, sentia 
o estmago agitado como se tivesse engolido uma dzia de moscas que voejassem em crculos dentro de mim.

-Vai buscar a lanterna a gs - ordenou ela, em vez de me responder. Ao contrrio de Theresa Rodrigues, cujo nervosismo lhe iluminara o caminho atravs da escurido, 
ns iramos necessitar da lanterna para descer o prtico da entrada e caminhar por entre a erva dos pntanos at chegarmos  estra-
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da de cascalho negro, Para a grandmre, o cu carregado de nuvens continha um significado negativo, especialmente nessa noite. Assim que samos de casa, ela olhou 
para cima, abanou a cabea e murmurou: - No  um bom sinal.

Atrs de ns e ao nosso lado, o pntano parecia animar-se com as suas sombrias palavras. Os sapos coaxavam, os pssaros da noite piavam e os crocodilos deslizavam 
pela lama fresca.

Aos quinze anos, eu era j mais alta do que a grandmre Catherine, que media pouco mais de um metro e meio de altura, calada com os seus mocassins. Pequena no tamanho, 
no deixava de ser a mulher mais forte que alguma vez conheci, pois, alm de toda a sua sabedoria e determinao, detinha os poderes de um traiteur, um terapeuta; 
ela era uma curandeira espiritual, algum que no receava combater o mal, por muito tenebroso e assustador que este parecesse ser. A grandmre parecia conhecer sempre 
uma soluo para cada problema, tinha sempre forma de encontrar no seu cesto uma panaceia ou um ritual e sabia sempre o que fazer a seguir,

Era algo que no se encontrava escrito em parte alguma, algo que ela havia herdado; mesmo aquilo que no lhe havia sido legado, ela descobria milagrosamente.

A grandmre era canhota, facto que para todos ns, os CajunSI, significa poder espiritual. No entanto, eu sempre pensei que os poderes da grandmre provinham dos 
seus escuros olhos cor de nix. No havia nada que ela receasse. Reza a lenda que, uma noite no pntano, havia estado face a face com a prpria Morte e a tinha fitado 
de uma tal forma que esta se apercebera de que nada podia fazer com a grandmre.

O povo do bayou procurava-a para curar as verrugas e o reumatismo. Ela tinha remdios secretos para a constipao e para a tosse e dizia-se at que conhecia uma 
frmula para impedir o envelhecimento, apesar de nunca a ter utilizado por ser contra a ordem natural das coisas. A Natureza era sagrada para a grandmre Catherine. 
Extraa todos os seus remdios das plantas, das ervas, das rvores e dos animais que viviam nos pntanos dos arredores.

-Porque  que vamos  casa dos Rodrigues, grandmre? No  j muito tarde?

- Couchemal - murmurou ela, rezando entre dentes uma orao. A forma como rezava provocou-me um formigueiro na
1 Nome que se d, na Luisiana, aos descendentes dos colonizadores franceses. (N. da T)

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espinha e, apesar de toda a humidade, senti um arrepio. Apertei os maxilares o mais que pude, tentando evitar que os dentes batessem. Estava resolvida a ser to 
corajosa quanto a grandmre, o que na maioria das vezes at j ia conseguindo.

- Acho que j tens idade suficiente para eu poder contar-te afirmou ela numa voz to baixa que tive de me esforar para a entender. - Um couchemal  um esprito 
maligno que ronda os bebs que morrem sem ser baptizados. Se no for expelido vai assombrar toda a famlia e amaldio-la - explicou ela. -- Deviam ter-me chamado 
assim que Mistress Rodrigues comeou o trabalho de parto. Especialmente numa noite como esta - acrescentou, num tom lgubre.

 nossa frente, a luz da lanterna fazia as sombras danar e girar ao som daquilo que o grandpre Jack chamava "cano do pntano", composta no apenas pelos rudos 
dos animais, mas tambm pelo assobio peculiar que por vezes emerge dos ramos retorcidos e dos limos oscilantes (a que ns, Cajuns, chamamos "barba espanhola") sempre 
que uma brisa os envolve. Tentando no esbarrar com a grandmre, permanecia to prximo dela quanto possvel e os meus ps moviam-se to aceleradamente quanto sabiam 
para a poder acompanhar. A grandmre estava to determinada em chegar ao seu destino e em realizar a estranha tarefa que tinha pela frente que parecia poder caminhar 
atravs da mais completa escurido.

No cesto de tiras de carvalho, a grandmre trazia meia dzia de imagens pequenas da Virgem Maria, uma garrafa de gua benta e uma mistura de plantas e de ervas. 
As oraes e os feitios estavam todos na sua cabea.

- Grandmre - comecei eu, precisando ouvir o som da minha voz -, qu'est-ce...

-Em ingls - corrigiu ela, rapidamente. - Fala s em ingls. - A grandmre insistia sempre em falar ingls, especialmente depois de abandonarmos a casa, mesmo sendo 
o francs a nossa lngua de cajun. - Vir o dia em que deixars o bayou - previu ela - e vivers num mundo que considera inferiores a nossa lngua e os nossos hbitos 
cajuns.

- Por que motivo deixaria eu o bayou, grandmre? - indaguei. - e porque viveria eu com pessoas que nos acham inferiores,"

-  o que vai acontecer - respondeu, no seu usual tom enigmtico. ---  o que vai acontecer.

- Grandmre - comecei outra vez -, porque  que um esprito assombraria a famlia Rodrigues? Que fizeram eles de mal?

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- No fizeram nada. O beb nasceu morto. Veio ao mundo num corpo de criana, mas o esprito no foi baptizado e no tem stio para onde ir, por isso ir assombr-los 
e trazer-lhes m sorte.

Olhei para trs. A noite caa como uma cortina de chumbo nas nossas costas, forando-nos a caminhar em frente. Quando chegmos  curva, fiquei contente ao avistar 
as janelas iluminadas da casa dos Bute, os nossos vizinhos mais prximos. Aquela imagem permitiu que me convencesse de que estava tudo normal.

- j fizeste isto muitas vezes antes, grandmre? - Sabia que a minha grandmre era chamada para desempenhar muitos rituais, desde abenoar uma casa nova a trazer 
sorte  lida de
um pescador de camares e ostras. As mes de jovens noivas                    i incapazes de dar  luz chamavam-na para ver o que ela podia
fazer para as tornar frteis e, na maior parte das vezes, estas engravidavam. Eu tinha conhecimento de todas estas coisas, mas
at quela noite nunca ouvira falar de um cotichenial. - Infelizmente, muitas vezes - respondeu ela. - Tal como o fizeram muitos traiteurs antes de mim, mesmo antes 
de virmos para esta terra.
- e conseguiste sempre eliminar o esprito?

- Sempre - afirmou a grandmre num tom to confiante

i que subitamente me fez sentir segura.

A grandmre Catherine e eu vivamos sozinhas na nossa casa construda sobre estacas, com telhado de zinco e uma varanda. Vivamos em Houma, no estado da Luisiana, 
em Terrebonne Parsh, Diziam por l que estvamos apenas a duas horas de carro de Nova Orlees, mas eu no sabia se isso correspondia  verdade, pois nunca havia 
ido a Nova Orlees. Nunca tinha abandonado o bayou.

A nossa casa tinha sido construda pelo prprio grandpre Jack, h mais de trinta anos, quando ele e a grandmre Catherine se tinham casado. Tal como a maioria das 
outras casas cajuns, estava assente sobre estacas, de forma a proteger-nos dos animais rastejantes e tambm das enchentes e da humidade. As paredes eram de madeira 
de cipreste e o telhado de chapa de metal ondulada. Quando chovia, as gotas de gua batiam em nossa casa com a mesma intensidade do bater de um tambor. Os Poucos 
visitantes que l entravam sentiam-se incomodados com esse rudo, que para ns era to banal como os guinchos estridentes dos falces nos pntanos.

-Para onde vai o esprito depois de ser expelido? - perguntei eu.

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- De volta para o limbo, onde j no pode prejudicar os bons tementes a Deus - respondeu ela.

Ns, os Cajuns, que somos descendentes dos Acadianos, oriundos do Canad por volta de 1700, acreditamos numa forma de espiritualidade que mistura o catolicismo com 
o folclore existente antes de Cristo. Frequentamos a igreja e invocamos santos como o Santo Medad, mas apegamo-nos com a mesma convico s nossas supersties e 
crenas antigas. Havia quem tivesse ainda um maior apego a essas coisas, como o grandpre Jack, que se via frequentemente envolvido em tentativas de afastar a m 
sorte e possua uma coleco de talisms, tais como o dente de um aligtor e uma orelha seca de veado, que trazia  volta do pescoo e por vezes no cinto. A grandmre 
costumava afirmar que ningum precisava mais desses talisms do que o grandpre Jack.

O caminho de cascalho formava uma curva l adiante, mas, com o ritmo rpido com que andvamos, depressa a casa dos Rodrigues apareceu  nossa frente, feita de madeira 
de cipreste coberta por uma capa cinzenta esbranquiada. Ouvimos os queixumes vindos do seu interior e avistmos Nir. Rodrigues na varanda segurando nos braos o 
irmo de Theresa, com quatro anos de idade. Estava sentado numa cadeira de palha de baloio, enquanto contemplava o cu como se j tivesse visto o esprito maligno. 
Arrepiei-me ainda mais, mas continuei a avanar to depressa como a grandmre Catherine. Assim que ele a avistou, a expresso de tristeza e receio encheu-se de esperana. 
Era agradvel verificar o quanto a grandmre era respeitada.

Obrigado por ter vindo to depressa, Mistress Landry. Obrigado por ter vindo - murmurou ele, erguendo-se de imediato. - Theresa - chamou, at esta sair de casa para 
pegar no irmo ao colo. Nir. Rodrigues abriu a porta  minha grandmre enquanto eu, depois de apagar a lanterna, a segui para o interior da casa.

A grandmre Catherine j tinha estado antes naquela casa, por isso drigiu-se imediatamente para o quarto de Mrs. Rodrigues, que, deitada com os olhos fechados, 
tinha o rosto acinzentado e o cabelo negro espalhado pela almofada. A grandmre pegou-lhe na mo e Mrs. Rodrigues abriu os olhos, sem foras. Agrandmre Catherine 
fixou nela o olhar, como se procurasse um sinal, e Mrs. Rodrigues tentou, com bastante esforo, levantar-se.

- Descansa, Delores - mandou a grandmre. - Estou aqui para ajudar.

Sim - concordou Mrs. Rodrigues num tom distorcido
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de voz, enquanto segurava o pulso da grandmre. - Eu senti, catherine; senti-lhe o corao pulsar, parar e depois senti o
couchemal sair.. senti tudo. - Descansa, Delores. Vou fazer o que precisa de ser feito

prometeu a grandmre Catherine, acariciando-lhe a mo. Em seguida, voltou-se para mim, fez-me um sinal e eu segui-a para a varanda onde Theresa e os outros irmos 
aguardavam, de
olhos esgazeados.                                                          1 A grandmre retirou ento do cesto que trouxera uma garrafa com gua benta, que abriu 
cautelosamente, enquanto se
voltava para mim.

- Pega na lanterna e segue-me  volta da casa - ordenou ela. - Preciso de deitar umas gotas desta garrafa em todos os potes e baldes com gua, Ruby. Toma ateno 
para no esquecermos nem um - disse depois. Acenei com a cabea, sentindo as pernas trmulas, iniciando de seguida a nossa busca.

Vindo da escurido, ouviu-se o pio de uma coruja, mas antes de entrar em casa ouvi algo deslizar atravs da vegetao. O meu corao batia tanto que julguei no 
ser capaz de segurar a lanterna. Ser que o esprito maligno nos tentaria deter? Como se me respondessem, senti algo frio e hmido passar por mim na escurido e 
tocar ao de leve a minha face esquerda. Deixei escapar um grito rouco, e a grandmre Catherine voltou-se para me tranquilizar.
- O esprito est escondido num balde ou numa jarra.  na gua que eles se escondem, no tenhas medo - instruiu ela, detendo-se perto de um cntaro que os Rodrigues 
utilizavam para recolher a gua da chuva que caa do telhado. Abriu ento a garrafa e verteu uma ou duas gotas no cntaro, fechando os olhos e rezando depois uma 
orao. Fez o mesmo em cada balde e pote que encontrmos, at termos circulado em redor de toda a casa e pararmos junto de Mr. Rodrigues, de Theresa e das outras 
duas crianas, que aguardavam a grandmre.

- Desculpe, Mistress Landry - murmurou Mr. Rodrigues -, mas a Theresa acabou de me dizer que as crianas puseram um pote velho para o gumbol l nas traseiras. Deve 
ter alguma gua da chuva que caiu esta tarde.

- Leva-me at l - ordenou a grandmre Catterine a Theresa, que logo se encaminhou para o local, mas to nervosa,
que nem conseguia encontr-lo.

- Temos de o encontrar - avisou a grandmre. Theresa comeou a chorar.

' Prato tpico do bayot. (N. da T)

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-- Procura com calma, Theresa - disse-lhe eu para a confortar, tocando-lhe no brao. Ela respirou fundo a meio de um soluo e fez um sinal afirmativo. Tentando recordar 
o lugar exacto onde estava o pote, ia mordendo o lbio inferior, at que, depois de alguma concentrao, foi capaz de nos levar l. A grandmre ajoelhou-se e despejou 
a gua benta no pote, murmurando as suas preces.

Talvez tivesse sido a minha imaginao doentia, ou talvez no, mas julguei ter visto algo de uma cor cinza-pldo a emergir da gua, algo que se assemelhava a um 
beb e que flutuou at por fim se afastar. Abafei um grito, receando assustar Theresa ainda mais. Agrandmre Catherine levantou-se e regressou  casa para apresentar 
os nossos psames. Colocou uma imagem da Virgem Maria na porta principal e mandou que Mr. Rodrigues ali a conservasse durante os prximos quarenta dias e quarenta 
noites. Entregou-lhe ainda uma outra imagem, que ordenou que fosse colocada aos ps da cama de casal pelo mesmo perodo de tempo. S ento regressmos a casa.

- Achas que conseguiste expuls-lo, grandmre? - perguntei eu, quando j estvamos suficientemente afastadas daquela casa para que nenhum dos membros da famlia 
Rodrigues pudesse ouvir.

-Consegui - respondeu ela, voltando-se para mim e acrescentando: - Quem me dera puder expulsar assim to facilmente o esprito maligno que habita no teu grandpre. 
Dava-lhe um banho com gua benta, se essa fosse a soluo. Alis, um banho fazia-lhe falta de qualquer maneira!...

Sorri, mas depressa senti os olhos encherem-se de lgrimas. Desde que me lembrava, o grandpre Jack vivia longe de ns, na cabana do pntano. Durante a maior parte 
do tempo, a grandmre Catherine apenas tecia comentrios desfavorveis a seu respeito e, sempre que ele aparecia, ela recusava-se at a voltar a olhar para ele; 
s vezes, no entanto, quando a grandmre dizia desejar que ele fizesse isto ou aquilo para melhorar e modificar a sua vida, a sua voz era mais suave e os seus olhos 
enchiam-se de calor. A grandmre no gostava que eu levasse a canoa pelos pntanos para o ir visitar.

-Deus te ajude se aquela canoa to frgil se virar! Ele nem ouvia os teus gritos de to ensopado em usque, e o pntano est cheio de cobras e aligatores, Ruby. 
O teu grandpre no merece todo o esforo da viagem - resmungava, mas sem nunca me ter impedido de o ir ver. Mesmo fazendo de conta que no se importava e que no 
queria saber dele, eu reparava que ela arranjava sempre um meio de ouvir as descries que eu fazia das minhas visitas ao grandpre.

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Foram muitas as noites em que, sentada  janela observando a Lua, eu desejava que de alguma forma pudssemos ser uma famlia. Eu nunca tivera me, nem pai, apenas 
a grandmre Catherine, que sempre havia sido e ainda era como uma me para mim. A grandmre sempre dissera que o grandpre mal podia tomar conta dele, quanto mais 
substituir o meu pai; apesar disso, eu sonhava. Se eles voltassem a viver juntos... se vivssemos todos juntos na nossa casa, seramos como uma famlia normal. Talvez 
assim o grandpre Jack deixasse de beber e de jogar. Todos os meus amigos na escola tinham famlias comuns, e viviam com irmos e irms e dois pais que podiam amar.

Porm, a minha me jazia num cemitrio a poucos quilmetros dali, e o meu pai... o meu pai era uma cara desconhecida e sem nome, um estranho que um dia passara pelo 
bayou e conhecera a minha me durante unifais dodo, uma dana cajun. Segundo a grandmre Catherine, foi o amor que eles fizeram nessa noite, to selvagem e descuidado, 
que ocasionou o meu nascimento. O que mais me magoava, para alm da morte trgica de minha me, era saber que algures existia um homem que nunca chegara a saber 
que tinha uma filha e esse homem ser meu pai. Nunca pousaramos o olhar um no outro, nunca trocaramos uma palavra; nunca sequer veramos as nossas sombras ou as 
nossas silhuetas, como as de dois barcos de pesca atravessando a noite. Quando era pequena, inventei um jogo: o jogo do paizinho.

Observava-me com muita ateno em frente do espelho e depois tentava imaginar as minhas caractersticas faciais num homem. Sentava-me ento em frente  secretria 
e desenhava a cara que tinha imaginado. O resto da aparncia j era mais difcil desenhar; por vezes, fazia-o muito alto, to alto quanto o grandpre Jack e noutras 
ocasies apenas alguns centmetros mais alto do que eu. Mas tinha sempre uma figura robusta e um corpo musculoso, pois h muito decidira que ele devia ser interessante 
e cheio de charme para ter conquistado o corao da minha me to rapidamente.

Alguns desses desenhos transformaram-se mais tarde em aguarelas. Numa, coloquei o meu pai imaginrio numa sala onde se danava o fiais dodo, encostado a uma parede, 
sorrindo, depois de ter reparado na minha me. A sua aparncia era a de um homem muito sexy e perigoso, tal como ele devia ter sido Para chamar a ateno de uma 
rapariga to bonita como a minha me. Noutro dos desenhos, ele caminhava por uma estrada fora, mas voltava-se para dizer adeus. Sempre pensei que nesse

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quadro existia uma expresso de promessa no seu rosto, a promessa de um retorno.

Na maioria das minhas pinturas existia a figura de um homem, o qual na minha imaginao era sempre o meu pai. Ou estava num barco de pesca ao camaro ou remava numa 
canoa atravs de um dos canais ou numa das lagoas. A grandmr Catherine sabia o motivo da insistncia daquele homem nas minhas pinturas; eu apercebia-me da tristeza 
que isso lhe causava, mas no podia conter-me. Mais tarde, ela aconselhou-me a pintar animais dos pntanos e aves em vez de pessoas.

Aos fins-de-semana, costumvamos expor as minhas pinturas, em conjunto com as mantas que tecamos, os lenis, as toalhas, as cestas de palha e os chapus de folhas 
de palmeira. A grandmre juntava ainda a tudo isto os boies de ervas medicinais para as dores de cabea, a insnia e a tosse. Por vezes, colocvamos em frascos 
uma cobra pintalgada ou um sapo grande, porque sabamos que os turistas que ali passavam adoravam comprar esse tipo de coisas. Como muitos gostavam de comer o gumbo 
ou a jambalayal que a grandmre fazia, ela vendia caixas pequenas que os turistas comiam sentados diante das mesas que existiam em frente da nossa casa, gozando 
assim um genuno almoo cajun.

Apesar de tudo, a minha vida no bayou era bem melhor do que a de algumas crianas rfs. A grandmre Catherine e eu no possuamos muitos bens materiais, mas tnhamos 
a nossa casa pequena e segura e conseguamos sobreviver com os nossos trabalhos manuais e de tecelagem. De tempos a tempos, embora reconhea que devesse ter sido 
mais frequente, o grandpre Jack aparecia para nos dar parte daquilo que ganhara a apanhar ratos-almiscarados, que era o seu principal meio de subsistncia naqueles 
tempos. A grandmre Catherine era demasiado orgulhosa ou ficara demasiado zangada para o aceitar de bom grado. Assim, ou eu aceitava, ou o grandpre deixava o dinheiro 
em cima da mesa da cozinha.

-No queria que ela me agradecesse - resmungava ele
mas ao menos podia reconhecer que eu vim aqui deixar esse maldito dinheiro. Custou muito a ganhar, l isso custou! - declarava ele alto e bom som, nos degraus do 
alpendre. A grandmre Catherine permanecia em silncio e costumava continuar aquilo que estava a fazer dentro de casa.

- Obrigada, grandpre - respondia eu.

Prato tipico do ba,vol. (N. da T)

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- Ah, eu no quero que me agradeas, Ruby. No so os teus agradecimentos que eu peo. S queria que algum se apercebesse de que no estou morto e enterrado, nem 
fui engolido por um aligtor. Algum que, pelo menos, tivesse a decncia de olhar para mim - queixava-se ele frequentemente, ainda ein voz alta, para que a grandmre 
o pudesse ouvir.

s vezes, ela vinha  porta, se por acaso o grandpre dizia alguma coisa que a irritava.

- Decncia? - gritava a grandmre, por detrs da vidraa. - Como  que tu, Jack Landry, podes falar de decncia?...
- oh!... - O grandpre Jack acenava-lhe com o brao comprido e voltava-se para regressar ao pntano.

- Espera, grandpre! - gritava eu, correndo para ele.

- Esperar? O qu? Se nunca viste uma mulher cajun decidida, no sabes o que  teimosia. No tenho nada para esperar
- declarava ele, avanando em frente, com as botas altas absorvendo a terra e a erva lamacentas. Normalmente, o grandpre usava um casaco vermelho que era uma mistura 
entre um colete e uma capa de bombeiro, com uns enormes bolsos cosidos, que iam at s costas. Tinham aberturas prprias e chamavam-lhes bolsos de rato, pois serviam 
para guardar aqueles que apanhava.

Sempre que se afastava enfurecido, o seu longo cabelo branco de neve esvoaava  volta da cabea, como se fossem labaredas brancas. O grandpre era um homem de pele 
escura; dizia-se at que nas veias dos Landry corria sangue ndio, mas, no entanto, o grandpre tinha os olhos verdes como duas esmeraldas que piscavam de um modo 
sedutor e matreiro sempre que estava sbrio e bem-disposto. Alto, magro e forte o suficiente para desafiar um aligtor, o grandpre Jack era uma espcie de lenda 
no bayou. Poucos homens resistiam ao pntano to bem como ele.

Contudo, a grandmre Catherine no poupava os Landry e muitas vezes me fazia chorar quando amaldioava o dia em que casara com o grandpre.

-  Que te sirva sempre de lio, Ruby - disse-me ela um dia.    Uma lio que mostra bem como o corao pode atraioar e confundir a mente. O corao pode desejar 
o que bem entender; mas antes de te entregares a um homem, tens de saber muito bem aonde ele te tenciona levar. Por vezes, a melhor forma de conhecer o futuro e 
analisar o passado - avisara a grandmre. - Eu devia ter dado ouvidos ao que todos me diziam acerca dos Landry. Tm mau sangue nas veias... tm sido maus desde que 
o primeiro Landry aqui se instalou. No demo-

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rou muito para que existissem letreiros por toda a parte a dizer: "No so permitidos Landry." Vs no que d a maldade? Vs o que significa ouvir um corao jovem 
em vez de dar ouvidos  velha sabedoria?

- Mas a grandmre chegou com certeza a amar o grandpre; deve ter visto alguma coisa boa nele - insisti.

- Vi aquilo que quis ver - respondia ela. Era sempre teimosa quando se tratava do grandpre, e eu no conseguia entender porqu. Nesse dia, devo ter sentido um mpeto 
de coragem ou de esprito de contradio e tentei perscrutar o passado.

- Grandmre, porque  que o grandpre saiu de casa? Foi s por causa da bebida? Acho que ele era capaz de parar, se voltasse a viver connosco...

Os seus olhos eram como lanas dirigidas a mim.

- No, no foi s por causa da bebida. - Fez uma pausa e acrescentou: - Embora esse motivo seja mais do que suficiente.
- Foi por ele perder o dinheiro no jogo?

- O jogo no  o pior - respondeu ela, agastada, num tom de voz que me avisava que eu devia deixar o assunto morrer ali. Mas, por alguma razo, no o pude fazer.

- Ento porqu, grandmre? O que fez ele de to terrvel? O olhar da grandmre entristeceu-se momentaneamente.
-  s entre eu e ele - respondeu. - No  nada que devas saber; s demasiado jovem para entender certas coisas, Ruby. Se estivesse destinado que o grandpre Jack 
vivesse connosco... tudo teria sido diferente - insistiu ela, deixando-me to confusa e frustrada como antes.

A grandmre Catherine tinha tanta sabedoria e tanto poder! Por que motivo no podia ela arranjar uma soluo para voltarmos a ser novamente uma famlia? Porque  
que ela no podia perdoar ao grandpre e utilizar o poder que possua para o modificar, de forma a que ele pudesse viver de novo conosco? Porque  que no podamos 
ser uma verdadeira famlia?

Fosse o que fosse que o grandpre Jack dissesse a mim e a toda a gente, no importa o quanto ele jurasse, empolasse ou vociferasse, eu sabia que ele era apenas um 
homem solitrio que vivia no pntano sem ningum junto dele. Poucas pessoas o visitavam e a casa onde morava no passava de uma barraca, cujas estacas estavam a 
poucos centmetros do lodo; quando chovia, recolhia gua numa cisterna e para ter luz utilizava uma lanterna a gs. Como lenha para a lareira utilizava pedaos de 
tbuas e restos de madeira lanados  gua e , noite, costumava sentar-se nos degraus do alpendre e tocar msicas melanclicas no acordeo, bebendo o seu usque 
de m qualidade.
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No era verdadeiramente feliz, e o mesmo se passava com a grandmre Catherine. Ali amos as duas, de regresso da casa dos Rodrigues depois de ter expulsado um esprito 
maligno e ,no entanto, no ramos capazes de destruir os espritos nocivos que habitavam nas sombras do nosso lar. L no fundo, pensei que a grandmre era igual 
ao sapateiro que andava descalo: podia fazer mUito pelos outros, mas parecia incapaz de fazer o mesmo por si prpria.

Seria esse o destino de um traiteur? Seria esse o preo a pagar pelos seus poderes?

Teria eu um destino idntico: ajudar o prximo, sem poder valer a mim prpria?

O bayou era um mundo cheio de mistrios, em que a cada viagem se descobria algo mais surpreendente, um segredo at ento desconhecido. Mas eram os segredos dos nossos 
coraes aqueles que eu realmente desejava desvendar.

Pouco antes de chegarmos a casa, a grandmre Catherine anunciou:

-Est algum  nossa espera. - e acrescentou, com um ntido toque de censura: -  o rapaz dos Tate outra vez. Paul estava sentado nos degraus do alpendre a tocar 
gaita, tendo encostado a mota ao tronco de um cipreste. Assim que avistou a luz da nossa lanterna, parou de tocar e levantou-se ,para nos cumprimentar.

Paul tinha dezassete anos e era filho de Octavious Tate, um dos homens mais ricos do Houma. Os Tate possuam uma fbrica de enlatados de camaro e viviam numa manso, 
alm de terem barcos de recreio e automveis caros. Paul tinha duas irms: Jeanne, que era da minha turma na escola, e Toby, dois anos mais nova do que Paul. Eu 
conhecera Paul toda a minha vida, mas s recentemente passvamos mais tempo juntos. Sabia que isso desagradava aos pais dele, pois o pai de Paul tivera mais do que 
um desentendimento com o grandpre Jack e no gostava dos Landry.

- Est tudo bem, Ruby? - perguntou logo Paul, enquanto se aproximava. Vestia um plo azul-claro, e umas calas de caqui; usava umas botas de pele que atava justas 
 perna, por baixo das calas. Nessa noite, pareceu-me mais alto, mais robusto e at mesmo mais velho.

- Eu e a grandmre fomos visitar os Rodrigues. O beb de Mistress Rodrigues nasceu morto - expliquei eu.

- oh!, coitada... - exclamou Paul, suavemente. De todos os rapazes que eu conhecia da escola, Paul parecia ser o mais sincero e o mais maduro, embora fosse tambm 
dos mais tm-

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dos. Era igualmente um dos mais atraentes, com os olhos azul-celeste e o cabelo espesso cor de chatin, que  o termo cajun para um castanho-claro com laivos alourados.

- Boa noite, Mistress Landry - cumprimentou ele a grandmre.

Esta olhou-o com a mesma expresso desconfiada que tivera desde a primeira vez que Paul me acompanhara a casa depois da escola. Agora que ele aparecia mais vezes, 
a grandmre examinava-o ainda com maior intensidade, o que me deixava bastante embaraada. Paul parecia ficar algo divertido, mas tambm um pouco receoso. A maioria 
das pessoas acreditava nos poderes profticos e msticos da grandmre.

- Boa noite - respondeu ela, vagarosamente. - Hoje ainda vai chover - previu. - No devias andar a passear por a numa moto to frgil.

-Sim, senhora - anuiu Paul.

A grandmre Catherine voltou-se para olhar para mim. -Temos de acabar de tecer as mantas que hoje comemos - lembrou ela.

- Sim, grandmre, vou j para dentro.

Ela voltou a fixar o olhar em Paul e depois entrou em casa. -A tua av ficou muito triste por o beb dos Rodrigues ter morrido? - indagou ele.

- No foi para ajudar ao parto que a chamaram - respondi, explicando-lhe em seguida o motivo por que ela havia sido convOcada e aquilo que fizera. Paul ouviu com 
interesse e depois abanou a cabea.

-O meu pai no acredita em nada disso. Diz que as supersties e o folclore  que impedem os Cajuns de evoluir e fazem com que todos os considerem ignorantes; mas 
eu no concordo - acrescentou, rapidamente.

- A grandmre Catherine no  ignorante - respondi, sem disfarar a minha indignao. - Ignorante  quem no se protege dos espritos malignos e da m sorte.

Paul fez um sinal afirmativo com a cabea.
- Viste alguma coisa? - perguntou.

- Roou-me o rosto... - respondi, passando a mo pela face. - Tocou-me aqui; e depois acho que o vi sair.

Paul soltou um assobio fraco.

-Deves ter sido muito corajosa - exclamou.

- S porque estava ao p da grandmre Catherine - confessei.

- Gostava de ter podido chegar antes para te ter acompanhado... para ter a certeza de que nada de mal te acontecia acrescentou, fazendo-me corar com o seu desejo 
de proteco.
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- Estou bem, principalmente agora que j passou... - admiti. Ele riu.

Na luz fosca da varanda, a expresso do rosto dele tornava-se mais doce e o olhar mais quente. Nunca tnhamos feito algo mais a no ser dar as mos e trocar uma 
dzia de beijos, somente dois na boca, mas, quando o olhava assim to perto de mim, apenas a memria desses beijos fazia pulsar o meu corao. A brisa puxava gentilmente 
alguns fios do seu cabelo que lhe tombavam sobre a testa. Atrs da casa, a gua dos pntanos agitava-se contra a rocha e uma ave nocturna batia as asas por cima 
de ns, invisvel, no cu escuro.

- Fiquei triste quando cheguei e no estavas em casa... disse ele. - Estava quase a ir-me embora quando vi a luz da tua lanterna.

-Ainda bem que esperaste - exclamei, vendo o sorriso dele aumentar. - Mas no posso convidar-te para entrar, porque a grandmre quer acabar as mantas para as pr 
 venda amanh. Ela diz que vamos ter muito que fazer neste fim-de-semana e costuma acertar sempre. Agrandmre lembra-se dos fins-de-semana mais atarefados do ano 
passado. Ningum tem melhor memria para essas coisas - acrescentei.

- Amanh vou trabalhar o dia todo na fbrica, mas talvez possa vir buscar-te  noite para irmos beber um refresco  cidade - sugeriu Paul.

- Gostava muito - respondi vendo-o aproximar-se ainda mais de mim e fixar os seus olhos nos meus.

Ficmos com o olhar preso um no outro por alguns instantes, at que, por fim, ele arranjou coragem suficiente para dizer aquilo que realmente o tinha trazido ali.

-O que eu queria mesmo era poder levar-te aos fais dodo no prximo sbado  noite - declarou rapidamente.

Era a primeira vez que me faziam um convite a srio e s a ideia era suficiente para me animar. A maioria das raparigas da minha idade iria ao fais dodo com as respectivas 
famlias e danaria com rapazes que conhecia naquela ocasio, mas ser convidada e conduzida por Paul, s podendo danar toda a noite com ele... isso deixava-me a 
cabea  roda.

-Vou ter de pedir autorizao  grandmre Catherine respondi, acrescentando rapidamente: - Mas gostava muito de ir.
-  ptimo. Bem.--- - comeou ele, recuando em direco da moto. -  melhor eu ir andando antes que caia a tal chuva. Enquanto se ia afastando, os seus olhos continuavam 
fitos em MIM, o que o fez tropear numa raiz e cair sentado no cho. - Ests bem? - gritei, correndo para ele, que ria, embaraado.

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--- Estou...  parte ter o traseiro ensopado! - brincou ele. rindo. Estendeu-me a mo para que o ajudasse a levantar e quando o fez ficmos apenas a um palmo de 
distncia. Muito devagar, um milmetro por minuto, os nossos lbios foram-se unindo at por fim se encontrarem. Foi um beijo curto, mas mais firme e confiante do 
que os anteriores. Entretanto, tinha-me empoleirado em bicos de ps para poder alcan-lo e os meus seios roaram o peito dele. Esse inesperado contacto, aliado 
 electricidade que o nosso beijo libertara, provocou-me uma suave e agradvel onda de desejo.

- Ruby - murmurou ele, sem conter a emoo -, s a rapariga mais bonita e mais simptica de todo o bayou.

- oh!, no, Paul, no sou. No posso ser. H tantas outras raparigas mais bonitas que eu, que tm roupas caras e jias bonitas...

- No me interessa que tenham os maiores diamantes ou os melhores vestidos de Paris. Nada pode torn-las mais bonitas do que tu - deixou ele escapar. Eu sabia que 
ele nunca teria coragem de dizer tais coisas se no estivssemos no escuro e eu o pudesse ver em plena luz. Tinha a certeza de que ele devia ter corado.

- Ruby! -- gritou a grandmre da janela. - No quero passar a noite toda a tecer as mantas.

-Vou j, grandmre. Boa noite, Paul - disse eu, inclinando-me para lhe dar um leve beijo de boas-noites, deixando-o depois ali no escuro. Ainda ouvi o motor da moto 
a acelerar e depois afastar-se, enquanto eu corria a passos largos para o grenier a fim de ajudar a grandmre Catherine.

Durante alguns minutos ela no disse palavra e continuou a trabalhar, de olhos fitos no tear. Finalmente, voltou os olhos para mim e vincou os lbios da forma que 
sempre costumava fazer quando reflectia.

-- Ultimamente, o rapaz dos Tate tem vindo visitar-te muitas vezes, no tem?

-Tem sim, grandmre.

- e o que pensam os pais dele a esse respeito? - indagou, indo direita ao assunto, como sempre.

- No sei, grandmre - respondi, olhando para baixo. -Acho que sabes, Ruby.

- O Paul gosta de mim e eu gosto dele - acrescentei, rapidamente. - O que os pais dele acham no  importante.
- Ele cresceu muito neste ano, tornou-se um homem. e tu

j no s uma menina pequena, Ruby, cresceste tambm. Bem vi a maneira como vocs dois se olham. Conheo muito bem esse olhar e sei a que costuma conduzir - afirmou.

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- No vai conduzir a nada de mal. O Paul  o rapaz mais simptico da escola - insisti. A grandmre acenou com a cabea, mas manteve os olhos escuros fixos nos meus. 
- Pare de me fazer sentir mal, grandmre. No fiz nada de que tenha de se envergonhar-

-Ainda no - respondeu ela -, mas tu s uma Landry e esse sangue encontra sempre uma forma de corromper. Vi isso acontecer com a tua me e no quero ver o mesmo 
acontecer de novo contigo.

O meu queixo comeou a tremer.

- No digo isto para te magoar, filha.  para impedir que venhas a ser magoada - afirmou colocando a sua mo sobre a minha.

- Ser que no posso amar algum de uma forma pura e inocente, grandmre? Ou estou amaldioada por ter o sangue do grandpre Jack nas minhas veias? Ento e o teu? 
No me pode dar a sabedoria que eu preciso para no arranjar problemas? - indaguei. A grandmre abanou a cabea e sorriu.

- Parece que nem a mim me impediu de os arranjar. Acabei por casar e viver com ele... - explicou, suspirando. Mas talvez tenhas razo. Em algumas coisas, podes ser 
mais forte e mais ajuizada do que eu. Pelo menos s bem mais inteligente do que eu era na tua idade, e muito mais talentosa. Os teus;desenhos e as tuas Pinturas...
- no, grandmre, eu no...

- Es sim, Ruby. Tens talento. Vir o dia em que algum o descobrir e te oferecer muito dinheiro - profetizou ela. ,S no quero fazer nada que destrua a tua oportunidade 
de sair daqui, filha, e elevares-te acima do pntano e do bayou.

-Isto aqui  assim to mau, grandmre? -Para ti  ,filha.

- Mas porqu, grandmre?

- Porque sim -- respondeu ela, comeando a tecer novamente e deixando-me mais uma vez imersa num mar de mistrios.
- O Paul convidou-me para o acompanhar ao fais dodo, de

sbado a oito dias. Gostava muito de ir com ele, grandmre anunciei,

- Ele tem permisso dos pais? - perguntou ela de imediato.
- No sei, mas acho que o Paul pensa que ir ter. Podemos convid-lo para vir c jantar no domingo  noite, grandmre? Podemos?

- Nunca afastei ningum da minha mesa - respondeu a grandmre. - Mas no te convenas que vais a esse baile. Nein eu nem a famlia dos Tate queremos ver-te a sofrer.

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- oh!, mas eu no vou sofrer, grandmre! - exclamei, quase a cair da cadeira com tanta excitao. - Ento, o Paul pode vir c jantar?

-J disse que no o ponho na rua -- respondeu ela.
- Obrigada, grandmre, obrigada! -- Lancei os braos  volta dela, que se limitou a abanar a cabea.

- Se continuarmos assim no vamos dormir nada esta noite, Ruby - protestou, embora antes me tivesse dado um beijo.
- Minha querida Ruby, minha menina... a crescer assm to depressa,  melhor eu nem piscar os olhos, se no, transformas-te logo numa mulher e depois no te conheo 
- acrescentou. Abramo-nos novamente e regressei ento ao trabalho, com as mos movidas por uma nova energia e com o corao cheio de alegria, apesar das assustadoras 
advertncias da grandmere Catherine.
NO SO PERMITIDOS LANDRY)

Uma deliciosa mistura de aromas evolou-se da cozinha e chegou at ao meu quarto despertando-me do sono e fazendo o meu estmago gemer. Podia detectar o cheiro do 
caf cajun, forte e negro, que nesse instante devia estar a ser coado, bem como o aroma do gumbo de camaro com galinha, que a grandmre Catherime preparava no seu 
tacho preto de ferro fundido, e que se destinava a ser vendido l fora na banca. Sentei-me na cama e inalei todos aqueles deliciosos aromas.

O sol atravessava os ramos dos ciprestes e dos sicmoros que rodeavam a casa e era filtrado at  minha janela, lanando uma luz quente e forte no meu pequeno quarto, 
no qual apenas cabia uma cama pintada de branco, uma pequena mesa-de-cabeceira para ter onde colocar um candeeiro e um armrio grande para a minha roupa. Um coro 
de teceles iniciou a sua habitual sinfonia, chilreando e gorjeando, como se me incitassem a deixar a cama, lavar-me e vestir-me, para os poder acompanhar na celebrao 
de um novo dia.

Por muito que tentasse, nunca consegui antecipar-me  grandmre Catherine e ser a primeira a entrar na cozinha. Raramente tive a oportunidade de a surpreender com 
uma chvena de caf acabado de fazer, biscoitos quentes e ovos, pois era hbito seu levantar-se quando os primeiros raios de sol retiravam
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do cu o manto escuro. Os seus movimentos dentro de casa eram sempre to calmos e ordenados que nunca se ouviam nem no corredor nem nos degraus da escada, que geralmente 
rangiam ruidosamente todas as vezes que eu os pisava. Nas manhs de fim-de-semana, a grandmre Catherine levantava-se especialmente cedo para preparar todos os produtos 
que vendamos na tenda.

Arranjei-me depressa para ir ajud-la. -Porque  que no me acordou? - protestei.

, Se no te levantasses entretanto, acordava-te quando precisasse da tua ajuda, Ruby - respondeu, utilizando a mesma explicao de sempre. Mas eu bem sabia que a 
grandmre preferia trabalhar a dobrar do que retirar-me dos braos de Morfeu.

-Vou dobrar as mantas, para depois as levar l para fora.
- Primeiro deves tomar o pequeno-almoo. Temos muito tempo para levar as coisas l para fora pois os turistas s comeam a passar daqui a um bom bocado. Os nicos 
que se levantam a esta hora so os pescadores, e esses no esto interessados naquilo que temos para vender. V, senta-te aqui ordenou a grandmre Catherine.

A nossa mesa era modesta, feita das mesmas tbuas de madeira de cipreste com a qual a casa havia sido construda e as cadeiras talhadas. A nica pea de mobilirio 
de que a gramdmre se orgulhava era o armrio de carvalho feito pelo seu pai; todos os outros mveis eram do mais comum possvel, iguais a muitos outros que as famlias 
cajuns do bayou possuam.

-Hoje de manh, Mister Rodrigues trouxe esse cesto de ovos frescos - comunicou a grandmre Catherine, apontando para o cesto pousado no balco ao lado da janela. 
- Foi muito simptico ter-se lembrado de ns num perodo to difcil.

.A grandmre nunca esperava mais do que um simples agradecimento por todas as maravilhas que operava; nem sequer considerava o talento que possua como uma faculdade 
prpria, mas sim como uma caracterstica dos Cajuns, Pensava que havia sido colocada neste mundo para ajudar os mais necessitados, e a alegria de os poder auxiliar 
era recompensa mais do que suficiente para ela.

Entretanto, comeara a estrelar dois ovos para acompanhar os biscoitos.

-No te esqueas de pr hoje l fora os teus quadros novos. Gosto muito daquele da gara a sair da gua - comentou com um sorriso.

- Se a grandmre gosta desse desenho, ento eu no devia vend-lo. Devia oferec-lo a si.

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-Disparate, filha! Quero que todos possam ver as tuas pinturas, especialmente os turistas de Nova Orlees - declarou a grandmre, repetindo uma frase que eu j ouvira 
muitas vezes antes, sempre com a mesma firmeza.

- Porqu? Que importncia tem essa gente?

- H muitas galerias de arte em Nova Orlees e muitos artistas famosos tambm. Se um deles vir o teu trabalho, o teu nome ficar to conhecido que todos os crioulos' 
ricos vo querer ter um dos teus quadros em casa - explicou.

Eu abanei a cabea. Nem parecia vir da grandmre aquele desejo de que a fama e a notoriedade invadissem o nosso simples viver do bayou. Colocvamos os nossos produtos 
 venda nos fins-de-semana, porque isso representava o nosso sustento, mas eu sabia que a grandmre Catherine no se sentia  vontade com todos esses estranhos que 
ali apareciam apesar de alguns deles adorarem a sua comida e lhe tecerem imensos elogios. Havia algo mais, algum outro motivo que levava a grandmre Catherine a 
insistir que eu exibisse o meu trabalho, uma razo secreta.

O quadro da gara tambm tinha para mim um valor especial. Um dia,  luz do crepsculo, estava eu por detrs da nossa casa  beira do rio, quando vi um bicudo, uma 
gara nocturna, a emergir da gua de uma forma to repentina e inesperada que quase parecia que estava a sair das profundezas do rio. Levantou ento voo com as suas 
enormes asas escuras cor de prpura e pairou sobre os ciprestes. Senti que os movimentos da ave eram belos e poticos e mal pude esperar para captar algo dessa poesia 
e beleza numa pintura. Mais tarde, quando a grandmre Catherine viu pela primeira vez o quadro acabado, ficou por alguns instantes sem fala. Os seus olhos brilhavam, 
cheios de lgrimas, e a grandmre confessou ento que, de todas as aves do pntano, a gara-azul tinha sempre sido a preferida da minha me.

-  mais uma razo para o conservarmos - argumentara eu. No entanto, a grandmre Catherine discordara.

- Mais uma razo para esse quadro ir para Nova Orlees. Era como se, atravs dos meus trabalhos, ela desejasse mandar alguma mensagem misteriosa a algum de Nova 
Orlees.

Depois de ter terminado o pequeno-almoo, comecei a levar as mantas e os outros produtos que tentaramos vender naquele nome dado aos descendentes dos primeiros 
colonos franceses e espanhis do Sul dos Estados Unidos, que se orgulham da sua herana cultural e das suas razes. (N. da T)

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dia, enquanto a grandmre Catherine terminava de fazer o roux. Essa era uma das primeiras coisas que uma rapariga cajun aprendia a fazer. O roux e apenas uma mistura 
com farinha embebida em manteiga, leo ou gordura animal, cozinhada at atingir a cor castanha da noz, mas sem ficar negra. Depois de preparada, junta-se marisco, 
galinha, por vezes pato, ganso ou galinha-de-angola; para fazer o gumbo, mistura-se carne de caa com salsichas ou com ostras. Na quaresma, a grandmre Catherine 
fazia gumbo verde, que era apenas roux misturado com vegetais em vez de carne.

A grandmre Catherine tinha razo: comemos a receber turistas mais cedo do que era habitual. Chegaram tambm alguns amigos da grandmre e outros cajuns que, tendo 
ouvido a histria do couchemal, queriam que a grandmre lhes fizesse o relato. Alguns dos seus amigos mais antigos sentaram-se numa roda e relembraram outras histrias 
semelhantes que haviam ouvido a seus pais e avs.

Mesmo antes do meio-dia, vimos passar  frente de casa, no sem algum espanto, uma longa e elegante limusina prateada; avanou uns metros e de repente travou de 
forma brusca, recuando com rapidez at  nossa tenda, onde parou. A porta de trs abriu-se intempestivamente e vimos sair um homem alto, magro e moreno com o cabelo 
grisalho. Dentro da limusina, soavam as gargalhadas de uma mulher.

- Sossega - disse-lhe ele, voltando-se depois na minha direco com um sorriso nos lbios.

Uma atraente senhora loura, com os olhos muito pintados, as faces rosadas e imenso bton, espreitou atravs da porta aberta. Um longo colar de prolas baloiava 
no seu pescoo, e a blusa de seda rosa-vivo trazia a primeira srie de botes por abotoar, de forma que no pude deixar de notar os seus seios quase expostos.

-Despacha-te, Dominique. Gostava de ir jantar ao Arnaud's esta noite! - gritou ela, petulante.

- Calma. Temos muito tempo - respondeu o homem sem Olhar Para trs. Tinha toda a sua ateno dedicada s minhas pinturas. - Quem pintou isto? - quis saber.

-Fui eu, sir - respondi. Notava-se que a roupa que ele usava era cara: a camisa era feita de bom algodo, branco e macio, e o elegante fato cinzento-escuro revelava 
um bom corte. -A srio?

Acenei com a cabea e ele aproximou-se para pegar no quadro da gara. Afastou-o um pouco com os braos e fez um sinal afirmativo.

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- Tens instinto - afirmou. - Ainda bsico, mas j notvel. Tiveste lies?

- S algumas na escola mais aquilo que fui lendo nas revistas sobre pintura - respondi.

- Notvel!

- Domnique?...

- Acalma-te, sim? - Voltou a dedicar-me um sorriso que parecia dizer: "No lhe ds importncia" e depois observou mais dois quadros. Havia cinco a um preo especial. 
- Quanto  que ests a pedir pelos teus quadros! - indagou.

Olhei para a grandmre Catherine, sentada ao lado de Mrs. Thibodeau; a conversa de ambas fora interrompida pela chegada da limusina. A grandmre Catherine tinha 
uma expresso estranha no olhar; parecia examinar aquele estranho, rico, bem vestido e interessante, como se procurasse algo que indicasse ser ele mais do que um 
mero turista divertido com as atraces do local.

-Cinco dlares por cada um - esclareci.

- Cinco dlares! - riu ele. - Em primeiro lugar, no devias pedir a mesma quantia por cada pintura - declarou, acrescentando: - Este quadro da gara demorou com 
certeza muito mais tempo a ser pintado do que os outros, por isso  cinco vezes mais valioso - proferiu com toda a segurana, voltando-se para a grandmre Catherine 
e para Mrs. Thibodeau, como se estas fossem suas alunas. Em seguida, dirigiu-se de novo a mim. - Olha, repara neste pormenor: v a forma como conseguiste captar 
a gua e o movimento das asas da gara. - Semicerrou os olhos e comprimiu os lbios, enquanto observava de novo o quadro, acenando com a cabea, em sinal de aprovao.
- Dou-te cinquenta dlares pelos cinco como entrada inicial
- anunciou ele.

- Cinquenta dlares? Mas...

- O que quer dizer com entrada inicial? - indagou ento a grandmre Catherine, aproximando-se.

- Peo desculpa! - exclamou o cavalheiro. - Devia ter-me apresentado antes. O meu nome  Dominique LeGrand e sou dono de uma galeria de arte no Bairro Francs, chamada 
simplesmente Dominique's. Aqui tem - acrescentou, retirando do bolso das calas um carto-de-visita. A grandmre segurou o carto entre os seus dedos pequenos e 
observou-o.

- e essa... entrada inicial?

-Julgo poder vir a obter um preo bastante mais elevado por estes quadros. Normalmente, costumo levar para a minha galeria os trabalhos de um artista sem qualquer 
tipo de paga-
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mento, mas neste caso quero fazer alguma coisa que demonstre a minha admirao pelo trabalho desta jovem.  sua neta? inquiriu Dominique.

- - confirmou a grandmre Catherine. - Ruby Landry. D-me a certeza de que o nome dela ir ser divulgado em conjunto com os quadros? - perguntou ento, para grande 
surpresa minha.

-Claro que sim - concordou Dominique LeGrand, sorrindo. - J reparei que ela coloca as iniciais do nome num canto - acrescentou, dirigindo-se depois a mim -, mas 
de futuro, comea a escrever o teu nome completo - elucidou. Acredito que venha a ter um grande futuro, Mademoiselle Ruby.
- e ,pegando num mao de notas que tinha no bolso, retirou cinquenta dlares, que era mais do que at ento eu tinha feito com a venda de todos os meus quadros. 
Olhei para a grandmre Catherine, que me fez sinal para aceitar; obedeci.

- Dominique! - gritou de novo a mulher.

- Vou j, vou j. Philip... - chamou. Surgiu de imediato o motorista, que se apressou a colocar os meus quadros na mala da limusina. - Cuidado - advertiu ele, tomando 
depois nota da nossa morada. - Eu dou notcias - prometeu antes de entrar no carro.

Eu e a grandmre Catherine ficmos lado a lado vendo a limosina afastar-se e finalmente desaparecer depois da curva.
- Cinquenta dlares, av! - exclamei, acenando com o

mao de dlares. Mrs. Thibodeau mostrava-se muito impressionada, mas a minha av parecia mais pensativa do que contente, talvez at um pouco entristecida.

- J comeou - murmurou ento numa voz que no passava de um sussurro, com o olhar fixo na curva onde a limusina havia desaparecido.

- O qu, av?

-O futuro... o teu futuro, Ruby. Estes cinquenta dlares so apenas o incio. Tem cuidado e no digas nada ao teu av Jack, caso ele aqui aparea - instruiu depois, 
regressando para perto de Mrs. Thibodeau para continuar a discusso sobre os couchemal e outros espritos malignos que assombram os mais desprevenidos.

Contudo, eu no podia conter a minha emoo; senti-me terrivelmente impaciente durante o resto do dia, ansiosa que o tempo passasse depressa para que o Paul viesse 
buscar-me. Mal Podia esperar para lhe contar o sucedido e ria-me sozinha ao pensar que, nessa noite, podia ser eu e no o Paul a pagar os refrescos, apesar de saber 
muito bem que o orgulho dele o impediria de aceitar.

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O que conteve ainda um pouco a minha excitao foram as vendas que fizemos nesse dia: vendemos as mantas todas, os lenis, as toalhas, e a grandmre vendeu tambm 
meia dzia de frascos medicinais. At um sapo malhado conseguimos vender e comeu-se tanto gumbo que a grandmre teve de fazer mais para o nosso jantar. Quando o 
Sol finalmente desceu por entre as rvores, a grandmre deu o nosso dia de vendas por terminado, mas com tanta satisfao que at cantarolou ao cozinhar o jantar,

- Quero que a grandmre fique com o meu dinheiro comuniquei eu.

-Hoje vendemos bem. No preciso de aceitar o dinheiro dos teus quadros, Ruby. - e acrescentou, semicerrando os olhos: -- Mas d-mo a mim, que eu encarrego-me de 
o esconder. Sei que algum dia vais acabar por ter pena daquele vadio e dar-lhe grande parte dessa quantia, se no toda. Eu guardo-o no meu cesto. A, ele nunca se 
atreveria a procurar - declarou.

O cesto de madeira da grandmre era o objecto mais sagrado da casa; nem sequer necessitava de ser fechado. O av Jack nunca se atreveria a colocar as mos no cesto, 
por muito bbedo que ali entrasse. At eu no me aventurava a abrir o fecho do cesto e mexer naquilo que a grandmre ali guardava, pois eram os seus objectos pessoais 
mais preciosos, incluindo alguns que haviam pertencido  minha me quando ainda criana. A grandmre prometera-me j que algum dia tudo aquilo me pertenceria.

Aps termos jantado e arrumado a cozinha, a grandmre foi sentar-se na varanda na sua cadeira de baloio e eu sentei-me ao p dela nos degraus. A noite estava menos 
hmida e quente do que a anterior, correndo uma leve brisa. O cu estava pintalgado apenas por uma ou duas nuvens e por isso a luz branca e amarelada da Lua era 
mais do que suficiente para iluminar o bayou. No pntano, os ramos das rvores pareciam ossos e a gua parada brilhava como um espelho. Em noites como aquela, os 
sons atravessavam o bayou rpida e facilmente. Ouvamos distintamente as animadas melodias que Mr. Bute tocava no acordeo, acompanhadas do riso da mulher e dos 
filhos, reunidos na galeria  frente de casa. Em baixo,  esquerda, na direco da cidade, ecoou a buzina de um carro, enquanto que nas traseiras da casa os sapos 
grasnavam no pntano. Eu no tinha contado  grandmre que o Paul viria visitar-me, mas ela pressentia-o.

- Esta noite, parece que ests sentada em cima de brasas, Ruby. Ests  espera de algum?

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Antes que eu pudesse responder, ouviu-se o suave rosnado da moto de Paul.

- No precisas de responder - disse a grandmre. Minutos depois, vimos a fraca luz do farol e Paul aparecer  frente de casa.

- Boa noite, Mistress Landry - cumprimentou, acrescentando: - Ol, Ruby.

- Boa noite - respondeu a grandmre Catherine, observando-o atentamente.

-Esta noite est muito menos calor e humidade - comentou ele, ao que a av respondeu com um sinal afirmativo.
- Tiveste um bom dia? - perguntou-me.

- ptimo! Vendi os meus cinco quadros! - anunciei rapidamente.

-Vendeste todos? Mas isso  muito bom! Em vez de beber s os refrescos, vamos ter de comemorar com mais dois gelados. Se no se importar, Mistress Landry, eu gostava 
de levar a Ruby comigo at  cidade - acrescentou, dirigindo-se  grandmre Catherine. No pude deixar de reparar como o pedido de Paul a perturbou, arqueando as 
sobrancelhas e recostando-se na cadeira de baloio. A hesitao da grandmre fez Paul acrescentar: - No vamos demorar.

-No quero que ela v contigo naquela bicicleta com motor... - respondeu finalmente a grandmre, apontando para a moto de Paul, que desatou a rir.

- De qualquer maneira, preferia ir a p at  cidade. e tu, Ruby, no preferias?

- Sim. Posso ir, grandmre?

-  Julgo que sim. Mas no vs a nenhum outro stio seno  cidade e no fales com nenhum estranho - preveniu.

- Sim, grandmre.

- No se preocupe. Eu no deixo que nada de mal acontea  Ruby -- assegurou Paul  grandmre, que apesar disso no pareceu ficar nem um pouco menos ansiosa.

Eu e Paul inicimos ento a nossa caminhada at  cidade, com o caminho bem iluminado pelo luar. S quando nos afastmos bastante  que ele pegou na minha mo.

- A tua av preocupa-se muito contigo - comentou Paul.
- Ela j sofreu muito e j viveu algumas fases ms. Mas hoje o dia correu bem.

- Vendeste os teus quadros todos, o que  ptmo. -Eu no os vendi a ningum, foram para uma galeria de Nova Orlees - expliquei, relatando em seguida tudo o que 
nesse dia tinha acontecido e aquilo que Dominique le Grand havia dito.

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Durante alguns minutos, Paul no respondeu nada. Quando finalmente falou, tinha uma expresso invulgarmente triste.

-Um dia, sers uma artista famosa e vais-te embora do bayou. Com certeza irs viver numa grande casa em Nova Orlees - previu - ... e depois esqueces-te de todos 
os cajuns deste stio.

-oh!, Paul, como  que podes pensar semelhante coisa?  claro que eu gostava de vir a ser uma artista famosa, mas nunca viraria as costas  minha gente e Nunca seria 
capaz de te esquecer. Nunca! - insisti.

-A srio, Ruby?

Lancei o cabelo para trs do ombro e ,pousando a mo sobre o peito, fechei os olhos e afirmei:

- Juro por Santo Medad. Alm disso - continuei, abrindo os olhos -, se calhar s tu quem deixa o bayou mais cedo para ir estudar para algum colgio e conhecer raparigas 
ricas.

- No - protestou ele _. no quero conhecer outras raparigas. Tu s a nica que me interessa.

-  Dizes isso agora, Paul Mareus Tate, mas o tempo muda tudo. V o que aconteceu com os meus avs: eles j estiveram um dia apaixonados.

- Mas isso  diferente. O meu pai diz que ningum conseguiria viver com o teu av.

-A grandmre j viveu - respondi eu -, mas depois aconteceram mudanas que ela no esperava.

- Comigo nada vai mudar - afirmou ele, orgulhosamente, fazendo depois uma pausa e aproximando-se mais para voltar a pegar na minha mo. - J pediste autorizao 
 tua av para ir comigo ao fais dodo?

- J - disse eu, - Podes vir jantar connosco amanh  noite? Assim, ela podia conhecer-te melhor. Podes vir?

Ele ficou em silncio durante muito tempo. -Os teus pais no deixam - conclu.

- Eu vou - afirmou. - Os meus pais vo ter de se habituar  ideia de nos verem juntos - acrescentou, sorrindo. Ficmos a olhar-nos com determinao e insistncia, 
at ele se inclinar para nos beijarmos ao luar. Mas um automvel passou por ns e fez com que parssemos, caminhando mais apressadamente para a cidade e para o caf.

A rua estava mais movimentada do que o habitual nessa noite. Muitos dos pescadores de camaro locais tinham vindo com as famlias  festa do Rainha Cajun, um restaurante 
que anunciava um s preo por toda a quantidade de lagostim com batatas que se quisesse comer, acompanhado de um jarro de
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cerveja. De facto, existia uma atmosfera festiva, com o Trio Cajun Swamp a tocar acordeo e violino na esquina do Rainha Cajun. Havia muita gente a passear e outras 
pessoas sentadas nos bancos de madeira a observar o movimento. Alguns comiam beignets e bebiam canecas de caf, enquanto outros saboreavam isco do mar, que  camaro 
j seco, por vezes chamado amendom cajun.

Paul e eu dirigimo-nos ao caf e sentmo-nos ao balco para comer os gelados. Quando Paul contou ao dono do caf, Mr. Clements, o motivo da nossa comemorao, ele 
acrescentou camadas de creme e cerejas aos copos de gelado. No me lembrava de alguma vez ter provado um gelado to bom! Estvamos to animados que quase no ouvimos 
a agitao na rua, mas os outros clientes do caf correram para a porta para ver o que se passava e ns tambm fomos ver.

O meu corao quase parou quando percebi o que era: tinham expulso o grandpre Jack do Rainha Cajun; depois de ter sido trazido at  rua, recusava-se a descer os 
degraus do restaurante, erguendo o punho como sinal de protesto contra a injustia.,

-  melhor eu ir ver se consigo acalm-lo para o convencer a ir para casa - murmurei, correndo para o restaurante, com Paul atrs de mim. A multido de observadores 
tinha comeado a dispersar, j no muito interessada naquilo que um bbedo resmungava  porta de um restaurante. Puxei-lhe a manga da camisa.

- Grandpre, grandpre...

- H... quem        - resmungou ao virar-se, com um fio de usque a escorrer pelo canto da boca at  pele rugosa do queixo por barbear. Cambaleando, tentava focar 
a viso e perceber quem era. O seu cabelo, seco e spero, estava completamente despenteado e tinha fios espetados em todas as direces; a roupa que ele trazia estava 
manchada de lama e restos de comida. Inclinando-se mais, murmurou: - Gabrielle?

-No, grandpre, sou eu, a Ruby. Venha comigo, grandPre. Tem de voltar para casa. Venha - incitei. J no era a Primeira vez que o encontrava naquele estado de 
letargia alcolica e o forava a regressar a casa, tal como tambm no era a primeira vez que ele me fitava com os olhos turvos e me chamava pelo nome da minha me.

- H?... - Olhou para mim, depois para Paul e depois para mim novamente. - Ruby?

- Sim, grandpre. Tem de ir para casa dormir.

- Dormir.. dormir? Sim - respondeu, voltando as costas
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ao Rainha Cajun. - Esses fulanos no prestam... Aceitam o nosso dinheiro, mas quando dizemos o que pensamos... as coisas j no so como eram aqui... disso podes 
ter a certeza!... Certeza absoluta!...

- Venha, grandpre. - Segurei-lhe na mo e ele foi descendo os degraus, trpego e cambaleante. Ao ver que ele quase caa, Paul correu para lhe segurar o outro brao.

- O meu barco... - resmungava o grandpre - l na doca... - De repente, voltou-se e ergueu mais uma vez o punho para o Rainha Cajun. - Vocs no sabem nada. Ningum 
se lembra do pntano como ele era antes de essa maldita gente do petrleo vir para aqui... ouviram?...

-- Eles ouviram, grandpre, mas agora so horas de ir para casa.

-Para casa... no posso ir para casa... - murmurou. Ela no me deixa l entrar..

Olhei para Paul que me retribuiu o olhar, bastante aborrecido.
- Vamos, grandpre - voltei a insistir at ele se encaminhar aos tropees para a doca.

-Ele no vai ser capaz de conduzir o barco sozinho declarou ento Paul. - Talvez eu devesse lev-lo e tu seguias para casa, Ruby.

- No, eu tambm vou. Conheo melhor estes canais do que tu, Paul - respondi.

Ajudmos o grandpre a entrar no seu pequeno barco e formo-lo a sentar, mas ele caiu imediatamente do banco. Paul ajudou-o outra vez a sentar, colocou o motor 
em andamento e o barco afastou-se da doca, com algumas pessoas ainda a observar-nos, abanando a cabea em sinal de reprovao. Depressa a notcia chegaria aos ouvidos 
da grandmre Catherine, que, pensei eu, se limitaria a dizer que no estava nada surpreendida, meneando igualmente a cabea.

Poucos minutos depois de nos termos afastado da doca, o grandpre Jack j ressonava. Tentei acomod-lo um pouco melhor e enrolei um saco para lhe fazer de almofada. 
Ao coloc-lo debaixo da sua cabea, gemeu e resmungou algumas palavras sem sentido, mas logo de seguida voltou a adormecer e a ressonar novamente. Foi s ento que 
me juntei a Paul.

- Desculpa - pedi-lhe eu.
- De qu?

- Tenho a certeza de que amanh os teus pais vo saber disto e no vo gostar nada.

- No importa - assegurou ele. Mas eu lembrava-me bem de como os olhos da grandmre Catherne se tinham escureci-
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do ao perguntar-me o que os pais de Paul pensavam a nosso respeito. Decerto, a partir de agora passariam a ter um bom pretexto para convencer Paul a afastar-se dos 
Landry. e se comeassem a surgir letreiros por toda a parte a dizer: "No so permitidos Landry", tal como a grandmre Catherine havia contado que sucedera no passado? 
Talvez eu tivesse mesmo de escapar do bayou para encontrar algum que me amasse e fosse capaz de casar comigo. Talvez fosse esse o significado das palavras da grandmre 
Catherine.

O luar iluminava o caminho atravs dos canais, mas,  medida que nos fomos adentrando no pntano, as escuras camadas de musgo e os espessos ramos retorcidos dos 
ciprestes bloqueavam a luz brilhante, tornando o caminho mais difcil de navegar. Tivemos inclusivamente de abrandar para evitar os cepos. Quando o luar conseguia 
encontrar uma aberta por onde romper, iluminava as costas dos algatores, tornando-as brilhantes como prata. Um deles agitou a cauda e salpicou o barco, como que 
a chamar-nos intrusos. Mais adiante, vimos os olhos de um veado do pntano refulgirem com os raios de luar e depois o seu vulto desaparecer depressa na escurido.

Finalmente, avistmos a cabana do grandpre, cuja varanda estava cheia de redes para a pesca de ostras, tinha uma pilha de barba-de-velho, que ele juntara para vender 
aos fabricantes de moblias que a utilizavam para estofar sofs, a cadeira de baloio onde estava pousado o acordeo, garrafas vazias de cerveja, uma de usque ao 
lado da cadeira e um pote ressequido com restos de gumbo. No tecto da varanda estavam penduradas ratoeiras para os ratos-almiscarados e na balaustrada algumas peles 
de animais; no pequeno porto, estava atracada a canoa que o grandpre utilizava para recolher a barba-de-velho. Paul conduziu o barco para o lado da canoa e parou 
o motor, iniciando depois a rdua tarefa de levar o grandpre para fora do barco; este pouca ajuda nos deu, colocando-nos aos trs em risco de cair nas guas do 
pntano.

Fiquei surpreendida com a fora de Paul, que literalmente carregou o grandpre at  varanda e o colocou dentro de casa. Acendi ento um candeeiro a gs, mas fiquei 
imediatamente arrependida: havia roupas espalhadas por toda a parte e uma profuso de garrafas vazias de um usque de m qualidade. A cama estava por fazer, com 
o cobertor quase todo cado pelo cho; a mesa de jantar estava cheia de pratos e de copos sujos, de talheres manchados e de recipientes com restos. Pela expresso 
de Paul, era fcil perceber o quanto toda aquela confuso e falta de higiene o chocava.

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- Ficava melhor a dormir no meio do pntano - murmurou ele ento, enquanto eu ajeitava o cobertor para Paul poder deitar o grandpre. Comemos depois os dois a 
desapertar-lhe as botas.

- Posso fazer isto sozinho - afirmou Paul. Eu aproveitei para tirar os pratos e os recipientes da mesa e p-los no lava-loua, que descobri ento j estar cheio 
de outros pratos igualmente por lavar. Enquanto lavava a loia, Paul apanhava do cho as garrafas e as latas vazias.

- Est cada vez pior - desabafei eu, limpando os olhos humedecidos. Paul apertou-me suavemente o brao.

- Vou buscar gua limpa  cisterna - respondeu. Quando Paul saiu, o grandpre comeou a choramingar e eu limpei as mos e aproximei-me. Tinha os olhos fechados, 
mas resmungava qualquer coisa com a respirao entrecortada.

- No devias culpar-me... no devias... Ela estava apaixonada por ele, no estava? Diz l, diz! - pude perceber ento.
- Quem  que estava apaixonada, grandpre? - indaguei.
- V, diz-me, que diferena fazia?... Tens alguma coisa contra o dinheiro, tens? V... diz...

- Quem  que estava apaixonada, grandpre? Qual dinheiro? Mas ele gemeu apenas e deu uma volta na cama.

- O que foi? - perguntou Paul, regressando com a gua.
- Est a falar, mas aquilo que diz no faz sentido - respondi.

- Acredito!

- Acho que... tinha qualquer coisa a ver com o motivo da zanga entre ele e a grandmre Catherine.

- No creio que esse motivo seja muito difcil de adivinhar, Ruby. Olha  tua volta: v aquilo em que se transformou. Por que razo havia a tua av de querer continuar 
a viver com ele? - disse Paul.

- No, Paul. Tem de haver mais algum motivo. Quem me dera que ele mo contasse... - respondi, ajoelhando-me ao lado da cama. - Grandpre - chamei, abanando-lhe o 
ombro.

- Malditas companhias de petrleo! - resmungou o grandpre. - A drenar o pntano- matam  fome os ratos-almiscarados...

- Grandpre, quem  que estava apaixonada? Qual dinheiro?
- inquiri novamente. Ele articulou uns sons indefinidos e comeou a ressonar.

- No vale a pena falares com o teu av nesse estado, Ruby argumentou Paul.

Abanei a cabea.
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- Mas  das poucas vezes que ele poder dizer-me a verdade, Paul - afirmei, levantando-me sem tirar ainda os olhos do grandpre. - Nunca o grandpre ou a grandmre 
Catherine vo contar-me o que se passou.

Paul veio para perto de mim.

- Tentei arrumar aquilo l fora, mas eram precisos alguns dias para pr esta casa em ordem - comentou ele.

-Eu sei. Agora  melhor voltarmos. Vamos no barco dele at  minha casa e amanh o grandpre vai l busc-lo de canoa. -Amanh ele s vai pensar no tambor de metal 
que vai

martelar-lhe a cabea! - respondeu Paul. -  a nica coisa em que vai reparar, podes ter a certeza!

Deixmos ento a cabana e entrmos no barco, permanecendo quase todo o caminho em silncio. Estava sentada ao lado de Paul, que tinha o brao em volta dos meus ombros, 
com a cabea apoiada no peito dele. As corujas piavam quando passvamos, as cobras e os aligatores brilhavam debaixo da lama e os sapos grasnavam, mas o meu pensamento 
estava fixo nas palavras sem sentido do grandpre Jack. No ouvi nem vi nada, at sentir os lbios de Paul na minha testa. Tinha desligado entretanto o motor e dirigamo-nos 
j para terra.

- Ruby - sussurrou ele -,  to bom ter-te assim nos meus braos. Gostava de ficar sempre assim ou, pelo menos, poder abraar-te sempre que quisesse.

- Mas tu podes, Paul - respondi com suavidade, voltando a cabea para ele e permitindo que ele unisse os seus lbios aos meus. Trocmos um beijo suave, mas longo. 
Sentimos o barco tocar em terra e parar, mas nenhum de ns fez qualquer tentativa para se levantar. Em vez disso, Paul apertou-me ainda mais nos seus braos e deixou-se 
escorregar para mais perto, beijando-me as faces e acariciando-me as plpebras.

- Adormeo todas as noites a pensar nos teus beijos confessou ele.

-Eu tambm, Paul.

Com o brao esquerdo, comprimiu-me ligeiramente o seio, fazendo-me tremer e aguardar com antecipada excitao. Devagar, Paul foi movendo o brao at segurar com 
a mo em forma de concha o meu seio. Deslizou ento os dedos para desabotoar os primeiros botes da minha blusa e tocou o mamilo erecto que palpitava debaixo da 
fina blusa de algodo e do soutien. Eu queria que ele me tocasse, desejava-o de uma forma muito intensa- mas, apesar de todo esse desejo, mal ele me tocava, a descarga 
elctrica era imediatamente seguida por uma sensao glida de medo. No podia deixar de sentir profundamente o

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quanto desejava que ele avanasse, o quanto desejava ser tocada e beijada em stios to ntimos que apenas eu conhecia e tocava, e isso amedrontava-me. Apesar da 
gentileza de Paul e da forma carinhosa como expressava o amor profundo que sentia, o aviso dos escuros olhos da grandmre Catherine vinha-me constantemente  memria.

- Espera, Paul - acabei por dizer, relutantemente. - Estamos a ir demasiado depressa.

- Desculpa - pediu ele logo, afastando-se. - No tive inteno. S queria...

- No faz mal. Mas se no parasses agora, daqui a um ou dois minutos eu tambm j no conseguia pedir-te para parar e no sei o que acabaramos por fazer - expliquei.

Paul concordou e levantou-se imediatamente. Estendeu-me depois a mo e eu ajeitei a saia e a blusa, voltando a abotoar os dois primeiros botes. Ele ajudou-me ento 
a sair e puxou o barco para terra, para no ser arrastado quando a mar do golfo fizesse subir o nvel da gua do bayou. Segurando a mo de Paul, encaminhmo-nos 
finalmente para casa. Agrandmre Catherine estava acordada, pois ouvimos o barulho das panelas na cozinha; devia estar a preparar os bolos que iria levar para a 
igreja no dia seguinte.

- Desculpa ter estragado a nossa comemorao - disse eu, pensando quantas vezes mais teria de me desculpar pelo grandpre Jack.

- No perdia nem um instante desta noite - respondeu Paul, acrescentando: - S porque tu estavas comigo, Ruby.
- Amanh a tua famlia vai  igreja? - Ele respondeu que sim. - Continuas a querer c vir jantar amanh?

-Claro que sim.

Sorri e beijmo-nos uma vez mais antes de eu subir os degraus da varanda. Paul esperou que eu entrasse para depois se dirigir para a moto e arrancar. Assim que a 
grandmre Catherne se voltou para me cumprimentar, tive a certeza de que ela j sabia o que se havia passado nessa noite com o grandpre Jack. Um dos seus fiis 
amigos mal pudera esperar para ser o primeiro a contar-lhe a novidade, supus eu.

- Porque no deixaste a Polcia lev-lo para a priso?  a que ele merecia estar.. a fazer uma figura daquelas com a cidade cheia de famlias decentes e de crianas! 
- exclamou, meneando a cabea. - O que  que tu e o Paul fizeram com ele?

- Levmo-lo para a cabana, grandmre, e se visse como aquilo estava...

- No preciso de ver; sei bem como  uma pocilga - respondeu ela, voltando a preparar os bolos.

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- Quando ele me viu, chamou-me Gabrielle - contei eu. -No admira. Se calhar j nem se lembra do prprio nome...
- Ele disse algumas coisas na cabana.

- Sim? - A grandmre voltou-se ento para mim.

- Falou em algum que estava apaixonada... e que o dinheiro no fazia diferena. O que significa isso, grandmre? Mais uma vez ela voltou-me as costas. No gostei 
da forma

culpada com que me evitou quando tentei olh-la nos olhos. o meu corao pressentia que ela estava a esconder-me alguma coisa.

- Eu sei l desvendar o significado da quantidade de palermices que um bbedo fala!  mais fcil desmanchar uma teia de aranha sem a partir - respondeu.

- Quem  que estava apaixonada, grandmre? Ele referia-se  minha me?

A grandmre no respondeu.

- O grandpre perdeu dinheiro no jogo e esse dinheiro era seu? - prosseguiu.

- Pra de tentar descobrir aquilo que no faz sentido, Ruby. J  tarde, devias ir deitar-te. Amanh vamos  missa mais cedo e devo dizer-te que no fiquei nada 
satisfeita com a ajuda que tu e o Paul deram a esse homem. O pntano no  lugar para ti.  muito bonito visto  distncia, mas o diabo mora naquele,stio; tem mais 
perigos do que alguma vez imaginaste. Estou desapontada com o Paul por te ter levado para l - concluiu.

- No, grandmre, o Paul no queria que eu fosse. Ele quis ir levar o grandpre sozinho, mas eu no deixei.

- Mesmo assim, no devia ter concordado - respondeu ela, fitando-me com os olhos escuros, - No devias estar a perder tempo com um rapaz como esse. s demasiado 
jovem ainda.

- Tenho quinze anos, grandmre. H raparigas cajuns que com a minha idade j casaram e algumas at j tm filhos.
- Pois, mas isso no vai acontecer contigo. A tua vida vai

correr melhor, tu vais ser melhor! - argumentou, zangada.
- Sim, grandmre, desculpe, eu no quis dizer que...

- Est bem - concordou ela. - Assunto encerrado. No vamos acabar um dia especial a falar do teu grandpre. Vai dormir, Ruby, vai - ordenou. - Depois da igreja, 
ajudas-me a Preparar o jantar de domingo. Temos um convidado, no  ?indagou, cptica.

-Temos sim, grandmre. Ele aceitou.

Quando a deixei, tinha a cabea  roda. Odia tinha sido
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cheio de acontecimentos bons e maus. Talvez a grandmre Catherine estivesse realmente certa; talvez fosse melhor no tentar desvendar as coisas ocultas, pois estas 
mancham a gua limpa, destruindo a frescura e a clareza daquilo que  agradvel. Era melhor pensar apenas nos acontecimentos bons.

Era melhor pensar nos meus quadros pendurados na parede de uma galeria de Nova Orlees... recordar os lbios de Paul sobre os meus e a forma como o seu toque fazia 
o meu corpo vibrar... sonhar com um futuro ideal, comigo a pintar no atelier da nossa manso do bayou. Decerto, as coisas boas superam sempre as ms, pois, de outra 
forma, estaramos todos como o grandpre Jack, perdidos nos pntanos por culpa prpria, tentando no apenas apagar da memria o passado mas tambm o futuro.
GOSTAVA QUE FSSEMOS UMA FAMLIA

Pela manh, eu e a grandmre Catherine vestimos as nossas roupas de domingo e eu decidi apanhar o cabelo com uma fita encarnada. Samos depois para a igreja, a grandmre 
levando a caixa de biscoitos caseiros como presente para o padre Rush. A manh estava lmpida e uma fila de nuvens atravessava preguiosamente o cu azul-turquesa. 
Respirei fundo, inalando o ar morno temperado com a brisa salgada do golfo do Mxico. Era um daqueles dias em que a Natureza me fazia sentir viva e feliz, receptiva 
a cada beleza do bayou.

Assim que descemos os degraus do alpendre, chamou-me a ateno a cor viva e vermelha de um animal que voava de volta para a segurana do seu ninho. Caminhando pela 
estrada, reparei como os rannculos haviam desabrochado nas valas e na cor branca e leitosa das pequenas e delicadas flores de cenoura silvestre.

Nem a imagem da reserva de alimentos de um picano foi suficiente para me perturbar. Desde o incio da Primavera, at ao Vero e incios de Outono, tudo aquilo que 
capturava, como lagartos e cobras pequenas, ficava amontoado a secar nos espinhos dessas rvores. O grandpre Jack explicara-me que o picano s comia a carne curada 
durante os meses de Inverno.

"Os picanos so os nicos pssaros do bayou sem par", afirmara. "Ao menos, no tm nenhuma fmea para lhes dar
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cabo da pacincia", acrescentara antes de cuspir o lquido do tabaco e sorver de seguida um gole de usque. O que o faria to amargo? Indaguei outra vez, sem contudo 
me deter muito tempO nesse pensamento, pois a igreja apareceu na distncia, com a agulha forrada de madeira erguendo-se acima da congregao. Cada pedra, cada tijolo 
e cada trave do velho edifcio tinham sido ali cautelosamente colocados pelos Cajuns que habitavam o bayou h quase cento e cinquenta anos, e essa ideia dava-me 
uma noo de histria e de herana.

Assim que virmos a curva em direco  igreja, a grandmre Catherine endireitou as costas e espetou os ombros. Um grupo de pessoas "bem sucedidas" estava reunido 
num pequeno crculo a conversar em frente da igreja, mas, logo que nos avistaram, todos eles interromperam a conversa e olharam para ns com uma expresso de condenao 
comum a todos os rostos. Mas isso apenas contribuiu para que a grandmre Catherine levantasse ainda mais a cabea, erguendo-a orgulhosamente como uma bandeira.

- Tenho a certeza de que esto todos a comentar a figura triste do teu grandpre, ontem  noite - murmurou a grandmre Catherine -, mas no vou deixar que a minha 
reputao fique abalada por causa do comportamento idiota daquele homem.

e ,realmente, a forma como ela fitava aquele grupo transmitia exactamente essa deciso e todos se apressaram aliviados para dentro da igreja, ao aproximar-se a hora 
da missa. Vi os pais de Paul, Octavious e Gladys Tate no meio do aglomerado. Gladys Tate lanou um olhar na minha direco, to duro quanto uma pedra. Paul, que 
estivera a conversar com uns colegas da escola, descobriu-me finalmente, mas a me obrigou-o a entrar na igreja com eles e com a irm.

Os Tate, tal como outras famlias ricas cajuns, ocuparam os bancos da frente, de forma a que eu e Paul no tivssemos Oportunidade de trocar nem uma palavra sequer 
antes de a missa comear. Depois, quando os crentes formavam fila atrs do padre Rush, a grandmre ofereceu-lhe a caixa de biscoitos, que ele agradeceu com um sorriso 
recatado.

- Ouvi dizer que esteve novamente ocupada, Mistress Landry - comentou ele, alto e magro, com um leve toque crtico na voz -, a expulsar espritos durante a noite.

- Fao o meu dever - respondeu a grandmre com firmeza, comprimindo os lbios e fixando o olhar no do padre Rush.
- Desde que no se misture a orao e a igreja com a superstio... - avisou ele, sorrindo. - Mas eu nunca recuso
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ajuda numa batalha contra o diabo, quando essa ajuda parte de algum puro de corao.

- Fico feliz por saber isso - respondeu a grandmre, fazendo o padre Rush sorrir. No entanto, a sua ateno foi rapidamente desviada para os Tate e outros membros 
abastados da congregao que ofereciam elevadas contribuies para a igreja. Enquanto conversavam, Paul aproximou-se de mim e da grandmre e eu achei-o especialmente 
atraente e adulto, vestido com um fato escuro e com o cabelo muito bem penteado para trs. At a grandmre Catherine ficou impressionada.

- A que horas  o jantar, Mistress Landry? - perguntou Paul. Antes de responder, a grandmre lanou um olhar na direco dos pais de Paul.

- O jantar  s seis - respondeu finalmente, afastando-se de seguida para falar a uns amigos. Paul esperou que ela se afastasse o suficiente para no poder ouvir-nos.

--Hoje de manh todos comentaram o que aconteceu ontem com o teu av - informou ele.

- Eu e a grandmre apercebemo-nos disso quando chegmos. Os teus pais descobriram que tu me ajudaste a lev-lo para casa?

A expresso dele respondeu  pergunta.
- Desculpa ter-te causado problemas.

-No faz mal - respondeu rapidamente. - Expliquei-lhes tudo - acrescentou, sorrindo com alegria. Paul era o eterno optimista risonho, nunca atreito aos momentos 
de melancolia, dvida e abatimento que eu por vezes sentia.

- Paul - chamou ento a me dele, com o rosto fechado em desaprovao, a boca retorcida e cortada como por um golpe de faca e os olhos longos e felinos. Tinha uma 
postura to rgida que parecia que a qualquer momento se poderia desintegrar e afastar.

- Vou j - respondeu Paul.

A me dele inclinou-se e sussurrou alguma coisa ao ouvido do marido, que se voltou na minha direco, observando-me. Paul tinha herdado a boa aparncia do pai, que 
era um homem alto e interessante, sempre impecavelmente vestido e muito elegante. A sua boca revelava fora e os dentes eram perfeitos; tinha ainda o nariz recto 
e de tamanho certo, nem demasiado grande, nem demasiado estreito.

- Vamos j embora - reforou ento a me.

- Tenho de ir, vo l almoar uns parentes nossos. At logo - prometeu Paul, juntando-se aos pais.

Quando me aproximei da grandmre Catherine, ainda pude
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ouvi-la a convidar Mrs. Livaudis e Mrs. Thibodcau para irem tomar caf e comer torta de amora a nossa casa. Sabendo como elas caminhariam devagar, ofereci-me para 
ir preparando o caf e fui andando. Ao chegar a casa, no entanto, deparei com o grandpre na doca, atando a canoa  parte de trs do barco.

-Bom dia, grandpre - chamei ento. Ele olhou lentamente para cima, vendo-me aproximar.

Reparei que ele tinha os olhos semicerrados e as plpebras pesadas, alm de ter o cabelo despenteado com madeixas que esvoaavam descontroladas para os ombros. A 
previso de Paul quanto ao tambor de lata que lhe martelaria na cabea devia estar a suceder nesse momento, imaginei eu. O grandpre estava rabugento e cansado; 
no tinha mudado de roupa e dormira mergulhado no odor cido do usque da noite anterior. A grandmre Catherine costumava dizer que o melhor que podia acontecer-lhe 
era cair ao pntano, pois "ao menos assim tomava um banho".

- Foste tu que me levaste para a cabana ontem  noite? perguntou logo.

-Fui, grandpre. Eu e o Paul.
- Paul? Quem  o Paul?

- O Paul Tate, grandpre.

- Ah, o filho de um homem rico, h? Essa gente das fbricas no  melhor do que os do petrleo. Dragam o pntano s para terem espao para as botas grandes que usam... 
No devias andar com essa gente. S querem uma coisa de ti... - avisou ele.

-  O Paul  muito simptico -- respondi secamente. O grandpre resmungou e continuou a atar o n do barco.
- Vieste da igreja, foi? - indagou, sem desviar o olhar.
- Vim.

Ele fez ento uma pausa e olhou para a estrada.

- A tua grandmre deve estar ainda a conversar com essas outras ociosas...  por isso que vo  igreja - declarou -, para alimentar os mexericos.

-A missa foi muito bonita, grandpre. Porque  que nunca vai  igreja?

- Isto aqui  que  a minha igreja     declarou, estendendo os seus longos dedos para o pntano.      Aqui no h nenhum padre para me dar sermes e me condenar.. 
ameaando-me com o inferno! - Pulou para dentro do barco.

- Quer uma chvena de caf acabado de fazer, grandpre? Vou agora preparar um, porque a grandmre convidou umas amigas para vir comer torta de amora 

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-Diabos me levem! se me vissem, essas mulheres eram capazes de me matar!... - Olhou nesse instante para mim e mostrou um olhar menos agressivo. - Ficas bem com esse 
vestido - elogiou. - s to bonita como a tua me.

- Obrigada, grandpre.

- Aposto que foste tu que limpaste a minha cabana, no foste? - Fiz um sinal afirmativo. - Bem, ento, obrigado. Pegou na corda para a puxar e pr o motor a trabalhar.
- Grandpre - pronunciei, aproximando-me -, ontem 

noite, quando o levmos a casa, o grandpre falou de algum... de uma mulher que estava apaixonada e de um dinheiro qualquer...

Ele parou o que estava a fazer e fitou-me com um olhar duro e empedernido.

- e que mais eu disse?

- Nada. Mas o que quis o grandpre dizer com aquilo? Quem  que estava apaixonada?

Ele encolheu os ombros.

- Se calhar, foi uma das histrias que ouvi o meu pai contar acerca do pai e do grandpre dele. A nossa famlia ainda vem dos jogadores que apostavam barcos, sabes? 
- comentou com orgulho. - J correu muito dinheiro por entre os dedos dos Landry - afirmou, mostrando as mos sujas de lama. No rio, todos eles tinham fama de romnticos, 
e muitas mulheres se apaixonavam por eles. Estabeleceram-se aqui e iam at Nova Orlees.

-Foi por isso que o grandpre perdeu tanto dinheiro no jogo? A grandmre diz que est no sangue dos Landry - afirmei.

- Bem, e quanto a isso no est errada. Eu  que no sou to bom jogador como alguns dos meus antepassados. - Inclinando-se, exibiu um sorriso que mostrava bem os 
buracos escuros dos dentes que ele mesmo havia arrancado, quando as dores haviam sido demasiado intensas para as poder suportar. - O meu tetrav, Gib Landry, era 
um jogador certeiro... Sabes o que isso significa? - Abanei a cabea. - Um jogador que nunca perde, porque tem as cartas viciadas! - explicou, rindo. - Chamam-lhes 
"ferramentas de vantagem". Bem., l vantagem no h dvida que tm! - Riu novamente.

- O que aconteceu com ele, grandpre?

-Foi morto a tiro no Rainha do Delta. Quando se vive uma vida intensa e perigosa, nunca se deixa de arriscar - afirmou, puxando a corda e fazendo o motor estalar. 
- Um dia, quando tiver tempo, conto-te mais acerca dos teus antepassa-
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dos. Apesar do que ela te diz - acrescentou, apontando para a casa - devias conhecer mais acerca deles. - Puxou outra vez a corda e ,desta vez, o motor pegou e comeou 
a trabalhar. Tenho de ir; vou apanhar ostras.

- Gostava que pudesse vir jantar c a casa esta noite e conhecer o Paul - disse eu ento. Mas o que quis realmente dizer  que gostava que fssemos uma famlia.

- O que queres dizer?... Conhecer o Paul? A tua grandmre convidou-o para jantar? - perguntou, cptico.

-Eu  que o convidei, mas a grandmre deixou.

Ele fitou-me durante um largo instante e depois voltou a dar ateno ao motor.

- No tenho tempo para visitas. Tenho de trabalhar.

A grandmre Catherine e as amigas apareceram entretanto na estrada atrs de ns. Vi o olhar do grandpre deter-se nelas por alguns minutos para depois se sentar 
rapidamente.

- Grandpre - gritei, mas ele acelerara o motor e voltara o barco, afastando-o dali to depressa quanto possvel na direco de um dos muitos canais salobros e pouco 
profundos espalhados ao longo dos pntanos. Nem por uma vez olhou para trs. Passados alguns minutos, a sua imagem era engolida pelo pntano e a nica marca que 
deixara era ainda o rudo do motor a ecoar por entre os canais.

- O que queria ele? - inquiriu a grandmre Catherine. -Veio s buscar o barco.

Manteve os olhos fitos no sulco que o barco do grandpre abrira na gua, como se esperasse que ele voltasse a aparecer. Lanou ento um dos seus olhares profundos 
e penetrantes para o pntano, semicerrando depois os olhos, como se incitasse o pntano a engolir para sempre o grandpre. Depressa o som do motor deixou de se ouvir 
e a grandmre Catherine dirigiu-se ento s suas duas amigas com um sorriso nos lbios. Retomaram rapidamente a conversa e entraram em casa, mas eu - ainda fiquei 
mais algum tempo, perguntando a mim prpria como poderiam aquelas duas pessoas ter estado um dia apaixonadas o suficiente para casar e ter uma filha. Como  que 
o amor, ou aquilo que se pensa ser amor, pode cegar tanto uma Pessoa s fraquezas de outra?

Mais tarde nesse dia, depois de as amigas da grandmre Catherine terem sado, ajudei-a a fazer o jantar. Tinha vontade de lhe perguntar mais acerca do grandpre 
Jack, mas geralmente essas perguntas deixavam-na de mau humor e por isso resolvi no arriscar, uma vez que o Paul vinha jantar connosco.

-No vamos fazer nenhum jantar especial para esse rapaz
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da famlia Tate, Ruby -- disse-me a grandmre. - Espero que no lhe tenhas dado essa impresso.

- Ah, no, grandmre. Alm disso, o Paul no  nada desse gnero, ningum diria que pertence a uma famlia rica.  muito diferente da me e do resto dos irmos. 
Na escola, todos os acham convencidos, mas a ele no.

-- Talvez tenhas razo, mas tu no vives da mesma maneira que os Tate, e por isso no deves esperar que determinadas coisas aconteam. Faz parte da natureza humana. 
Quanto mais elevada for a ideia que fazes dele, Ruby, maior ser a desiluso avisou ela.

-No tenho medo que isso acontea, grandmre - afirmei eu com tanta certeza que ela se deteve para olhar para mm.

-At agora tens sido uma boa rapariga, no tens, Ruby? -Tenho sim, grandmre.

- Ento nunca te esqueas daquilo que aconteceu com a tua me - advertiu ela.

Por alguns instantes, receei que a grandmre Catherine fizesse pairar pela casa aquele clima de terror at  noite, mas apesar de afirmar que no prepararia nada 
de especial, havia poucas coisas que davam mais prazer  grandmre Catherine do que cozinhar para algum que ela sabia ser capaz de apreciar. Assim, resolveu preparar 
um prato cajun tpico: jambalaya. Enquanto eu a ajudava no prato principal, a grandmre ia fazendo tambm uma tarte de natas.

--- A minha me tambm era boa cozinheira, grandmre? perguntei eu.

- Ah, sim - respondeu, sorrindo com as recordaes. Ningum seguia receitas to bem e to rapidamente quanto a tua me. Antes dos nove anos, j fazia guinbo e ,aos 
doze, ningum fazia uma jambalaya to saborosa como ela.

"Quando o teu av Jack ainda era parecido com um ser humano - continuou -, costumava levar a Gabrielle a passear e mostrava-lhe todos os alimentos comestveis do 
pntano. Ela aprendia depressa, e sabes o que dizem de ns, os Cajuns? acrescentou a grandmre. - Comemos tudo o que no nos coma primeiro.

Ela riu e depois entoou uma das suas melodias preferidas. Aos domingos, costumvamos dar  casa uma limpeza geral, mas, nesse domingo em especial, trabalhei com 
muito mais energia e afinco, lavando as janelas at cada sombra de sujidade desaparecer dos vidros, esfregando o cho at o tornar brilhante e limpando o p e polindo 
cada objecto que me aparecia  frente.

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-At parece que estamos  espera do rei de Frana! brincou a grandmre, acrescentando: - J te avisei, Ruby: no deixes que esse rapaz espere mais de ti do que aquilo 
que podes dar-lhe.

- No, grandmre - afirmei. No entanto, no fundo do corao, esperava que Paul ficasse muito impressionado e nos tecesse muitos elogios quando estivesse com os pais, 
para que estes desistissem de se opor ao desejo do filho em me tornar sua namorada.

Ao fim da tarde, a nossa pequena casa brilhava de arrumao e limpeza, cheia de deliciosos aromas. Quando o ponteiro do relgio se aproximou das seis, senti a minha 
excitao aumentar. Na esperana de que Paul chegasse mais cedo, sentei-me l fora e esperei a hora que antecedia a sua chegada com os olhos postos na estrada de 
onde ele surgiria. A mesa estava posta e eu tinha escolhido o meu melhor vestido, aquele que a grandmre Catherine tinha feito com as suas prprias mos. Era todo 
branco, tinha uma bainha larga em renda e um encaixe na frente tambm rendado; as mangas de renda em forma de sino chegavam-me aos cotovelos e  volta da cintura 
atara uma faixa azul.

- Ainda bem que deixei esse corpete largo -- exclamou a grandmre assim que me viu. - Como o teu peito desabrochou! Vira-te - mandou, alisando com a mo a parte 
de trs da saia. - Tenho de reconhecer que ests a tornar-te uma linda rapariga, Ruby. Ainda mais bonita do que a tua me na tua idade.

-  Espero chegar  sua idade to bonita como a grandmre respondi. Ela abanou a cabea, mas sorriu.

-Vai l, vai. Se eu for, sou capaz de assustar at um falco do pntano, quanto mais um rapaz! - comentou, rindo. e pela primeira vez a grandmre Catherine conversou 
comigo acerca dos seus antigos namorados e dos bailes defais dodo a que tinha ido com a minha idade.

Quando o relgio tocou as seis, levantei os olhos antecipando a chegada de Paul e esperando ouvir a cada instante o roncar do motor; mas nem ele aparecia, nem o 
motor se fazia ouvir. Depois de algum tempo, a grandmre Catherine veio  Porta para espreitar tambm. Lanou-me um olhar entristecido e voltou em seguida para a 
cozinha para ultimar o jantar. Dentro do peito, sentia o corao disparado. Entretanto, a brisa transformou-se em vento e todas as rvores agitavam os ramos. Onde 
estaria ele? Cerca das sete, a minha preocupao aumentara e ,quando a grandmre Catherine apareceu novamente 

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porta, a expresso do seu rosto revelava j uma aceitao definitiva.

- O Paul no costuma chegar atrasado - comecei. - Espero que no lhe tenha acontecido nada,

A grandmre Catherine no respondeu; nem precisava de o fazer, pois os seus olhos diziam tudo.

-  melhor entrares e vires jantar, Ruby. J que fizemos a comida, vamos sabore-la de qualquer maneira.

- Mas ele deve estar mesmo a chegar, grandmre, tenho a certeza! Deve ter acontecido alguma coisa de inesperado justifiquei. - Deixe-me esperar smais um pouco - 
implorei. A grandmre retirou-se, mas s sete e quinze voltou a aparecer  porta.

- No podemos esperar mais - declarou.

Desolada, sem qualquer resto de apetite, levantei-me e entrei em casa. A grandmre Catherine no abriu a boca, limitando-se a servir os pratos e depois a sentar-se.

- Ficou melhor do que nunca - declarou, inclinando-se para mim e acrescentando: - Mesmo que tenha de ser eu a diz-lo.

- Oh, est ptimo, grandmre. Estou s... preocupada com ele.

-  Ento, preocupa-te com o estmago cheio - ordenou, enquanto eu me esforava para comer. Mas, apesar de todo o meu desapontamento, era impossvel no apreciar 
a tarte de natas da grandmre Catherine. Ajudei-a depois a levantar a mesa e s ento voltei l para fora e me sentei de novo no alpendre, esperando, observando 
e imaginando o que teria acontecido para estragar uma noite que poderia ter sido perfeita. Quase uma hora depois, ouvi o roncar do motor de Paul e vi-o aproximar-se 
na estrada to depressa quanto a moto permitia. Encostou-a logo depois, saindo precipitadamente e correndo para casa. -O que  que te aconteceu? - grtei, de p.

- oh!, Ruby, desculpa. Os meus pais... proibiram-me de vir. O meu pai mandou-me para o quarto quando me recusei a jantar com eles, mas depois consegui escapar pela 
janela e vir de qualquer maneira. Quero pedir desculpa  tua av.

Deixei-me cair nos degraus do alpendre.

- Por que razo te proibiram eles de vir? - perguntei. Por causa do meu av e daquilo que sucedeu ontem  noite na cidade?

- Por causa disso... e de outras coisas mais, Mas eu no me importo que eles fiquem zangados comigo - declarou, subindo uns degraus e sentando-se a meu lado. - Esto 
a ser estpidos e muito snobes...

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Fiz um sinal afirmativo.

-A grandmre preveniu-me que isto ia acontecer.. Ela j sabia.

-No vou deixar que eles me afastem de ti, Ruby. No tm esse direito, eles...

- So teus pais, Paul. e deves-lhes obedincia.  melhor ires para casa - afirmei secamente. Sentia o corao pesado como uma bola de lama espessa do rio. Era como 
se o destino cruel tivesse lanado um lenol de tristeza e negrume sobre o bayou e ,tal como tantas vezes a grandmre Catherine afirmara, o destino era um ceifador 
impiedoso, jamais gentil, e com pouco respeito por aqueles que sentiam amor e afeio.

Paul abanou a cabea. Os anos parecia terem fugido dele, sentado nos degraus do alpendre, to vulnervel e indefeso como uma criana com seis ou sete anos, sem compreender 
muito mais do que eu.

- No vou desistir de ti, Ruby. No vou - insistiu. - Podem ameaar tirar-me tudo quanto me deram, mas, mesmo assim, eu no lhes obedeo.

- Assim s vo odiar-me ainda mais, Paul - conclu. -No importa. A nica coisa que tem importncia  que gostamos um do outro. Por favor, Ruby - pediu, pegando-me 
na mo -, diz que tenho razo.

- Gostava de poder dizer, Paul - afirmei, de olhos postos no cho -, mas tenho medo.

-No tenhas - respondeu, segurando-me a cabea e inclinando-a para ele. - No vou deixar que nada de mal te acontea.

Contemplei-o ento com os olhos tristonhos muito-abertos. Como poderia explicar-lhe? A minha preocupao no era a meu respeito; estava preocupada com ele por causa 
de tudo quanto a grandmre Catherne sempre me ensinara: que desafiar o destino trazia a desgraa queles que amvamos e que desafi-lo era to intil quanto tentar 
deter a mar.

-Est bem? - prosseguiu Paul. - Est?
- Oh, Paul...

- Est decidido. Agora - disse, levantando-se -, vou pedir desculpa  tua av.

Fiquei sentada  espera dele, que regressou aps alguns minutos.

- Parece que perdi um verdadeiro banquete. Fico to irritado! - afirmou, de olhos postos na estrada, com um olhar de fria to intenso como o do grandpre Jack. 
Mas eu no me Sentia bem por ele odiar os pais; pelo menos, ele tinha pais, ti-

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nha um lar, uma famlia, e no devia colocar tudo isso em risco s por minha causa, pensei. - Os meus pais no tm razo -declarou ele firmemente.

- Esto s a tentar fazer aquilo que lhes parece ser o melhor para ti, Paul - respondi.

-Mas tu s o melhor para mim, Ruby - retorquiu de imediato -, eles vo ter de aceitar isso. - Os olhos azuis de Paul brilharam com a intensidade da sua determinao. 
Bem, agora  melhor eu voltar para casa - afirmou. - Mais uma vez, desculpa ter estragado o teu jantar, Ruby.

- Acabou-se, Paul - afirmei, enquanto me punha de p. Fitmo-nos durante um longo instante. O que receavam os Tate que acontecesse se Paul me amasse? Acreditariam 
eles que o meu sangue Landry o pudesse corromper ou ser que desejavam apenas que ele conhecesse raparigas de outras famlias ricas? Ele segurou na minha mo.

- Juro - comeou - que no vou deixar que eles voltem a magoar-te.

-No discutas com os teus pais, Paul, por favor - pedi. -No sou eu que discuto com eles, eles  que discutem comigo - respondeu. - Boa noite - despediu-se, inclinando-se 
para me dar um beijo rpido nos lbios. Depois dirigiu-se  moto e desapareceu na noite escura. Quando me voltei, deparei com a grandmre Catherine de p na entrada.

-  um bom rapaz - afirmou ela -, mas no se pode afastar um homem cajun da me e do pai. No entregues o teu corao, Ruby. H coisas que simplesmente no esto 
destinadas a acontecer - concluiu, retirando-se em seguida.

Deixei-me ali ficar, sentindo as lgrimas correr pelo rosto. Pela primeira vez, fui capaz de entender o grandpre Jack, que vivia no pntano, isolado de todos.

Apesar do que sucedera no domingo, ainda alimentava esperanas de ir ao fais dodo na noite do sbado seguinte. Todavia, sempre que tocava no assunto com a grandmre, 
ela respondia apenas: "Depois se v." Na noite de sexta-feira, voltei a pression-la.

- O Paul precisa de saber se pode vir buscar-me, grandmre. No  justo deix-lo assim na dvida, a baloiar como um isco no anzol - afirmei. Era uma frase tpica 
do grandpre Jack, mas eu utilizei-a porque estava frustrada e ansiosa de mais para deixar escapar aquela oportunidade.

- S no quero que voltes a sofrer outra desiluso, Ruby dizia a grandmre. - Os pais dele no vo permitir que ele te leve e se o Paul os desafiar vo ficar furiosos 
da mesma forma. At comigo vo ficar aborrecidos.

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- Porqu, grandmre? Por que motivo a vo culpar?

- Porque vo - respondeu apenas -, todos me culpariam. Eu mesma te levo ao fais dodo - acrescentou. - Mistress Bourdeaux tambm vai e assim podemos ficar as duas 
a ver os mais novos danar. Alm disso, j h um tempo que no ouo boa msica cajun.

- oh, grandmre - gemi -, as raparigas da minha idade vo todas acompanhadas de rapazes... H algumas que j tm par h mais de um ano s para essa noite. No  
justo! Tenho quinze anos, j no sou nenhum beb.

-No disse que eras, Ruby, mas...

- Mas trata-me como se fosse - queixei-me, correndo para o meu quarto para me atirar sobre a cama.

Talvez estivesse melhor se no vivesse com uma av que sabia fazer curas espirituais e era capaz de detectar espritos malignos e outros perigos em cada sombra escura, 
sempre a rezar e a acender velas, colocando imagens  entrada da casa das pessoas. Talvez os Tate pensassem que ramos apenas uma famlia louca, e por esse motivo 
afastassem o filho de mim.

Porque tinha a minha me morrido to nova e porque me tinha abandonado o meu pai verdadeiro? Tinha um av que vivia como um animal no meio do pntano e uma av que 
julgava que eu era ainda uma criana pequena. Subitamente, a minha tristeza foi invadida por um sentimento de revolta. Ali estava eu, com quinze anos, vendo outras 
raparigas da minha idade muito menos bonitas a aceitar convites de rapazes, enquanto eu tinha de me conformar a acompanhar a minha grandmre ao fais dodo. Nunca 
sentira tanta vontade de fugir como nesse momento.

Ouvi a grandmre subir as escadas, com os passos bem mais pesados do que era habitual. Bateu suavemente  porta e espreitou; no me mexi.

- Ruby - comeou -, estou s a tentar proteger-te.

- No quero ser protegida - declarei. - Sei proteger-me sozinha. No sou nenhum beb - insisti.

- No  preciso ser um beb para necessitar de proteco replicou ela com a voz cansada. - Quantos homens feitos e valentes no choram pelas mes!

- Mas eu no tenho me! - gritei, arrependendo-me logo depois de ter pronunciado aquelas palavras.

Os olhos da grandmre entristeceram e os seus ombros descaram, parecendo-me, de repente, muito idosa. Pousou a mo no peito, respirou fundo e ,abanando a cabea, 
respondeu:

- Eu sei, filha.  por isso que eu me esforo tanto por agir
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correctamente contigo. Sei que no posso ser a tua me, mas posso tomar certas atitudes que uma me tomaria por um filho. No  suficiente, nem nunca ser, mas...

- Eu no quis dizer que a grandmre no fazia o suficiente por mim. Desculpe,  s porque gostava muito de poder ir ao baile com o Paul. Gostava de ser tratada como 
uma rapariga e j no como uma criana. A grandmre tambm no queria o mesmo, quando tinha a minha idade? - indaguei. Ela fitou-me demoradamente e suspirou.

- Est bem - acabou por dizer. - Se o rapaz dos Tate te leva, podes ir com ele, mas tens de me prometer que a seguir ao baile voltas logo para casa.

- Prometo, grandmre, prometo. Obrigada! Ela abanou a cabea.

- Quando se  novo - comeou -, no se gosta de enfrentar aquilo que  foroso que acontea. Ajuventude d a fora necessria para desafiar, mas nem sempre o desafio 
conduz  vitria, Ruby. Na maior parte dos casos, conduz antes  derrota. Quando te vires frente a frente com o destino, no o desafies para uma luta, porque  isso 
que ele quer. Aluta d-lhe nimo e ele tem um apetite incontrolvel pelas almas teimosas e insensatas.

-No compreendo, grandmre - confessei.

-Mas um dia compreenders - afirmou, naquele tom proftico que lhe era habitual. - Um dia compreenders. Em seguida, endireitou-se e suspirou novamente. - Se calhar, 
 melhor ir engomar o teu vestido - concluiu.

Limpei as lgrimas do rosto e sorri.

-Obrigada, grandmre, mas eu posso fazer isso. -No, eu engomo-o. Gosto de me manter ocupada - respondeu, saindo logo, com a cabea mais baixa do que era habitual.

Gastei todo o dia de sbado a pensar como deveria levar o cabelo. Deveria pente-lo para trs e at-lo com uma fita... ou lev-lo apanhado no alto da cabea? Por 
fim, acabei por pedir  grandmre que me ajudasse a apanhar o cabelo.

- Tens uma cara to bonita - elogiou ento a grandmre Catherine. - Devias apanhar mais vezes o cabelo. Assim vais ter uma srie de bons pretendentes! - acrescentou, 
mais para seu contentamento do que para me agradar, pensei. - Por isso,  bom que te lembres que no deves entregar demasiado depressa o teu corao. - Segurou a 
minha mo entre as suas e fixou os seus olhos nos meus com uma expresso de tristeza e de cansao. - Prometes?

- Sim, grandmre. Grandmre... - repeti. - Sente-se bem" Esteve todo o dia cansada.

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- S tenho aquela velha dor nas costas e o corao acelerado de vez em quando. Nada de novo - afirmou.

-Gostava que no tivesse de trabalhar tanto, grandmre. Ograndpre Jack devia fazer mais por ns em vez de andar por a a beber e a desperdiar dinheiro no jogo 
- desabafei.

-Nem por ele prprio pode fazer alguma coisa, quanto mais por ns!... Alm disso, no quero nada que venha das suas mos; o dinheiro dele  sujo - declarou com firmeza.

-Porque  que o dinheiro do grandpre  mais sujo do que o de outro qualquer caador do bayou, grandmre?

- Porque  - insistiu ela. - Mas no vamos falar mais nisso. Se h coisas que fazem o meu corao bater como um tambor do cortejo, essa  uma delas.

Abafei a minha curiosidade, receando aumentar ainda mais o mal-estar e o cansao da grandmre. Vesti depois o vestido e engraxei os sapatos. Nessa noite, devido 
ao tempo incerto que se fazia sentir, com aguaceiros intermitentes e ventos fortes, o Paul vinha buscar-me num dos carros da famlia. Ele dissera-me que o pai lhe 
tinha dado permisso, mas eu pressentia que o Paul no havia contado tudo aos pais. S no lhe fazia mais perguntas porque tinha medo da resposta e no queria pr 
em risco a minha ida ao baile. Mal ouvi o carro a chegar, corri para a porta, seguida pela grandmre Catherine que permaneceu de p atrs de mim.

-Ele j chegou! - gritei.

- Diz-lhe que guie devagar, e mal acabe o baile volta para casa - ordenou a grandmre.

Paul aproximou-se do alpendre. A chuva tinha recomeado, por isso trazia na mo um chapu de chuva aberto para me abrigar.

-Uau, Ruby, ests muito bonita! - exclamou, vendo em seguida a grandmre parada atrs de mim. - Boa noite, Mistress Landry.

- V se a trazes a salvo para casa... e cedo! - ordenou ela.
- Sim, senhora.

-e guia com cautela.
- Sim.

- Por favor, grandmre - murmurei eu. Ela mordeu o lbio para no dizer mais nada e eu dei-lhe ento um beijo de despedida.

- Diverte-te - sussurrou. corri depressa para debaixo do chapu do Paul e entrmos rapidamente no carro. Quando olhei para trs, a grandmre Catherine estava ainda 
parada na entrada a olhar para ns; de repente, pareceu-me muito mais peque-

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na e envelhecida, como se o facto de eu crescer implicasse que ela envelhecesse mais depressa. No meio de toda a minha excitao, uma emoo to intensa que transformava 
aquela noite chuvosa numa noite cheia de estrelas, uma pequena nuvem de tristeza invadiu o meu corao acelerado e f-lo estremecer por alguns breves segundos. Mas 
assim que o Paul arrancou, abafei aquele tremor e vi apenas felicidade e alegria  minha frente.

O recinto do baile do fais dodo era no lado oposto da cidade. Toda a moblia, com excepo dos bancos para os mais idosos, era retirada da sala grande, enquanto 
noutra sala do lado, mais pequena, eram colocados vrios pratos de gumbo sobre as mesas. No havia nenhum palco, mas utilizavam-se vrias plataformas para os msicos 
terem onde tocar o acordeo, o violino, os ferrinhos e a guitarra, e havia tambm um cantor.

Vinha gente de toda a parte do bayou e muitas famlias traziam tambm os seus filhos mais novos, que deixavam a dormir numa sala ao lado. Na verdade, as palavras 
"fais dodo" eram utilizadas pelos Cajuns para adormecer as crianas, querendo dizer dessa forma que os mais novos dormiam para os mais velhos poderem danar. Alguns 
dos homens preferiam jogar um jogo a que davam o nome de bourr, enquanto as suas mulheres e filhos danavam a dana a que chamamos -.

Assim que o Paul e eu entrmos no recinto do fais dodo ouvi de imediato os sussurros e os murmrios dos que l se encontravam: "0 que faz o Paul Tate com uma das 
raparigas mais pobres do bayou?" Paul, no entanto, ao contrrio de mim, no parecia aperceber-se dos comentrios das outras pessoas, ou, se realmente os ouvia, no 
lhes dava qualquer importncia. Logo que chegmos, dirigimo-nos para a pista de dana e eu notava os olhares invejosos de algumas das minhas amigas, pois quase todas 
elas gostariam de ter sido convidadas por Paul Tate para um fais dodo.

Danmos msica aps msica, dando fortes aplausos no final de cada uma. O tempo passou to depressa que nem sequer nos apercebemos de que estvamos a danar h 
quase uma hora e que tnhamos j alguma fome e muita sede. Divertidos, fomos em busca de bebidas, como se no existisse ali mais ningum alm de ns dois. Nenhum 
de ns reparou no grupo de rapazes que nos seguiram, liderados por Turner Browne, um popular rufio da escola. Com apenas dezassete anos, era um rapaz forte e entroncado, 
de pescoo largo, farto cabelo castanho e feies grosseiras. Dizia-se que a sua famlia remontava aos barqueiros que atravessavam o Mississpi de charrua, muito 
antes
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dos barcos a vapor. Esses barqueiros tinham fama pelo seu carcter rude e violento, caractersticas que os Browne haviam herdado. Turner fazia questo de honrar 
a reputao da famlia, causando consecutivas rixas na escola.

- Ol, Tate - chamou Turner Browne logo depois de nos termos sentado a um canto da mesa para provar o gumbo.

A tua mam sabe que esta noite vieste visitar os pobres? Todos os amigos de Turner riram do seu comentrio, o que fez o Paul corar de vergonha e levantar-se devagar.

- Talvez seja melhor retirares o que disseste e pedires desculpa.

Turner Browne riu-se.

-O que vais fazer, p? Queixnhas ao teu pai? Ouviram-se, mais uma vez, as gargalhadas do grupo de Turner. Levantei-me ento e puxei a manga de Paul, que estava 
to vermelho e to zangado que quase podia deitar fumo.

- Ignora-o, Paul - aconselhei. - Ele  demasiado estpido para lhe dares importncia.

- Cala-te! - gritou Turner. - Pelo menos eu sei quem  o meu pai.

Ouvindo isto, Paul avanou e esmurrou o outro, que, embora fosse muito mais forte, caiu logo no cho. Instantaneamente, o grupo de turner formou uma roda  volta 
dos dois, bloqueando a entrada a quem quer que corresse para tentar impedir a luta. Turner conseguiu entretanto rolar sobre Paul e marcar posio, sentando-se em 
cima do estmago dele e dando-lhe um murro na face direita, a qual inchou de imediato. Paul estava prestes a impedir o segundo soco de turner quando chegaram alguns 
homens mais velhos e puxaram Turner de cima dele. Quando Paul ficou livre, era visvel que o seu lbio inferior sangrava.

-O que se passa aqui? - indagou Mr. Lafourche, que tinha o baile a seu cargo.

- Ele atacou-me! - acusou Turner, de dedo apontado para Paul.

-Isso no  verdade - retorqui eu. - Ele  que...

- Pronto, pronto - exclamou Mr. Lafourche. - No nteressa quem comeou, o que interessa  que este tipo de comportamento no pode acontecer num stio destes. Agora, 
vo-se embora. Desaparece, Browne! Leva o teu grupo contigo antes que eu mande prender todos!

Turner Browne, com um sorriso bailando nos lbios, afastou-se, levando consigo os seus amigos. Fui buscar depressa um guardanapo molhado para limpar o lbio de Paul 
com cautela.

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-Desculpa - murmurou ele. - Perdi a cabea.

- Mas no devias ter perdido. Ele  muito maior do que tu. -No quero saber disso! No posso deixar que sejas insultada daquela maneira! - retorquiu Paul corajosamente; 
mas o inchao na sua face vermelha s me fazia sentir pena. Tinha tudo corrido to bem, tnhamo-nos divertido tanto... porque teria de existir sempre algum motivo, 
como o turner Browne, para estragar tudo?

- Vamo-nos embora - disse eu ento.

- Se quiseres, podemos ficar e danar mais um pouco.
- No,  melhor irmos tratar das tuas feridas. A grandmre Catherine deve ter algum remdio para lhe aplicar - sugeri.

- Mas quando me vir assim vai ficar desapontada comigo e vai zangar-se por eu me ter metido numa luta contigo a meu lado - gemeu Paul. - Maldito Turner Browne!

-No, ela no vai zangar-se. Vai sentir orgulho de ti, por teres lutado para me defender - argumentei.

- Achas?

- Sim - confirmei, apesar de estar pouco segura a respeito da reaco da grandmre Catherine. - Seja como for, se a tua cara ficar menos inchada com o remdio da 
grandmre, os teus pais vo ficar menos irritados, no ?

Ele concordou, mas depois riu-se. -Estou assim to mal?...

- Ests mais ou menos como algum que tenha acabado de lutar com um aligtor!...

Rimos ambos e deixmos a festa em seguida. Turner Browne e o seu grupo j tinham sado e eu imaginei que talvez tivessem ido beber cerveja e dizer disparates para 
outro lado, o que significava que j no existiriam mais problemas connosco. Quando amos j a caminho de casa, comeou a chover mais, por isso Paul estacionou o 
carro o mais perto possvel da entrada, para onde corremos em seguida. Mal entrmos em casa, a grandmre Catherine levantou os olhos do trabalho de costura que estava 
a fazer e abanou a cabea.

-Foi aquele rufio do turner Browne, grandmre. Ele... A grandmre ergueu a mo e levantou-se direita a um mvel onde estavam uns cataplasmas, tal como se tivesse 
previsto a nossa chegada dramtica. Foi aterrador; at mesmo o Paul ficou sem fala.

- Senta-te - disse-lhe ela, apontando para uma determinada cadeira. - Depois de o tratar, podes contar-me o que aconteceu.

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Paul fitou-me com os olhos muito abertos e depois sentou-se onde a grandmre indicara, para que assim pudesse operar mais um dos seus milagres.
APRENDER A MENTIR

Toma - disse a grandmre a Paul. - Esta pes na cara e esta outra no lbio - acrescentou, estendendo-lhe duas compressas quentes nas quais havia deitado alguns dos 
seus blsamos secretos. Quando Paul segurou as compressas, reparei que os ns da sua mo direita estavam igualmente feridos e arranhados.

- Trate-lhe tambm a mo, grandmre - pedi.

- Isto no  nada - afirmou Paul. - Foi quando rolei no cho...

- Rolaste no cho? No fas dodo?! - inquiriu a grandmre, espantada. Paul confirmou e tentou explicar.

- Estvamos a provar o gumbo quando...

- Segura bem nisso - ordenou ela. Premindo a compressa contra o lbio, Paul no conseguiu falar, por isso eu expliquei rapidamente por ele.

-Foi o turner Browne. Lanou uma srie de insultos s para impressionar os amigos - contei.

-Que gnero de insultos? - quis ela saber. -A grandmre sabe... maldades,

Ela olhou para mim durante alguns instantes e depois para Paul; no era fcil esconder algo da grandmre Catherine, que possua, desde que me lembrava, um jeito 
especial para perscrutar o pensamento e o corao.

- Fez comentrios acerca da tua me? - perguntou a grandmre. Afastei o olhar, que era o mesmo que dizer que sim. A grandmre respirou fundo, de mo posta no peito. 
Nunca se esquecem! Agarram-se s fraquezas dos outros, tal como o musgo se apega  madeira hmida - comentou, abanando a cabea e mudando de posio, ainda de mo 
no peito.

Olhei para Paul, cujo olhar dizia o quanto estava arrependido de se ter exaltado. Tentou ento retirar a compressa do lbio para me dizer aquilo que sentia, mas 
segurei-lhe depressa a mo. Ele sorriu com os olhos, j que no podia mexer os lbios.

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- Segura bem na compressa, como a grandmre mandou disse-lhe eu. A grandmre voltou-se de novo para ns e eu

mantive a mo sobre a de Paul, sorrindo. - Ele foi muito corajoso, grandmre. Apesar de o turner Browne ser muito maior e mais forte, o Paul no se importou.

- V-se - comentou a grandmre, em tom de reprovao. O grandpre Jack fazia o mesmo e pelos vistos ainda faz. Gostava de ter uma moeda por cada vez que tive de 
preparar um cataplasma para lhe tratar os ferimentos feitos nas lutas. Uma das vezes chegou a casa com o olho completamente fechado e ,noutra, tinham-lhe tirado 
 dentada um pedao da orelha. Seria o suficiente para qualquer pessoa pensar duas vezes antes de tornar a criar mais conflitos, mas ele voltava sempre a agir da 
mesma maneira. Deve ter ficado no fim da fila quando distriburam o bom senso... - concluiu.

A chuva forte que caa no telhado de zinco ia diminuindo de intensidade, at ficar reduzida a uma leve batida, e o vento forte tinha, entretanto, j quase parado. 
Agrandmre foi ento abrir as portadas de madeira das janelas para que a brisa arejasse a casa. Aspirou depois o ar fresco que entrou, afirmando:

-Gosto tanto do cheiro do bayou depois de uma chuva forte... Fica tudo mais fresco e mais limpo.  pena no ter o mesmo efeito nas pessoas. - Respirou fundo novamente; 
o seu olhar estava ainda escuro e perturbado e eu nunca a tinha visto assim to triste e fatigada. Senti-me de repente paralisada e entorpecida e deixei-me ficar 
quieta a ouvir apenas as batidas do meu corao. Subitamente, a grandmre estremeceu e colocou os braos  volta do peito.

- Sente-se bem, grandmre?

-O qu? Ah... sim, sinto-me bem - respondeu, aproximando-se de Paul. - Deixa-me ver como est a tua cara. Paul retirou as compressas do lbio e da face enquanto 
a

grandmre o observava pormenorizadamente. O inchao diminura, mas tinha ainda a face vermelha e o lbio escuro no local onde turner Browne abrira um lenho na carne. 
A grandmre Catherine abanou a cabea e foi at ao frigorfico, trazendo um bocado pequeno de gelo que embrulhou noutra compressa.

-Toma - disse ela ao regressar. - Pe isto na cara at ficar bem frio e depois pe no lbio. Vais alternando at o gelo derreter, . percebeste?

- Sim, senhora - respondeu Paul. - Obrigado. Lamento muito o que aconteceu... Eu devia ter ignorado o turner Browne. A grandmre fitou-o fixamente durante uns instantes, 
mas depois relaxou a expresso sria.

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- Por vezes, no se consegue ignorar. O diabo no permite
- afirmou. - Mas isso no significa que eu te queira ver envolvido noutras lutas - avisou, enquanto ele concordava obedientemente.

-No vai haver nunca mais - prometeu Paul.

- Hum... - murmurou a grandmre. - Gostava de ter outra moeda por todas as vezes que ouvi o meu marido fazer essa mesma promessa!

- Mas eu vou cumpri-la - afirmou Paul com orgulho. A resposta agradou  grandmre e f-la finalmente sorrir.

- Veremos - retorquiu.

-  melhor eu ir andando - declarou Paul, levantando-se.
- Mais uma vez obrigado, Mistress Landry.

A grandmre Catherine apenas abanou a cabea.

- Acompanho-te at ao carro, Paul - disse eu. Ao sairmos para o alpendre, verificmos que a chuva tinha quase parado por completo. O cu estava ainda bastante escuro, 
mas a lmpada pendurada no tecto do alpendre lanava sobre o carro de Paul um raio de luz tnue e branca. Pressionando ainda o bocado de gelo contra a face com a 
mo que tinha livre, Paul pegou na minha e fomos assim at ao incio do caminho.

- Sinto-me to mal por ter estragado esta noite - confessou Paul.

-No foste tu que a estragaste, foi o Turner Browne. Alm disso, ainda danmos bastante - acrescentei.

- Foi divertido, no foi?

- Sabes... - comecei. - Esta foi a minha primeira sada a srio.

- Foi? e eu que pensava que tinhas uma srie de namorados a convidar-te para sair, sem teres nenhum tempo para mim
- confessou ele. - Precisei de muita coragem para ir falar contigo na escola, naquele fim de tarde, e perguntar-te se podia acompanhar-te at casa e trazer os teus 
livros. Precisei de mais coragem do que para atacar o Turner Browne!

- Eu sei. Lembro-me de como os teus lbios tremiam... mas achei adorvel!

- Achaste? Bem, ento assim vou continuar a ser o rapaz mais tmido de todos os que conheces.

- Desde que no sejas demasiado tmido para me beijares de vez em quando... - respondi. Ele sorriu, mas logo a seguir fez uma careta de dor por ter esticado o lbio 
ferido. - Pobre Paul - exclamei, inclinando-me para lhe dar um beijo muito ao de leve na boca machucada. Quando me afastei, vi que ele tinha os olhos ainda fechados, 
abrindo-os depois rapidamente.

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- Esse  o melhor remdio de todos, ainda melhor do que os Cataplasmas mgicos da tua av. Vou ter de vir ter contigo todos os dias para me dares sempre esse tratamento 
- brincou.
- Mas olha que vai custar-te caro... - avisei.

- Quanto?

- uma dedicao eterna - respondi. Os olhos dele cravaram-se nos meus.

- Isso j tens, Ruby - sussurrou -, e ters sempre. Debruou-se ento e beijou-me de uma forma calorosa nos lbios, esquecendo a dor.

-  engraado - comentou, abrindo a porta do carro. Mesmo com a cara inchada e com o lbio ferido, acho que esta foi uma das melhores noites da minha vida. Boa noite, 
Ruby.

- Boa noite. No te esqueas de colocar gelo na ferida, como a grandmre recomendou - preveni ainda.

- No me esqueo. Agradece-lhe por mim mais uma vez. At amanh - prometeu, ligando o motor. Fiquei a v-lo afastar-se, acenando ao longe, at as pequenas luzes 
vermelhas da traseira do carro desaparecerem na escurido da noite. Depois, finalmente, voltei-me e fiquei de imediato envergonhada, porque vi a grandmre Catherine 
no alpendre a observar-me. "H quanto tempo estaria ela ali?", pensei eu. "De que estaria  espera?"

- Grandmre?... Sente-se bem? - perguntei ao aproximar-me. Tinha uma expresso to carregada e uma cor to plida e desfalecida que dir-se-ia ter estado face a face 
com um dos espritos que costumava expulsar. Fitou-me com um olhar frio e triste e senti crescer dentro do peito uma sensao de peso e opresso que me causou de 
imediato uma dor antecipada.

- Entra - pediu-me. - Preciso de falar contigo, quero contar-te aquilo que j h muito tempo devias saber.

Quando subi os degraus, senti as pernas endurecidas e rgidas como um tronco de rvore. O corao, que h instantes atrs batera apressado com o prazer que o beijo 
de Paul me causara, palpitava agora mais depressa, mais profunda e descontroladamente, latejando apressado para as profundezas da minha alma. No me lembrava de 
ver uma expresso to sria e melanclica no rosto da grandmre Catherine. Que peso to grande carregava ela consigo? Que segredo horrvel iria eu conhecer?

A grandmre sentou-se e ficou muito tempo com o olhar vago, como se estivesse esquecida da minha presena. Com as mos no colo, eu aguardava, ouvindo o bater ainda 
acelerado do meu corao.

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-A tua me sempre teve uma natureza rebelde - comeou finalmente a grandmre a contar. - Talvez fosse uma herana do sangue dos Landry ou talvez fosse devido  forma 
como cresceu, mas o certo  que ela nunca teve receio daquilo que era selvagem. Ao contrrio da maioria das raparigas da sua idade, nunca temeu os elementos do pntano. 
Pegava numa cobra pequena com tanta desenvoltura como se colhesse uma margarida.

"Nos primeiros tempos, o grandpre Jack levava-a consigo para todos os lugares do bayou. Ia pescar e caar com ele e ,mal teve altura suficiente, dirigia a canoa, 
espetando a vara na lama para a empurrar. Nesse tempo, eu julgava que a tua me ia ser uma maria-rapaz. Contudo - acrescentou, fixando agora o olhar em mim -, foi 
tudo menos isso. Talvez at tivesse sido melhor se ela fosse menos feminina do que era.

"Cresceu depressa e desabrochou numa flor de feminilidade muito antes de tempo. Os seus olhos escuros e o cabelo comprido, to farto e vermelho quanto o teu, encantavam 
tanto homens como rapazes. Julgo mesmo que at os pssaros e os animais do pntano se deixavam enfeitiar por ela. Vrias vezes contou, sorrindo por aquela lembrana 
em especial -, quando passeava  beira de um canal, via um falco do pntano fixar nela os olhos debruados a amarelo e segui-la com o olhar.

"Com toda aquela beleza e inocncia, ela desejava tocar em tudo, ver tudo, experimentar tudo. Infelizmente, era demasiado vulnervel s pessoas mais velhas e mais 
astutas e foi assim tentada a provar o sabor do prazer pecaminoso.

"Quando fez dezasseis anos, era j muito popular, e todos os rapazes do bayou a convidavam para sair. Todos queriam chamar a sua ateno, mas eu bem via a forma 
como ela brincava e atormentava alguns deles. Estavam perfeitamente loucos por ela, faziam tudo por a ver sorrir e ansiavam ouvir uma palavra de esperana da parte 
dela.

"Punha os rapazes mais novos a fazer todas as tarefas que tinha a seu cargo. Chegavam a fazer fila para ajudar o grandpre Jack, e  claro que esse no se importava 
nada de tirar proveito dos pobres infelizes. Sabendo que eles no se negariam a nada na esperana de obter a admirao da filha, fazia-os trabalhar mais para ele 
do que para os prprios pais. Na minha opinio, a atitude dele era criminosa, mas ele nunca me deu ouvidos.

"Bem, de qualquer forma, uma noite, logo aps a ter feito dezasseis anos, a Gabrielle veio ter comigo a esta mesma sala e sentou-se exactamente nessa cadeira onde 
tu ests agora. Quando olhei para ela, no precisei de a ouvir para saber o que esta-

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va a acontecer. Para mim, ela era to transparente como um vidro e li nos seus olhos tudo o que sucedera. Senti o corao disparar e retive o flego.

"- Mam - disse ela, com a voz quase a falhar -, acho que estou grvida.

"Eu apenas me recostei na cadeira de olhos fechados. O inevitvel acontecera, aquilo que eu tanto temera e pressentira tinha-se tornado uma realidade.

"Como tu bem sabes, ns somos catlicos e por isso no vamos a nenhum carniceiro para acabar uma gravidez. Perguntei-lhe quem era o pai, mas ela apenas abanou a 
cabea e fugiu a correr. Mais tarde, quando o grandpre Jack chegou a casa e tomou conhecimento daquilo, ficou como louco, Bateu-lhe tanto que, antes que eu o pudesse 
impedir, quase a matou, mas gabou-se de a ter feito confessar o nome do pai da criana - explcou a grandmre, levantando os olhos devagar.

Estaria eu a ouvir raios e troves disparados sobre mim ou era apenas o sangue que me estourava nas veias e ecoava nos ouvidos?

- Quem era, grandmre? - indaguei, com a voz a tremer e a garganta completamente seca.

- Foi o Octavious Tate quem a seduziu - comunicou ela. Mais uma vez, foi como se raios e troves abanassem a casa, estremecessem as fundaes do nosso mundo e destrussem 
as paredes do meu corao e da minha alma. No consegui pronunciar uma s palavra; no consegui sequer articular a prxima pergunta, mas a grandmre j havia decidido 
que eu tinha de saber tudo.

- O grandpre Jack foi ter directamente com ele. O Octavious estava casado h menos de um ano e tinha o pai ainda vivo. O teu grandpre jogava ainda mais naquele 
tempo e no era capaz de passar por um jogo de bourr sem querer participar, apesar de ser quase sempre ele o derrotado. Uma das vezes, apostou as botas no jogo 
e teve de vir descalo para casa e ,noutra vez, como tinha um dente de ouro, teve de deixar que lho arrancassem com umas pinas. Isto  para que saibas at que ponto 
ele sofre do vcio do jogo: tanto como de uma doena maligna.

"De qualquer maneira, ele foi ter com os Tate e props-lhes ento que lhe dessem dinheiro em troca do seu silncio. Acordaram igualmente que seria o Octavious a 
tomar a criana a seu cargo e que a educaria como um filho seu. Aquilo que ele contou  mulher e como chegaram eventualmente a um acordo... isso ns nunca chegmos 
a saber.

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"Escondi a gravidez da tua me e fechei-a em casa quando a barriga comeou a notar-se ao stimo ms. Como era Vero, ela no precisava de ir  escola, e ns retiveno-la 
em casa durante a maior parte do tempo. Nas trs ltimas semanas, ela ficou sempre dentro de casa e ns dissemos a todos que ela tinha ido visitar uma prima em Iberia.

"0 beb, um menino saudvel, logo que nasceu foi entregue ao Octavious Tate. O grandpre Jack recebeu o dinheiro prometido e gastou-o em menos de uma semana, mas 
o segredo foi mantido.

"At agora - acrescentou, baixando o tom de voz. - Tive esperana de nunca ter de te contar esta histria. J sabes o que a tua me fez mais tarde e no queria que 
pensasses to mal dela e depois tambm de ti prpria.

"Mas nunca esperei que tu e o Paul... se tornassem mais do que apenas amigos - explicou. - Quando vos vi h pouco l fora a beijar-se, tive a certeza de que tinhas 
de saber - concluiu finalmente.

- Ento, eu e o Paul somos... meios-irmos? - perguntei, com a voz entrecortada. A grandmre fez um sinal afirmativo.
- Mas ele no sabe nada disto, pois no?

- Conforme te contei, no sabemos o que os Tate resolveram fazer a esse respeito.

Cobri o rosto com as duas mos e senti que as lgrimas que me queimavam as faces parecia cairem igualmente dentro de mim azedando-me o estmago e gelando-me as entranhas. 
Senti um arrepio percorrer todo o meu corpo e faz-lo estremecer. -Ai, meu Deus, que horror, que horror... - gemi.

- Entendes agora por que razo resolvi contar-te, minha querida Ruby? - perguntou a grandmre Catherine. Apercebia-me com facilidade de como aquela revelao perturbava 
igualmente a grandmre e quanto a incomodava testemunhar a minha dor. Respondi imediatamente que entendia. - No podes deixar que a situao entre vocs os dois 
evolua, mas no te cabe a ti contar ao Paul o que acabaste de saber. Isso  um segredo que s o pai deve contar-lhe.

- Vai ficar arrasado - ponderei, dorida. - Vai ficar com o corao partido, tal como eu fiquei...

- Ento no lho contes, Ruby - aconselhou a grandmre Catherine. Encarei-a, ouvindo. - Termina simplesmente tudo.
- Como, grandmre? Ns gostamos tanto um do outro. O Paul  bondoso, gentil e

- Deixa-o pensar que j no gostas dele da mesma maneira, Ruby. Deixa-o escapar e vers que dentro em breve ele ar-
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ranja uma outra namorada. Afinal,  um rapaz bonito. Alm disso, se no terminares o namoro, os pais do Paul vo causar-lhe ainda mais sofrimento, especialmente 
o pai dele, e dessa forma s fars com que a famlia Tate se desintegre.           -

-  O pai dele  um monstro, um monstro! Como  que pde fazer uma coisa dessas, sendo casado h to pouco       tempo?
- exclamei, sentindo naquele instante uma revolta maior ainda do que a tristeza que me consumia.

-No desculpo o seu comportamento. Era um homem adulto e a Gabrielle era apenas uma menina impressionvel, mas to bonita que no me surpreende que fosse desejada 
por homens adultos. Tenho a certeza de que o diabo, esse esprito maligno que habita nas sombras, foi tomando conta de Octavious Tate, e um dia acabou por se apoderar 
definitivamente do seu corao e levou-o a seduzir a tua me.

Se o Paul soubesse, sentiria dio, odiaria o prprio pai afirmei veementemente. A grandmre concordou.

-  e isso que queres que acontea, Ruby? Queres ser a causadora dessa inimizade e lev-lo a desprezar o prprio pai? - perguntou com suavidade. - e o que iria o 
Paul sentir por aquela que julga ser sua me? O que causarias tambm a essa relao, j pensaste?

oh!, grandmre - exclamei no meio de lgrimas, abandonando a cadeira para me lanar a seus ps, abraando-lhe as pernas e escondendo o rosto molhado no seu colo, 
enquanto ela me acariciava gentilmente o cabelo.

- Calma, calma, minha querida. Vais vencer essa dor, s aimda muito jovem e tens toda uma vida  tua frente. Vais tornar-te uma artista famosa e rodear-te de beleza. 
- A grandmre colocou a mo no meu queixo e levantou-me a cabea para poder olhar-me nos olhos. - Agora compreendes por que motivo eu tanto desejo que tu abandones 
o bayou - acrescentou.

Compreendo, sim - respondi, com as lgrimas a escorrerem-me pelo rosto. - Mas nunca a vou deixar, grandmre.
-  Um dia vais ter de o fazer, Ruby.  a lei da vida. Quando esse dia chegar, no podes hesitar: faz aquilo que tens de fazer. Promete-me que o fars, promete - 
suplicou. Parecia to ansiosa que eu fui obrigada a responder.

- Prometo, grandmre.

- Muito bem - exclamou -, muito bem. - Recostou-se ento na cadeira, parecendo envelhecer a cada minuto que passava. Enxuguei com os meus pequenos pulsos as lgrimas 
que ainda me saltavam dos olhos e levantei-me.

Quer beber alguma coisa, grandmre? Talvez um copo de limonada?

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- Um copo de gua fria. - Sorriu, acariciando-me a mo.
-   Desculpa, querida - pediu depois.

Engoli as lgrimas que teimavam em cair e dei-lhe um beijo.
- A culpa no  sua, grandmre. No devia culpar-se. Ela respondeu apenas com um leve sorriso. Fui ento buscar o copo de gua e verifiquei que lhe era bastante 
doloroso beb-la. Finalmente, a grandmre conseguiu acabar e levantou-se da cadeira onde estivera sentada.

- De repente, fiquei muito cansada - confessou. - Vou-me deitar.

- V, sim, grandmre. Daqui a pouco tambm vou. Depois de ela se ter retirado, fui at  porta e fiquei a olhar para o local exacto onde h instantes eu e Paul nos 
tnhamos despedido.

Nessa hora ainda no sabamos que seria aquela a ltima vez que nos beijaramos daquela forma, a ltima vez que sentiramos o bater do corao do outro e a emoo 
forte que o toque de cada um de ns nos provocava. Fechei ento a porta e subi as escadas, sentindo uma tristeza to grande como se tivesse acabado de receber a 
notcia da morte de algum ser amado com todo o corao. Na prtica, esse sentimento correspondia  verdade, pois o Paul Tate que eu conhecera e amara estava perdido 
para sempre e a Ruby Landry que ele amara e beijara h apenas alguns instantes tinha tambm desaparecido. O pecado que dera origem  vida de Paul tinha erguido a 
cabea tenebrosa e afastara de mim o seu amor.

Os dias que se seguiriam inspiravam-me um autntico terror.

Nessa noite, dormi sobressaltada e acordei vrias vezes durante o sono. De cada uma das vezes, o estmago incomodava-me e apertava-me tanto quanto um punho fechado. 
Desejei ardentemente que o dia anterior e aquela noite no passassem de um pesadelo, mas, ao ver os olhos escuros e tristes da grandmre Catherine, no havia como 
negar a realidade. A imagem do seu rosto permanecia no meu inconsciente, recordando-me, reforando e confirmando que tudo aquilo se tinha realmente passado e que 
o que eu acabara de descobrir era verdade.

O sono da grandmre Catherine no devia ter sido melhor do que o meu, apesar do cansao que sentira antes de se deitar. Pela primeira vez em muitos anos, ouvi-a 
levantar-se apenas uns minutos antes de mim. Ao senti-la passar pelo meu quarto em direco  cozinha, abri a porta para ver como ela estaria.

Apressei-me ento para a ajudar a preparar o pequeno-almoo. Apesar de a tempestade da noite anterior ter termina-
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do, havia ainda uma camada de leves nuvens cinzentas no cu da Luisiana, tornando a manh to lgubre quanto eu prpria me sentia. At os pssaros parecia terem 
perdido a alegria, pois, em vez de cantarem como habitualmente, piavam uns para os outros. Era como se todo o bayou expressasse a sua compaixo por mim e por Paul.

- Um traiteur deveria poder curar a prpria artrite queixou-se a grandmre. - As articulaes doem-me, mas os remdios no esto a aliviar-me.

A grandmre Catherine no era pessoa para se queixar. Tinha-a visto caminhar quilmetros para ajudar os outros, sem pronunciar sequer uma s slaba de protesto. 
Fosse qual fosse a enfermidade ou o azar que sofresse, dizia sempre que havia muitos outros em condies piores do que ela.

"No se deixa cair as batatas s porque nos aparecem na frente montes e vales", repetia frequentemente, utilizando uma forma cajun de dizer que no se deve desistir. 
"Tem de se aguentar o embate. Carrega-se o excesso de bagagem, mas caminha-se para a frente." Sempre pensei que ela tentava ensinar-me a viver atravs do seu exemplo, 
por isso podia agora imaginar quantas dores sentiria para se queixar  minha frente nessa manh.

- Talvez hoje no devssemos montar a tenda, grandmre disse-lhe eu. - Temos o dinheiro dos meus quadros 
- No - respondeu logo. -  melhor estarmos ocupadas

e alm disso temos de aproveitar agora que ainda h turistas no bayou para vender alguma coisa. Sabes bem que temos demasiadas semanas e meses sem movimento e como 
 difcil arranjar um meio de subsistncia nessas alturas.

No respondi nada, para no a irritar, mas por que motivo no nos ajudava mais o grandpre? Por que razo haveramos de permitir que ele conduzisse uma vida intil 
de vadio? Afinal, era um homem cajun e ,como tal, deveria assumir a responsabilidade de tomar conta da famlia, mesmo que a grand-mre Catherine no estivesse de 
boas relaes com ele, Resolvi naquele instante que iria mais tarde at  cabana do grandpre para lhe dar a minha opinio.

Logo aps o pequeno-almoo, comecei a montar a tenda, como era costume, enquanto a grandmre preparava o gumbo. Vi ento no seu rosto o esforo tremendo que fazia 
quando tentava carregar algo para a tenda e corri o mais depressa que pude para ir buscar-lhe uma cadeira. Apesar dos argumentos da grandmre, desejei que comeasse 
a chover, para no podermos sair de casa e sermos obrigadas a descansar. Mas isso no
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aconteceu e ,tal como ela previra, os turistas comearam a aparecer.

Cerca das onze horas, Paul apareceu, conduzindo a sua moto. Vendo-o aproximar, eu e a grandmre Catherine trocmos um olhar rpido, mas ela no me disse nada.

- Ol, Mistress Landry - cumprimentou ele. - Tenho a cara praticamente boa e j no sinto dor nenhuma no lbio acrescentou logo, A ndoa negra tinha diminudo consideravelmente, 
existindo apenas uma marca rosada no seu rosto. Mais uma vez, obrigado.

-De nada - respondeu a grandmre -, mas no te esqueas daquilo que me prometeste.

- No me esquecerei - prometeu Paul, rindo e dirigindo-se logo depois a mim. - Ol!

- Ol - cumprimentei rapidamente, enquanto dobrava e desdobrava uma manta para que ficasse mais direita e arrumada nas prateleiras da tenda. - Por que razo no 
ests hoje a trabalhar na fbrica? - perguntei-lhe, sem conseguir olhar para ele.

Paul aproximou-se mais, para que a grandmre no pudesse ouvir a resposta.

-Ontem  noite tive uma grande discusso com o meu pai. J no trabalho mais para ele e no posso usar o carro at novas ordens, a no ser que...

- A no ser que nunca mais me vejas - acabei eu a frase por Paul, vendo nos seus olhos que estava certa.

-No me importo com a opinio do meu pai. No preciso do carro e como comprei a mota com o meu dinheiro posso us-la  vontade. Tudo o que me interessa  poder vir 
ver-te to depressa quanto possvel: Nada mais me interessa - declarou firmemente.

- Isso no  verdade, Paul. No posso deixar que ajas dessa maneira contigo prprio e com os teus pais. Talvez no agora, mas, passado algumas semanas, meses e mesmo 
anos, vais arrepender-te de ter afastado os teus pais de ti - afirmei asperamente, At eu podia reparar no tom frio da minha voz. Magoava-me agir dessa forma, mas 
tinha de o fazer, tinha de encontrar uma forma de pr um fim quilo que nunca poderia concretizar-se.

- O qu? - exclamou Paul, sorrindo. - Sabes bem que s me interessa estar contigo, Ruby. Vo ter de aceitar, se no quiserem que eu os afaste de mim. A culpa  deles. 
Esto a agir de uma forma to snobe e egosta que...

-No, no esto, Paul - interrompi rapidamente. A con-
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fuso que comeava a sentir ficou bem expressa na expresso de Paul. -  natural que queiram apenas o melhor para ti.

-J falmos a este respeito, Ruby. J te disse que tu s o melhor para mim - respondeu.

Desviei o olhar; era-me demasiado difcil fit-lo quando o ouvia falar dessa forma. Como no tnhamos clientes nesse momento, afastei-me da tenda, com Paul a seguir-me 
to prximo e to silencioso como a minha prpria sombra. Parei ao p de um dos nossos bancos de madeira de cipreste que ali havia e sentei-me, de olhos postos no 
pntano.

-O que se passa? - indagou ento ele com suavidade.
- Estive a pensar em todo este assunto - comecei -, e no tenho a certeza de que sejas o melhor para mim.

-O qu?...

No pntano, empoleirado num sicmoro, um mocho velho contemplava-nos, como se pudesse ouvir e entender as palavras que dizamos, to imvel como um animal empalhado.

-Depois de sares, ontem  noite, estive a pensar muito. Eu sei que aqui no bayou h muitas raparigas da minha idade ou ligeiramente mais velhas que j so casadas. 
At h algumas mais novas... mas no quero casar e ser feliz para sempre aqui no bayou. Quero mais, quero viver uma outra vida melhor. Quero ser uma artista.

- e da? Eu nunca te impediria. Faria tudo o que pudesse para...

- Um artista, um artista verdadeiro tem de ter muitas experincias diferentes. Tem de viajar, conhecer outro tipo de gente, expandir o campo de viso - declarei, 
voltando-me finalmente para ele, que me pareceu menor, diminudo pelas minhas palavras.

- O que queres dizer?

-Ns nunca conseguiramos manter um namoro - expliquei.

- Mas, pensei que... - Abanou novamente a cabea. Dizes isso porque ontem me comportei daquela forma idiota, no  ?A tua av deve estar muito aborrecida comigo.

-No, no est. A noite de ontem s me fez pensar melhor, s isso.

-A culpa  minha - repetiu.

- A culpa no  de ningum. Ou, pelo menos, no  nossa acrescentei, recordando as revelaes feitas pela grandmre Catherine na noite anterior. -  a vida.

- O que queres que faa? - perguntou.

- Quero que... faas aquilo que tambm vou comear a fazer.. Sair com outras pessoas.

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- Ento, existe outra pessoa?... - concluiu, incrdulo. como  que podes ter estado comigo daquela forma ontem  noite e nos dias e noites anteriores e gostares 
de outra pessoa?
- No existe outra pessoa... ainda - murmurei.

- Existe, sim - insistiu ele, enquanto eu desviava novamente o olhar. A tristeza de Paul depressa cedia lugar a um sentimento de revolta. A suavidade do seu olhar 
desvanecia-se, substituda pela fria, os seus ombros aprumavam-se e as faces ganhavam uma cor viva, parecida com a marca da luta com turner. Os lbios tornavam-se 
brancos nos cantos, como se a todo momento ele pudesse expelir fogo como um drago. Detestava o que estava a fazer-lhe e sentia vontade de desaparecer.

- O meu pai bem me aconselhou a no entregar o corao e a acreditar em ti, uma...

- Uma Landry - conclu com tristeza.

- Sim, uma Landry. Ele disse que quem sai aos seus no degenera.

Baixei a cabea e pensei na minha me, que havia permitido que o pai de Paul a usasse para seu prazer. Depois pensei no grandpre Jack, mais preocupado com o dinheiro 
que poderia obter do que com a sorte da filha.

-e tinha razo.

- No acredito em ti! - gritou Paul. Quando voltei a encar-lo, vi as lgrimas que lhe saltavam dos olhos, lgrimas de dor e de revolta, lgrimas que iriam envenenar 
o seu corao contra mim. Como gostaria de me lanar nos seus braos e mpedir o que estava a acontecer! Mas a realidade detinha-me e amordaava-me. - No queres 
ser uma artista. Queres  ser uma pega!

- Paul!

-  isso mesmo, uma pega! Vai, podes ter tantos homens quantos quiseres que j no me importo! Doido fui eu de ter perdido tempo com uma Landry! - acrescentou, dando 
meia volta e afastando-se rapidamente, com as botas a esmagar a erva que deixava pelo caminho.

Deixei o queixo cair sobre o peito e o corpo afundar-se no banco de madeira. Onde antes batera o meu corao, existia agora apenas uma cavidade oca. No conseguia 
chorar. Era como se tudo em mim, cada parte do meu corpo, tivesse subitamente ficado fechado, congelado e inerte como uma pedra. O rudo da moto de Paul repercutiu-se 
por todo o meu corpo; o velho mocho abriu as asas e pavoneou-se nervosamente no raMo onde estava, mas sem levantar voo. Permanecia ali perto de mim, olhando-me agora 
de um modo acusador.

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Depois de Paul ter desaparecido, levantei-me, sentindo as pernas muito trmulas. Apesar disso, consegui caminhar at  tenda mesmo a tempo de ver chegar um carro 
cheio de turistas. Todos eles eram rapazes e raparigas novos, barulhentos, risonhos e alegres. Os rapazes ficaram fascinados com os frascos com lagartos e cobras 
e compraram quatro, enquanto as raparigas apreciavam as toalhas e os lenos bordados da grandmre. Depois de terem comprado tudo quanto queriam e de terem colocado 
tudo no carro, um dos rapazes aproximou-se de ns com uma mquina fotogrfica.

- Importam-se que vos tire umas fotografias? - perguntou ento. - Pago um dlar a cada uma - acrescentou.

- No tem de nos pagar nada pelas fotografias - respondeu a grandmre.

- Tem, sim - afirmei eu, A grandmre Catherine arqueou as sobrancelhas, surpreendida.

- Est bem - concordou o jovem, procurando no bolso os dois dlares, que aceitei imediatamente. - Pode sorrir? - pediu-me. Forcei um sorriso e ele tirou-me ento 
a fotografia. Obrigado - agradeceu, metendo-se no carro.

- Porque  que quiseste aceitar os dois dlares, Ruby? Nunca antes levmos dinheiro por nenhuma fotografia...

- Porque a vida est cheia de dor e de desiluso, grandmre, e a partir de agora tenciono fazer tudo quanto estiver ao meu alcance para tornar a nossa vida melhor.

A grandmre fixou em mim os olhos pensativos.

- Quero que amadureas, mas no quero ver-te crescer com o corao endurecido, Ruby - afirmou.

- Um corao que no  duro e desfeito  partido mais depressa, grandmre. Recuso-me a acabar como a minha me! Recuso-me! - gritei. Mas apesar da minha forte e 
decidida declarao, senti que o cho firme em que me desejava apoiar fugia dos meus ps.

- O que contaste ao Paul Tate? - quis saber a grandmre.

O que foi que disseste para ele sair daquela maneira daqui?
- No lhe contei a verdade, mas afastei-o da minha vida, tal como a grandmre disse para fazer - gemi por entre as lgrimas. - e agora ele odeia-me,

- oh!, Ruby, lamento muito...

- Ele odeia-me! - gritei, correndo para longe.
- Ruby!

No entanto, eu no parei. corri rpida e velozmente sobre as terras do pntano, deixando que as silvas altas me rasgassem o vestido e arranhassem as pernas e os 
braos. Estava imune 
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dor, ignorava o aperto que sentia no peito e no fazia caso dos charcos e da lama nos quais tropeava repetidamente. Todavia, aps alguns minutos, a dor nas pernas 
e os picos das silvas na carne obrigaram-me a abrandar. Caminhei ento devagar ao longo da margem do canal, sentindo os ombros movidos pelos soluos profundos. Andei, 
andei, passando os montes de erva onde viviam os ratos-almiscarados e as nutrias, e evitando as enseadas em que as pequenas cobras verdes nadavam. Cansada e sobrecarregada 
por tantas emoes, parei finalmente para respirar um pouco de ar, apoiando as mos na cintura e arqueando o peito.

Aps alguns instantes, os meus olhos pousaram num aglomerado de ciprestes  minha frente. De incio, por causa da cor e tamanho, no o vi, mas gradualmente foi tomando 
forma, quase como uma viso. Tratava-se de um veado do pntano, que olhava para mim com curiosidade, hirto como uma esttua. Tinha uns olhos muito grandes e bonitos, 
mas o seu olhar era triste e profundo.

Subitamente, ouviu-se um estrondo, uma exploso de uma espingarda de calibre elevado vinda no se sabia de onde. As pernas do veado estremeceram, e ,apesar de ter 
cambaleado alguns instantes num esforo desesperado por manter a postura, uma marca vermelha de sangue surgiu no seu pescoo e aumentou at o sangue comear a jorrar. 
O veado sucumbiu e ,aps a sua queda, ouvi dois homens a falar alto, muito animados. Surgiu ento uma canoa que estivera oculta por detrs da vegetao, e vi dois 
estranhos sentados no banco da frente e o grandpre Jack atrs, a puxar a canoa. Tinha oferecido os seus servios de guia a dois caadores que estavam no bayou em 
turismo e trouxera-os at  caa.  medida que a canoa se ia dirigindo atravs do canal em direco ao veado morto, um dos turistas ofereceu ao outro um gole de 
usque para comemorar a matana. O grandpre Jack olhou fixamente a garrafa e parou de remar, para que eles lhe oferecessem tambm um gole.

Retirei-me lentamente, seguindo as minhas pegadas no sentido inverso. Sim, pensei ento, o pntano era um local maravilhoso e cheio de encantos, com uma vida animal 
muito interesSante e com uma vegetao fascinante; por vezes era calmo e misterioso, outras vezes tornava-se uma verdadeira sinfonia da Natureza com todos os sapos 
a grasnar, as aves a piar e os aligatores a agitar a gua com as caudas. Mas podia ser igualmente um local frio e selvagem, ornamentado de morte e de perigo, cujas 
cobras, aranhas venenosas, areia movedia e lama espessa e pegajosa tragavam o intruso desprevenido para a escurido

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das guas. Era um mundo no qual os mais fortes se alimentavam dos mais fracos, onde os homens vinham para gozar do seu poder sobre a Natureza.

Esse dia, pensei ento, era apenas um dia igual aos outros em qualquer lugar da terra, mas foi nesse dia que, pela primeira vez, detestei aquele lugar.

Quando regressei, as sombras j haviam descido sobre o bayou. A grandmre Catherine comeara j a retirar parte dos nossos produtos para dentro, e eu corri a ajud-la; 
a chuva caa cada vez mais forte, obrigando-nos a trabalhar mais depressa e negando-nos a mnima possibilidade de conversar at tudo estar nos seus devidos lugares, 
J dentro de casa, a grandmre foi buscar umas toalhas para limparmos o cabelo e os rostos encharcados. A chuva fustigava o telhado de zinco e o vento chicoteava 
todo o bayou. Corremos para as janelas a fim de fechar todas as portadas de madeira.

-  um autntico vendaval - exclamou a grandmre. O vento soprava atravs das fendas das paredes e l fora os ramos dos arbustos e tudo o que no tivesse muito peso 
era erguido no ar e lanado para qualquer direco, caindo na estrada ou sobre a erva. O mundo l fora tornara-se escuro e sombrio; os troves rugiam e os raios 
atravessavam o cu, velozes e intensos. Os lenis de gua que caam do telhado faziam os cntaros transbordar e as gotas de chuva eram to carregadas e abundantes 
que saltavam ao atingir os degraus do alpendre ou o pequeno trilho que existia em frente de casa. Durante algum tempo, dir-se-ia que o telhado de zinco corria o 
risco de quebrar, pois o barulho era tanto como se tivssemos cado dentro de um tambor. Finalmente, a chuva forte diminuiu de intensidade e ,to depressa como tinha 
comeado, tornou-se um simples chuvisco. O cu clareou e ,momentos depois, um raio de luz atravessou as nuvens e envolveu a nossa casa numa onda quente e luminosa. 
A grandmre Catherine deu um grande suspiro de alvio:

-Nunca me habituei a estas tempestades repentinas confessou. - Quando eu era pequena, costumava esconder-me debaixo da cama - acrescentou com um sorriso.

-No consigo imagin-la pequena, grandmre - respondi.
- Mas j o fui, querida. No nasci assim velha como estou hoje, com os ossos a estalar sempre que dou um passo, sabias? Pressionou os rins com as costas da mo para 
se endireitar e anunciou: - Vou fazer um ch. Apetece-me beber alguma coisa quente. Tu queres?

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- Est bem, grandmre      aceitei, sentando-me na cozinha enquanto ela punha a mesa,     O grandpre Jack est outra vez a servir de guia aos caadores. Vi-o hoje 
no pntano com dois homens. Mataram um veado.

- Ele foi um dos melhores guias para os turistas caadores aqui no bayou - afirmou a grandmre. - Todos os crioulos ricos queriam que fosse ele a conduzi-los e nunca 
voltavam de mos vazias.

- Era um veado lindo, grandmre.

Ela fez sinal de quem estava a ouvir e a entender.

- e o pior  que eles no querem carne, s querem ganhar um trofu.

Olhando para mim durante alguns instantes, voltou a indagar: -O que foi que disseste ao Paul?

- Que no devamos ver-nos mais e que devamos sair com outras pessoas. Expliquei-lhe que queria ser artista e por isso tinha de conhecer outro tipo de gente, mas 
ele no acreditou em mim. No sei mentir muito bem, grandmre - lamentei-me.

-Isso no  um defeito, Ruby.

-  ,sim, grandmre - retorqui. - Este mundo  construdo sobre mentiras, mentiras e decepes. Os mais fortes e os bem sucedidos so aqueles que sabem mentir bem.

A grandmre abanou a cabea, entristecida.

-Neste momento isso parece-te verdade, mas no caias na tentao de odiar tudo e todos  tua volta. Aqueles a quem chamas fortes e bem sucedidos podem de facto parec-lo, 
mas no so realmente felizes, porque tm no corao uma sombra que no podem deixar de sentir e que lhes magoa a alma. No fundo, vivem aterrorizados, porque sabem 
que vo ter de conviver com essa sombra para sempre.

- A grandmre j viu tanto mal e tanta doena... Como  que pode sentir ainda esperana? - quis saber.

Ela,sorriu e suspirou.

-  quando se deixa de sentir esperana que a doena e o Mal nos vencem e ,a partir da, o que  que passamos a ser? Nunca percas a esperana, Ruby! Nunca deixes 
de lutar por ela aconselhou a grandmre. - Sei o quanto ests magoada e sei tambm como o pobre do Paul deve estar a sofrer, mas, tal como esta tempestade repentina, 
essa dor vai passar e o Sol volta a brilhar para ti.

"Sempre sonhei - continuou ela, vindo sentar-se a meu lado e passando a mo pelo meu cabelo - que o teu casamento seria como o casamento mgico da lenda cajun da 
aranha, lem-

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bras-te? Os nobres franceses importaram aranhas de Frana para o casamento da filha de um deles e depois libertaram-nas perto dos carvalhos e dos pinheiros para 
que elas tecessem uma cobertura de teia nos bosques. Depois salpicaram a teia com p de ouro e prata e fizeram o cortejo do casamento  luz de velas. Assim, a noite 
brilhou em redor dos noivos como uma promessa de vida cheia de amor e esperana.

"Um dia, vais casar com um bonito homem, um prncipe e tambm tu ters um casamento cheio de estrelas a brilhar prometeu a grandmre, beijando-me em seguida. Coloquei 
os braos em redor dela e deixei cair a cabea no seu ombro macio, chorando muito, enquanto a grandmre me acariciava e acalmava. - Chora, querida - dizia. - Assim 
como a chuva de Vero depressa cede lugar ao Sol, assim acontecer com as tuas lgrimas.

- oh!, grandmre - gemi -, no sei se consigo.

- Consegues - afirmou ela, levantando-me o queixo e fixando o meu olhar com aqueles seus olhos escuros e penetrantes que conseguiam vislumbrar espritos malignos 
e vises futuras. - Podes e vais conseguir.

A chaleira apitou, e a grandmre enxugou as lgrimas que entretanto lhe haviam molhado o rosto e beijou-me novamente antes de ir apagar o lume.

Mais tarde, nessa mesma noite, sentei-me  janela, observei o cu limpo e pensei se a grandmre estaria certa, se alguma vez eu viria a ter um casamento cheio de 
estrelas. O brilho do p do ouro e da prata danava no meu pensamento quando deitei a cabea na almofada, mas, mesmo antes de adormecer, vi novamente o rosto magoado 
de Paul e depois a boca aberta do veado, tentando lanar ainda um grito desesperado antes de cair morto no cho.
SE NO SOU EU,

QUEM  A MENINA PEQUENA?

As semanas anteriores ao Vero e ao final do ano escolar demoraram sculos a passar. Aterrorizava-me cada dia de escola que tinha de enfrentar, porque sabia que 
algures ao longo desse dia acabaria por encontrar Paul ou ele a mim. Nos primeiros dias aps a nossa terrvel discusso, ele continuava a
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lanar-me olhares furiosos sempre que me via. Os mesmos olhos azuis, suaves e encantadores, que me haviam fitado antes tantas vezes com amor, eram agora frios como 
gelo, e nada mais me ofereciam seno escrnio e desdm. Da segunda vez que nos cruzmos no corredor ainda tentei falar com ele.

- Paul - disse ento -, gostava de falar contigo, s para... Parecia no me ter visto nem ouvido, passando por mim como se eu ali no estivesse. Queria apenas que 
ele soubesse que eu no estava a namorar nenhum outro rapaz. Sentia-me pessimamente e passava a maior parte do dia com o corao to pesado como uma tonelada de 
ao.

O tempo no estava a ajudar-me a curar as feridas e ,quantos mais dias passavam sem nos falarmos, mais duro e frio Paul se ia tornando. O meu maior desejo era poder 
correr para ele e contar-lhe toda a verdade para que ele ao menos pudesse entender o que me levara a dizer-lhe todas aquelas crueldades naquele dia; porm, sempre 
que me decidia a faz-lo, ouvia de novo as duras palavras da grandmre Catherine: "Queres ser a causadora dessa inimizade e lev-lo a desprezar o prprio pai?" Ela 
estava certa; se o soubesse, Paul acabaria por me odiar ainda mais. Por isso, ia mantendo o silncio e deixava a verdade enterrada no fundo de um mar de lgrimas 
escondidas.

Muitas vezes sentia uma fria imensa por a grandmre Catherine e o grandpre Jack nunca terem revelado os segredos que sabiam e por fazerem da histria da minha 
famlia um mistrio profundo, mistrio esse que, dada a minha idade, eu j deveria ter conhecido h muito. Agora, obrigavam-me a ter um comportamento igual ao deles, 
ocultando a verdade de Paul, mas no havia nada que eu pudesse fazer. e o pior de tudo  que tinha de ficar parada,  espera que ele se apaixonasse por outra pessoa.

Sempre soubera que uma das raparigas da minha turma, Suzzette Daisy, tinha uma paixo antiga por Paul e ,como tal, no demorou muito para que ela comeasse a tentar 
conquist-lo. Contudo, ironicamente, quando Paul comeou a passar cada vez mais tempo com essa rapariga, eu senti um certo alvio. Pensava que, pelo menos assim, 
Paul empregaria o seu tempo a pensar mais nela e menos a odiar-me. Da outra ponta da sala, via-o sentado ao seu lado, almoando com ela, e pouco tempo
dePois j passeavam pelo corredor da escola de mos dadas.  claro que, sempre que os via a rir e a brincar juntos, uma parte de mim sentia cimes e uma enorme revolta 
por tamanha injustia. Soube depois que Paul lhe tinha oferecido o seu anel de turina, o qual ela usava com orgulho pendurado num fio de ou-

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ro, e passei essa noite acordada a molhar a almofada com as minhas lgrimas salgadas.

A maioria das raparigas que anteriormente haviam sentido cimes da afeio de Paul por mim alegrava-se agora com a minha infelicidade. Uma tarde de Junho, na casa 
de banho, Marianne Bruster chegou a dizer-me com desdm:

-Agora que foste trocada pela Suzzette Daisy, j no deves achar-te assim to especial.

As outras raparigas sorriram, esperando a minha resposta.
- Nunca me considerei especial, Marianne - respondi mas obrigada por o teres achado - acrescentei.

Por alguns instantes, ela ficou sem fala, abrindo e fechando a boca sem saber o que dizer. Tentei passar por ela e sair, mas Marianne colocou-se na minha frente 
e lanou o cabelo para a cara para logo depois o atirar para trs num movimento rpido e formar um crculo no ar. Com um sorriso de escrnio, colocou as mos na 
cintura e respondeu ento, meneando a cabea:

- Escusas de fingir que no te importas!... No sei por que razo s assim to convencida - continuava, cada vez mais furiosa e frustrada. - Fica a saber que no 
s melhor do que qualquer uma de ns!

-Nunca disse que era, Marianne.

-Quando muito, s pior do que ns! Afinal, s uma bastarda,  isso que s! - acusou ento, enquanto as outras manifestavam o seu acordo. Encorajada pelo apoio, Marianne 
agarrou-me o brao e afirmou: - O Paul Tate finalmente mostrou que no  parvo. Ele tem de escolher algum como a Suzzette e nunca uma cajun de classe baixa como 
tu, uma Landry!... concluiu.

Afastei-me e tentei em vo esconder as lgrimas enquanto corria. Era verdade: todos achavam que o Paul devia escolher algum como a Suzzette Daisy e diziam que os 
dois formavam um casal perfeito. Ela era bonita, tinha o cabelo claro e comprido e as feies perfeitas, mas, mais importante do que tudo, o seu pai era um dos homens 
mais ricos das empresas petrolferas. Tinha a certeza de que os pais de Paul deveriam estar maravilhados com a escolha do filho em relao  nova namorada; decerto, 
Paul no teria qualquer tipo de problemas em levar emprestado o carro dos pais para ir sair com a Suzzette.

Contudo, apesar do aparente contentamento acerca da nova namorada, eu no podia deixar de reparar nos olhares melanclicos que Paul por vezes me deitava, especialmente 
quando me via na igreja. A nova relao com a Suzzette e o tempo que passara aps a nossa separao tinham contribudo para acalmar a
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sua revolta inicial. Pensei mesmo que Paul estaria prestes a dirigir-me novamente a palavra, mas, todas as vezes que se aproximava, algo o detinha e o fazia mudar 
de direco.

Finalmente, e graas a Deus, o ano escolar terminou, pondo um fim ao meu contacto dirio com Paul, por mais breve que este tivesse sido. Fora da escola, vivamos 
de facto em dois mundos opostos, e j no havia nenhum motivo para Paul vir procurar-me.  claro que ainda o via aos domingos na igreja, mas ele evitava olhar na 
minha direco, especialmente na companhia dos pais e das irms. s vezes, julgava ouvir o motor da sua moto passando ao p de casa e corria depressa para a entrada, 
na esperana de o ver aparecer no pequeno trilho, como tantas vezes antes o fizera. Mas o som vinha sempre de uma outra moto ou de um motor de algum carro antigo 
que por ali passava.

Esses eram os meus dias de escurido, dias em que me sentia to triste e desanimada que tinha de fazer um esforo para sair da cama ao acordar. Tornando tudo ainda 
mais difcil de suportar, naquele Vero em especial, a humidade e o calor atingiram o bayou com uma intensidade tal que, quando a temperatura diria atingia os trinta 
graus centgrados, o valor da humidade situava-se apenas um ou dois graus abaixo. Dia aps dia, os pntanos mantinham a sua quietude, sem que a mais leve brisa do 
golfo soprasse para os agitar e nos aliviar um pouco.

O calor afectava muito a sade da grandmre Catherine, que se sentia cada vez mais incomodada pelas espessas camadas de densa humidade. Eu detestava quando a chamavam 
para ir tratar algum de uma picada de uma aranha ou de uma enxaqueca terrvel. A grandmre chegava quase sempre a casa exausta, esgotada, com a roupa encharcada, 
o cabelo colado  testa e as faces excessivamente coradas. No entanto, era apenas por estas suas viagens e pelo trabalho que a grandmre fazia que recebamos algum 
dinheiro ou algumas ofertas de alimentos, pois, durante o Vero, o movimento de turistas era praticamente nulo.

O grandpre Jack no oferecia quase nenhuma ajuda, faltando at com a inconstante assistncia que sempre nos dera. Ouvira dizer que ele estava a caar crocodilos 
com alguns homens de Nova Orlees que queriam vender depois as peles para fazer malas, carteiras e fosse o que fosse que a gente da cidade desejasse fazer com o 
couro das criaturas do pntano. Raramente o via, mas, quando ocasionalmente o encontrava, ele ia de canoa ou de barco a beber sidra caseira ou usque, satisfeito 
por ter convertido o dinheiro da caa em mais uma garrafa.

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Num fim de tarde, a grandmre Catherine regressou de uma das suas misses de traiteur ainda mais abatida do que era costume. Tive de correr para a ajudar a subir 
os degraus e em seguida caiu na cama.

- Grandmre, tem as pernas a tremer - gritei ao retirar-lhe os mocassins dos ps. Estavam inchados e com bolhas, especialmente na zona dos tornozelos.

- J fico bem - respondeu -, j fico bem. Vai buscar-me uma compressa fria para pr na testa, Ruby querida. Obedeci-lhe apressadamente.

-Vou descansar aqui mais um pouco at o meu corao acalmar - comunicou, esforando-se por sorrir.

- oh, grandmre, j no devia caminhar tanto. Est demasiado calor e j no tem idade para aguentar isso.

Ela abanou a cabea.

- Preciso de continuar a trabalhar - afirmou. - Foi para isso que o Bom Senhor me colocou neste mundo.

Esperei que a grandmre adormecesse e depois sa de casa e fui de canoa at  cabana do grandpre. Todas as tristezas e todos os dias de melancolia do ms e meio 
anterior transformavam-se em revolta e em fria pelas atitudes do grandpre. Ele sabia como era difcil para ns sobreviver naqueles meses de Vero; em vez de gastar 
na bebida todo o dinheiro que ganhava durante a semana, devia pensar em ns e visitar-nos mais vezes, pensei. Decidi tambm no voltar a referir esse assunto com 
a grandmre Catherine, pois ela nunca admitiria que eu tinha razo e nunca pediria um cntimo ao grandpre.

No Vero, o pntano era diferente. Alm do despertar dos aligatores que haviam hibernado com as caudas transformadas em reservatrios de alimentos, havia dzias 
de cobras, muitas aglomeradas em grupos e outras a escorregar pela gua como ervas verdes e castanhas. Havia tambm,  claro, nuvens de mosquitos e de outros insectos 
e coros de sapos gordos de olhar embasbacado que grasnavam com as suas gargantas ondulantes; famlias inteiras de nutrias e ratos-almiscarados andavam s voltas 
de um lado para o outro, parando apenas para me lanar um olhar desconfiado. Os insectos e os animais alteravam constantemente o pntano, inchando-o com casulos 
que no existiam antes e ligando as plantas e os ramos de rvores com as suas teias. Essas transformaes conferiam-lhe vida, como se o pntano fosse ele mesmo um 
animal imenso, agindo a cada mudana de estao.

Decerto, a grandmre Catherine ficaria aborrecida se soubesse que eu me atrevera a atravessar os pntanos no fim de
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um dia de Vero, tal como no aprovaria a minha visita ao grandpre Jack. Mas a minha revolta chegara ao extremo e obrigara-me a correr para fora de casa, saltar 
para a margem do pntano e puxar a canoa to depressa quanto me era permitido. Da a pouco, avistei a cabana do grandpre Jack l na frente, mas, ao aproximar-me 
mais, abrandei, pois o barulho era assustador.

Ouvi panelas a bater, mveis a estalar e a voz alterada do grandpre a gritar e a blasfemar. Uma pequena cadeira foi lanada pela porta e caiu na gua, afundando-se 
rapidamente; em seguida, um tacho teve o mesmo destino e depois ainda outro. Resolvi ento parar a canoa e esperar. Alguns minutos depois, o grandpre apareceu na 
varanda, completamente nu, com o cabelo em p, tendo na mo um chicote. Mesmo  distncia, podia ver que tinha os olhos raiados de sangue e o corpo coberto de lama 
e sujidade; tinha tambm alguns arranhes nas pernas e nos rins.

De repente, lanou no ar o chicote, deu um grito e agitou-o novamente. Percebi ento que deveria estar a lutar com alguma criatura imaginria, com alucinaes provocadas 
pelo lcool. Agrandmre j me tinha explicado que isso podia acontecer, mas eu nunca assistira a um ataque desse gnero. Ela tinha-me dito que, nessas alturas, o 
lcool encharcava de tal forma o seu crebro que lhe provocava delrios e vises de criaturas imaginrias, mesmo durante o dia. Mais de uma vez, o grandpre tivera 
um destes ataques dentro de casa e destrura muitos objectos de valor.

- Costumava ter de sair e esperar fora de casa at ele cair exausto e adormecer - contara-me. - Se no me afastasse, ele podia ferir-me sem se aperceber.

Recordando estas palavras, recuei a canoa at uma enseada pequena, de forma a que o grandpre no me visse chegar. Entretanto, ele continuava a dar chicotadas no 
ar, gritando tanto que at as veias do pescoo incharam, Numa das vezes, o chicote ficou preso numa das ratoeiras da varanda e ele no conseguiu retir-lo, mas interpretou 
este incidente como sendo o monstro a segurar o chicote. Completamente histrico, comeou a cambalear e a mexer os braos  sua volta, mas to rapidamente que, de 
onde eu podia ver, parecia mais um cruzamento entre um homem e uma aranha. Finalmente, a tal exausto a que a grandmre Catherine se referia sobreveio e ele caiu 
prostrado no cho da varanda.

. Fiquei  espera durante bastante tempo; estava tudo silencioso e assim permaneceu. Satisfeita por o grandpre estar in-
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consciente, aproximei a canoa das estacas da varanda e espreitei, vendo-o a dormir numa posio retorcida, sem dar conta dos mosquitos que se banqueteavam com a 
sua pele exposta.

Prendi ento a canoa e subi para a varanda. O grandpre parecia semimorto, com a respirao pesada e esforada. Como no podia levant-lo e transport-lo para dentro 
de casa, resolvi ir buscar uma manta para o cobrir.

Depois, sustive a respirao e cobri-o com a manta, mas os olhos dele nem sequer pestanejaram, j quase a ressonar. Senti um frio percorrer-me as costas. Todas as 
esperanas que sentira a seu respeito ficaram enterradas na viso e no cheiro que dele emanava, to intenso como se tivesse acabado de tomar um banho em usque de 
m qualidade.
Foi isto que ganhei em vir pedir a sua ajuda, grandpre disse-lhe furiosamente. -  um caso perdido. - Devido ao
seu estado de inconscincia, podia agora desabafar toda a minha raiva contida. - Que tipo de homem julga que  ?Como  que pde abandonar-nos  nossa sorte? No 
sabe como a grandmre Catherine est cansada? No tem respeito por si prprio?

"Detesto ter sangue Landry nas minhas veias. Detesto! gritei, cravando os punhos nas ancas. A minha voz ecoou pelo pntano, assustando uma gara e fazendo-a levantar 
voo, seguida de uma srie de outras; um aligtor ergueu a cabea da gua e olhou na minha direco. - Fique aqui, fique aqui no pntano a beber esse usque horrvel 
at cair morto. No quero mais saber! - voltei a gritar. As lgrimas rolavam-me pelas faces, lgrimas quentes de raiva e frustrao, e o meu corao batia descontroladamente.

Respirei fundo e fitei-o. Ele gemeu, mas no chegou sequer a abrir os olhos. Enojada, regressei para a canoa e percorri o caminho de volta a casa, sentindo-me mais 
desesperada e derrotada do que nunca.
Com o comrcio dos turistas praticamente inexistente e sem escola, tinha ento muito mais tempo disponvel para as minhas pinturas. A grandmre Catherine foi a primeira 
a reparar que os meus quadros estavam completamente diferentes. Iniciando-os geralmente com uma disposio melanclica, tinha tendncia a utilizar cores mais escuras 
e a retratar a vida do pntano  luz do crepsculo ou  noite, com a plida claridade de um quarto de lua ou da lua cheia a penetrar os ramos torcidos dos sicmoros 
e dos ciprestes. Os animais tinham um olhar penetrante e luminoso, e as cobras retorciam o corpo, posicionadas para atacar e matar qualquer intruso. A gua era sempre 
manchada, e o
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musgo cobria-lhe a superfcie como se algum ali tivesse estendido uma rede para apanhar o viajante desprevenido. At mesmo as teias de aranha, que eu costumava 
retratar com o mesmo brilho das jias, eram agora fiis  sua finalidade e passaram a ser simplesmente armadilhas. O pntano era um local sinistro, sombrio e deprimente 
e ,se por acaso inclua nos meus quadros a figura de meu pai, o seu rosto aparecia oculto nas sombras.

- No me parece que esses quadros possam agradar  maioria das pessoas, Ruby - afirmou um dia a grandmre, que estava por detrs de mim a ver-me retratar um outro 
pesadelo. No transmite um sentimento bom, no  o gnero de quadro que um apreciador de Nova Orlees gosta de pendurar em casa, na sala ou na casa de jantar.

-  como eu me sinto,  aquilo que eu agora vejo, grandmre. No posso impedir - expliquei-lhe.

Ela abanou a cabea e suspirou, entristecida, retirando-se para se sentar na cadeira de baloio. Cada vez passava mais tempo sentada nessa cadeira e muitas vezes 
adormecia. Mesmo nos dias enevoados, quando o tempo refrescava um pouco, a grandmre j no dava os seus passeios preferidos ao longo do canal. J no se preocupava 
em encontrar flores do campo, nem visitava as amigas tanto quanto antes costumava fazer. Se a convidavam para almoar, no aceitava e arranjava desculpas, argumentando 
que tinha isto ou aquilo por fazer, mas acabava quase sempre por adormecer numa cadeira ou no sof.

Quando no sabia que eu estava a observ-la, costumava respirar fundo muitas vezes, pressionando a mo contra o peito. Qualquer actividade, como lavar roupa no tanque, 
polir os mveis e at mesmo cozinhar, a cansava, necessitando de vrias pausas para retomar o flego.

Todavia, quando eu lhe perguntava algo sobre esse cansao, a grandmre arranjava sempre uma desculpa: estava cansada porque se tinha deitado tarde na noite anterior, 
sofria de lumbago, erguera-se depressa de mais e tudo o que evitasse confessar a verdade acerca da sua sade, que j no se encontrava bem h algum tempo.

Por fim, no terceiro domingo de Agosto, levantei-me, vesti-me e desci como de costume, para me aperceber ento de que era a primeira a acordar. Fiquei especialmente 
surpreendida por ser dia de irmos  igreja e ,quando ela finalmente apareceu, vinha sem cor e parecia muito envelhecida, to velha quanto os velhos das lendas cajuns. 
Cada vez que dava um passo curvava-se um pouco e mantinha a mo na cintura.

- No sei o que aconteceu - declarou. - H muitos anos que no me lembrava de dormir tanto.

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- Talvez no seja capaz de se curar a si prpria, grandmre. Se calhar as suas ervas e poes no actuam em si e por isso devia consultar um mdico da cidade - sugeri.

- Tolices. Ainda no encontrei a frmula certa, mas j falta pouco. Dentro de um ou dois dias j estou boa - jurou; passado esse prazo, porm, a sade da grandmre 
continuava fraca. Num momento conversava comigo, e noutro tinha adormecido na cadeira, de boca aberta e com o peito a arfar, como se cada inspirao representasse 
um esforo.

Apenas dois acontecimentos a fizeram despertar com a mesma energia que antes costumava apresentar. O primeiro foi no dia em que o grandpre Jack veio visitar-nos 
para pedir dinheiro. Eu estava sentada com a grandmre no alpendre, depois de jantar, grata pela breve frescura que o crepsculo trouxera ao bayou. A cabea da grandmre 
foi descaindo at o queixo descansar sobre o peito, mas, mal se ouviram os passos do grandpre Jack, a grandmre ergueu depressa a cabea e conservou-a aprumada, 
franzindo as plpebras numa expresso de suspeita.

- Quem vem a? - indagou, de olhos postos na escurido de onde ele emergiu como uma apario fantasmagrica vinda do pntano. Trazia o cabelo comprido a baloiar 
nos ombros, o rosto plido com a barba cinzenta mais comprida e suja do que o habitual e as roupas to sujas e enrugadas que dir-se-ia estarem em uso h muitos dias. 
 volta das botas a lama acumulada formava   uma massa densa que subia at aos tornozelos.

- No te aproximes - gritou a grandmre. - Acabmos de jantar e o cheiro vai azedar-nos o estmago.

- Ah, mulher! - exclamou ele, detendo-se, no entanto, a uns metros do alpendre. Retirou o chapu da cabea e segurou-o na mo, com alguns anzis pendurados na borda. 
- Venho aqui numa misso de misericrdia - afirmou.

- Misericrdia? Misericrdia por quem? - inquiriu a grandmre.

-- Por mim - respondeu, o que quase a fez rir. Baloiou um pouco a cadeira e abanou a cabea.
- Vens aqui pedir perdo? - perguntou depois.

- Venho pedir algum dinheiro - confessou o grandpre.
- O qu?!... - Ela parou de baloiar, estupefacta.

- O meu barco a motor foi parar ao inferno e o Charlie Mederinott no me adianta mais dinheiro para lhe comprar um em segunda mo. Tenho de ter um barco, se no, 
no posso ganhar dinheiro a guiar caadores e apanhar ostras - explicou.
- Eu sei que guardaste algum dinheiro e juro que...

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- De que serve o teu juramento, Jack Landry? s um homem amaldioado, um homem condenado, cuja alma j tem lugar reservado no inferno - respondeu ela com mais veemncia 
e energia do que aquela que tinha utilizado nos ltimos dias. Por alguns instantes, o grandpre permaneceu em silncio.

- Se eu puder ganhar algum dinheiro, pago-te logo - insistiu. A grandmre riu com desdm.

- Se eu te desse os nossos ltimos tostes, fugias daqui a correr para ir comprar uma garrafa de rum e ias encharcar-te nele at cares bbedo no cho - disse ela. 
- Alm disso acrescentou - no temos nada. Sabes como  o Vero no bayou para ns... No que isso te tenha preocupado muito concluiu.

-Fao o que posso - protestou ele.

-Por ti e pela tua sede maldita - disparou ela. Entretanto, eu olhava alternadamente para um e para outro. O grandpre parecia estar de facto desesperado e arrependido, 
e a grandmre Catherine sabia que eu tinha guardado o dinheiro dos meus quadros. Se ele estava realmente em apuros, eu podia emprestar-lho, mas receava sugerir semelhante 
ideia.

- s capaz de deixar um homem morrer de fome no pntano e servir de comida aos abutres - protestou ele.

A grandmre levantou-se ento devagar, exibindo o seu metro e meio de altura como se tivesse perto de um metro e oitenta, e ,de cabea erguida e os ombros recuados, 
estendeu o brao e apontou o dedo para o grandpre; este, surpreendido, abriu muito os olhos e ,cheio de medo, recuou um passo.

-Tu j s um homem morto, Jack Landry - declarou, com a autoridade de um bispo. - J serves de comida para os abutres. Volta para o cemitrio e deixa-nos em paz 
- ordenou.

- No sabes o que  ser crist - protestou ele, mas continuando a recuar. - No tens misericrdia. No s melhor do que eu, Catherine, no s melhor - declarou, 
at ter sido engolido pela escurido e desaparecer to depressa quanto havia aparecido. A grandmre ficou a contemplar o escuro nos minutos que se seguiram e depois, 
finalmente, voltou a sentar-se.

- Podamos ter-lhe dado o dinheiro da venda dos meus quadros, grandmre - disse eu ento, mas ela abanou vigorosamente a cabea.

- Esse dinheiro no  para ser tocado por ele - afirmou com determinao. - Um dia vais precisar de o utilizar, Ruby. Alm disso - acrescentou -, ele apenas faria 
o que eu disse, gastava-o em muitas garrafas de usque barato.

"0 descaramento deste homem! - continuou, falando qua-
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se consigo prpria. - Vir at aqui para me pedir dinheiro!... O descaramento dele!...

Fiquei a observar a grandmre a afundar-se na cadeira e a adormecer novamente e pensei ento que era horrvel ver duas pessoas que um dia se haviam beijado e abraado, 
que j se tinham amado e desejado a companhia um do outro, ser agora to ariscos e agressivos quanto dois gatos vadios que se encontram  noite num beco escuro.

A discusso com o grandpre aumentou o cansao da minha grandmre, que ficou to exausta que precisou da minha ajuda para se ir deitar. Fiquei depois sentada a seu 
lado a observar a sua face ainda corada e a testa molhada pelas gotas de suor. O peito subia e descia com o esforo da respirao, e eu temi que o seu corao simplesmente 
rebentasse com tamanha fria.

Nessa noite, deitei-me oprimida, temendo ser a nica a acordar na manh seguinte. Mas, graas a Deus, o sono retemperou-lhe as foras, e acordei com os seus passos 
em direco  cozinha, onde ia preparar o pequeno-almoo e iniciar em seguida mais um dia de trabalho na sala da costura.

Apesar da ausncia de compradores durante os meses de Vero, sempre que podamos continuvamos os nossos bordados e tecelagens, acumulando assim uma boa reserva 
de material para vender quando comeasse de novo o movimento. A grandmre negociava com os produtores de algodo e com os agricultores que cultivavam as folhas de 
palmeira que ela utilizava para fabricar chapus e leques; para obter tiras de madeira de carvalho para os cestos, dava em troca o seu gumbo caseiro. Sempre que 
passvamos por algum perodo de necessidade, em que julgvamos no ter nada mais para oferecer em troca de matrias-primas, a grandmre procurava melhor no seu cesto 
sagrado e encontrava sempre algum objecto de valor que lhe haviam oferecido como pagamento pelo seu trabalho de traiteur ou que ela havia guardado especialmente 
para essas fases difceis.

Foi a meio dum desses perodos difceis que ocorreu o segundo acontecimento que deu novo nimo e vigor  grandmre. O carteiro veio entregar um elegante envelope 
azul-claro com um desenho rendado dirigido a mim. Vinha de Nova Orlees e o remetente era simplesmente "Dominique's".

- Grandmre, recebi uma carta da galeria de Nova Orlees
- gritei, entrando a correr dentro de casa. A grandmre reteve a respirao e os seus olhos brilharam de contentamento.

- V, despacha-te, abre o envelope - exclamou, procuran-
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do uma cadeira. Eu sentei-me  mesa da cozinha e rasguei o envelope, de onde caiu um cheque no valor de duzentos e cinquenta dlares. Retirei tambm um carto que 
dizia o seguinte:

"Parabns pela venda de um dos seus quadros. Tenho interesse no seu trabalho e desejo contact-la em breve a fim de conhecer o que tem pintado desde a minha visita.

Atentamente, Dominique."

Eu e a grandmre Catherine ficmos a olhar uma para a outra e vi ento o seu rosto iluminar-se com o sorriso mais aberto e espontneo de h muitos meses. Fechou 
depois os olhos e rezou uma breve orao de gratido, enquanto eu continuava a observar, ainda incrdula, o cheque passado em meu nome.

- Grandmre, como  possvel? Duzentos e cinquenta dlares! S por um dos meus quadros!...

- Eu previ que isto iria acontecer. Eu disse-te - respondeu a grandmre. - Gostava de saber quem o ter comprado? Ele no diz nada na carta a esse respeito?

Li outra vez e abanei a cabea.

-No importa - afirmou ela. - A partir de agora, muitas pessoas o conhecero e outros crioulos ricos vo visitar a galeria para ver os teus quadros, e o Dominique 
dar a conhecer o teu nome: dir que o nome da artista  Ruby Landry - acrescentou, sorrindo.

-  Agora, grandmre, oia com ateno: vamos utilizar este dinheiro para comprar aquilo que nos fizer falta, no o vamos guardar no seu cesto para eu gastar no futuro.

-Talvez aproveitemos parte dessa quantia - aceitou ela mas a maior parte tem de ser posta de lado para ti. Vir o dia em que vais necessitar de melhores roupas, 
de sapatos e de outras coisas, e vais precisar de viajar tambm - afirmou com segurana.

- Para onde irei viajar, grandmre? - perguntei.

- Para longe daqui, para longe - murmurou. - Mas, por agora, vamos celebrar. Vamos fazer um gumbo de gambas e uma sobremesa especial. J sei! - exclamou. - Vamos 
fazer um bolo-rei. - Era um dos meus bolos favoritos: um anel de bolo levedado com frutas cristalizadas. - Vou convidar Mistress Thibodeau e Mistress Livaudis para 
jantar. Assim posso elogiar a minha neta  vontade e fazer-lhes inveja! Mas primeiro vamos ao banco levantar o teu cheque - resolveu a grandmre.

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A excitao e a felicidade da grandmre fizeram-me sentir uma alegria que h meses no conhecia. Desejei, no entanto, ter algum especial com quem partilhar aquela 
alegria e pensei em Paul. Exceptuando aos domingos na igreja, s o tinha visto uma vez durante todo o Vero, quando tinha ido  cidade comprar algumas mercearias. 
Ao sair da loja, vi-o sentado no carro  espera que o pai sasse do banco. Olhou para mim e eu julguei v-lo sorrir, mas nessa altura o pai dele apareceu e Paul 
virou a cabea e olhou em frente. Desapontada, fiquei a ver o carro afastar-se, sem que Paul olhasse para trs uma nica vez.

Eu e a grandmre fomos ento  cidade levantar o cheque. Pelo caminho, parmos em casa de Mrs. Thibodeau e depois na de Mrs. Livaudis para as convidar para o nosso 
jantar de comemorao. Ao chegar do banco, a grandmre comeou a cozinhar e a bater o bolo com uma energia e vigor que h meses no apresentava. Ajudei-a, e em seguida 
pus a mesa, que no centro tinha as notas de vinte dlares presas com elsticos, ideia que a grandmre tivera apenas para impressionar as suas velhas amigas. Quando 
estas viram o arranjo das notas e ouviram como eu as tinha ganho, ficaram atnitas. Havia muitos habitantes do bayou que trabalhavam o ms todo para receber a mesma 
quantia.

-Pois, mas eu no estou impressionada - afirmou a grandmre. - Sempre soube que um dia a Ruby ia ser uma artista famosa.

-oh!, grandmre... - exclamei, envergonhada por tanta ateno. - Ainda estou longe de ser uma artista famosa. -Agora ainda ests, mas um dia sers famosa. Espera 


vers - previu a grandmre. Servimos depois o gumbo e elas entretiveram-se a conversar sobre uma variedade de receitas. No bayou, existiam tantas receitas de gumbo 
quantos cajuns, pensei eu. Ouvir a grandmre Catherine e as amigas a discutir qual a melhor combinao de ingredientes e qual a melhor forma de fazer o roux divertia-me. 
A conversa animou-se ainda mais quando a grandmre decidiu servir o vinho que ela mesma fizera e que guardara para ocasies especiais. S um      copo desse vinho 
fez-me logo sentir a cabea s voltas e a cara a escaldar, mas a grandmre e as duas amigas bebiam copo aps copo como se fosse apenas gua.

A boa comida, o vinho e o riso recordaram-me outras alturas felizes, quando eu e a grandmre costumvamos ir a celebraes comunitrias e a comemoraes. A minha 
festa favorita fora sempre o "Bando da Noiva". Cada mulher trazia uma galinha para iniciar o bando da recm-casada e havia sempre muita
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comida, muita bebida, msica e dana. A grandmre Catherine, sendo uma traiteur, era sempre recebida como uma convidada de honra.

Depois de termos servido o bolo e o rico e espesso caf cajun, aconselhei a grandmre a levar Mrs. Thibodeau e Mrs. Livaudis para o alpendre, enquanto eu levantava 
a mesa e lavava a loia.

- No podemos deixar o trabalho todo para a homenageada - protestou Mrs. Thibodeau, mas eu insisti. Depois de ter acabado, reparei que as notas de vinte dlares 
continuavam em cima da mesa e fui perguntar  grandmre Catherine onde deveramos guard-las.

- Se no te importas, Ruby querida, guarda o dinheiro no meu cesto - sugeriu a grandmre. Fiquei surpreendida, pois a grandmre nunca antes me dera permisso para 
abrir o seu cesto e mexer naquilo que l estava dentro. Ocasionalmente, quando ela o abria, eu espreitava por cima do ombro da grandmre e via os guardanapos e lenos 
de linho com bordados delicados, os clices de prata e os colares de prolas. Recordava-me de sentir sempre imensa vontade de remexer em todos aqueles objectos, 
mas a grandmre Catherine sempre manteve o seu cesto incontaminado. Nunca me atreveria a mexer-lhe sem permisso.

Apressei-me a colocar a minha fortuna recentemente adquirida em lugar seguro. Quando abri ento o cesto, verifiquei como o seu contedo tinha diminudo. Do linho 
bordado j s restava memria e dos vrios clices de prata s restara um. A grandmre tinha negociado e penhorado muito mais do que eu me havia apercebido, e magoava-me 
verificar que a maior parte dos seus tesouros pessoais tinha desaparecido. Cada um daqueles objectos tinha para a grandmre um valor especial, superior ao valor 
material. Ajoelhei-me ao lado do cesto e contei o que restava: um nico colar de contas, uma pulseira, alguns lenos bordados e um mao de documentos e fotografias, 
presos com elsticos. Nesses documentos estavam includos os meus boletins de vacina, o diploma escolar da grandmre Catherine e algumas cartas antigas com a tinta 
to sumida que mal se conseguia decifrar.

Folheei o mao de fotografias e vi que a grandmre ainda tinha guardadas algumas do grandpre em novo. Como tinha Sido bonito, com pouco mais de vinte anos, alto 
e moreno, de Ombros espadados e cintura fina! Sorria, cheio de charme, para a fotografia e mantinha uma postura aprumada e orgulhosa. Era fcil imaginar o que levara 
a grandmre a apaixonar-se por aquele rapaz. Vi em seguida fotografias da me e do pai da

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grandmre, amareladas e desvanecidas, mas legveis o suficiente para concluir que a me da grandmre Catherine, a minha bisav, tinha sido uma mulher muito bonita, 
com um sorriso doce e bondoso e feies delicadas. O meu bisav pousara muito digno para a fotografia, com os lbios cerrados e uma expresso sria e compenetrada.

Guardei a pilha de papis e de fotografias antigas da famlia, mas, antes de colocar o dinheiro no cesto, vi a ponta de uma outra fotografia a sair da Bblia antiga 
da grandmre, encadernada em pele. Muito devagar, agarrei na capa gasta com cautela e abri as pginas enrugadas que tendiam a vergar nas pontas. Foi s depois que 
observei a fotografia.

Era de um homem muito bonito  frente de uma casa to grande que parecia uma manso, dando a mo a uma menina pequena que se parecia muito comigo naquela idade. 
Estudei mais de perto a fotografia e vi que a menina pequena era to parecida comigo que era como se estivesse a ver-me ali com aquela idade. De facto, a semelhana 
era to profunda que resolvi ir ao meu quarto buscar uma fotografia minha enquanto criana. Coloquei depois as duas fotografias lado a lado e observei-as mais uma 
vez.

Era eu, conclu. Mas quem era aquele homem e onde estava eu quando tiraram a fotografia? J tinha idade suficiente para me lembrar de uma casa daquelas, pensei, 
uma vez que no teria muito menos do que seis ou sete anos. Voltei a fotografia e reparei ento que tinha qualquer coisa escrita no canto inferior:

"Querida Gabrielle,

Julguei que gostarias de a ver no dia do seu stimo aniversrio. Tem o cabelo igual ao teu e  tudo aquilo que sempre sonhei que fosse.

Com amor, Pierre."

Pierre? Quem era Pierre? e aquela fotografia tinha sido enviada para a minha me? Seria ento este o meu pai e teria estado eu alguma vez com ele? Mas ento porque 
escreveria ele  minha me, se nessa altura ela j tinha morrido? Ser que ainda no tinha conhecimento da morte dela? No, isso no fazia o menor sentido, pois 
como poderia ele ter estado comigo, por pouco tempo que fosse, sem saber que a minha me falecera? e como podia eu ter estado com ele e no me lembrar de nada?

O mistrio de tudo aquilo revolvia-me a cabea como se esta estivesse invadida por um autntico enxame de abelhas, 
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crescia no meu peito uma sensao estranha de pressentimento e ansiedade. Analisei repetidas vezes a menina da fotografia e comparei as nossas feies. A semelhana 
era inegvel; eu tinha estado com aquele homem.

Respirei fundo e tentei acalmar-me, para que a grandmre e as amigas no notassem que algo me transtornara e abalara o mais ntimo da minha alma. Sabia o quanto 
me seria difcil, se no impossvel, ocultar um segredo da grandmre Catherine, mas felizmente ela estava to envolvida numa discusso sobre a confeco de um prato 
de caranguejo que nem notou a minha perturbao.

Por fim, as amigas da grandmre acharam que era altura de se retirar, mas antes voltaram a dar-me os parabns, abraaram-me e beijaram-me, enquanto a grandmre observava, 
orgulhosa. Vimo-las partir e s ento entrmos em casa.

- H muito tempo que no passava umas horas to agradveis - comentou a grandmre, suspirando. - e tiveste tanto trabalho a arrumar tudo, minha Ruby! - acrescentou, 
voltando-se para mim. - Estou to orgulhosa de ti, querida, 
Semicerrou os olhos ao olhar para mim. Apesar de toda a excitao provocada pelo vinho e pelas conversas com as amigas, os poderes espirituais da grandmre no tinham 
diminudo. Aproximou-se mais de mim, pressentindo rapidamente que havia algo de estranho.

- O que aconteceu, Ruby? - indagou imediatamente. O que  que te preocupa?

- Grandmre - comecei eu -, mandou-me ir l acima guardar o dinheiro no seu cesto.

- Sim - confirmou, com a respirao logo alterada. Recuou um passo, pousou a mo sobre o corao e perguntou: Andaste a remexer no que est dentro do meu cesto?

- No tive inteno de bisbilhotar, grandmre, mas fiquei interessada nas suas fotografias com o grandpre Jack e tambm nas dos seus pais... Depois, vi um papel 
a sair da sua Bblia antiga e descobri isto - expliquei, entregando-lhe a fotografia. Ela contemplou-a como se tivesse  frente uma imagem de morte e desgraa e 
logo em seguida sentou-se, segurando a fotografia.

-  Quem  esse homem, grandmre? e a menina pequena? Sou eu, no sou? - quis saber.

Ela ergueu a cabea e mostrou um olhar transtornado pela tristeza.

-No, Ruby - afirmou. - No s tu.

- Mas parece-se muito comigo, grandmre. Veja - retor-
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qui, mostrando-lhe a minha fotografia com cerca de sete anos e colocando-a ao lado da de Pierre e da menina. - Repare bem. A grandmre fez sinal que concordava.

- Sim, tem as tuas feies - disse, analisando as duas fotografias -, mas no s tu.

- Ento quem  ,grandmre, e quem  este homem da fotografia?

A grandmre hesitou. Tentei esperar pacientemente pela resposta, mas a ansiedade provocava-me ccegas no estmago e um aperto no corao.

-No reparei no que estava a fazer quando te pedi para ires guardar o dinheiro no meu cesto - comeou finalmente ela. - Bem... talvez tenha sido uma forma de a Divina 
Providncia me mostrar que chegou a hora.

- A hora de qu, grandmre?

- De tu saberes tudo - respondeu, atirando para trs as costas como se tivesse sido esbofeteada, com a expresso de fadiga j familiar estampada novamente no rosto. 
- Chegou a hora de saberes o motivo por que eu expulsei o teu grandpre e o levei a viver essa vida selvagem no pntano. - Fechou em seguida os olhos e murmurou 
algo imperceptivelmente, mas nessa altura a minha pacincia chegara ao limite.

- Se no sou eu, quem  a menina pequena, grandmre? indaguei. A grandmre fixou em mim o olhar, com a cor rosada das faces substituda por uma palidez assustadora.

-  a tua irm - respondeu. -A minha irm?!...

A grandmre fez um sinal afirmativo e fechou novamente os olhos, mantendo-se assim durante tanto tempo que eu julguei que no diria mais nada.

- e o homem que est com ela... - acrescentou finalmente. Nem precisava de o dizer, pois as palavras j tinham alcanado o meu corao.

- ...  o teu verdadeiro pai.
Tem UM LUGAR NO MEU CORAO

Se sempre soube quem  o meu pai, porque nunca me contou? Onde vive ele? Como  que eu tenho uma irm? Por que motivo esta histria teve de ser mantida em segredo 
e por-
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que  que levou o grandpre a viver no pntano? - disparei todas estas questes, uma aps a outra, num tom de voz impaciente.

A grandmre Catherine fechou os olhos. Eu sabia que era a sua forma de reunir foras, de alcanar aquela segunda identidade que lhe conferia a energia necessria 
para ser a grande curandeira que sempre fora para os cajuns de Terrebonne Parish.

Sentia o corao pesado, latejando com um ritmo acelerado que me magoava o peito.  nossa volta, o mundo parecia ter-se aquietado, como se cada insecto e at mesmo 
a brisa tivessem feito uma pausa  espera das respostas. Aps alguns instantes, a grandmre abriu os olhos escuros, agora tristes e sem brilho, e fixou-os em mim 
com determinao. Julguei ter ouvido um suave gemido antes da to esperada explicao.

- H muito que receio esta hora - confessou a grandmre. - e receio-a, porque, depois de teres ouvido tudo, irs perceber at que ponto o teu grandpre se afundou 
nas profundezas do inferno e da condenao. Receio-a tambm porque, depois de saberes tudo, vers como a curta vida da tua me foi muito mais trgica do que alguma 
vez imaginaste e compreenders quanto da tua prpria vida, famlia e histria te ocultei.

"Por favor, no me culpes, Ruby - pediu ela. - Sempre tentei ser mais do que tua av, tenho tentado fazer o que julguei ser o melhor para ti.

"Mas, ao mesmo tempo - continuou, contemplando por breves instantes as mos que pousara no colo -, tenho de confessar que fui, de algum modo, um pouco egosta tambm, 
porque quis manter-te junto a mim, quis manter algo da pobre filha que perdi. - Voltou ento a olhar para mim. - Pequei e ,meu Deus, perdoa-me, porque as minhas 
intenes no foram ms e tentei sinceramente fazer o melhor que podia por ti, mesmo admitindo que terias tido uma vida muito mais facilitada e muito mais confortvel 
se tivesse abdicado de ti no dia em que nasceste.

Endireitou-se um pouco e suspirou outra vez, como se comeasse finalmente a aliviar dos ombros e do corao um peso enorme.

- Grandmre, no importa aquilo que fez, no interessa aquilo que me contar. Vou am-la da mesma maneira como sempre amei - afirmei.

Ela sorriu docemente, mas depressa voltou a assumir a mesma expresso sria e pensativa.

- A verdade, Ruby,  que eu no poderia ter continuado a viver.. Nunca teria tido a fora, at mesmo a fora espiritual
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que eu nasci para expressar, se no te tivesse tido a ti ao meu lado durante todos estes anos. Foste a minha salvao e a minha esperana, tal como ainda o s. Contudo, 
agora que estou cada vez mais perto do fim dos meus dias aqui na terra, chegou a hora de abandonares o bayou e ires para o lugar que te pertence.

- e onde  esse lugar, grandmre?
- Em Nova Orlees.

- Por causa do meu trabalho de pintura? - indaguei, admitindo antecipadamente que seria essa a resposta acertada para a minha pergunta. Afinal, a grandmre j muitas 
vezes o afirmara antes.

-No apenas por causa do teu talento - respondeu, agitando-se na cadeira e continuando em seguida. - Depois de a Gabrielle se ter envolvido com o pai do Paul Tate, 
tornou-se muito mais solitria e isolada. No quis continuar a frequentar a escola, por muito que eu lhe pedisse, e assim acabava por ver apenas as poucas pessoas 
que vinham aqui a casa. Transformou-se numa pessoa selvagem, como se fosse parte da natureza do bayou, uma reclusa que vivia na Natureza e amava apenas os seus elementos.

"E a Natureza aceitava-a de braos abertos. As aves que ela tanto amava retribuam-lhe todo o seu afecto. Muitas vezes vi os falces do pntano a guard-la, voando 
de rvore em rvore para a acompanhar ao longo dos canais.

"Quando regressava dos seus passeios, que duravam quase a tarde inteira, trazia sempre no cabelo lindas flores do campo. A Gabrielle passava horas sentada  beira 
da gua, fascinada com os fluxos e refluxos e encantada com o canto dos pssaros. Comecei at a admitir que os sapos que se sentavam ao seu lado falavam realmente 
com ela.

"Nada. lhe fazia dano. At os aligatores mantinham uma distncia respeitvel, deitando os olhos fora da gua para a ver passear nas enseadas. Era como se o pntano 
e toda a vida animal a considerassem como um dos seus elementos.

"Costumava levar a nossa canoa e conduzia-a por entre os canais melhor ainda do que o grandpre Jack. Conhecia as guas do pntano como ningum e nunca ficou encurralada, 
nem lhe aconteceu nada de mal. Era capaz de ir at ao lugar mais escondido do pntano, e visitou stios raramente vistos pelos humanos. Se quisesse, teria podido 
ser uma guia do pntano melhor do que o teu grandpre - concluiu a grandmre.  medida que o tempo ia passando, a Gabrielle tornou-se ainda mais bonita. Parecia 
que era capaz de captar a beleza que a ro-
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deava: as faces desabrocharam como flores, a sua pele era to suave como uma ptala de rosa e os olhos to brilhantes como um raio de sol que irrompe ao meio-dia. 
Os seus passos eram mais suaves do que os de um veado do pntano, e esses, nunca tinham medo de se aproximar dela. Eu mesma a vi a acariciar-lhes a cabea - contou 
a grandmre.

Sorria com ternura ao recordar as suas memrias ainda to vividas, memrias essas que eu ansiava por conhecer.

- No havia som mais doce para mim do que o riso da Gabrielle - prosseguiu -,         nenhuma jia tinha mais brilho ou mais valor do que o seu lindo sorriso.

"Quando eu era pequena, muito mais nova do que tu, a minha grandmre contava-me histrias das chamadas fadas do pntano, as ninfas que habitam nas profundezas do 
bayou e s aparecem aos puros de corao. Como eu gostaria de ter visto uma! Isso nunca aconteceu, mas julgo que o meu desejo de infncia esteve muito prximo de 
se concretizar sempre que observava a minha prpria filha, a minha Gabrielle - comentou, limpando uma lgrima que lhe fugiu dos olhos e rolou pela face. Respirou 
fundo, recostou-se e s depois continuou.

-Pouco mais de dois anos aps o envolvimento da Gabrielle com Mister Tate, um bonito jovem crioulo chegou de Nova Orlees com o pai para vir caar patos do pntano. 
Na cidade, depressa os informaram sobre os servios do teu grandpre, que era, para dar a esse diabo o devido crdito - resmungou -, o melhor guia do bayou.

"Esse jovem rapaz, Pierre Dumas, apaixonou-se pela tua me assim que a viu pela primeira vez no pntano com um tecelo beb no ombro. Ela tinha o cabelo comprido, 
pelo meio das costas, de uma cor castanha muito escura com um tom arruivado. Tinha os olhos to negros como os meus, a tez morena do grandpre e os dentes mais brancos 
do que as teclas novas de um acordeo. Eram muitos os rapazes que, mal a viam, se encantavam por ela, mas a Gabrielle aprendera a desconfiar dos homens e ,sempre 
que um deles tentava falar-lhe, dava uma gargalhada suave e desaparecia to rapidamente que o deixava Provavelmente a pensar que tinha visto um esprito do pntano, 
uma das fadas da minha grandmre - contava a grandmre Catherine.

Nesse momento vi-lhe um sorriso nos lbios.

"Mas, por qualquer motivo, do Pierre Dumas ela no fugiu. oh!,  certo que ele era alto e vistoso e usava roupas elegantes. Mais tarde, porm, a Gabrielle confessou-me 
que algo de gentil e bondoso na expresso dele a cativara e ,por isso, no se senti-

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ra ameaada. Nunca vi ninguem apaixonar-se to profunda e rapidamente como o Pierre. Se ele pudesse ter abandonado os seus fatos elegantes naquele mesmo instante 
para ir viver com a Gabrielle para o pntano, decerto teria ido.

"Mas, na realidade, ele tinha j casado h pouco mais de dois anos. Os Dumas so uma das famlias mais antigas e mais abastadas de Nova Orlees - explicou a grandmre. 
- Nesse tipo de famlia, a linhagem nunca  quebrada e os casamentos so pensados e planeados de forma a manter o estatuto social e a proteger o sangue azul. Ajovem 
mulher de Pierre provinha igualmente de uma rica e respeitada famlia crioula.

"Contudo, para grande desgosto do pai de Pierre, Charles Dumas, durante todo esse tempo a mulher de Pierre no tinha conseguido engravidar. Aperspectiva de nunca 
vir a ter filhos era completamente inaceitvel para o pai de Pierre, e para o prprio Pierre tambm. Mas, como catlicos praticantes, no admitiam a ideia do divrcio, 
tal como no aceitavam a ideia de adoptar uma criana, pois Charles Dumas queria que o sangue da famlia corresse nas veias dos seus netos.

"Todos os fins-de-semana, o Pierre Dumas e o pai, mas mais frequentemente apenas o Pierre, vinham visitar Houma com o pretexto de vir caar patos. O Pierre comeou 
a passar mais tempo com a Gabrielle do que com o grandpre Jack, e eu, naturalmente, comecei a andar muito preocupada. Mesmo que o Pierre no fosse um homem casado, 
o seu pai nunca permitiria que ele se unisse a uma rapariga cajun, agreste e indomvel, sem qualquer linhagem nobre. Preveni a Gabrielle a esse respeito, mas ela 
olhou para mim e sorriu, como se eu lhe pedisse para impedir o vento.

"- O Pierre nunca faria nada para me magoar - insistiu ela. Ele comeou a aparecer cada vez mais frequentemente, sem necessitar de utilizar j os servios do grandpre 
como pretexto. O Pierre e a Gabrielle levavam um almoo leve e partiam na canoa para os stios que apenas ela conhecia.

A grandmre fez ento uma pausa na sua narrativa e pousou o olhar nas mos por um longo perodo de tempo. Quando ergueu de novo a cabea, o seu olhar revelava dor 
e angstia.

- Dessa vez, a Gabrielle no me disse que estava grvida. No precisou de o dizer, pois eu via-o na sua expresso e na sua barriga. Quando lhe falei sobre a gravidez, 
limitou-se simplesmente a sorrir, respondendo que desejava ter um filho do Pierre, uma criana que criaria no bayou e a quem ensinaria a amar a vida no pntano tanto 
quanto ela amava. Obrigou-me, no entanto, a prometer que, acontecesse o que acontecesse, eu
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me encarregaria de manter a criana aqui e lhe ensinaria a amar a Natureza. Deus me perdoe, mas acabei por ceder e fazer essa promessa, mesmo que me partisse o corao 
ver a minha filha grvida e saber como isso afectaria a sua reputao entre a nossa gente.

"Tentmos ocultar a verdade, inventando a histria da visita de um. estranho no fais dodo. Houve quem a aceitasse, mas a maioria no se importou. Afinal, era apenas 
mais um motivo para poderem desprezar os Landry. At mesmo as minhas melhores amigas sorriam quando me encontravam, e depois segredavam nas minhas costas; muitas 
das famlias a quem eu ajudara e tratara... foram as que mais contriburam para os boatos.

A grandmre respirou fundo mais uma vez, como se retirasse do ar a fora que necessitava para continuar.

- Sem eu saber, o teu grandpre e o pai do Pierre encontraram-se para discutir o incmodo nascimento dessa criana. O grandpre j tinha experincia em vender os 
filhos ilegtimos da Gabrlle. O vcio do jogo no melhorara nem um pouco. Perdera entretanto todo o resto de dinheiro que possua e tinha dvidas em toda parte.

"Por fim, durante o ltimo ms da gravidez da Gabrielle, o Charles Dumas apresentou a sua proposta: quinze mil dlares pelo filho do Pierre.  claro que o teu grandpre 
a aceitou de imediato. Em Nova Orlees, tramavam entretanto uma forma de fazer parecer que a criana era realmente filha da mulher do Pierre, e o grandpre Jack 
acabou por contar o plano  Gabrielle, que ficou completamente destroada. Fiquei furiosa com ele, mas o pior ainda estava por vir.

A grandmre mordeu o lbio inferior. Tinha os olhos inundados de gua, mas retinha as lgrimas com grande esforo, pois, conforme eu me apercebia, desejava contar 
a histria toda antes de se entregar quela mgoa antiga. Levantei-me depressa e fui buscar-lhe um copo de gua.

-Obrigada, querida - agradeceu ela. Bebeu depois um pouco de gua e assegurou: - Estou bem. - Sentei-me ento novamente, com os olhos, os ouvidos e a alma suspensos 
em cada gesto e palavra da grandmre.

-A minha pobre filha comeou ento a definhar com o desgosto. Sentia-se trada, mas no especialmente pelo pai, pois sempre aceitara as suas ms qualidades e fraquezas 
da mesma forma como aceitava as fealdades e crueldades da Natureza. Para a Gabrielle, as falhas do pai eram inevitveis, faziam parte do plano natural da vida.

"Contudo, ela no conseguia encarar da mesma forma a
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aceitao do Pierre quanto quele negcio e a sua obedincia ao plano do pai. O Pierre e a Gabrielle tinham feito um ao outro promessas secretas acerca do filho 
que iria nascer em breve. O Pierre oferecera-se para enviar dinheiro para ajudar a criar a criana, prometera vir visit-los mais assiduamente e tinha chegado mesmo 
a afirmar que desejava que o filho ou a filha fossem criados aqui no bayou, para que a criana fizesse parte da Gabrielle e do seu mundo, um mundo que o Pierre dizia 
amar ainda mais do que o seu, agora que tinha conhecido a Gabrielle e por ela se apaixonara.

"Quando o grandpre Jack lhe comunicou o que tinha sido combinado a respeito da criana e lhe contou como todas as partes estavam de acordo, a Gabrielle ficou to 
triste e magoada que no ofereceu qualquer resistncia. Em vez de reagir, ficava horas sentada nas sombras dos ciprestes e dos sicmoros, fitando o pntano como 
se o mundo que ela tanto amava tivesse igualmente conspirado contra ela. A Gabrielle sempre acreditara na magia do Bayou e reverenciara a sua beleza. Por isso, acreditara 
facilmente que tambm o Pierre se rendera aos seus encantos. Mas tinha aprendido entretanto que existiam verdades mais fortes, mais cruis e mais dificeis de aceitar; 
a pior de todas era o facto de a lealdade do Pierre ser muito maior ao seu prprio mundo e  sua famlia do que s promessas que lhe havia feito.

"Apesar de todas as minhas splicas e insistncias, a Ga-brielle deixou quase de se alimentar. Preparei toda a espcie de sumos e juntei-lhes ervas para substituir 
de alguma forma a falta de alimento e dar ao seu organismo a nutrio necessria, mas ou ela as recusava, ou a depresso que sentia era mais forte do que os efeitos 
das minhas bebidas. Nos ltimos dias de gravidez, em vez de desabrochar e se desenvolver, a Gabrielle ia ficando cada vez mais fraca e mais doente. Em redor dos 
olhos surgiram-lhe grandes sombras, e a sua resistncia era cada vez menor; no dava ouvidos a nada e dormia a maior parte do dia.

"Eu bem via como a barriga da Gabrielle aumentara, e  claro que sabia porqu, mas nunca disse uma s palavra sobre isto ao grandpre ou  Gabrielle, porque tinha 
medo que, assin, que ele soubesse, fosse a correr fazer um segundo acordo.
- Sabia o qu? - indaguei. - O qu?

- Que a Gabrielle estava grvida de gmeos.

Por uns instantes, o bater do meu corao cessou, ao dar-me conta das consequncias daquilo que acabara de ouvir.
- gmeos?... Ento, tenho uma irm gmea? - Essa pos98
sibilidade nunca me ocorrera, nem mesmo depois de ter visto o quanto me parecia com a menina na fotografia com Pierre Dumas.

- Tens. Foi ela o primeiro beb a nascer e aquele que eu entreguei ao grandpre naquela noite. Nunca esquecerei essa noite - desabafou ela. - O grandpre tinha informado 
a famlia Dumas que a Gabrielle iniciara o trabalho de parto. Eles vieram at aqui de limusina e esperaram l fora,  nossa porta. Trouxeram uma enfermeira, mas 
eu nem sequer permiti que ela entrasse em minha casa. Ainda me lembro de ver o fumo do charuto caro do pai do Pierre a sair da janela da limusina, enquanto eles 
esperavam impacientemente l fora.

"Mal a tua irm nasceu, limpei-a e entreguei-a ao grandpre, que julgou que eu estava a ser muito cooperante. Correu logo a entregar a criana e a recolher o seu 
maldito dinheiro. Quando ele regressou a casa, j tu estavas lavada e a dormir nos braos enfraquecidos da tua me.

"Assim que ele te viu, gritou e blasfemou. Queria saber por que motivo eu no o informara da segunda criana e perguntou-me se eu me apercebera de que tinha deitado 
a perder mais quinze mil dlares.

"Decidiu ento que ainda estava a tempo e quis arrancar-te dos braos da Gabrielle, para ir a correr atrs da limusina. Foi ento que lhe bati na testa com uma frigideira 
que conservara ao meu lado exactamente para esse fim, e ele caiu inconsciente no cho. Quando acordou, eu tinha embalado tudo aquilo que lhe pertencia em duas malas. 
Depois, expulsei-o de casa, ameaando-o de contar a toda a gente o que ele tinha acabado de fazer, caso se recusasse a sair. Atirei as malas para a rua e ele depois 
levou-as e foi viver para a cabana do pntano.  l que tem vivido desde ento - concluiu. - e bons ventos o levem!

- O que aconteceu depois  minha me? - perguntei em voz muito baixa, to baixa que nem eu tinha a certeza de ter falado.

Finalmente, as lgrimas da grandmre escaparam e correram-lhe pelas faces, serpenteando at ao queixo.

- Dar  luz as duas crianas, no seu estado enfraquecido, foi demasiado para ela. Mas, antes de fechar os olhos pela ltima vez, ainda olhou para ti e sorriu. Fiz-lhe 
rapidamente a minha promessa: iria criar-te aqui no bayou comigo e crescerias do mesmo modo que ela havia crescido. Conhecerias o nosso mundo e as nossas vidas, 
e um dia, na altura certa, saberias tudo aquilo que agora te contei.

"As ltimas palavras que a Gabrielle me dirigiu foram:
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Obrigada, ma mre, ma belle mre...

A grandmre deixou ento cair a cabea, e os seus ombros estremeceram. Levantei-me rapidamente e abracei-a, chorando com ela por uma me que eu nunca vira, nunca 
tocara, nem nunca sequer ouvira pronunciar o meu nome. O que me restara da minha me? Um pedao de uma fita que usara para prender o escuro cabelo ruivo, algumas 
roupas e uma ou duas fotografias velhas e sem cor. Nunca ter ouvido o som da sua voz ou sentido o toque do seu peito ao me abraar e consolar, nunca ter afundado 
a face nos seus cabelos, nem sentido os seus lbios nas minhas bochechas de beb; nunca ter conhecido esse riso to doce e -inocente de que a grandmre tanto falava, 
              nunca ter sonhado, como tantas outras raparigas que eu conhecia, vir a ser to bonita quanto a minha me: era essa a agonia que ela me tinha deixado.

Como poderia eu amar... Mesmo esse homem que descobrira ser o meu verdadeiro pai, mas que trara a confiana e o amor de minha me e a magoara tanto que a levara 
a definhar?

A grandmre Catherine enxugou as suas lgrimas e endireitou-se, sorrindo para mim.

Consegues perdoar-me por ter mantido este segredo at agora, Ruby? - perguntou.

Sim, grandmre. Sei que o fez pelo amor que me tem, para me proteger. O Meu verdadeiro pai chegou depois a saber o que aconteceu com a minha me e a ter conhecimento 
de que eu existia?

No -- esclareceu a grandmre, abanando a cabea. Esse  um dos motivos por que te encorajei a persistir no teu trabalho de pintura e por que sempre quis que expusesses 
os teus quadros numa galeria de Nova Orlees. Sempre tive esperana que, um dia, o Pierre Dumas ouvisse o nome da Ruby Landry e investigasse quem era.

"Durante todo este tempo, tenho sentido uma grande dor e culpa por nunca teres conhecido o teu pai e a tua irm. Agora, o meu corao diz-me que os deves conhecer 
e que em breve isso acontecer. Se algo me suceder, Ruby, tens de me prometer, tens de me jurar aqui e agora, que irs ter com o Pierre Dumas e lhe dirs quem s.

-No vai acontecer nada consigo, grandmre - insisti. Mas mesmo assim, promete-me, Ruby. No quero que fiques aqui a viver com aquele... canalha. Promete-me - exigiu 
ela.

Prometo, grandmre. Agora pare de falar nisso. Est fatigada e precisa de ir descansar. Amanh vai estar outra vez como nova! - exclamei.

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A grandmre sorriu e acariciou-me o cabelo.

- Minha linda Ruby, minha pequena Gabrielle! s tudo aquilo que a tua me sonhou que fosses - disse ento. Dei-lhe um beijo e ajudei-a depois a levantar-se.

Nunca a grandmre Catherine me pareceu to idosa a caminhar para o seu quarto. Acompanhei-a para me certificar de que estava tudo bem e ajudei-a a deitar-se. Em 
seguida, tal como ela tantas vezes antes fizera comigo, aconcheguei-a com o cobertor e ajoelhei-me ao seu lado para lhe dar um beijo de boas-noites.

- Ruby - murmurou ela, segurando-me a mo quando me preparava para sair -, apesar do que o teu pai fez, deve existir algo de muito bondoso no seu corao para a 
tua me o ter amado tanto. Procura nele apenas essa bondade. Deixa um lugar vago no teu corao para amar essa parte boa do carcter do teu pai e um dia encontrars 
paz e alegria - pediu a grandmre.

- Sim, grandmre - concordei, embora no conseguisse admitir algum outro sentimento pelo meu pai seno dio. Apaguei a luz e deixei a grandmre no escuro, a ss 
com os fantasmas do seu passado.

Fui depois at ao alpendre e sentei-me na cadeira de baloio, contemplando as estrelas e fazendo um esforo por assimilar tudo quanto a grandmre me revelara. Eu 
tinha uma irm gmea, que vivia algures em Nova Orlees e podia estar, nesse momento, a observar exactamente as mesmas estrelas. Mas ela no sabia da minha existncia; 
como reagiria quando um dia viesse a saber? Ficaria to feliz e contente com a perspectiva de me ver quanto eu tinha ficado com a ideia de a conhecer a ela? Tinha 
sido educada como crioula, num mundo rico de Nova Orlees. At que ponto isso nos tornaria diferentes, perguntei-me, no sem algum tremor.

e quanto ao meu pai? Tal como sempre pensara, ele nem sequer sabia que eu existia. Como seria a sua reaco? Seria capaz de me desprezar e de ignorar a minha existncia? 
Sentiria vergonha de mim? Como poderia eu ir ao seu encontro tal Como a grandmre Catherine esperava que acontecesse um dia? Era impossvel, pois s a minha presena 
seria o suficiente para complicar muito a sua vida. e ,no entanto... no podia deixar de sentir uma certa curiosidade. Como seria realmente ele, o homem que conquistara 
o corao da minha me, essa rapariga to bonita? O meu pai, essa misteriosa figura velada cujo rosto, nos meus quadros, ficava sempre oculto na sombra.

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Suspirei, contemplando atravs da escurido a parte do bayou iluminada pelo brilho prateado do luar. Sempre sentira a profundidade do mistrio que rodeava a minha 
vida e sempre ouvira os murmrios nas sombras. Na verdade, era como se os animais, os pssaros e especialmente os falces do pntano quisessem que eu tomasse conhecimento 
da minha verdadeira identidade e daquilo que realmente acontecera. As nuvens escuras do meu passado, as dificuldades das nossas vidas e todas as tenses e conflitos 
entre a grandmre Catherine e o grandpre Jack obrigavam-me a ser mais madura do que eu desejaria, apenas com quinze anos.

Por vezes, sentia um desejo profundo de ser igual s outras adolescentes que eu conhecia, que riam por tudo e por nada, livres das responsabilidades e preocupaes 
que me faziam sentir com muito mais idade do que realmente tinha. Mas o mesmo se passara com a minha pobre me. Com que rapidez esgotara a sua vida! Viveu alguns 
instantes como uma criana inocente, explorando, descobrindo e vivendo aquilo que devia ter-lhe parecido uma eterna Primavera; depois, subitamente, as nuvens escuras 
surgiram na sua vida, apagaram-lhe os sorrisos, deixaram-lhe o riso preso no pntano e levaram-na a enfraquecer e a envelhecer como uma folha seca no Outono prematuro 
da sua curta existncia. Se existir cu e inferno, pensei ento, existem aqui mesmo na terra; no precisamos de morrer para entrar num ou noutro estado.

Exausta, com a cabea a andar  roda com tantas revelaes, levantei-me da cadeira e dirigi-me rapidamente para a cama; fui apagando as luzes  medida que avanava, 
deixando assim um rasto de escurido atrs de mim e devolvendo o mundo aos demnios que se alimentam com sofreguido e sucesso dos nossos vulnerveis coraes.

Pobre grandmre, pensei, resolvendo rezar uma breve orao por ela. Passara por tanto sofrimento e tantas tragdias e ,no entanto, em vez de se ter tornado cnica 
e amarga, continuava a importar-se com o prximo e especialmente comigo. Nunca antes adormeci sentindo mais amor no corao pela grandmre; nunca antes teria acreditado 
que poderia chorar mais pela minha me, uma me que nunca chegara a conhecer, do que por mim prpria, mas foi exactamente isso que sucedeu nessa noite.

Na manh seguinte, a grandmre levantou-se  custa de muito esforo e foi para a cozinha. Do quarto, ouvi-lhe os passos lentos e pesados, e resolvi fazer todos os 
possveis para a animar e voltar a ver surgir aquela mulher forte e vibrante que
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ela sempre fora. Durante o pequeno-almoo, nem por uma vez mencionei o assunto da noite anterior, nem fiz mais perguntas sobre o passado. Em vez disso, tagarelei 
sobre o nosso trabalho e especialmente sobre a nova pintura que tencionava fazer.

- Vou pintar o seu retrato, grandmre - comuniquei.
- O meu retrato? oh, no, querida! Eu no sirvo de modelo para nenhuma pintura, sou velha, tenho rugas 

- Serve sim, grandmre, e ,para mim,  um modelo perfeito. Queria que se sentasse na sua cadeira de baloio, no alpendre. Vou tentar apanhar tambm a casa, mas o 
tema vai ser a grandmre. Afinal, quantos retratos haver de um curandeiro cajun? Tenho a certeza de que, se o pintar bem, muita gente de Nova Orlees estar disposta 
a pagar um bom dinheiro por esse quadro - acrescentei, para a persuadir.

- Eu no sou capaz de ficar sentada um dia inteiro a posar
- insistiu ela, embora eu j tivesse percebido que o faria. Dessa forma, a grandmre poderia descansar mais facilmente, sem sentir remorsos por no estar a tecer 
e a bordar as rendas das toalhas de mesa e dos guardanapos.

Iniciei naquela tarde o retrato.

- Vou ter de usar esta mesma roupa at acabares o quadro, Ruby? - perguntou-me ela.

- No, grandmre. Desde que tenha pintado uma roupa, no preciso de estar constantemente a observ-la. A imagem j ficou gravada aqui - expliquei, apontando para 
a cabea.

Trabalhei tanto e to esforadamente quanto pude naquele retrato, utilizando todo o meu talento para tentar capt-la o mais fielmente possvel. Ao fim de algumas 
horas de trabalho, a grandmre acabava por adormecer na cadeira, e eu detectava uma certa paz no seu descanso, que tentava transportar para a minha pintura. Um certo 
dia, resolvi pintar um tecelo na balaustrada e ,depois, tive a ideia de acrescentar o rosto de algum a espreitar  janela. No comentei nada com a grandmre, mas 
o rosto que pintei, utilizando as fotografias antigas como modelo, foi o da minha me.

A grandmre no pediu para ver o quadro durante os dias que levei a elabor-lo.  noite, deixava-o no meu quarto tapado com um lenol, pois queria fazer-lhe uma 
surpresa quando estivesse pronto. Um dia, finalmente, dei-o por terminado e ,nessa noite, anunciei-o  grandmre logo aps o jantar.

-Aposto que me fizeste parecer muito menos feia do que sou - insistia ela, sentando-se  espera que eu trouxesse o quadro e lho mostrasse. Durante largos momentos, 
a grandmre limitou-se a olh-lo, sem alterar a expresso do rosto e sem di-

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zer uma s palavra. Julguei que o quadro no lhe tinha agradado, mas, de repente, ela olhou para mim como se tivesse acabado de ver um fantasma.

- Herdaste-os - disse ento, num murmrio. -O que foi que herdei, grandmre?

- Os poderes, a espiritualidade. No da mesma forma como eu os possuo, mas de outra maneira, num poder artstico, numa viso. Quando pintas, tu s capaz de ver para 
alm do que as outras pessoas vem. Vs o ntimo.

"Senti muitas vezes o esprito da Gabrielle nesta casa afirmou, olhando em redor. - Quantas vezes no olhei para a casa e a vi  janela, sorrindo para mim ou contemplando 
pensativamente o pntano, um pssaro, um veado? e sabes, Ruby, via-a sempre assim - acrescentou, apontando para o quadro.
- Quando a pintaste, viste-a tambm. Ela estava na tua viso
- afirmou. - Estava nos teus olhos. Deus seja louvado! Abriu ento os braos para me poder abraar e beijar.

-  um quadro lindo, Ruby. No o vendas - pediu.
- No o venderei, grandmre.

Ela respirou fundo e limpou as pequenas lgrimas acumuladas nos cantos dos olhos. Fomos depois para a sala a fim de decidir onde haveramos de pendurar o quadro.

A julgar pelo calendrio, tinha chegado o fim do Vero, mas no para o bayou. A temperatura do ar e a humidade continuavam to elevadas como tinham estado em meados 
de Julho. O calor opressivo ondulava pelo ar, lanando sobre ns o seu peso, tornando os dias mais longos do que nunca e dificultando o cumprimento de cada tarefa, 
por mais simples que esta fosse.

No Outono e no incio do Inverno, a grandmre Catherine teve uma das suas habituais misses de traiteur, ministrando as suas poes  base de ervas e utilizando 
os poderes espirituais especialmente com os mais idosos. Estes ltimos consideravam-na muito mais eficaz e agradvel do que um mdico vulgar e pediam-lhe ajuda para 
as dores provocadas pela artrite, problemas de estmago e de coluna, dores de cabea e fadiga; a grandmre compreendia-os muito bem, porque sofria dos mesmos males.

No incio de Fevereiro, num dia em que o cu estava azul-claro e as nuvens se assemelhavam a tufos de fumo espalhados aqui e alm na amplitude do horizonte, um camio 
de caixa aberta aproximou-se da nossa casa, percorrendo o trilho com trepidao e tocando vrias vezes a buzina. Eu e a grandmre estvamos na cozinha a almoar.

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- Est algum a passar mal - declarou a grandmre, dirigindo-se para a porta de entrada to depressa quanto as suas pernas lhe permitiam.

Era Raul Balzac, um pescador de camaro que vivia a cerca de quinze quilmetros do bayoo. A grandmre era bastante amiga da sua mulher, Bernardine, cuja me tinha 
tratado muitas vezes do lumbago no ano anterior, antes de ela falecer.

-  o meu filho, Mistress Landry - gritou Raul do camio -, o de cinco anos. Tem um inchao que no pra de aumentar.

- Foi alguma picada de insecto? - indagou logo a grandmre.

-- No consigo encontrar nenhuma marca - respondeu Raul.

- No demoro, Raul - prometeu ela, indo depressa buscar o seu cesto de remdios e outros apetrechos para o tratamento espiritual.

- Quer que eu a acompanhe, grandmre? - indaguei, enquanto ela se apressava para sair.

- No, querida. Fica em casa e vai fazendo o jantar. Prepara uma das tuas deliciosas jambalayas - acrescentou, j a caminho do camio de Raul. Este auxiliou-a a 
entrar e depois afastou-se rapidamente, com o camio to baloiante como quando tinha aparecido. No o podia culpar por estar to assustado e ansioso, e mais uma 
vez senti orgulho da grandmre Catherine, pelo facto de ser sempre procurada para ajudar, ser sempre aquela em que todos confiavam.

Mais tarde, fiz o que a grandmre me pedira e fui preparar o jantar, ao som de algumas msicas cajuns recentes que ia ouvindo no rdio. Previram, entretanto, mais 
uma chuvada, acompanhada de uma grande trovoada. A esttica no rdio confirmava essa previso e como tal, no final da tarde, o cu adquiriu essa cor avermelhada 
e escura que sempre antecedia uma tempestade violenta. Estava preocupada com a grandmre Catherine e ,depois de ter fechado todas as janelas, fiquei  porta, esperando 
ver o camio de Raul chegar; mas a chuva chegou antes.

Comeou por cair granizo, mas logo depois a chuva intensificou-se de uma tal forma que parecia poder abrir buracos no telhado de metal. Camada aps camada, a gua 
era varrida atravs do bayou pelo vento intenso que agitava os sicmoros e os ciprestes, dobrando e torcendo os ramos e arrastando consigo folhas e galhos. Os troves 
distantes depressa se tornaram exPloses muito prximas, caindo como penedos em redor da ca-

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sa e iluminando o cu com fogo. Os falces guinchavam e tudo aquilo que tivesse vida tentava encontrar um abrigo para se esconder. A balaustrada do alpendre era 
sacudida pelo vento e pela chuva, que parecia agitarem e estremecerem a casa toda. No me recordava de ter assistido a alguma tempestade mais violenta, nem nunca 
antes ficara to assustada.

Finalmente, aps algum tempo, a tempestade comeou a amainar e as gotas pesadas perderam fora. O vento diminuiu e transformou-se apenas numa leve brisa; a noite, 
entretanto, caiu depressa; por isso no pude observar os estragos que a tempestade causara nos arredores do pntano, mas a chuva mida continuou a pingar durante 
horas e horas.

Julguei que Raul tivesse aguardado que a tempestade abrandasse para trazer a grandmre de volta; porm,  medida que as horas iam passando, a tempestade foi cessando 
at ficar reduzida apenas a um chuvisco e o camio no apareceu. O meu nervosismo aumentou e desejei ter um telefone em casa, como a
maioria dos habitantes do bayou, embora imaginasse que as linhas deveriam estar cortadas por causa da tempestade e ,como tal, pouca utilidade teria nessa hora.

O jantar h muito estava pronto e j tinha fervido no tacho. Apesar de a ansiedade me ter deixado quase sem apetite, acabei por comer um pouco e depois lavei a loua. 
A grandmre continuava sem aparecer. Passei a hora e meia seguinte no alpendre, contemplando o escuro na esperana de ver surgir os faris do camio de Raul. Ocasionalmente, 
um veculo aparecia, mas era sempre de outra pessoa.

Finalmente, quase doze horas aps Raul ter vindo buscar a grandmre Catherine, vi o camio dobrar a esquina e percorrer o nosso trilho. Distingui-o claramente, assim 
como distingui o
seu filho mais velho, Jean, mas no vi a grandmre. Mal o camio parou, desci os degraus a correr.

Onde est a minha grandmre? - gritei, antes que ele pudesse dizer alguma coisa.

-  Est l atrs - respondeu -, a descansar. -O qu?

Dei a volta ao camio e vi a grandmre Catherine deitada em cima de um colcho velho, com um cobertor por cima. O colcho estava assente numa base de contraplacado 
e era utilizado nas longas viagens como uma cama improvisada para os filhos de Raul.

-  Grandmre! - gritei. - O que se passa com ela? perguntei depois a Raul.

Desfaleceu, esgotada, h poucas horas. Queramos que
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ela dormisse em nossa casa at amanh, mas ela insistiu em que ns a trouxssemos para casa e no a quisemos contrariar. Mas conseguiu acabar com a febre do meu 
rapaz, que agora vai ficar bom - comunicou Raul, sorrindo.

-Estou feliz por isso, Mister Balzac, mas a grandmre Catherine...

- Ns levamo-la para dentro de casa e deitamo-la na cama disse ele, fazendo um sinal ao filho. Baixaram ento a parte de trs do camio e levantaram o colcho, retirando 
a grandmre Catherine. Ela mexeu-se e abriu os olhos.

- Grandmre - disse eu, segurando-lhe na mo. - O que sente?

- Estou apenas cansada, muito cansada - murmurou. Daqui a pouco, fico bem - acrescentou, mas fechou as plpebras to rapidamente que o meu medo aumentou.

- Depressa - pedi eu, correndo para lhes abrir a porta da frente. Eles levaram-na ento para o quarto e deitaram-na na cama.

- Precisa de alguma coisa, Ruby? - perguntou Raul.
- No, obrigada, eu tomo conta dela.

- Agradea-lhe mais uma vez por ns - pediu Raul. A minha mulher vai mandar-lhe alguma coisa durante a manh e ns depois passamos por aqui para ver como ela est.

Concordei e eles partiram. Retirei em seguida os sapatos da grandmre e ajudei-a a mudar de roupa. Ela comportava-se como algum que estivesse sob o efeito de drogas, 
mal mexendo os braos e as pernas. Nem sequer se apercebeu de que eu estava a deit-la.

Passei a noite sentada a seu lado, esperando que ela acordasse. Por duas ou trs vezes, a grandmre gemeu e murmurou algo, mas s despertou na manh seguinte, quando 
me tocou na perna com o cotovelo. Eu adormecera na cadeira ao lado da cama.
- Grandmre - exclamei -, como se sente?

- Estou bem, Ruby, apenas um pouco fraca e cansada. Como  que vim para casa e quem me deitou aqui? No me lembro. -Mister Balzac e o filho Jean trouxeram-na no 
camio e depois at aqui ao quarto.

-e tu passaste a noite toda ao meu lado? - perguntou.
- Passei.

- Pobre neta... - Tentou sorrir. - No provei a tua jambalaya. Estava boa?

- Estava, grandmre, apesar de eu estar demasiado preocupada consigo para conseguir comer muito. O que lhe aconteceu?
- Foi a tenso daquilo que tive de fazer, julgo eu. O pobre

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rapaz foi mordido por uma serpente venenosa, mas na planta do p, onde era difcil descobrir a picada. Estava a correr descalo  beira da gua e deve ter pisado 
uma -- explicou.

Mas, grandmre, nunca antes ficou assim to fatigada depois de uma misso de traiteur...

J passa, Ruby. Traz-me um copo de gua fria, por favor pediu ento.

Fui buscar a gua e ela bebeu-a devagar e fechou os olhos em  seguida.

Vou descansar mais um pouco e depois levanto-me, querida - comunicou. - Vai preparar o teu pequeno-almoo e no te preocupes comigo. Vai l - ordenou. Eu fui, embora 
com alguma relutncia. Quando voltei ao quarto para a ver, a grandmre tinha adormecido novamente.
Antes do almoo, ela acordou, mas tinha uma cor amarelada e os lbios roxos. Estava to fraca que no conseguia sentar-se sozinha. Auxiliei-a e depois pediu-me que 
a ajudasse a vestir.
- Quero sentar-me na varanda - afirmou.

- Tenho de ir buscar-lhe alguma coisa para comer. No, no. Quero apenas sentar-me na varanda. Apoiou-se totalmente em mim para poder erguer-se e caminhar. Nunca 
antes me sentira to assustada com o seu estado de sade. Quando a sentei na cadeira de baloio, parecia ter adormecido, mas, logo a seguir, abriu os olhos e dedicou-me 
um dbil sorriso.

-Queria beber um ch quente com mel, querida.

Fui imediatamente preparar o que me pedira, e depois vi-a beber alguns goles e baloiar suavemente a cadeira.

Afinal, parece que ando mais cansada do que pensava admitiu, lanando-me um olhar to distante que senti uma onda de pnico invadir o meu peito. - Ruby, no queria 
assustar-te, mas precisava que me fizesses um favor. Vai fazer-me sentir menos... menos ansiosa a meu respeito - murmurou, segurando as minhas mos entre as suas. 
Senti-lhe as palmas frias e hmidas.

O que  ,grandmre? - Senti nitidamente as lgrimas a tentar brotar dos olhos e a deter-se por detrs das plpebras. Tinha a garganta seca e o corao apertado, 
mal sentindo as suas batidas. O sangue corria-me gelado e as pernas tornaram-se subitamente to pesadas quanto duas barras de ao.

-Queria que fosses at  igreja chamar o padre Rush explicou ento.

O padre Rush? - O sangue deixou de afluir  minha cabea e senti as faces empalidecerem. - oh!, grandmre, porqu? Porqu?

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- S para prevenir, querida. Preciso de ficar em paz. Por favor, querida, s forte - implorou. Concordei e engoli rapidamente as lgrimas. "No vou chorar  frente 
dela", pensei, dando-lhe um beijo rpido na face.

Mas, antes de eu partir, a grandmre procurou de novo a minha mo e abraou-me.

- Ruby, no te esqueas da promessa que me fizeste. Se alguma coisa me suceder, no fiques aqui. No te esqueas.
- No vai acontecer-lhe nada, grandmre.

- Sim, querida,  s para prevenir. Promete-me mais uma vez. Promete!

- Prometo, grandmre.

-Vais ter com ele, com o teu verdadeiro pai?
- Vou sim, grandmre.

- Ainda bem - respondeu, fechando os olhos. - Ainda bem. - Fiquei a observ-la mais uns instantes e depois desci os degraus a correr e fui depressa at  cidade. 
Pelo caminho, as lgrimas brotaram e chorei tanto que o peito me chegou a doer. Cheguei to depressa  igreja que nem me recordo do caminho.

A governanta do padre Rush foi quem veio atender a porta. Chamava-se Addie Cocliran e j estava h tanto tempo com ele que era quase impossvel lembrar o tempo em 
que no trabalhava naquela casa.

- A grandmre Catherine precisa de ver o padre Rush comuniquei rapidamente, com um tom de pnico na voz. -O que  que aconteceu?

-Ela est... est muito... est...

- oh, meu Deus! Ele foi ao barbeiro, mas eu vou j avis-lo e peo-lhe que v j a vossa casa.

- Obrigada - respondi, correndo no sentido inverso at casa, com o peito quase a rebentar e as silvas a arranharem-me as pernas. A grandmre continuava sentada no 
mesmo stio, mas eu no me apercebi de que a cadeira no baloiava at atingir os primeiros degraus do alpendre. Estava sentada muito quieta, com os olhos semicerrados 
e um tnue sorriso nos lbios descoloridos. Esse sorriso feliz e despreocupado assustou-me.
- Grandmre - sussurrei, medrosa. - Est bem?

Ela no respondeu, nem olhou para mim. Toquei-lhe na face e apercebi-me ento de que j estava fria. Ca depois sobre os joelhos no cho da varanda e abracei as 
pernas da grandmre. Ainda estava na mesma posio quando o padre Rush finalmente chegou.

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A VERDADE VIR  TONA

Parecia que a notcia da morte da grandmre Catherine havia sido espalhada pelo vento que varria o bayou, a julgar pela quantidade de pessoas que to depressa ficaram 
a saber o que sucedera. A morte de um curandeiro era algo especialmente importante para a comunidade cajun, principalmente quando esse traiteur tinha a reputao 
da grandmre. Ao fim da manh, comearam a chegar alguns dos seus amigos e todos os nossos vizinhos; ao incio da tarde, dzias de carros e camies estavam estacionados 
 frente de casa, e continuavam a chegar cada vez mais pessoas para apresentar os psames. As mulheres traziam enormes tachos de ferro com gumbo ejambalaya, alm 
de pratos para servir, bolos e beignets. Mrs. Thibodeau e Mrs. Livaudis encarregaram-se do velrio e o padre Rush tomou a seu cargo os preparativos para o funeral.

Camada aps camada, as nuvens alongavam-se para sudoeste, obscurecendo o Sol e escurecendo o azul do cu. O ar pesado, as sombras escuras e o pntano sobrecarregado 
eram de facto apropriados para um dia to triste como aquele. Os pssaros pequenos quase no se mexiam e os falces do pntano e as garas permaneciam imveis como 
esttuas, observando, curiosos, o aglomerado de gente que se acumulava ao longo do dia.

Como ningum via o grandpre Jack h j algum tempo, Thaddeus Bute foi de canoa at  sua cabana para lhe dar a terrvel notcia. Todavia, regressou sem ele, murmurando 
algo s restantes pessoas, que de sbito me olharam com compaixo, indignadas.  hora do jantar, o grandpre Jack chegou finalmente, to sujo como se tivesse rebolado 
na lama. Trazia vestido as suas melhores calas e camisa, mas as calas tinham buracos nos joelhos e a camisa parecia precisar de ser batida numa rocha para amolecer 
o suficiente para que os braos coubessem nas mangas e os botes nas casas (onde os havia, isto  ).e , claro, as botas tinham camadas de sujidade e de lama.

No se preocupara sequer em pentear o comprido cabelo branco ou em aparar a barba, apesar de saber que iria encontrar muita gente em nossa casa. Nas orelhas e no 
nariz tinha pequenos tufos de pelos, hirtos e fortes. As espessas sobrancelhas alongavam-se para cima e para os lados, cobrindo-lhe a cara morena, onde as rugas 
mais fundas aparentavam estar cobertas h vrios meses por camadas de sujidade. O odor cido do l-
cool, da terra pantanosa, do peixe e do tabaco instalou-se em casa alguns instantes aps a sua chegada. Sorri sozinha, imaginando como a grandmre Catherine deveria 
estar a gritar ao grandpre, ordenando-lhe que mantivesse a devida distncia.

Mas nunca mais voltaria a ouvi-la gritar com o grandpre. Ela estava estendida na sala de estar, com uma expresso calma e tranquila, e eu sentara-me ao lado do 
caixo com as mos cruzadas sobre o colo, ainda muito chocada com a realidade, mas igualmente descrente, esperando a todo o momento despertar daquele terrvel pesadelo.

A chegada do grandpre Jack ps um fim ao respeitoso tagarelar que se ouvia pela casa. Mal este entrou em casa, o grupo reunido na entrada dispersou-se, como se 
receassem ser tocados por aquelas mos imundas. Nenhum dos homens se aproximou para lhe apertar a mo, nem ele procurou esse cumprimento, e as mulheres franziam 
o nariz mal lhe sentiam o bafo. Ele olhou para todas as caras naquela sala, mas, quando avistou a grandmre Catherine no caixo, ficou imvel de olhos fitos nela.

Olhou depois para mim intencionalmente e depois ainda para o padre Rush. Por alguns instantes, parecia que o grandpre no podia acreditar no que os seus olhos viam 
nem na presena de todas aquelas pessoas. Dir-se-ia que tinha as seguintes palavras na ponta da lngua e que a qualquer momento poderia perguntar: "Ela morreu mesmo 
ou isto  s um esquema que inventaram para me tirar da cabana e obrigar a vestir estas roupas?" Com essa expresso de cepticismo, foi-se lentamente aproximando 
do caixo da grandmre Catherine, com o chapu na mo. Deteve-se, porm, a pouca distncia e observou-a, aguardando. Vendo que a grandmere no se sentava para comear 
a gritar com ele, pde finalmente descontrair-se e voltar-se para mim.

-Como ests, Ruby? - quis ento saber.

- Estou bem, grandpre - respondi. Tinha os olhos muito vermelhos, mas secos, pois esgotara entretanto todo o meu reservatrio de lgrimas. Ele no disse nada e 
voltou-se, contemplando as mulheres que o fitavam com uma expresso mal dissimulada de nojo.

-Mas o que esto vocs a olhar? Um homem no pode velar a mulher morta sem que alguns intrometidos lhe segredem nas costas? Vo tratar das vossas vidas e deixem-me 
ter alguma privacidade! - gritou.

Chocadas e surpreendidas, as amigas da grandmre Catherine deram uma volta e ,de cabea baixa, dirigiram-se depressa
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para o alpendre, como um bando de galinhas assustadas. Apenas Mrs. Thibodeau, Mrs. Livaudis e o padre Rush permaneceram comigo e com o grandpre Jack na sala.

-O que foi que lhe aconteceu? - inquiriu o grandpre, com os olhos verdes ainda iluminados pela fria.

O corao desistiu de bater - respondeu o padre Rush, contemplando-a com ternura e abanando suavemente a cabea. Ela dedicou todas as suas foras e todo o seu tempo 
a ajudar

os outros, a confortar e a tratar os doentes e os aflitos e isso acabou por a esgotar, abenoada seja! - acrescentou.
Disse-lhe um bom nmero de vezes que devia parar de andar para cima e para baixo no bayou a ajudar toda a gente, a atender a todas as necessidades menos s suas, 
mas ela no ouvia nada. Teimosa at morrer. - declarou o grandpre. - Todas as mulheres cajuns so assim - acrescentou, fitando Mrs. Thibodeau e Mrs. Livaudis, que 
endireitaram os ombros 
esticaram o pescoo, como dois paves.
oh, no - exclamou o padre Rush, com um sorriso difano -, no se pode impedir uma alma to generosa quanto a de Mistress Landry de fazer aquilo que estiver ao seu 
alcance para auxiliar os necessitados. A caridade e a compaixo foram suas companheiras dirias - concluiu.

O grandpre protestou.

A caridade comea em casa, como eu bem lhe dizia, mas ela nunca me deu ouvidos. Mas tenho pena que tenha morrido; agora no sei quem vai condenar-me e rogar pragas... 
quem vai culpar-me e castigar por eu ter feito isto ou aquilo - declarou o grandpre, abanando a cabea.
- No seja por isso! Tenho a certeza de que h-de sempre
haver algum para o condenar Jack Landry - respondeu Mrs. Thibodeau comprimindo os lbios e encarando-o friamente.
H?... - O grandpre fitou-a por um momento, mas Mrs. Thibodeau passara demasiado tempo na companhia da grandmre Catherine para no saber como o encarar. Ele limpou 
a boca com as costas da mo e acabou por desviar o olhar, resmungando: - Sim, sim. - Entretanto, o aroma de comida que vinha da cozinha captou-lhe a ateno. - Bem, 
suponho que as senhoras devem ter trazido comida, no foi? - inquiriu.

H po na cozinha, gumbo no forno e caf quente na chaleira - comunicou Mrs. Livaudis com visvel relutncia. Eu sirvo-lhe um prato de comida, grandpre - disse
ento eu, levantando-me. Precisava de ter algo para fazer, de me manter ocupada e em movimento.

- Ah, obrigada, Ruby.  a minha nica neta, sabe? - afir-
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mou, dirigindo-se ao padre Rush. Eu voltei depressa a cabea e lancei ao grandpre um olhar inquisidor. Por um breve segundo, os olhos dele brilharam com aquela 
sua expresso maliciosa, mas depois sorriu e desviou o olhar de mim, ou no se apercebendo ou vendo que eu sabia a verdade, mas no se importando. - Ela  tudo o 
que tenho - continuou -, a nica famlia que me resta; vou ter de olhar por ela.

- e como espera poder fazer isso - inquiriu Mrs. Livaudis    se nem por si prprio sabe olhar, Jack Landry?

Sei muito bem o que fao e deixo de fazer. Um homem pode mudar, no pode? Quando acontece uma tragdia como esta, um homem muda, no muda, padre? No  assim?

- Se o arrependimento for sincero no seu corao, qualquer homem pode mudar - respondeu o padre Rush, fechando os olhos e unindo os lbios como se estivesse prestes 
a fazer uma orao nesse sentido.

- Oia bem o que foi dito, porque foi um padre que falou e no uma mexeriqueira qualquer - afirmou, o grandpre, espetando o seu dedo sujo e comprido na direco 
de Mrs. Livaudis. - Agora tenho outras responsabilidades: uma casa para manter e uma neta para sustentar. e ,quando digo uma coisa, nunca deixo de a cumprir!

- Se mais tarde ainda conseguir lembrar-se do que disse...
- ripostou Mrs. Thibodeau, que no lhe dava trguas.

O grandpre sorriu.

- Pois, mas eu vou lembrar-me... vou lembrar-me - repetiu. Lanou um novo olhar na direco do caixo da grandmre, mais uma vez como se se quisesse certificar de 
que ela no iria comear a protestar, e depois seguiu-me at  cozinha para comer. Sentou-se pesadamente numa das cadeiras da cozinha e atirou o chapu para o cho, 
olhando em redor, enquanto eu enchia um prato de gumbo.

- H tanto tempo que no entro nesta casa que at me parece estranha - afirmou. - e fui eu que a constru! - Servi-lhe uma chvena de caf e recuei uns passos, cruzando 
os braos e vendo-o devorar o gumbo, enchendo a boca e engolindo quase sem mastigar, com a comida a cair-lhe pelo queixo.

- H quanto tempo no comia nada, grandpre? - perguntei. Ele fez uma pausa para pensar.

- No sei... h dois dias comi camaro... ou tero sido ostras? - Encolheu os ombros e continuou a encher a boca de comida. - Mas agora a minha vida vai mudar - 
afirmou, com a boca j cheia. - Vou tomar um banho, mudar-me para esta casa e deixar que a minha neta tome conta de mim como deve ser, que  o mesmo que eu vou fazer 
por ela! - prometeu.

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No acredito que a grandmre tenha mesmo morrido, grandpre - murmurei, engasgando-me com as lgrimas. Ele encheu a boca com mais uma garfada.

-Nem eu - declarou. Teria jurado por mil demnios que iria antes dela. Pensei que aquela mulher nos enterraria a todos; tinha tanta fora! Era como uma raiz de uma 
rvore com muitos anos, agarrada quilo em que acreditava. Nem com uma manada de elefantes a conseguia demover! No se afastava um milmetro das suas ideias!
- Nem ela o pde demover a si, grandpre - retorqui prontamente, enquanto ele encolhia os ombros.

Pois, sou apenas um velho vagabundo cajun, demasiado estpido para distinguir o certo do errado, mas mesmo assim vou conseguindo sobreviver. Mas  verdade aquilo 
que eu disse
h bocado, Ruby: vou mudar muito e cuidar de ti, juro. - Ergueu a mo direita, coberta de sujidade, com as pontas dos dedos consumidas pelo tabaco. A sua expresso 
sria e compenetrada converteu-se ento num sorriso. - D-me mais um prato desta comida. H muito tempo que no comia nada to bom. Vale bem mais do que aquilo que 
como no pntano! - comentou, arrotando silenciosamente, com um leve assobio escapando por entre as abertas dos dentes em falta e com um tremor nos ombros.

Servi-lhe outro prato e depois voltei para o lado do caixo. No gostava de estar tanto tempo afastada da grandmre Catherine. No final da tarde, comearam a chegar 
os amigos e viznhos do grandpre, que inicialmente viriam para lhe prestar apoio e apresentar os psames, mas que logo depois se dirigiam para as traseiras da casa 
a fim de beber usque e fumar uns cigarros castanhos enrolados.

O padre Rush, Mrs. Thbodeau e Mrs. Livaudis ficaram o mais tempo possvel e prometeram voltar cedo na manh seguinte.
- Tenta descansar um pouco, querida Ruby - aconselhou Mrs. Thibodeau. - Vais precisar de muita fora para os prximos dias.

A tua grandmre teria muito orgulho de ti, Ruby acrescentou Mrs. Livaudis, acariciando-me a mo. - Agora tens de olhar por ti.

Mrs. Thibodeau lanou um olhar para as traseiras da casa, onde as gargalhadas se intensificavam de minuto para minuto. Se precisares de ns,  s chamar - afirmou.

Sers sempre bem-vinda em minha casa - acrescentou ainda Mrs. Livaudis antes de ambas sarem.

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As amigas da grandmre Catherine e alguns dos vizinhos tinham arrumado e limpo a casa antes de sarem. Nada mais me restava fazer seno despedir-me com um beijo 
da grandmre e ir deitar-me. Ouvi o grandpre Jack e os seus amigos a rir e a falar alto at de madrugada, mas, de certa forma, senti-me grata pelo barulho. Fiquei 
acordada durante horas, pensando se haveria algo que eu pudesse ter feito para auxiliar a grandmre Catherine, mas depois conclu que, se ela j no podia ajudar-se 
a si prpria, eu tambm no o poderia ter feito.

Finalmente, senti as plpebras to pesadas que fui obrigada a fechar os olhos. Ouvi uma gargalhada vinda da noite escura, depois distingui a voz do grandpre Jack, 
e em seguida tudo ficou silencioso. O sono, tal como um dos remdios milagrosos da grandmre Catherine, trouxe-me algumas horas de descanso e aliviou a dor no meu 
corao. Na verdade, senti-me to aliviada por aquele repouso profundo que, ao acordar na manh seguinte, cheguei a pensar que os acontecimentos do dia anterior 
no tinham passado de um terrvel pesadelo. Dentro de momentos, ouviria decerto a grandmre Catherine a descer as escadas e a entrar na cozinha para ir preparar 
o nosso pequeno-almoo.

Contudo, ouvi apenas o canto doce e suave dos pssaros da manh. Lentamente, a realidade do dia anterior instalou-se novamente e eu sentei-me na cama, imaginando 
onde teria dormido o grandpre Jack depois de se ter divertido o bastante com os seus amigos. Quando descobri que ele no estava no quarto da grandmre, admiti que 
talvez tivesse voltado para a cabana do pntano, mas, ao descer, descobri-o estendido no cho da varanda, com uma perna baloiando  beira do parapeito, o casaco 
enrolado debaixo da cabea e uma garrafa vazia de usque barato na mo direita.

- Grandpre - exclamei, abanando-o. - Grandpre, acorde.

- H?... - As plpebras tremeram e os olhos abriram um pouco, para logo depois voltarem a fechar-se. Abanei-o com mais fora.

- Grandpre, acorde. Devem estar a chegar pessoas a qualquer momento. Grandpre!

- H? O qu? - Manteve os olhos abertos o tempo necessrio para descobrir que era eu e depois bocejou; por fim, sentou-se. - Mas o que... - Olhou em volta e ,vendo 
a expresso de desapontamento no meu rosto, abanou a cabea. - Devo ter adormecido com o desgosto - explicou depressa. - s vezes, a dor provoca estas coisas, Ruby. 
Julgamos que podemos su-

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port-la, mas ela instala-se no corao e domina-nos completamente. Foi isso o que me aconteceu - comunicou, tentando convencer-se a si prprio to bem quanto a 
mim. - Desculpa, mas no consegui lidar com esta tragdia - acrescentou, esfregando os olhos. - Vou at s traseiras lavar-me com a gua da

cisterna e depois volto para vir tomar o pequeno-almoo. Est bem, grandpre - respondi. - Trouxe alguma outra roupa? -Roupa? No. Lembrei-me que existia no quarto 
da grandmre uma caixa com algumas coisas dele.

Ficaram c umas roupas suas que talvez ainda lhe sirvam - afirmei. - Vou busc-las.
- s muito simptica, querida, muito simptica. Estou a ver que vamos dar-nos muito bem: tu tratas de mim e da casa e eu cao e levo os turistas at ao pntano. 
Vou ganhar mais dinheiro do que nunca! Vou arranjar tudo o que estiver avariado e esta casa vai ficar to bonita e to nova como no dia em que terminei de a construir. 
Vais ver que em pouco tempo vou...

Mas, entretanto, grandpre, o melhor  ir lavar-se como h pouco disse. - Quanto mais no fosse, pelo menos para atenuar o odor que emanava das suas roupas e cabelo, 
ainda muito mais intenso do que no dia anterior. - Devem estar quase a chegar as primeiras pessoas - acrescentei.

Sim, sim. - levantou-se e reparou, surpreendido, na garrafa vazia de usque sobre o cho do alpendre. - No sei como consegui esta garrafa. Deve ter sido o Teddy 
Turner ou
algum outro amigo que me deu, por causa de alguma brincadeira estpida...

-Eu deito-a no lixo, grandpre - afirmei, apanhando-a rapidamente.
Obrigado, querida, obrigado. - Espetou depois o dedo direito e parou a pensar por alguns instantes, at finalmente se recordar. - Primeiro... lavar-me - dando a 
volta ao alpendre e encaminhando-se para as traseiras da casa. Subi ao primeiro andar e descobri a velha caixa de carto com as roupas. Tinha um par de calas e 
algumas camisas, bem como algumas meias arrumadas debaixo de um velho cobertor. Retirei tudo, engomei as calas e as camisas e dispu-las em cima da cama da grandmere.

-Vou fazer a estas roupas que estou a usar aquilo que a Catherine me diria para fazer - declarou ele, ao regressar a casa. - Vou queim-las! - Riu-se depois e eu 
pedi-lhe que subisse e vestisse as roupas que lhe havia preparado. Quando
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desceu, j eu tinha tomado o pequeno-almoo e Mrs. Livaudis e Mrs. Thibodeau comeavam a dispor a comida para quem viesse apresentar as condolncias. Ambas ignoraram 
o grandpre, apesar de este parecer um novo homem, lavado e vestido com outras roupas.

- Tenho de aparar o cabelo e a barba, Ruby - comunicou o grandpre. - Achas que, se eu me sentar num barril para apanhar gua da chuva, tu podes ajudar-me?

- Posso, grandpre - respondi. - Mas acabe de tomar o seu pequeno-almoo.

-Agradeo-te - disse ele. - Vamo-nos dar muito bem
- continuou, mais para Mrs. Thibodeau e Mrs. Livaudis ouvirem do que para mim, pensei. - Muito bem. Desde que os outros no se intrometam - acrescentou, incisivamente.

Logo depois de ter terminado de comer, peguei na tesoura e cortei o mximo que pude do seu cabelo comprido. A maior parte estava emaranhada e com piolhos, por isso, 
lavei-o primeiro com uma mistura feita pela grandmre Catherine para matar piolhos, pulgas e outros insectos pequenos. Ele sentou-se obedientemente, de olhos fechados 
e com um sorriso de gratido nos lbios. Aparei-lhe a barba e cortei os tufos de plos das orelhas e do nariz, retirando tambm o excesso das sobrancelhas. Quando 
terminei, recuei para admirar a minha obra e fiquei agradavelmente surpreendida e orgulhosa. Assim, j era possvel olhar para o grandpre e imaginar por que motivo 
a grandmre Catherine ou qualquer outra mulher se tinham sentido atradas por ele, quando novo. Ostentava ainda um brilho jovem e travesso nos olhos, e o feitio 
das mandbulas conferiam ao seu rosto a clssica forma atraente. Fi-lo depois olhar para o seu reflexo num bocado de espelho partido.

- Diabos me levem! Querem l ver.. Quem  este? Aposto que no sabias que o teu grandpre era uma estrela de cinema!
- comentou. - Obrigado, Ruby. - Uniu em seguida as mos e bateu uma vez as palmas. - Bem, agora vou cumprimentar alguns dos nossos amigos, vestido e arranjado como 
deve ser
- comunicou, indo sentar-se numa das cadeiras da varanda para representar melhor o papel do marido destroado, embora todos soubessem que j no vivia h anos com 
a grandmre Catherine.

Contudo, eu comeara entretanto a ponderar se no poderia ajud-lo a mudar. Por vezes, os acontecimentos dramticos contribuem para que as pessoas pensem na sua 
vida com maior Profundidade. Quase podia ouvir a voz da grandmre Catherine, admoestando: "Tens melhor sorte se tentares transformar

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um sapo num prncipe encantado." Mas talvez o grandpre Jack apenas necessitasse de uma outra oportunidade; afinal, pensei enquanto varria o monte de cabelo emaranhado 
que cara em redor do barril, ele era o nico membro que me restava da famlia cajun.

Nesse dia, tivemos tantos ou mais visitantes do que no dia anterior. Uma multido de caj'uns percorria quilmetros e quilmetros de distncia para vir apresentar 
a ltima homenagem  grandmre Catherine, cuja reputao se propagara muito para l de Terrebonne Parish e arredores, muito alm do que eu imaginara. e muitas das 
pessoas que iam chegando contavam histrias maravilhosas acerca da grandmre, relatos sobre a sua sabedoria simples, o seu toque milagroso, a eficcia dos seus remdios 
e a sua f sempre firme e cheia de esperana.

-Quando a tua grandmre entrava num quarto de um doente, com todos os familiares ali presentes assustados e amedrontados, era como se algum tivesse acendido uma 
vela na escurido, querida Ruby - dizia-me Mrs. Allard de Lafayette. Vamos sentir muito a sua falta!

Todos se aproximavam do caixo para se despedir pela ltima vez. Agradeci a todos as suas amveis palavras, e fui depois tentar beber e comer qualquer coisa. Nunca 
antes me ocorrera que estar sentada ao lado de um caixo a cumprimentar os visitantes podia ser to fatigante, apesar de saber que a constante presso emocional 
era mais difcil de suportar.

O grandpre Jack, apesar de no estar a beber, discutia animadamente na varanda do alpendre. De vez em quando, no resistia a lanar um grito de protesto e a comentar 
os seus temas preferidos:

- Aquelas malditas torres de petrleo com as cabeas fora da gua a transformar uma paisagem que existe h mais de cem anos... e tudo para qu? S para aumentar 
a riqueza de algum crioulo rico de Nova Orlees! Por mim, destrua-as todas. Eu...

Resolvi sair um pouco e fechei a porta atrs de mim. Era simptica a atitude de todos aqueles que vinham para nos confortar e apresentar os psames, mas comeava 
j a tornar-se demasiado pesado para mim. Sempre que algum vinha cumprimentar-me, no conseguia impedir que as lgrimas voltassem a correr e que a garganta me doesse 
mais do que alguma vez me doera com uma gripe de infncia. Alm disso, desde o falecimento da grandmre, sentia cada msculo do corpo rgido e dorido. Caminhei um 
pouco ao longo do canal, mas logo depois senti a cabea estonteada e vi tudo a girar ao meu redor.

- Ai... - gemi, levando a mo  cabea. Mas antes de me
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deixar cair para trs, fui envolvida por dois braos fortes que me ampararam com firmeza.

- Calma - exclamou uma voz familiar. Apoiei-me por alguns instantes no seu ombro e s depois abri os olhos e reconheci Paul. -  melhor sentares-te aqui nesta pedra 
- afirmou ele, conduzindo-me para a mesma pedra onde eu e ele tantas vezes nos havamos sentado lado a lado, atirando seixos  gua para contar os crculos que se 
iam formando na superfcie.

- Obrigada - respondi, permitindo que ele me guiasse. Paul sentou-se logo em seguida a meu lado e arrancou uma folha de erva do pntano, mordiscando-a.

- Desculpa eu no ter vindo ontem, mas pensei que terias muita gente que atender... - Sorriu. - No que hoje no tenhas. A tua av era uma mulher famosa e muito 
querida em todo o bayou.

-Eu sei. Nunca me apercebi tanto disso como agora respondi.

- Normalmente  sempre assim. No nos apercebemos da importncia que algum tem na nossa vida, at esse algum nos deixar - afirmou Paul, acentuando com o olhar 
suave o segundo sentido das suas palavras.

- oh, Paul, ela partiu! A minha grandmre Catherine -. - Chorei, caindo nos seus braos e dando livre curso s lgrimas. Ele acariciou-me o cabelo e chorou tambm, 
como se a minha dor fosse igualmente sua.

- Gostava de ter podido estar presente quando aconteceu
- afirmou. - Queria ter estado a teu lado.

Tive de engolir em seco duas vezes antes de poder voltar a falar.

- Nunca quis mandar-te embora, Paul. Fiquei com o corao partido quando te disse tudo aquilo.

- Ento, porque o disseste? - perguntou suavemente, com uma expresso de profunda mgoa nos olhos.

Podia imaginar o que ele no teria sofrido e tinha visto as lgrimas que agora chorara por mim. "No  justo. Porque temos ns de suportar tamanho sofrimento pelos 
pecados dos nossos pais?", pensei.

- Porque disseste aquilo, Ruby? Porqu? - indagou novaMente, suplicando uma resposta. Podia entender a sua confuso e aturdimento. As minhas palavras, ditas num 
local ali perto, tinham sido to inesperadas e abruptas que o tinham feito questionar a realidade. A revolta era a nica forma que Paul encontrara para lidar com 
tal surpresa, uma surpresa to inexplicvel.

Virei a cabea e mordi o lbio inferior. Sentia uma vontade
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incontrolvel de deixar escapar as palavras que me isentariam de toda a culpa.

-No foi por no te amar, Paul - comecei lentamente, encarando-o em seguida. As lembranas do nosso curto romance, dos beijos e das promessas, esvoaavam como borboletas 
queimadas na luz incandescente do meu desespero. - e tambm no deixei de te amar ainda - acrescentei suavemente.

- Ento qual foi a razo? Qual? - indagou ele, ansioso. O meu corao, to oprimido pelo desgosto e to fatigado de tristezas, comeou a latejar como um tambor, 
pesado, carregado e com o ritmo lento das batidas de uma procisso de um funeral. O que seria mais importante naquele momento, pensei eu: manter a verdade entre 
ns dois, duas pessoas unidas por um amor raro, um sentimento que exigia honestidade, ou manter uma mentira que preservaria Paul dos pecados do seu pai e asseguraria 
a paz na sua famlia?

- Porque agiste assim? - perguntou Paul novamente.
- Deixa-me pensar um pouco - pedi, afastando dele o olhar, que aguardava impacientemente a minha resposta. Tinha a certeza de que o corao dele batia to aceleradamente 
quanto o meu. Desejava muito poder contar-lhe a verdade, mas... e se a grandmre Catherine tivesse razo? e ,se, a longo prazo, Paul viesse a odiar-me mais por ser 
a mensageira de uma notcia to aterradora?

"Oh, grandmre", pensei eu, "no haver uma altura em que a verdade possa ser revelada, e em que as mentiras e os enganos devam ser denunciados?" Tinha conscincia 
de que, durante a infncia, podemos viver num mundo de fantasias e iluses; talvez isso at fosse necessrio, pois, se conhecssemos antecipadamente algumas das 
cruis verdades da vida, ficaramos destrudos antes de ter hiptese de construir as armaduras de que necessitamos para nos proteger das setas da injustia, da tristeza, 
da tragdia e ,sobretudo, daquelas que nos ferem com as verdades mais duras: que as avs e os avs, as mes e os pais morrem, tal como ns havemos de morrer um dia. 
Somos obrigados a concluir que a vida no  preenchida apenas por doces melodias, descobertas maravilhosas, aromas delicados e promessas eternas, mas tambm por 
tempestades, realidades dificeis e dolorosas e promessas que nunca sero cumpridas,

Decerto, Paul e eu tnhamos idade suficiente, pensei. Poderamos, certamente, enfrentar a verdade, j que tnhamos podido enfrentar o sofrimento e sobrevivido.

-Foi algo que sucedeu no bayou h muito tempo - comecei ento. - Algo que me obrigou a dizer-te tudo aquilo naquele dia.

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-Aqui, no bayou?

- Sim, aqui no nosso pequeno mundo cajum- confirmei.
- Foi algo que permaneceu em segredo, porque traria muito sofrimento a um grande nmero de pessoas, mas, s vezes, quando se tenta enterrar assim a verdade, mais 
tarde ela acaba por ser descoberta e vir  tona.

"Eu e tu - afirmei, fitando os seus olhos confundidos somos as verdades que foram enterradas no passado, mas que entretanto vieram  tona.

- No compreendo, Ruby. Quais verdades? e quais mentiras?

- Quando tentaram enterrar a verdade, nunca ningum imaginou que ns pudssemos vir a sentir amor um pelo outro, um amor no fraternal - expliquei.

-Ainda no consigo entender, Ruby. Como  que algum poderia adivinhar isso alguns anos atrs? e que importncia teria se o tivessem feito? - indagou, semicerrando 
as plpebras devido ao esforo que fazia para tentar compreender.

Era to difcil dizer a verdade de uma forma simples e directa. Por alguma razo, parecia menos penoso se fosse Paul a tirar as suas concluses e a formar as palavras 
no pensamento para depois as pronunciar por mim.

-,No dia em que perdi a minha me, tu perdeste tambm a tua - desabafei, finalmente. As palavras saram da minha boca como pequenas brasas incandescentes, mas, mal 
as pronunciei, senti a seguir um arrepio de frio to intenso que parecia que algum tinha despejado gua gelada pelo meu pescoo.

Os olhos de Paul percorreram todo o meu rosto, tentando compreender melhor o que acabara de afirmar.

-A minha me... morreu tambm?

De repente, Paul afastou o olhar, que ficou vago e distante, e concentrou-se nos seus pensamentos. Em seguida, as suas faces ficaram coradas e ele voltou a encarar-me, 
mas desta vez com um olhar muito mais intenso e inquiridor.

-O que queres dizer?... Que tu e eu somos... que somos Parentes? Irmos?... - perguntou, incrdulo. Eu fiz um sinal afirmativo com a cabea.

- A grandmre Catherine decidiu contar-me s quando viu O que estava a acontecer entre ns - respondi. Ele abanou a cabea, descrente. - Foi muito difcil para ela 
contar-me tudo. Agora, olhando para trs, acho mesmo que foi depois disso que a idade comeou a notar-se no seu andar, na sua voz e no corao. As feridas antigas, 
quando so abertas, doem mais do que da primeira vez.

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- Deve ser algum engano, uma velha fbula cajun, algum rumor sem sentido criado por essas mexeriqueiras - afirmou Paul, abanando com determinao a cabea e sorrindo.

- A grandmre Catherine nunca espalhou boatos, nunca alimentou as conversas sobre a vida dos outros, nem acreditou em boatos. Sabes que ela detestava esse tipo de 
comportamento. Desprezava as mentiras e muitas vezes era ela quem obrigava as pessoas a enfrentar a verdade. Foi o que fez comigo, apesar de saber que isso me partiria 
o corao. Era uma coisa que a grandmre tinha de fazer, embora lhe causasse tanto sofrimento quanto a mim.

"Mas eu j no consigo suportar o teu desprezo e o teu dio por julgares que eu quis magoar-te, Paul. Cada vez que me lanavas um olhar de raiva na escola, eu morria 
por dentro. Ainda agora, quase todas as noites adormeo a chorar por tua causa.  claro que no podemos continuar apaixonados, mas no aguento mais sermos inimigos.

- Nunca te considerei como uma inimiga. Apenas...

- Odiaste-me. V, agora j podes confess-lo. J no me magoa mais, depois de ter passado por tudo isto - respondi, sorrindo por entre as lgrimas.

- Ruby - exclamou Paul, abanando mais uma vez a cabea, descrente -, no posso acreditar naquilo que ests a contar. No posso acreditar que o meu pai... que a tua 
me...

- J tens idade suficiente para saber a verdade, Paul. Talvez eu esteja a ser egosta por te ter contado. - Catherine pediu-me que no o fizesse e avisou-me que 
provavelmente tu virias a odiar-me mais por semear a discrdia na tua famlia, mas eu j no consigo suportar mais mentiras entre ns, especialmente agora que a 
perdi e fiquei sozinha.

Paul encarou-me durante uns instantes e depois levantou-se e foi at  beira da gua. Fiquei a v-lo ali parado, atirando pedras, ponderando, meditando e tirando 
concluses acerca de tudo aquilo que eu acabara de lhe revelar. Conhecia bem o tumulto que lhe ia no corao e era-me familiar o sentimento de perplexidade que devia 
estar a enfrentar, pois sentira o mesmo quando soubera a verdade. Paul voltou ento a abanar a cabea, desta vez com mais vigor ainda e regressou para junto de mim.

- Em minha casa h muitas fotografias, fotografias da minha me quando estava grvida, fotografias minhas logo depois de nascer 

- So falsas - afirmei. - No passam de iluses, fabricadas para esconder os actos pecaminosos.

- No, ests enganada. Isto  tudo um engano terrvel, no
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percebes? - retorquiu ele, de punhos fechados. - e somos ns que estamos a pagar as consequncias desse engano. Tenho a certeza de que no pode ser verdade. - Acenava 
com a cabea, tentando convencer-se a si prprio. - Tenho a certeza!
- repetiu, aproximando-se mais de mim.

- A grandmre Catherine nunca me mentiria, Paul.

- No, a tua grandmre no te mentiria, mas talvez tenha pensado que, contando-te essa histria, te afastaria de mim, o que era bom, porque assim a minha famlia 
no poderia causar-nos mais aborrecimentos e sofrimento.  isso, tenho a certeza
- concluiu, contente com a explicao que acabara de encontrar. - Vou provar-te que tenho razo. Neste momento ainda no sei como, mas vou arranjar provas, e depois... 
depois podemos ficar juntos tal como sempre sonhmos.

- oh, Paul, como eu gostaria que tivesses razo    confessei.
- Eu tenho razo - respondeu, confiante.           Vais ver; ainda vou levar outra tareia por tua causa no prximofais dodo acrescentou, rindo. Eu sorri, mas desviei 
dele o olhar.

- e a Suzzette? -- perguntei ento.

- Eu no estou apaixonado pela Suzzette, nem nunca estive. Mas tinha de ter algum para... para...

- Para me fazer cimes? - conclu, fitando-o. -Sim - confessou ele.

- No te condeno por teres feito isso, mas acho s que foste um pouco convincente de mais - comentei, sorrindo. -Bem,  que... eu tenho habilidade para fingir.

Ambos rimos, mas eu voltei rapidamente a ficar sria e estendi-lhe a mo; ele ajudou-me a levantar e ficmos a escassos centmetros um do outro.

- No quero sofrer mais, Paul. Por favor, no deposites demasiada esperana na tua teoria. Promete-me que quando descobrires a verdade...

- No, vou descobrir uma mentira - insistiu ele.

- Promete-me - continuei -, promete-me que, se chegares  concluso que aquilo que a grandmre Catherine me contou  verdade, vais aceit-la tal como eu aceitei 
e vais amar outra pessoa da mesma forma. Promete-me.

- No posso - respondeu. - No posso amar uma outra Pessoa tanto quanto te amo a ti, Ruby.  impossvel.

Paul abraou-me e eu apoiei por alguns minutos a cabea no seu ombro. Ele apertou-me com mais fora e eu pude sentir o bater compassado do seu corao, por debaixo 
da camisa. Depois senti os seus lbios no meu cabelo e fechei os olhos, sonhando que estvamos muito longe dali, num mundo onde no existia a mentira nem o engano, 
onde a Primavera durava para sempre e o sol nos inundava o corao da mesma forma

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que nos tocava o rosto, abenoando-nos com uma eterna juventude.

O guincho esganiado de um falco do pntano fez-me erguer a cabea depressa. Ainda o vi caar um pssaro mais pequeno, que devia estar a aprender. a voar, e desaparecer 
levando nas garras a sua presa, sem se importar com o desespero da me pssaro.

-s vezes, detesto este lugar - desabafei. - s vezes sinto que no perteno aqui.

Paul olhou para mim com surpresa. -Claro que pertences aqui - respondeu.

Eu tinha debaixo da lngua o resto da minha histria, a existncia da minha irm gmea e do meu pai verdadeiro que viviam numa enorme casa algures em Nova Orlees, 
mas decidi no deixar escapar mais nenhuma verdade. Bastava de revelaes por aquele dia.

- Tenho de regressar a casa, para continuar a receber os visitantes - afirmei, comeando a encaminhar os meus passos na direco de casa.

- Eu acompanho-te e fico contigo todo o tempo que puder disse Paul. - Os meus pais mandaram comida e eu entreguei-a a Mistress Livaudis. Eles enviam os psames e 
teriam vindo aqui pessoalmente, mas...

Deteve-se a meio da sua explicao e sorriu.

-No vou perder tempo a arranjar uma desculpa. O meu pai no gosta do teu grandpre - comunicou.

Queria muito poder contar-lhe; queria continuar a falar com ele e revelar-lhe todos os pormenores que a grandmre Catherine me contara, mas pensei que tinha dito 
o suficiente. Ele mesmo iria descobrir a verdade por si prprio, at onde pudesse enfrent-la. A verdade era como uma luz muito brilhante, que, como seria de esperar, 
era difcil encarar de frente.

Limitei-me a Fazer um gesto que indicava que compreendia. Paul correu para junto de mim, dando-me o brao e regressando comigo para o velrio, onde se sentou ao 
meu lado, ainda sem se aperceber ou sem poder acreditar que era esse, de facto, o seu lugar. Afinal, era tambm a av dele que tinha morrido.
 DIFCIL MUDAR

O funeral da grandmre Catherine foi um dos mais importantes que alguma vez se celebrou em Terrebonne Paris, pois
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praticamente todos os que tinham marcado presena no velrio compareceram tambm na igreja e no cemitrio, alm de muitas outras pessoas. O grandpre Jack comportou-se 
da melhor forma possvel e usou as melhores roupas que tinha. Com o cabelo penteado, a barba aparada e as botas limpas e polidas, chegava a parecer um responsvel 
membro da comunidade. Apesar de me ter confessado j no ir  igreja desde o funeral da sua me, sentou-se a meu lado, cantou os hinos e recitou as oraes e tambm 
no cemitrio se manteve sempre a meu lado. Desde que no tivesse nas veias nenhuma dose de usque, era um homem calmo e respeitador.

Os pais de Paul vieram  igreja, mas no foram ao cemitrio, apesar de Paul ter aparecido sozinho e ficar  minha frente. No demos as mos, mas ele fez sempre notar 
a sua presena, atravs de um toque suave ou de uma palavra de conforto.

O padre Rush iniciou as suas oraes e depois pronunciou a ltima bno, aps a qual baixaram o caixo  terra. Foi ento que, quando eu pensava que no poderia 
sentir uma tristeza mais profunda na alma, nem o corao mais oprimido, descobri que ainda havia espao para uma mgoa maior dentro de mim. De alguma forma, apesar 
de a grandmre ter morrido, com o seu corpo ainda dentro de casa, vendo a sua calma expresso de repouso, no me apercebera ainda completamente do afastamento que 
a morte provoca, mas agora, ao ver o seu caixo baixar  terra, no podia manter a fora. No conseguia aceitar que ela j no estivesse presente para me cumprimentar 
todas ,as manhs e para me confortar antes de adormecer; no conseguia aceitar que j no trabalharamos mais lado a lado, lutando pela nossa sobrevivncia; no 
aceitava nunca mais ouvi-la cantarolar enquanto preparava um assado no forno ou quando se dirigia para uma das suas misses como traiteur. No tinha foras para 
tanto. Senti as pernas a amolecer como manteiga e a fraquejar, e nem Paul nem o grandpre puderam amparar-me antes de cair no cho e cerrar os olhos  realidade.

Acordei no banco da frente do carro que nos levara at ao cemitrio. Algum fora at ao riacho mais prximo molhar um leno, e a gua fresca e refrescante tinham 
auxiliado a recobrar a conscincia. Reconheci, ento, Mrs. Livaudis debruada sobre mim a passar as mos pelo meu cabelo e a seu lado Paul, com uma inegvel expresso 
de preocupao no rosto.

-O que aconteceu?

- Desmaiaste, querida, e ns trouxemos-te para o carro. Como te sentes agora? - perguntou ela.

- Bem - respondi. - Onde est o grandpre Jack?
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quis logo saber. Tentei sentar-me, mas senti a cabea outra vez  roda e tive de voltar a recostar-me no assento do carro.

- Foi-se embora - esclareceu Mrs. Livaudis com um trejeito de desagrado. - Com aqueles seus amigos do pntano, os de sempre. Tenta agora descansar, querida, que 
ns levamos-te para casa. Descansa - insistiu.

- Vou ficar ao teu lado - disse Paul, inclinando-se para mim. Eu tentei esboar um sorriso, mas depois voltei a fechar os olhos. Quando chegmos a casa, senti-me 
suficientemente forte para me levantar e subir os degraus da varanda. Havia um grupo de pessoas que estavam  espera apenas para ajudar, e Mrs. Thibodeau resolveu 
que seria melhor levarem-me at ao meu quarto, onde me descalaram e fizeram recostar, sentindo-me eu entretanto bastante mais envergonhada do que fatigada.

- Estou bem - insistia -, estou bem. Eu devia descer .:,
- Descansa apenas um pouco, querida - pedia Mrs. Livaudis. - Vamos trazer-te uma bebida fresca.

-Mas eu devia descer.. aquelas pessoas todas...

- Ns tratamos de tudo. Tenta descansar um pouco mais aconselhou Mrs. Thibodeau. Eu obedeci e ,entretanto, Mrs. Livaudis regressou com um copo de limonada fresca. 
Senti-me bastante melhor depois de a ter bebido e comuniquei logo esse facto.

- Se j te sentes com mais foras, ento podes querer ver o rapaz dos Tate, que est muito impaciente por subir. Anda para trs e para a frente ao p das escadas, 
mais nervoso que um pai  espera do nascimento do filho! - comentou Mrs. Livaudis, sorrindo.

-Sim, por favor, mande-o subir - pedi.

Deram ento permisso a Paul para vir at ao meu quarto. -Como te sentes? - perguntou, logo ao entrar.

-J estou bem. Desculpa ter dado tanto incmodo murmurei. - Queria que tudo tivesse corrido de uma forma calma e digna no funeral da grandmre.

-oh!, mas foi exactamente assim que tudo correu! Foi o funeral mais... mais impressionante a que j assisti. Ningum se lembra de ver outro com mais gente, e tu 
portaste-te muito bem. Todos entenderam o que sucedeu.

- Onde est o grandpre Jack? - perguntei. - Onde foi ele com tanta pressa?

-No sei, mas acabou de chegar h uns minutos. Agora est l em baixo, a cumprimentar as pessoas na varanda. -Esteve a beber?

-Um pouco - mentiu Paul.
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- Paul Tate, tens de praticar mais, se daqui para a frente decidires mentir-me - afirmei. - s to transparente como um vidro de cristal!

Paul riu.

- Ele vai ficar bem. So apenas demasiadas pessoas  sua volta - assegurou Paul; mas, mal acabara de pronunciar essa frase, ouvimos os gritos no andar de baixo.

- Que ningum me diga o que devo ou no devo fazer na minha prpria casa! - gritava o grandpre. - Podem at tirar as calas aos homens l nas vossas casas, mas 
aqui ningum me vai baixar as minhas! Agora mexam-se e vo-se embora depressa! Vo, desapaream!

A isto se seguiu um tumulto de vozes e mais gritos.

- Ajuda-me a descer, Paul! Tenho de ir ver o que ele est a fazer - pedi. Levantei-me em seguida, calcei os sapatos e fui at  cozinha, onde o grandpre, j cambaleante 
e com um jarro de usque na mo, encarava o grupo de visitantes reunido na entrada.

- Para que esto todos vocs a olhar? Nunca viram um homem de luto? Nunca viram um homem que acabou de enterrar a mulher? Parem de me olhar e vo tratar das vossas 
vidas! gritou, dando uma outra volta, cambaleando e limpando a boca com as costas das mos. Tinha os olhos em brasa. - Desapaream! - gritou novamente, vendo que 
ningum se mexia.

- Grandpre! - exclamei eu em voz alta. Ele fitou-me com os olhos turvos e lanou a jarra contra o lava-loua, que se desfez em mil pedaos e inundou o cho da cozinha 
de vidros e lquido. As mulheres gritaram e ele berrou ainda mais; era terrvel na sua fria, e assustador quando se movia com uma energia demasiado grande para 
um espao to pequeno.

Paul abraou-me e obrigou-me a subir uns degraus.

- Espera at ele se acalmar - aconselhou. Ouvimos novamente os gritos do grandpre e depois os visitantes a deixar a casa; as mulheres que tinham trazido as suas 
famlias seguravam as mos dos filhos e obrigavam-nos a entrar nos camies e nos carros, os quais os maridos conduziriam o mais breve possvel para bem longe.

O grandpre discursou e vociferou por mais algum tempo. Paul sentou-se ao meu lado na cama e segurou a minha mo, atentos aos rudos do andar de baixo. Finalmente, 
o barulho diininuiu e no ouvimos mais nenhum som.

- J se acalmou - conclu eu. -  melhor eu descer e comear a arrumar a casa.

- Eu ajudo - ofereceu-se Paul.

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Descobrimos o grandpre a ressonar numa das cadeiras da varanda. Lavei ento o cho da cozinha e varri os bocados de vidro, enquanto Paul levantava a mesa e colocava 
a moblia novamente no lugar.

- Talvez seja melhor voltares agora para casa, Paul afirmei mal terminmos as nossas tarefas. - Os teus pais devem estar preocupados com a tua demora.

- Detesto deixar-te aqui com esse... bbedo. Merecia ser trancado para sempre nalgum lugar distante, s por se comportar hoje desta forma! No est certo que ele 
fique aqui sem a presena da tua grandmre Catherine e no  seguro para ti ficares sozinha com ele.

- Eu estou bem. Sabes como ele fica depois de um ataque destes... dorme, dorme, e depois acorda com fome e arrependido daquilo que fez.

Paul sorriu, abanou a cabea e aproximou-se para me acariciar a face, com um olhar doce e meigo.

- Sempre optimista, a minha Ruby!

-Nem sempre, Paul - respondi melancolicamente. Nem sempre.

-Venho ver-te amanh de manh - prometeu -, para verificar se est tudo bem.

Eu concordei.
- Ruby, eu...

-  melhor ires, Paul - insisti. - No quero mais nenhuma cena dramtica por hoje.

- Est bem. - Deu-me ento um beijo rpido na face antes de se levantar. - Vou descobrir toda a verdade.

Tentei sorrir, mas a pele das minhas faces parecia porcelana, seca e quebradia, depois de tantas lgrimas e tristeza. Receava desfazer-me em pedaos diante de Paul.

- Prometo - acrescentou ele  porta, antes de sair. Deixei escapar um suspiro profundo, guardei alguma comida e fui para o quarto deitar-me novamente; nunca me sentira 
to cansada em toda a minha vida. Dormi durante a maior parte do resto do dia e ,se algum entrou em casa, no notei. Mas, no entanto, no fim da tarde, acordei com 
o tinir de tachos e panelas e com o barulho das moblias a serem arrastadas. Sentei-me durante alguns instantes, sentindo-me tremendamente confusa. Depois, recuperando 
o entendimento, levantei-me rapidamente e desci as escadas, descobrindo o grandpre de joelhos a arrancar algumas tbuas soltas do soalho. Todas as portas dos armrios 
estavam abertas e as panelas e frigideiras espalhadas pelo cho.

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- Grandpre, o que est a fazer? - indaguei. Ele voltou-se e fitou-me com um olhar que at ento nunca lhe conhecera, um olhar de raiva e acusao.

- Eu sei que ela o tem escondido em algum lugar nesta casa - afirmou. - No consegui descobri-lo no quarto dela, mas sei que deve estar em algum stio. Onde est, 
Ruby? Preciso de o encontrar! - resmungou.

- Precisa de encontrar o qu, grandpre?

- O dinheiro que ela escondeu. Tinha sempre uma quantia de parte para quando precisasse. Mas agora chegou o dia em que preciso eu desse dinheiro! Preciso de arranjar 
o motor do meu barco e tenho de comprar um equipamento novo, - Sentou-se sobre as coxas. - Agora tenho de trabalhar mais para nos sustentar a ns dois, Ruby. Onde 
est?

- No existe dinheiro nenhum escondido, grandpre. Ns tambm estvamos a passar por dificuldades. Uma vez cheguei at a ir  sua cabana para lhe pedir ajuda, mas 
encontrei-o cado no cho da varanda inconsciente - informei.

Ele abanou a cabea, com um olhar enraivecido.

- Se calhar ela nunca te contou. Ela era mesmo assim... Guardava segredos at dos que viviam na mesma casa. Mas eu sei que h aqui algures um dinheiro escondido 
- declarou, lanando olhares  sua volta. - Talvez demore algum tempo, mas eu encontro-o. Se no estiver dentro de casa, est enterrado l fora, no? Alguma vez 
a viste ou ouviste escavar l fora?

- No existe dinheiro nenhum, grandpre. Est a perder o seu tempo.

Tinha a verdade sobre o dinheiro da venda das minhas pinturas na ponta da lngua, mas era como se a grandmre Catherine ainda ali estivesse bem ao meu lado, proibindo-me 
de mencionar uma s palavra a esse respeito. Resolvi mesmo que, caso ele tencionasse vasculhar no cesto da grandmre, eu esconderia o dinheiro debaixo do meu colcho.

- Tem fome? - perguntei-lhe.

-No - respondeu de imediato. - Vou at l atrs procurar, antes que escurea - anunciou.

Depois de ele ter sado, voltei a guardar os tachos e as panelas nos armrios e depois aqueci comida para mim. Comi mecanicamente, mal conseguindo sentir o sabor 
dos alimentos; comia apenas porque sabia que o devia fazer, caso quisesse manter as foras. Em seguida, voltei para o quarto, onde podia ouvir o grandpre escavar 
e resmungar nas traseiras da casa, na sua busca frentica. Depois ouvi-o vasculhar no defumadouro e percorrer todo o anexo. Finalmente, acabou por se cansar da

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busca e resolveu regressar para casa, onde o ouvi ir  cozinha buscar alguma coisa para comer e para beber. A sua frustrao era to grande que gemia como um bezerro 
que acabara de perder a me e ,aps alguns minutos, j conversava com os fantasmas.

- Onde o guardaste, Catherine? Preciso desse dinheiro para tomar conta da tua neta, no preciso? Onde est?

Ao cabo de algum tempo, acabou por se aquietar. Sa em bicos de ps do quarto e espreitei pela porta, vendo-o deitado no cho da cozinha, com a cabea cada sobre 
os braos. Regressei ento ao meu quarto e sentei-me  janela, observando no cu o quarto de Lua que as nuvens escuras escondiam. Pensei que era a mesma Lua que 
iluminava o cu de Nova Orlees e tentei ento imaginar o meu futuro. Viria eu algum dia a ser rica e famosa e viver numa grande manso, tal como a grandmre Catherine 
previra?

Ou seria isso tudo tambm um sonho? Apenas mais uma teia a brilhar no escuro, uma miragem, uma iluso de jias tecidas na escurido, expectantes e promissoras, mas 
to vazias quanto o prprio brilho?

Nunca antes na minha vida passara por um perodo em que o tempo parecesse correr mais devagar do que nos dias que se seguiram ao funeral da grandmre Catherine. 
Cada vez que olhava para a janela da sala de costura e via no parapeito o antigo relgio de lato j sem brilho, emoldurado na caixa de cerejeira, verificava que 
em vez de uma hora haviam passado apenas dez minutos e ficava surpreendida e desapontada. Tentava preencher todos os minutos e mantinha sempre as mos e o pensamento 
ocupados para no ter tempo de pensar e chorar, mas, por mais que trabalhasse, existia sempre tempo para recordar.

Uma recordao que voltava sempre com insistncia era a lembrana da promessa que eu fizera  grandmre Catherine, caso algo lhe acontecesse. No prprio dia do seu 
falecimento ela me tinha recordado essa promessa e eu repetira-a, conforme a sua vontade. Tinha prometido no ficar no bayou a viver com o grandpre Jack. O desejo 
da grandmre Catherine era que eu fosse para Nova Orlees em busca do meu pai e da minha irm, mas s a ideia de abandonar o bayou e apanhar um autocarro para uma 
cidade que me era to estranha quanto distante deixava-me aterrorizada. Tinha a certeza de que iriam reparar em mim com a mesma facilidade com que se nota um lagostim 
num prato de gumbo de pato. Todos em Nova Orlees olhariam para mim e pensariam: "Ali vai uma ignorante rapariga cajun a viajar sozinha", e seria certamente objecto 
de riso e de troa.
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Nunca antes viajara para longe, especialmente sozinha, mas no era o medo da viagem, nem sequer o tamanho da cidade ou o desconhecimento da vida citadina o que mais 
me assustava; aquilo que realmente me aterrorizava era imaginar a reaco do meu pai quando eu revelasse quem era. O que diria ele? e o que faria eu, caso o meu 
pai me fechasse a porta na cara? Depois de ter abandonado o grandpre Jack e de ter sido rejeitada pelo meu pai, para onde iria?

J lera o suficiente acerca dos males da vida nas cidades para conhecer os horrores dos bairros de lata e os destinos terrveis que aguardavam as raparigas jovens 
da minha idade. Tornar-me-ia eu numa dessas mulheres de que ouvira falar, que frequentavam bordis para proporcionar prazeres sexuais aos homens? Se no, que outro 
tipo de trabalho poderia eu encontrar? Quem contrataria uma jovem cajun com uma educao limitada e com aptido apenas para alguns trabalhos artesanais? J podia 
imaginar-me a dormir numa sarjeta, rodeada de outros forasteiros desesperados, sem eira nem beira.

No, era bem mais fcil adiar a promessa e passar a maior parte do dia trancada na sala de costura, tecendo os linhos e os atoalhados, como se a grandmre Catherine 
ainda estivesse viva e esperasse apenas terminar alguma tarefa na cozinha para vir juntar-se a mim. Era mais fcil fingir que precisava de acabar um trabalho que 
ela iniciara, mas que no pudera terminar porque fora chamada para tratar algum; era mais fcil fingir que,nada havia mudado.

 claro que parte do meu dia ficava preenchida com os cuidados que dedicava ao grandpre Jack, preparando-lhe as refeies e arrumando o que ele deixava desarrumado, 
o que, alis, parecia uma tarefa interminvel. Todas as manhs lhe fazia o pequeno-almoo antes de ele ir pescar. Ele ainda no tinha desistido da ideia de encontrar 
as poupanas da grandmre e ,como tal, passava todos os momentos livres a cavar e a procurar. Quanto mais buscava sem nada encontrar, mais acreditava que eu escondia 
o que sabia.

-A Catherine no era pessoa para morrer e deixar algo enterrado sem dizer a ningum o stio - declarou uma noite enquanto jantava. Em seguida, os olhos verdes do 
grandpre escureceram ao lanar-me um olhar de suspeita. - No voltaste a enterrar o dinheiro nos stios em que eu j procurei, pois no, Ruby? No me admirava nada 
se a Catherine te tivesse dito para fazeres isso antes de morrer.

- No, grandpre, j lhe disse muitas vezes que no existe nenhum dinheiro escondido. ramos obrigadas a gastar tudo
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quanto ganhvamos. Antes da grandmre morrer, dependamos dos seus tratamentos para viver e ,como deve saber, a grandmre detestava aceitar dinheiro por ajudar as 
pessoas. - A expresso sincera dos meus olhos deve t-lo convencido, pelo menos por algum tempo.

-  exactamente isso - comentou, pensativo, enquanto mastigava. - As pessoas davam-lhe presentes e dinheiro tambm, tenho a certeza. S espero que no tenha deixado 
nada a uma dessas mexeriqueiras, especialmente a Mistress Thibodeau. Numa destas noites ainda vou fazer-lhe uma visita! anunciou.

- No deve fazer isso, grandpre - avisei.

- Porque no? Esse dinheiro no lhe pertence a ela, mas a mim... isto  ,a ns.

- Mal o visse subir os degraus do alpendre, Mistress Thibodeau chamava logo a Polcia e mandava prend-lo! - adverti-o. - Foi ela mesma quem mo disse. - Mais uma 
vez, lanou-me um olhar penetrante antes de baixar os olhos para o prato.

- As mulheres esto sempre combinadas - murmurou. Um homem pode fazer tudo para pr a comida na mesa e manter a casa, mas as mulheres no do importncia nenhuma 
a isso. Especialmente, as mulheres cajuns - resmungou. Acham tudo natural, mas no . E um homem merece ser tratado com mais respeito, principalmente em sua casa. 
Se eu descobrir que me esconderam esse dinheiro...

No valia a pena discutir com o grandpre. Compreendia agora por que motivo a grandmre Catherine no fazia qualquer tentativa para mudar os seus pontos de vista, 
mas tinha esperana que, com o tempo, ele acabasse por desistir da sua frentica busca por uma quantia que nunca existira e se concentrasse mais em mudar o seu comportamento, 
tal como antes prometera, e comeasse a proporcionar-nos assim uma vida melhor. Havia dias em que regressava do pntano carregado com uma boa quantidade de peixes 
ou com um par de patos para o nosso gumbo. Mas quase sempre gastava a maior parte do dia a vaguear de lagoa em lagoa, queixando-se sozinho da sua sorte e acabando 
depois por cair bbedo na canoa, caso tivesse conseguido trocar a sua pescaria por uma das mais baratas garrafas de usque ou de rum. Nessas noites, regressava a 
casa de mos vazias e eu via-me obrigada a utilizar aquilo que tnhamos em casa, fabricando com imaginao uma pobre jambalaya.

Apesar de ter reparado algumas pequenas avarias em casa,
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o grandpre deixou a maior parte das suas" outras promessas por cumprir. No consertou o telhado onde gotejava, nem substituiu as tbuas partidas do soalho e ,apesar 
das minhas sugestes no muito subtis, tambm no melhorou os seus hbitos higinicos. Deixava correr uma semana inteira sem passar gua e sabo pelo corpo e ,quando 
finalmente o fazia, era apenas uma lavagem rpida e superficial. Rapidamente, comeou de novo a ter piolhos no cabelo., a barba desalinhada e as unhas pretas. Quando 
comamos, eu fazia um esforo por desviar o olhar, para no perder todo o apetite. J era suficientemente difcil suportar os variados odores cidos da roupa e do 
corpo do grandpre; como  que algum podia chegar quele ponto sem se importar ou sem sequer notar, era algo que eu no compreendia e que podia atribuir,apenas 
 bebida.

Sempre que olhava para o quadro que pintara da grandmre Catherine, pensava que devia voltar a.pintar, mas, todas as vezes que montava o cavalete, ficava parada 
como uma tola diante da tela em branco, sem conseguir ter uma s ideia criativa. Cheguei a fazer algumas tentativas, desenhei as primeiras linhas e tentei pintar 
um simples tronco de cipreste coberto por limos, mas era como se o meu talento artstico tivesse desaparecido com a grandmre. Ela devia ficar furiosa se me ouvisse 
admitir tal pensamento, mas a verdade  que o bayou, as aves, as'plantas, as rvores e tudo o que ali existia me faziam, de alguma forma, recordar a grandmre e 
,quando tal sucedia, no era capaz de pintar, tal era a falta que ela me fazia.

O Paul vinha visitar-me quase todos os dias, s vezes apenas para se sentar na varanda ao meu lado e conversar, outras para me fazer companhia enquanto bordava. 
Vrias vezes me ajudou nalguma tarefa caseira, principalmente quando se tratava de algo que o grandpre deveria ter terminado antes de ter sado de casa.

- Porque  que o rapaz dos Tate vem aqui tantas vezes? Perguntou-me o grandpre num final de tarde em que chegou a tempo de ver Paul sair.

-  apenas um bom amigo, que vem ver se est tudo bem, grandpre - respondi. No tinha coragem para lhe contar que sabia as verdades mais feias e que conhecia as 
atitudes terrveis que ele tomara ao saber que a minha me estava grvida de rraul. Sabia como o temperamento do grandpre era incerto, e tais revelaes decerto 
o fariam beber at cair, e depois gritar e discutir.

- Esses Tate julgam que so especiais, s porque conseguiram juntar muito dinheiro - resmungou. - Tem cuidado com essa gente, tem cuidado - advertiu. Ignorei-o e 
fui preparar o jantar.

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Todos os dias antes de sair, Paul prometia que conversaria nesse dia com o pai acerca do passado, mas quando voltava no dia seguinte eu percebia logo que ainda no 
tinha tido coragem para o fazer. Finalmente, numa noite de sbado, disse-me que no dia seguinte ia pescar com o pai logo depois da missa.

-Vamos estar os dois sozinhos - explicou. - De uma forma ou doutra, hei-de conseguir abordar o assunto - prometeu. Na manh seguinte, ainda tentei que o grandpre 
Jack me

acompanhasse at  igreja, mas no consegui despert-lo do seu sono profundo. Quanto mais o abanava, mais alto ele ressonava. Seria a primeira vez que eu iria  
igreja sem a grandmre Catherine e sentia-me prestes a fraquejar, mas, mesmo assim, decidi ir. Ao chegar, todas as amigas da grandmre me cumprimentaram com carinho, 
e ,como seria de esperar, todas tinham imensas perguntas a fazer sobre como conseguia viver sozinha com o grandpre. Tentei transmitir uma ideia menos dura da realidade, 
mas Mrs. Livaudis contraiu os lbios e abanou a cabea, pouco convencida.

- Ningum deveria ser obrigado a viver com um peso desses, principalmente uma rapariga nova como a Ruby - protestou.
- Senta-te aqui connosco, querida - pediu Mrs. Thibodeau. Eu obedeci e cantei os hinos no banco ao lado delas. Paul e a famlia tinham chegado tarde; por isso, no 
pudemos conversar; depois, ele e o pai quiseram regressar o mais depressa possvel para levar o barco para o bayou. Passei todo o dia a pensar nele, imaginando se 
Paul teria conseguido conversar com o pai sobre o passado. Esperava uma visita sua logo aps o jantar, mas nesse dia ele no apareceu. Sentei-me na varanda, baloiando 
a cadeira enquanto esperava; o grandpre estava na sala a ouvir msica cajun no rdio, saltitando consoante o ritmo sempre que molhava os lbios. Quem quer que por 
ali passasse julgaria que estaramos a dar uma festa.

As horas foram passando e o grandpre Jack acabou finalmente por sossegar, mergulhando no seu habitual estado de inconscincia, e eu comecei a ficar cansada. Sem 
a luz do luar, a cor negra do cu salientava o brilho das estrelas. Tentei manter os olhos abertos, mas as plpebras pesaram mais do que a minha vontade. Acordei 
com o grito agudo de uma coruja e decidi ento desistir de esperar e subir para me ir deitar.

Tinha acabado de pousar a cabea na almofada, fechando finalmente os olhos, quando ouvi algum abrir a porta da entrada, voltar a fech-la e subir cautelosamente 
as escadas. Senti o corao disparar; quem entraria assim em casa? No estado de inconscincia em que o grandpre se encontrava, qualquer um
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poderia entrar e fazer o que muito bem entendesse. Sentei-me na cama e fiquei  escuta, quase sem respirar.

Primeiro, vi a sombra de uma silhueta alta surgir na parede, e depois o vulto oculto parou  minha porta.

- Paul?...

-Desculpa acordar-te, Ruby. No era para vir hoje, mas no conseguia dormir - disse ele. - Bati  porta, mas no deves ter ouvido e depois, quando entrei, vi o teu 
av na sala, estendido no sof, de boca aberta e a ressonar to alto que as paredes quase abanavam!

Inclinei-me e acendi a luz. Bastou olhar para Paul para concluir que ele descobrira a verdade.

- O que aconteceu, Paul? Esperei tanto por ti que acabei por ficar cheia de sono - comuniquei, puxando o cobertor at ao peito para cobrir a minha leve camisa de 
noite. Ele entrou ento no quarto e ficou aos ps da minha cama, de cabea baixa. - Conseguiste conversar com o teu pai? - Paul fez um sinal que indicava que sim 
e depois levantou a cabea.

-Quando regressei da pesca, entrei em casa a correr e tranquei a porta do meu quarto. No desci para jantar, mas tambm, j no suportava mais ficar ali fechado. 
Senti vontade de tapar a cara com a almofada at no conseguir respirar - desabafou. - At cheguei a tentar.. duas vezes!

- oh!, Paul, o que te contou o teu pai? - indaguei. Paul sentou-se na cama e fitou-me por alguns instantes em silncio, deixando os ombros descair; depois continuou.

- Primeiro, o meu pai no queria conversar sobre esse assunto. Ficou espantado com as minhas perguntas e durante muito tempo permaneceu de olhos fitos na gua, sem 
dizer uma palavra. Eu disse-lhe que precisava de saber a verdade, que isso era o mais importante de tudo para mim. Finalmente, ele acabou por me dizer que algum 
dia me contaria, mas que achava que esse dia ainda no tinha chegado.

"Mas eu insisti e repeti que precisava de saber a verdade. De incio, ficou zangado por eu ter descoberto, pensou que tinha sido o grandpre Jack quem me tinha contado. 
Disse-me que o teu av... bem, parece que vou ter de me habituar, apesar de mal conseguir diz-lo... o nosso av... - Pronunciou as palavras com uma careta, como 
se tivesse acabado de engolir leo de rcino. - O nosso grandpre Jack j tinha feito chantagem com ele antes e andava a tentar descobrir uma forma de lhe pedir 
mais dinheiro. Ento eu repeti-lhe o que a grandmre Catherine te contou e por que razo ela o tinha feito, e ele disse que ela fizera bem em te ter contado.

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- Fico contente, Paul, por ele te ter dito a verdade. Agora...
- S que... - acrescentou Paul rapidamente, semicerrando

os olhos que iam escurecendo. - S que a verso do meu pai  bastante diferente da verso da grandmre Catherine.

- Diferente como?

- Segundo o meu pai, foi a tua me que o seduziu, no foi ele que se aproveitou dela. Disse que ela era uma rapariga insubordinada e que ele no foi o primeiro homem 
da sua vida. Contou que ela o seguia e perseguia para toda a parte, com sorrisos e provocaes e que finalmente um dia, quando ele estava sozinho no bayou a pescar, 
a tua me se aproximou de canoa, tirou a roupa, mergulhou nua na gua e depois subiu para o barco dele. e foi a que tudo aconteceu. Foi nessa hora que me fizeram 
- concluiu Paul, amargamente.

O meu silncio incomodava-o, mas eu no podia evitar; estava sem fala. Parte de mim queria rir e gritar com o ridculo de tal histria, pois nenhuma filha da grandmre 
Catherine poderia comportar-se de uma tal forma. Mas outra parte do meu ser, aquela parte que fantasiara esse tipo de coisas com Paul, dizia-me que aquela histria 
podia ser verdade.

-  claro que no acredito nele - afirmou Paul. - Acho que tudo aconteceu conforme a tua av relatou: o meu pai aproximou-se da tua me para a seduzir. Se no, por 
que motivo teria aceite to depressa o acordo com o grandpre Jack e porque lhe daria dinheiro pela chantagem?

Respirei fundo.

-Disseste isso ao teu pai? - perguntei. -No, no quis discutir sobre esse assunto.

- No sei como algum dia poderemos saber a verdade exclamei.

- Mas que diferena faz agora? - murmurou Paul, revoltado. - O resultado  o mesmo, no  ?Ah, sim, o meu pai queixou-se uma srie de vezes sobre as chantagens que 
o grandpre Jack lhe fez e das centenas de dlares que teve de lhe pagar para manter o assunto em segredo. Disse que o grandpre  o mais reles de todos os homens 
e que o lugar dele  no pntano. Contou-me como a minha me sentira pena dele, especialmente por causa do grandpre Jack, e que, por causa disso, concordara em fingir 
que estava grvida, para que o meu nascimento fosse considerado na comunidade como o nascimento de um filho legtimo da famlia Tate. Depois, obrigou-me a prometer 
que no tocaria neste assunto com a minha me, porque ela sofreria um grande desgosto ao saber que eu descobri que ela no  a minha verdadeira me.

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- Tenho a certeza que sim - concordei. - O teu pai est certo a esse respeito, Paul. Para qu mago-la ainda mais? -Ento e eu? - contraps ele. - e ns?

- Somos muito novos - respondi, relembrando as palavras sbias da grandmre Catherine.

-- Isso no  nenhuma garantia para sofrer menos - gemeu ele.

- No, no  ,mas no podemos fazer nada, a no ser continuar a viver e tentar encontrar outras pessoas a quem possamos vir a amar to intensamente quanto agora 
nos amamos.

- No posso, nem vou fazer isso - respondeu, desafiando a razo.

- Paul, que mais podemos ns fazer?

Ele fixou os seus olhos nos meus, com uma expresso de desafio e de revolta no rosto, mas tambm de dor.

- Fingimos que no sabemos de nada - respondeu, nclinando-se para segurar a minha no.

No pude deixar de notar o formigueiro que senti no corao e que depois se propagou por todas as veias, atingindo os braos, as pernas e a prpria respirao, entrecortando-a. 
Subitamente, tudo em Paul, e tudo em ns era proibido. Apenas a sua simples presena no meu quarto e na minha cama, a sua mo sobre a minha e o seu olhar de desejo 
eram tabus que, tal como tantas outras proibies, originavam uma excitao muito mais intensa. Era como se estivssemos ambos a desafiar o destino, testando e atormentando 
as nossas almas.

-No podemos fazer isso, Paul - exclamei, num sussurro.
- Porque no? Vamos apenas ignorar uma parte de ns prprios e pensar s na outra metade. No ser a primeira vez que sucede algo assim, especialmente aqui no bayou 
- declarou. A sua mo movia-se acima do meu pulso e os dedos deslizavam suavemente pela minha pele, enquanto ele se aproximava mais de mim. Eu abanei a cabea.

- Ests revoltado e enervado por tudo o que descobriste, Paul. No ests a pensar naquilo que ests a dizer - respondi. Sentia o corao to acelerado que temia 
perder o flego.

- Enganas-te! Afinal, quem sabe desta histria? Apenas o teu grandpre Jack, e ningum acredita naquilo que ele diz. Quanto ao meu pai e  minha me, eles no querem 
que ningum saiba. No entendes que nada disto importa?

-Mas ns sabemos, por isso a ns importa.

- Apenas se quisermos - respondeu Paul, nclinando-se Para me beijar a testa. Agora que ambos sabamos a verdade acerca da sua origem, o contacto dos lbios dele 
na minha pele

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escaldava tanto quanto um ferro em brasa. Recuei abruptamente e abanei a cabea como protesto, no apenas para recusar as tentativas de Paul, mas para deter a excitao 
que crescia no meu corao.

O cobertor entretanto tombou e a camisa de dormir descaiu tanto que os meus seios ficaram praticamente a descoberto. Os olhos de Paul baixaram e depois voltaram 
vagarosamente a subir, percorrendo-me o pescoo, os ombros e finalmente o rosto.

- Se o fizermos uma vez, se pela primeira vez conseguirmos ignorar o terrvel passado e fazer amor, todas as vezes que se seguirem sero mais fceis, Ruby - afirmou. 
- No percebes? Por que motivo deveremos negar a outra metade de ns, a melhor parte, se nunca fomos educados como irmos, nem nunca imaginmos ser parentes?

"Se fechares os olhos e esqueceres tudo, se permitires que os meus lbios toquem os teus... - continuou, aproximando-se cada vez mais de mim.

Abanei a cabea, fechei os olhos e recuei o mais longe possvel, mas os lbios de Paul tocaram os meus. Tentei afast-lo, tentei empurr-lo de cima de mim, mas ele 
persistiu, cada vez mais exigente, percorrendo com as mos a pele do meu peito exposto, voltando os dedos de forma a tocar os mamilos.

- Paul, no - gritei -, por favor, pra. Vamos arrepender-nos - insisti, sentindo-me, no entanto, cada vez mais vulnervel e permitindo que o formigueiro que percorria 
o meu corpo se transformasse numa onda quente de desejo. Depois de tantas amarguras e dificuldades, eu ansiava pelo seu toque caloroso, por mais proibido que este 
fosse.

- No, no vamos - retorquiu Paul, movendo os lbios da minha testa at ao pescoo, enquanto, debaixo da camisa de dormir, as suas mos cobriam os meus seios. Segurando-os, 
encontrou com os lbios os mamilos e ,nesse instante, senti que todas as minhas foras me abandonavam. No podia abrir os olhos, nem conseguia falar. Deixei-me simplesmente 
deslizar por baixo dele, enquanto Paul persistia, insistente e determinado em derrubar no apenas a minha fraca resistncia, mas todas as leis da moral, da religio 
e dos homens, as quais no s condenariam os nossos avanos erticos, como nos considerariam a ambos desprezveis.

- Ruby - murmurou Paul ao meu ouvido, fazendo a minha cabea andar  roda e o meu corao bater ainda mais. Amo-te.

- Mas que diabo se passa aqui? - ouvimos subitamente algum gritar. Paul deu um salto e eu lancei um grito sufocado,
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vendo o grandpre Jack  porta do quarto a olhar para ns, com o cabelo despenteado e espetado, os olhos muito abertos e encarnados e o corpo to bamboleante como 
se um forte vento varresse toda a casa.

- Nada - respondeu Paul, erguendo-se e ajeitando rapidamente a roupa.

-Nada! - Chama a isso nada? - O grandpre Jack fitou-o demoradamente e avanou alguns passos. Apesar de estar ainda bbedo, no deixou de reconhecer Paul. - Quem 
s tu?... Ah,  o rapaz dos Tate, no  ?Aquele que vem aqui muitas vezes...

Paul lanou-me um olhar rpido e depois fez um sinal afirmativo ao grandpre.

- Parece-me que entrou aqui de noite s escondidas para se vir meter no quarto da minha neta. Pelos vistos, isso est no sangue dos Tate - afirmou o grandpre.

-  mentira - retorquiu Paul.

- Ah... - murmurou o grandpre, passando os dedos compridos pelo cabelo desalinhado. - Pois sim, mas no tem nada que estar aqui no quarto da minha neta a estas 
horas da
noite. Por mim, rapaz, aconselho-o a sair e  j.

- Vai, Paul - disse eu ento. -  melhor ires-te embora
- acrescentei.

Ele olhou para mim com os olhos inundados de lgrimas.
- Por favor - implorei. Ele mordeu o lbio e dirigiu-se para a porta, quase derrubando o grandpre ao passar por ele. Desceu depois as escadas e saiu.

- Bem, parece que... - comeou o grandpre, voltando-se para mim. - Parece-me que s bastante mais crescida do que eu pensava.  altura de pensarmos em te arranjar 
um marido decente.

- No preciso que ningum me arranje um marido, grandPre. De qualquer maneira, ainda no estou preparada para casar. No aconteceu nada, ns estvamos apenas a 
conversar. 

-A conversar..  ?...- Riu-se daquela forma silenciosa que fazia os seus ombros estremecerem. - No pntano, esse tipo de conversa costuma originar girinos - acrescentou, 
abanando a cabea. - No, tu j ests uma mulher, eu  que ainda no tinha reparado - comentou, observando o meu corpo destapado, enquanto eu cobria rapidamente 
o peito com o cobertor.

No te preocupes, que eu trato de tudo - concluiu, piscando os olhos. Em seguida, dirigiu-se aos tombos para o quarto da grandmre, onde agora dormia sempre que 
estava suficientemente lcido para subir as escadas.

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Encostei as costas  cama e senti o corao bater to depressa que receei que o meu peito no aguentasse a presso. "Pobre Paul", pensei ento; estava de tal forma 
baralhado e confuso que a revolta o impelia a agir numa direco, e aquilo que sentia por mim obrigava-o a seguir outra. A chegada inesperada do grandpre e as suas 
acusaes no tinham ajudado em nada a situao, mas talvez nos tivesse impedido de fazer algo de que mais tarde nos arrependeramos, conclu.

Apaguei a luz e deitei-me novamente. Tinha de admitir que, por alguns instantes, a insistncia de Paul provocara o meu desejo de ceder e fazer exactamente aquilo 
que ele sugerira: desafiar e dominar aquilo que o destino declarara proibido. Mas seria possvel enterrar no corao um segredo medonho como esse, e impedir que 
ele infectasse e destrusse o sentimento puro de amor que se sente pela outra pessoa? No, no era possvel, nem estava destinado a acontecer, pensei. Se alguma 
lio aprendera naquela noite,  que no voltaria a permitir que ele se aproximasse tanto de mim, pois descobrira no ter fora nem vontade suficientes para resistir 
 paixo por Paul.

Ao fechar os olhos para tentar dormir, compreendi que esse era outro motivo, talvez um motivo bem mais forte, para encontrar finalmente a fora e a coragem necessrias 
para partir.

Talvez devesse a isso a insistncia da grandmre Catherine sobre esse assunto; talvez ela soubesse o que aconteceria entre Paul e eu, mesmo conhecendo ambos a verdade 
sobre os nossos pais. Adormeci com as palavras da grandmre no pensamento e com a promessa que eu lhe fizera nos lbios.
DURAS LIES

No encontrei o Paul durante o resto da semana e fiquei surpreendida por no o ver na segunda-feira na escola. Perguntei a Jeanne, sua irm, por ele, que me informou 
que Paul no se sentira bem e ficara em casa. Notei, no entanto, que ela parecia pouco convencida e que diante das amigas nada mais acrescentaria.

Ao regressar da escola, resolvi ir dar um pequeno passeio ao longo do canal antes de ir preparar o jantar. Atravessei o ptio e reparei que estava completamente 
coberto por hibiscos.e hortnsias azuis e rosa. Nesse ano, a Primavera chegara mais
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cedo, trazendo novas cores e doces aromas, como se a vida e o nascimento ganhassem um novo impulso. Parecia que a prpria Natureza me tentava consolar. Contudo, 
os meus pensamentos permaneciam to baralhados e confusos como abelhas presas dentro de uma jarra. Ouvia constantemente muitas vozes diferentes e todas elas me davam 
conselhos opostos: "Foge, Ruby, foge", dizia uma dessas vozes, "e afasta-te o mais possvel do Paul e do grandpre Jack."

"No fujas e desafia a realidade", era o conselho de outra voz. "No podes negar que amas o Paul; rende-te aos teus sentimentos e esquece tudo aquilo que aprendeste; 
faz o que o Paul sugeriu e comporta-te como se tudo no passasse de uma mentira."

"Lembra-te da promessa que me fizeste, Ruby", ouvia depois a voz da grandmre Catherine pedir. "Ruby, a promessa... no te esqueas,"

A brisa morna que corria vinda do golfo levantava alguns fios do meu cabelo e fazia-os danar sobre a testa. Alisava tambm o musgo que cobria os ciprestes sem vida, 
como se se tratasse de um animal verde e rastejante, movendo-se de um lado para o outro para chamar a minha ateno. Num comprido banco de areia, avistei uma serpente 
venenosa enroscada em cima de um pedao de madeira flutuante a apanhar sol, com a cabea triangular a fazer lembrar uma moeda de cobre j gasta. Entretanto, dois 
patos e uma gara emergiram ao mesmo tempo da gua e sobrevoaram a vegetao rasteira do pntano. Foi exactamente nessa altura que distingui o rudo longnquo de 
um barco a motor, que foi deslizando pelo bayou at se aproximar cada vez mais e tornar-se por fim visvel, depois de uma curva.

Era o barco de Paul; mal me viu, ergueu-se e acenou-me, trazendo o barco at  margem. A ondulao provocada pela chegada do barco agitou os tufos de lrios e a 
partasana e estendeu-se at s raizes dos ciprestes, espalhadas pelo banco de areia.

- Vem por este lado - gritou ele, apontando para um pedao de terra argilosa. Eu obedeci, enquanto Paul aproximava o barco o mais que podia, desligando depois o 
motor e esperando que deslizasse at onde eu me encontrava,

- Onde estiveste hoje? Porque  que faltaste  escola? quis logo saber, verificando que Paul, obviamente, no estava doente.

- Estive ocupado a pensar e a fazer planos. Entra no barCo, que quero mostrar-te uma coisa - pediu.

Abanei a cabea.

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-Tenho de ir preparar o jantar para o grandpre Jack, Paul - respondi, recuando um passo.

-Ainda  cedo. Alm disso, sabes bem que ele costuma chegar atrasado ou ento bebe tanto que nem aparece para jantar - comentou. - Entra, por favor - insistiu.

- Paul, no quero que aquilo que aconteceu naquela noite volte a repetir-se - declarei.

- No vai acontecer nada, eu nem me aproximo de ti. S quero mostrar-te uma coisa e depois volto a trazer-te - prometeu, erguendo a mo para fazer um juramento. 
- Juro.

-No te aproximas de mim e trazes-me logo em seguida?...

- Exactamente - respondeu, debruando-se para pegar na minha mo, enquanto eu saltitava pela lama e entrava finalmente no barco de Paul. - S te peo para te sentares 
- declarou ele, pondo outra vez o motor em funcionamento. O barco girou bastante e acelerou, conduzido com a segurana de um velho pescador cajun. Mesmo assim, comecei 
a gritar; at os melhores pescadores chocam frequentemente com os crocodilos e bancos de areia. Paul riu-se e abrandou.

- Onde tencionas levar-me, Paul Tate? - Ele lanava-nos atravs da sombra que um aglomerado de salgueiros provocava na gua, adentrando o barco cada vez mais no 
pntano e voltando depois para sudoeste na direco da fbrica de enlatados do pai. Reparei ento que havia indcios de trovoada no horizonte. -- No quero ficar 
detida pela trovoada - adverti.

- Livra! s vezes, sabes ser maadora - lamentou-se Paul, sorrindo. Atravessmos depois uma passagem estreita rumo a um campo, e Paul foi reduzindo gradualmente 
a velocidade do motor at por fim o fazer parar, deixando o barco deslizar lentamente.

- Onde estamos?

- Nas minhas terras - respondeu. - No so as terras do meu pai, so as minhas terras - acentuou.

-As tuas terras?

- Sim - respondeu orgulhosamente, encostando-se  parte lateral do barco. - Tudo isto que vs, mais de dois mil ares,  meu por herana, disse apontando para o terreno 
na nossa frente.

- No sabia - proferi, observando as terras que pareciam ser de primeira qualidade para o bayou.

- Foi o meu av Tate quem mas deixou. Esto confiadas a algum, mas ficaro a meu cargo logo que eu tenha dezoito anos. Mas isso no  tudo         acrescentou com 
um sorriso.

- Ento o que h mais?        perguntei. - Pra de rir por tudo e por nada e explica-me o que quer isto dizer, Paul Tate-
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-No s te conto, como te mostro - respondeu, mergulhando o remo na gua para puxar o barco pelos limos at uma zona escura e sombria. Olhei para a frente e vi ento 
as bolhas  superfcie da gua.

-O que  aquilo?

- So bolhas de gs - murmurou ele. - Sabes o que isso significa?

Abanei a cabea.

- Significa que l em baixo h petrleo e que est nas minhas terras. Vou ser rico, Ruby, muito rico - declarou Paul.
- oh!, Paul, que maravilha!

- Apenas se tu estiveres ao meu lado para partilhar acrescentou rapidamente. - Trouxe-te at aqui, porque quis mostrar-te os meus sonhos. Vou construir uma manso 
nas minhas terras e vou ter uma grande plantao, Ruby, que vai ser tua tambm.

- Mas, Paul, como  que podemos admitir isso? Por favor
- implorei -, pra de te atormentar a ti prprio e a mim tambm.

-  claro que podemos admiti-lo, no vs? O petrleo  a soluo. O dinheiro e o poder tornam tudo possvel. Compro a aprovao e o silncio do grandpre Jack e 
passaremos a ser o casal mais respeitado e mais prspero do bayou, e a nossa famlia...

- No podemos ter filhos, Paul.

- Adoptamos um, talvez at secretamente, se quiseres fazer o mesmo que a minha me fez, fingindo que o filho  teu e depois...

- Mas assim, Paul, estaramos a perpetuar as mesmas mentiras e iluses, e essa ideia iria perseguir-nos para sempre
- declarei, convicta.

- Apenas se no impedirmos que tal acontea, se deixarMos de nos amar e respeitar da forma como sempre sonhmos que fosse - insistiu.

Desviei dele o olhar e vi um sapo a saltar de um tronco, Provocando na gua uma srie de crculos que depressa se desvaneceram. Num dos cantos do lago, um goraz 
devorava os inSCetos que esvoaavam pelos tufos de lrios e pela partasana. De repente, o vento comeou a soprar e a barba-de-velho oscilou atravs dos ramos retorcidos 
dos ciprestes. Um bando de gansos passou por cima das nossas cabeas e desapareceu no cu, como se tivesse voado at s nuvens.

- Este stio  muito bonito, Paul, e eu gostaria muito que a nossa casa fosse aqui construda um dia, mas no pode ser, e 
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uma crueldade trazeres-me at aqui para me fazeres essas promessas - declarei, repreendendo-o com suavidade.

-Mas, Ruby...

- No sabes que eu desejo tanto como tu que tudo isso fosse possvel? -- questionei, pressionando-o. Senti os olhos carregados de lgrimas de revolta e frustrao. 
- Tudo aquilo que ests a sentir, eu sinto tambm, mas, se fantasiarmos ainda mais, s vamos prolongar o nosso sofrimento.

- No  uma fantasia,  um plano - retorquiu ele com determinao. - Passei o fim-de-semana todo a pensar: quando eu fizer dezoito anos...

Abanei a cabea.

- Leva-me para casa, Paul, por favor -- interrompi. Ele fitou-me por alguns instantes.

- Prometes, pelo menos, pensar? - pediu ento. - Prometes?

- Sim - respondi, vendo que essa palavra equivalia  chave que nos libertaria a ambos da casa das iluses de Paul.
- Est bem. - Ligou ento o motor e ,passado pouco tempo, estvamos de volta a minha casa.

- Vemo-nos amanh na escola - despediu-se Paul, depois de me ter ajudado a sair do barco. - Temos de falar sobre este assunto todos os dias, temos de pensar em conjunto, 
est bem?

- Est bem, Paul - cedi, acreditando que num dos prximos dias Paul acordaria e chegaria  concluso que o seu plano era apenas uma fantasia, que no estava destinada 
nunca a tornar-se realidade.

- Ruby - gritou, quando j estava a dirigir-me para casa, fazendo-me voltar. - No consigo deixar de te amar - declarou. - No me odeies por isso.

Mordi o lbio inferior e fiz-lhe sinal que entendia. O meu corao estava inundado pelas lgrimas que no tinham cado. Fiquei a v-lo afastar-se e esperei at o 
barco desaparecer de vista. Depois respirei fundo e entrei em casa.

Fui imediatamente recebida pelo riso do grandpre Jack, seguido de uma gargalhada de um desconhecido. Entrei devagar na cozinha e vi o grandpre Jack sentado  mesa 
com um homem chamado Buster Trabaw, o filho do dono de uma das mais bem sucedidas plantaes de acar, ambos debruados sobre um grande prato de caranguejo. Em 
cima da mesa estavam, pelo menos, meia dzia de garrafas de cerveja vazias, retiradas da caixa que se encontrava no cho aos ps de ambos.

Buster Trahaw era um homem na casa dos trinta, alto e magro, mas com um pneu de gordura  volta do estmago to sa-
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liente que dava a impresso que tinha colocado um tubo por debaixo da camisa. Todas as suas feies vulgares tinham sido deformadas pela bebida; o nariz era grosso, 
com as narinas alargadas, as mandbulas enormes, o queixo redondo e uma boca pequena com lbios carnudos e vermelhos. A testa salientava-se em relao aos olhos 
cavernosos e escuros, e as orelhas grandes eram to salientes que, visto de costas, ele assemelhava-se a um enorme rato. Alm disso, trazia o cabelo castanho e bao 
ensopado em suor, com algumas madeixas coladas  testa.

Mal me viu, o seu sorriso aumentou, mostrando uma fileira de dentes grandes, ligados por pedaos de carne de caranguejo. Tambm a grande lngua cor-de-rosa estava 
coberta de carne. Levou ento o gargalo da caneca de cerveja  boca e sugou o lquido com tanta fora que as bochechas incharam e diminuram, como os foles de um 
acordeo. O grandpre Jack voltou-se para mim e reparou no sorriso de Buster.

- Mas onde andaste tu, rapariga? - inquiriu logo. -Fui dar um passeio - respondi.

- Eu e o Buster estvamos aqui  tua espera - afirmou o grandpre. - Convidei o Buster para jantar connosco - explicou, enquanto eu me dirigia para o frigorfico. 
- No o cumprimentas?

- Ol - disse eu, voltando-me logo depois novamente para o frigorfico. - Trouxe algum peixe ou algum pato para o gumbo, grandpre? - perguntei, sem o encarar, enquanto 
retirava os vegetais.

- Est um monte de camaro no lava-loua, que s precisa de ser arranjado - respondeu. - Ela  uma cozinheira dos diabos, Buster. O gumbo e a jambalaya dela so 
os melhores do bayou! - exclamou.

- No me digas!

- J vais ver, j vais ver, sim senhor. e repara como ela arruma to bem a casa, mesmo com um porco como eu a viver c dentro! - acrescentou o grandpre.

Voltei-me e observei-o com um olhar desconfiado, semicerrando as plpebras. Ele no parecia estar apenas a elogiar a neta, mas sim a vender um produto. Todavia, 
o meu olhar no o demoveu.

- O Buster sabe tudo a teu respeito, Ruby - informou. Contou-me que j te viu na estrada muitas vezes, ou a montar a tenda, na cidade. No  verdade, Buster?

-  ,sim senhor. e sempre gostei daquilo que via - resPondeu o outro. - Andas sempre muito bonita, Ruby - acresCentou.

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- Obrigada - respondi, voltando-lhes as costas e sentindo o corao comear a bater mais depressa.

- Estive a dizer ao Buster que a minha neta est a chegar a uma idade em que devia pensar em assentar e ter uma casa dela, com uma cozinha s sua e uma famlia para 
cuidar - continuou o grandpre Jack, enquanto eu comeava a arranjar o camaro. - A maioria das mulheres do bayou acaba pior do que comeou, mas aqui o Buster tem 
uma das maiores plantaes do bayou.

- Das maiores e das melhores - esclareceu Buster.

- Eu ainda frequento a escola, grandpre - informei, mantendo as costas voltadas para os dois homens, de forma a que nenhum pudesse ver as lgrimas que comeavam 
a escapar e a correr pelas minhas faces.

- Ah, quando se chega  tua idade, a escola deixa de ter importncia. J tens mais anos de escola do que eu! - retorquiu o grandpre. - e aposto que mais do que 
tu tambm, no, Buster?

-No tenhas dvida - afirmou ele, rindo.

- O Buster s teve de aprender a contar o dinheiro que ganhava, no  verdade, Buster?

Ambos riram.

- O pai do Buster  um homem doente e tem os dias contados. O Buster vai herdar tudo, no  ,Buster?

-  verdade, mas eu tambm mereo - respondeu ele.
- Ouviste isto, Ruby? - perguntou o grandpre, mas eu no respondi. - Estou a falar contigo, filha.

- Eu estou a ouvir, grandpre - respondi, limpando as lgrimas com as costas da mo e voltando-me. - Mas j disse que no estou preparada para casar e que ainda 
frequento a escola. e ,de qualquer maneira, quero ser pintora - declarei.

- Mas, com os diabos, podias ser pintora e casar! O Buster aqui comprava-te tantas tintas e pincis que no ias precisar de comprar mais nos prximos cem anos, no 
era, Buster?

- Nos prximos duzentos anos! - afirmou ele, rindo.
- Vs?

- Grandpre, no faa isso - implorei. - Est a deixar-me envergonhada.

- H? J s crescida de mais para sentir vergonha, Ruby. Alm do mais, eu no posso ficar aqui a tratar de ti o dia todo, no  ?A tua grandmre morreu, j  altura 
de cresceres.

- Ela parece-me bem crescidinha... - comentou Buster, passando a lngua pelo canto da boca para retirar um pedao de caranguejo que ficara preso  barba cinzenta 
por fazer.

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-Ouviste o que ele disse, Ruby?

- No quero ouvir nada disso, nem quero falar mais no assunto. No vou casar j com ningum - gritei, colocando-me  frente deles. - e muito menos com o Buster - 
acrescentei, saindo a correr da cozinha e subindo ao primeiro andar.

- Ruby! - gritou o grandpre.

Parei no ltimo degrau para retomar o flego e ainda ouvi os lamentos de Buster.

- e l se vo os teus arranjos fceis, Jack. Trouxeste-me at aqui, obrigaste-me a comprar esta caixa de cerveja e afinal ela no  a menina obediente que tu prometeste.

- Mas vai ser - respondeu o grandpre. - Eu trato disso.
- Talvez... Tens sorte por eu gostar de raparigas dificeis.  como domar um cavalo selvagem - afirmou Buster, enquanto o grandpre Jack ria. - J sei - continuou 
Buster. - Alm do que estava combinado, dou-te mais quinhentos se puder testar antes a mercadoria.

- O que queres dizer? - perguntou o grandpre.

- No vais obrigar-me a explicar, pois no, Jack? Ests a fazer-te de parvo para ver se eu aumento a quantia. Est bem, admito que ela  especial. Dou-te mil amanh 
por uma noite sozinho com ela e depois o resto no dia do casamento. Uma mulher deve ser sempre domada antes e mais vale ser eu a domar a minha mulher!

-Mil dlares!

- Isso mesmo. Ento, concordas? Eu contive a respirao.

- Diz-lhe que v para o inferno, grandpre - murmurei em voz muito baixa.

- Combinado - afirmou por sua vez o grandpre. Ouvi-os a apertar as mos e depois a abrir mais uma garrafa de cerveja.

corri para o meu quarto e fechei a porta. Se por acaso precisasse de uma prova de que todas as histrias acerca do grandPre eram verdadeiras, tinha-a obtido agora, 
pensei. Por muito que bebesse e por mais dvidas que acumulasse, era natural que tivesse algum tipo de sentimentos por aqueles que tinham o mesmo sangue que o seu. 
Descobria agora o tipo de besta, monstruosa e egosta, em que o grandpre se transformara aos olhos da grandmre Catherine. Porque no tinha eu a coragem de obedecer 
imediatamente  promessa que lhe fizera, pensei? Porque tinha sempre de procurar o melhor nas pessoas, mesmo quando no mostravam ter nada de bom? Tinha de aprender 
as lies de que necessitava da forma mais dura, conclu.

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Menos de uma hora depois, ouvi o grandpre subir as escadas. Nem sequer bateu  porta, abriu-a de repente e ficou parado a olhar para mim. A sua irritao era tanta 
que quase deitava fumo pelas orelhas encarnadas.

--- O Buster j saiu - informou. - Perdeu o apetite por causa do teu comportamento.

-Ainda bem.

- No vais continuar assim, Ruby - declarou, apontando o dedo na minha direco. - A tua grandmre Catherine estragou-te! Deve ter apoiado os teus sonhos de artista 
e encheu-te
de iluses, prometeu-te que serias uma senhora rica da cidade. Es apenas uma rapariga cajun, embora reconhea que s mais bonita que a maioria. Mas contnuas a ser 
apenas uma rapariga cajun, e devias estar muito feliz por um homem rico como o Buster Trahaw se interessar por ti... Hoje, em vez de ficares contente e agradecida, 
o que resolveste fazer? Fizeste de mim um idiota - declarou.

- Mas o grandpre  que  um idiota - respondi, vendo o rosto dele ganhar cor. Sentei-me ento na cama e continuei. Pior do que isso: o grandpre  um egosta que 
s pensa em si e que  capaz de vender a prpria famlia s para continuar a beber usque e a jogar.

- Pede desculpa pelo que acabaste de dizer, Ruby, ouviste? -No peo. No sou eu quem tem anos atrasados de desculpas para pedir. Afinal, no foi o grandpre que 
fez chantagem com Mister Tate e lhe vendeu o Paul?
- Qu? Quem te contou isso?

-  o grandpre quem tem de pedir desculpa por ter preparado a venda da minha irm a uns crioulos ricos de Nova Orlees. No sabe o desgosto que causou  minha me 
e  grandmre Catherine tambm - acusei, deixando-o completamente atordoado.

-  mentira, tudo isso  mentira. Fiz o que tinha de ser feito para manter o nome da famlia e aproveitei o dinheiro para nos sustentar - protestou. - A Catherine 
voltou-te contra mim, contou-te essas histrias 

- e agora est a fazer o mesmo! Est a vender-me ao Buster Trahaw. Acabou de fazer com ele um acordo para voltar aqui amanh  noite - exclamei, chorando. - O grandpre, 
o meu av, algum que devia olhar por mim e proteger-me... O grandpre no  mais do que... do que o animal do pntano que a grandmre Catherine dizia que era! - 
gritei.

De repente, ele pareceu inchar, endireitando os ombros de forma a atingir a sua altura mxima e alterando a cor das faces,
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que ficaram to escuras como o cabelo. Tinha os olhos enraivecidos e luminosos.

- J percebi que essas mexeriqueiras te ensinaram a desafiar-me e te voltaram contra mim. Pois bem, eu estou a fazer aquilo que acho melhor para ti: interessar um 
homem rico como o Buster em ti, Se eu ganhar alguma coisa com isso, devias ficar contente por mim.

- Mas no estou contente e tambm no vou casar com o Buster Trahaw - declarei.

- Vais, sim - insistiu ele. - e ainda vais agradecer-me por o teres feito! - Em seguida, voltou-se e deixou o meu quarto, descendo para a cozinha.

Um pouco mais tarde, ouvi-o ligar o rdio e depois ouvi as garrafas de cerveja a cair e a partir-se. Percebi que o grandpre deveria estar a meio de um dos seus 
ataques de alcoolismo e decidi esperar no quarto at ele adormecer. S depois eu sairia.

Comecei ento a preparar uma pequena mala, tentando ser o mais selectiva possvel, pois bem sabia que deveria viajar com pouca bagagem. Tinha o dinheiro da venda 
dos quadros escondido debaixo do colcho, mas achei melhor retir-lo apenas quando estivesse prestes a sair. e , claro, levaria as fotografias da minha me e a 
fotografia do meu pai e da minha irm. Enquanto ponderava no que levar, o barulho intensificou-se no andar de baixo, Algo mais se partira e uma cadeira acabara de 
ser esmagada. Pouco depois, ouvi um outro rudo, que compreendi serem os passos incertos do grandpre a tentar subir as escadas.

Deitei-me na cama com o corao a bater acelerado. Ele escancarou novamente a porta e ficou de olhos fitos em mim, com as chamas de fria no olhar incendiadas pelo 
usque e pela cerveja que havia bebido. Olhou  volta e viu ento a mala pequena a um canto.

- Vais passear,  ?- perguntou, sorrindo. Eu abanei a cabea, negando. - Lembrei-me que esta noite podias pensar em fugir.. em me abandonar aqui sozinho.

- Grandpre, por favor - comecei, mas ele avanou com Surpreendente agilidade e agarrou o meu tornozelo esquerdo. Depois envolveu-o naquilo que me pareceu ser a 
correia de uma bicicleta, enquanto eu gritava por me libertar. Por fim Prendeu-a  perna da cama. Ouvi em seguida o trinco de um cadeado a fechar.

- J est - exclamou. - Isto vai ajudar-te a tomar juizo.
- Grandpre... solte-me!

Ele voltou-se.

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- Ainda vais agradecer-me - murmurou. Dirigiu-se ento cambaleante para a porta, deixando-me ali presa, aterrorizada e a chorar, completamente descontrolada.

- Grandpre! - gritei at a garganta arder com o esforo e com as lgrimas. Ouvi depois o que me pareceu ser uma queda nos degraus das escadas, seguida pelos gritos 
do grandpre a praguejar; em seguida, voltei a ouvir o barulho da loia a partir-se e da moblia a rachar, at que, passado algum tempo, tudo sossegou.

Estupefacta pelo que ele acabara de fazer, deixei-me ficar deitada a soluar, sentindo no peito um peso maior do que uma tonelada de pedras. O grandpre era ainda 
pior do que um animal do pntano, era um monstro, pois nem os animais do pntano conseguiriam ser assim to cruis para os seus semelhantes, pensei. e havia tambm 
muita culpa a atribuir ao usque e  cerveja.

Adormeci depois, de fadiga e de medo, aceitando de bom grado o sono como refgio para um tormento que nunca antes conhecera.

Quando acordei, parecia que tinha dormido a noite toda, mas nem apenas duas horas haviam passado. No pude sequer imaginar que tudo no era mais do que um pesadelo, 
porque o mais leve movimento da perna fazia a corrente bater no p da cama e chocalhar. Sentei-me rapidamente e tentei faz-la deslizar pelo tornozelo, mas, quanto 
mais puxava, mais ela se prendia na carne e me magoava. Chorei baixinho e enterrei, por alguns minutos, o rosto na almofada, pensando que se o grandpre me deixasse 
acorrentada o dia inteiro... se ainda me encontrasse ali presa quando Buster Trahaw regressasse, estaria completamente indefesa e vulnervel.

Senti um arrepio frio e carregado de electricidade atingir o corao. Nunca antes estivera to aterrorizada; deixei-me ficar  escuta. No se ouvia um rudo pela 
casa e nem mesmo a brisa movia os cortinados. Era como se o tempo tivesse parado, como se eu no pudesse fugir de uma grande tempestade que depressa iria rebentar 
sobre a minha cabea. Respirei fundo e fiz um esforo por dominar os nervos e para pensar com clareza. Comecei por estudar a corrente e seguir o seu percurso at 
ao p da cama.

Fui ento invadida por uma onda de alvio, ao reparar que o grandpre Jack, no seu estado de embriaguez, tinha apenas corrido e fechado a corrente em volta da cama, 
esquecendo-se que eu poderia desloc-la e faz-la deslizar. Procurei ento retirar
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uma perna da cama, retorcendo o corpo at poder baixar-me; apesar da posio bastante incmoda, consegui chegar at junto do p da cama. Em seguida, reuni todas 
as minhas foras e mantive a cama levantada at a corrente comear a deslizar e escorregar at ao cho. Depois voltei-a vrias vezes para a retirar do tornozelo, 
que estava j bastante vermelho e inchado. Com cautela, e o mais silenciosamente possvel, pousei a corrente no cho e fui buscar a mala com as minhas roupas e os 
meus objectos mais preciosos. Retirei depois o dinheiro de debaixo do colcho e fui at  porta do quarto, abrindo apenas uma frecha para ficar  escuta.

Tudo continuava silencioso. No piso de baixo, a lmpada do candeeiro a gs lanava uma fraca luz distorcida, fazendo as sombras danar nas paredes. Estaria o grandpre 
a dormir no quarto da grandmre Catherine? Achei melhor no averiguar e ,em vez disso, sair em bicos de ps do quarto e descer as escadas. Mas, por mais devagar 
que caminhasse, o soalho de madeira rangia com cada passo em frente, como se a prpria casa me quisesse trair. Parei um pouco em busca de qualquer rudo, mas no 
ouvi nada e continuei a descer as escadas. Quando cheguei ao ltimo degrau, voltei a parar, novamente  escuta. Foi apenas quando segui em frente que avistei o grandpre 
Jack estendido no cho diante da porta de entrada, ressonando muito alto.

No quis correr o risco de passar por cima dele para sair pela porta principal; por isso, encaminhei-me para as traseiras; detive-me, no entanto, a meio caminho 
da cozinha, lembrando-me que tinha ainda algo a fazer, tinha que olhar pela ltima vez para o retrato da grandmre Catherine, pendurado na parede da sala de visitas. 
Voltei devagar para trs e parei na entrada da sala. A janela aberta deixava entrar o luar e ,por um moMento, tive a sensao que a grandmre me sorria e que os 
seus olhos estavam iluminados pela felicidade que sentia por eu finalmente me dispor a cumprir a promessa.

-Adeus, grandmre - sussurrei. - Vou voltar um dia Para o bayou e ,nessa altura, venho buscar o seu retrato para o levar comigo.

como desejei poder abraar e beijar a grandmre apenas mais uma vez! Fechei os olhos tentando imaginar a ltima vez que o fizera, mas entretanto o grandpre Jack 
bocejou e deu uma volta no cho. Fiquei imvel, sem mexer um dedo. Os olhos dele abriram e fecharam, mas, se me viu, deve ter julgado que era apenas em sonhos, pois 
no chegou a acordar. Sem Perder mais um segundo, voltei-me e caminhei rpida e silen-

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ciosamente para a cozinha at chegar  porta das traseiras. Sa, dei a volta  casa e dirigi-me finalmente para a sada da frente.

Quando atingi a estrada, parei e olhei para trs. Sentia na boca um sabor doce e amargo. Apesar de tudo o que acontecera e estava ainda por acontecer, custava-me 
deixar aquela casa modesta que conhecera os meus primeiros passos. Ao abrigo dessas paredes comuns, eu e a grandmre Catherine tnhamos preparado tantas refeies, 
tnhamos cantado e rido juntas tantas vezes! Nessa varanda, ouvira a grandmre contar inmeras histrias da sua juventude, enquanto baloiava a sua cadeira; l em 
cima no quarto, tinha-me tratado as doenas infantis e narrara-me histrias antes de dormir, as quais tornavam mais fcil fechar os olhos e adormecer feliz e sempre 
em segurana, abrigada no aconchego das promessas que a grandmre tecia, com a sua doce voz e o seu olhar meigo e suave. Nas noites quentes de Vero, sentada  janela 
do meu quarto, quantas vezes no fantasiara o futuro e no vira o meu prncipe chegar, imaginando o nosso casamento mgico, celebrado ao som de uma suave melodia, 
iluminado com o p dourado que cintilava nas teias de aranha.

oh!, era bem mais do que uma simples casa do pntano que eu abandonava; era todo o meu passado, os meus anos de crescimento e de desenvolvimento, os meus sentimentos 
de alegria e de tristeza, as minhas melancolias e emoes, o meu riso e as minhas lgrimas. Como era difcil, mesmo depois dos ltimos acontecimentos, caminhar em 
frente e permitir que a noite fechasse aps mim a porta da escurido.

e quanto ao pntano? Poderia eu separar-me das flores, dos pssaros, dos peixes e at mesmo dos aligatores que sempre me haviam espiado com curiosidade? Ao luar, 
sentado no ramo de um sicmoro, estava um falco do pntano, com o perfil escuro e orgulhoso debruado pela luz branca; ao ver-me passar, abriu as asas e assim as 
conservou, como se estivesse a despedir-se de mim em nome de todas as criaturas do pntano. S pude continuar quando decidiu fechar as asas, levando comigo a imagem 
da sua silhueta escura,

No caminho para Houma, passei pelas casas de muita gente conhecida, pessoas que eu admitia nunca mais poder rever. Estive quase tentada a parar em casa de Mrs. Thibodeau 
para dizer adeus. Tanto ela como Mrs. Livaudis tinham sido sempre as nossas amigas mais ntimas, mas receei que ela me tentasse persuadir a no partir e a ficar 
com ela ou com Mrs. Livaudis. Prometi a mim prpria que um dia, quando estivesse finalmente segura de mim, escreveria uma carta a ambas.

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Na cidade, havia poucos stios ainda abertos quando cheguei. Resolvi ir directamente  estao e comprar um bilhete sem retorno para Nova Orlees. Tinha ainda uma 
hora de espera, e passei a maior parte do tempo sentada nos bancos da estao, receando que algum me visse e me tentasse deter ou contasse ao grandpre o que eu 
tencionava fazer, Por duas vezes, pensei ainda em telefonar a Paul, mas tive receio de falar com ele. Se eu lhe contasse o que o grandpre fizera, Paul decerto perderia 
o controlo e faria alguma tolice. Resolvi ento escrever-lhe uma carta de despedida; comprei um sobrescrito e um selo na prpria estao e tirei do meu bloco de 
notas uma folha em branco:

Querido Paul:

Precisaria de muito tempo para te explicar porque decidi abandonar Houma sem me despedir de ti. No entanto, acredita que o motivo principal  simplesmente porque 
me custaria muito ver-te e partir em seguida.

Quero apenas que saibas que naquele dia no te revelei todos os acontecimentos do passado, e que so esses acontecimentos que me obrigam a deixar Houma e a partir 
em busca do meu pai verdadeiro e da minha outra vida. Tudo o que eu mais desejava era poder passar o resto da minha vida ao teu lado. Parece que a natureza nos pregou 
uma partida cruel, permitindo que nos apaixonssemos desta forma para depois nos surpreender com a terrvel verdade. Mas sei que, se eu no partisse, tu no desistirias 
e acabarias por nos causar a ambos ainda mais sofrimento.

Lembra-te de mim tal como eu era antes de saber a verdade, que eu prometo recordar-te da mesma forma. Talvez tenhas razo; talvez nunca amemos ningum tanto quanto 
nos amamos um ao outro, mas temos que tentar. Pensarei sempre em ti e vou imaginar-te na tua bonita plantao.

Com o amor de sempre, Ruby.

Deitei a carta no marco do correio em frente da estao 

sentei-me em seguida, tentando engolir as lgrimas enquanto esperava. Finalmente, o autocarro chegou. Vinha de St. Martinville e j parara vrias vezes para recolher 
passageiros em New !beria, Franklin e Morgan City antes de chegar a Houma; por Isso, quando entrei e entreguei ao motorista o bilhete, verifiquei

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que vinha praticamente cheio. Encaminhei-me para a retaguarda e vi um lugar vago ao lado de uma mulher bonita com a pele morena, cabelo preto, e olhos cor de turquesa. 
Quando me sentei, ela sorriu, mostrando os dentes muito brancos. Trazia uma saia rosa e azul, uma blusa de alas cor-de-rosa, sandlias pretas e muitos anis e pulseiras 
em ambos os braos. Prendera o cabelo com uma charpe branca, que estava presa com sete ns, todos eles com a ponta branca bem armada.

- Ol - cumprimentou ela. - Tambm vais para a sepultura hmida?

- Sepultura hmida? - repeti, sentando-me a seu lado.
- Nova Orlees, querida. Era o nome que a minha me lhe dava, por no se poder enterrar ningum na terra. Tem demasiada humidade.

- Verdade?

- Sim. Todos esto enterrados em tmulos, cmaras morturias e caixes acima do solo. No sabias? - indagou, sorrindo ainda. -  a primeira vez que vais a Nova Orlees, 
no ? -, sim.

- Escolheste a melhor altura para visitar a cidade, sabias?
- comentou. Reparei no brilho e no entusiasmo dos olhos dela.
- Porqu?

- Porqu? Ento, querida, no sabes que  Tera-feira de Carnaval?

- oh!, no... - exclamei, pensando que era a pior altura para chegar e no a melhor. J tinha lido e ouvido falar sobre o Carnaval em Nova Orlees. Era por isso 
que aquela mulher estava vestida e arranjada daquela forma. Toda a cidade estaria em festa, e no seria decerto a melhor hora para bater  porta do meu pai.

- Assim, at parece que acabaste de sair do pntano, querida!

Suspirei e fiz um sinal afirmativo, o que a fez rir.

- Chamo-me Annie Gray - apresentou-se estendendo-me a mo delgada e suave, a qual apertei. Os anis que usava em todos os dedos eram bonitos, mas aquele que ela 
trazia no dedo mindinho era especial, parecia feito em osso e tinha a forma de uma pequena caveira.

- Chamo-me Ruby, Ruby Landry.

- Muito gosto. Tens famlia em Nova Orlees? - perguntou.
- Tenho   -  respondi. - Mas nunca... os conheci.

- oh!, incrvel!

O motorista fechou ento a porta do autocarro e dirigiu-o para fora da estao. Senti o corao disparar quando passmos
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pelas lojas e pelas casas que eu conhecera desde sempre. Vimos tambm a igreja e a escola, percorrendo o caminho que eu fizera quase todos os dias da minha vida. 
Depois, parmos num cruzamento, e o autocarro virou na direco de Nova Orlees. Conhecia bem aquele sinal na estrada e muitas vezes sonhara segui-lo, o que agora 
finalmente acabara por acontecer. Dentro de momentos, percorramos j a auto-estrada, deixando Houma cada vez mais longe. No pude deixar de olhar para trs.

- No olhes para trs - aconselhou logo Annie Gray. -O qu! Porque no?

- D azar - respondeu.

Virei-me ento e voltei  posio inicial.
- Que significa isso?

- Significa apenas que d azar. Agora benze-te depressa trs vezes - sugeriu. Vendo que ela falava a srio, resolvi seguir o seu conselho.

- J tive azar suficiente, no preciso de mais - comentei, o que a fez rir. Depois inclinou-se para alcanar a mala, procurou no seu interior e retirou algo que 
me colocou na mo. Fiquei a ver o que era.

-O que  isto? - indaguei ento.

-Um bocado de osso de pescoo de gato preto.  gris-gris - declarou. Vendo em seguida que eu ainda continuava sem pereber muito bem, acrescentou: -  um talism 
mgico para dar sorte; foi a minha grandmere quem mo deu.  vodu
- explicou, num sussurro.

- Ah! Mas no posso aceitar o seu talism - afirmei, devolvendo-o. Ela abanou entretanto a cabea.

- Se aceitar, fico com azar, e ,se o devolveres, ficas com mais azar ainda - respondeu. - Eu tenho muitos mais, querida, no te preocupes e aceita - explicou, forando 
os meus dedos a segurar o osso de gato. - Guarda-o, mas no deixes de o trazer sempre contigo.

- Obrigada - aceitei, guardando-o na mala.

- Aposto que esses teus parentes esto muito contentes por irem conhecer-te!

-No - respondi.

Ela virou a cabea e sorriu, sem entender. -No? Eles no sabem que vais chegar?

Fitei-a e depois voltei a olhar para a frente, endireitando as costas no assento.

-No - repeti -, nem sequer sabem que eu existo acrescentei.

O autocarro prosseguiu, com os faris dianteiros a iluminar a noite escura, rumo ao futuro desconhecido, um futuro to negro e assustador quanto a auto-estrada sombria.

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LIVRO DOIS
10

UMA AMIZADE INESPERADA

A excitao de Annie Gray por chegar a Nova Orlies durante o perodo do Carnaval era tanta que este foi o seu tema de conversa durante o resto da viagem. Sentada 
com os joelhos muito juntos, retorcendo os dedos com nervosismo, sentia-me grata pela conversa. Ouvindo as descries de Annie sobre outras pocas de Carnaval, tinha 
pouco tempo para sentir pena de mim mesma e para me preocupar com o momento em que sasse do autocarro. Pelo menos, durante aquelas horas, podia ignorar os pensamentos 
turbulentos que se amontoavam na minha cabea.

Annie vinha de Nova Ibria, mas j fora a Nova Orlees muitas vezes antes, a fim de visitar a tia, que ela dizia ser uma cantora famosa num clube nocturno do Bairro 
Francs. Annie comunicou depois que, a partir desse momento, passaria a viver com a tia em Nova Orlees.

-Vou ser cantora tambm - declarou. - A minha tia conseguiu agendar a minha primeira prova de voz em Bourbon Street. J ouviste falar do Bairro Francs, no, querida? 
- perguntou.

- Sei que  a parte mais antiga da cidade, que tem muita msica e que h sempre animao - respondi.

-  verdade, querida, e tem tambm os melhores restaurantes, muitas lojas boas e imensas lojas de antiguidades e galerias de arte.

-Galerias de arte? -Sim, sim.

- Conhece a Dominique's? Ela encolheu os ombros.

-No conheo as galerias de arte. Mas porqu?

- Tenho algumas das minhas pinturas expostas l - informei com orgulho.

-A srio? Cus, mas que classe! Es uma artista ento! -
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exclamou, impressionada. - e nunca vieste antes a Nova Orlees?

Eu confirmei.

-- oh,! - lanou um grito estridente e apertou-me a mo. Ento nem sabes o quanto te vais divertir! Tens de me dar a tua morada e eu mando-te um convite para me 
vires ouvir cantar, mal eu seja contratada, est bem?

- Ainda no sei onde vou ficar - fui obrigada a confessar, o que diminuiu a excitao de Annie. Encostou as costas ao assento e fitou-me demoradamente com um sorriso 
de curiosidade nos lbios.

-O que queres dizer? Julguei ter-te ouvido dizer que ias visitar uns parentes - afirmou ento.

-e vou... Apenas no sei onde moram. - Permiti que os meus olhos encontrassem os dela por breves instantes e depois voltei a fitar a paisagem l fora, que nesse 
momento se resumia a uma mancha de silhuetas escuras, ocasionalmente iluminada pela luz da janela de uma casa solitria.

- Bem, querida, mas Nova Orlees  bastante maior do que o centro de Houma. - declarou, rindo. - Pelo menos tens o nmero de telefone deles, no tens?

Respondi que no, abanando a cabea. Tinha a ponta dos dedos dura e insensvel, talvez por os manter to unidos.

O sorriso dela desvaneceu-se, fechando um pouco os olhos azul-turquesa e lanando um olhar suspeito para a pequena mala que eu carregava. Em seguida, mudou de posio 
e aprumou-se na cadeira, convencida que descobrira a explicao.
- Ests a fugir de casa, no  assim? - indagou.

Mordi o lbio, mas no pude impedir que os olhos se enchessem de lgrimas e fiz sinal que sim.

- Porqu? - inquiriu ela depressa. - Podes contar  Annie Gray, querida, que ela sabe guardar um segredo melhor do que um cofre do banco.

Engoli as lgrimas e esforcei a garganta seca para lhe poder falar acerca da grandmre Catherine, da sua morte, da mudana do grandpre Jack para a nossa casa e 
do seu ltimo acordo com Buster. Ela ouviu atentamente, fitando-me at quase ao final com um olhar de compaixo e simpatia; mas, ao ouvir o relato do acordo do meu 
casamento com Buster, o olhar de Annie transformou-se, enraivecido.

- Que velho monstruoso! - exclamou. - O prprio Papa Las Bas - murmurou.

- Quem?

- O diabo em pessoa - declarou. - Trazes alguma coisa que lhe pertena?

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-No - respondi. - Porqu?

-  pena - declarou com raiva. - Lanava-lhe um feitio para pagar o que te fez. A minha bisav veio para esta terra como escrava, mas era uma mama, uma rainha do 
vodu e foi graas a ela que aprendi muitos segredos - sussurrou, com os olhos muito abertos e o rosto prximo do meu. - Ya, ve, ye li konin tou, gris-gris - recitou, 
fazendo o meu corao bater mais depressa.

-Que significa isso?

-  parte de uma orao vodu. Se tivesse um fio de cabelo do teu grandpre ou uma pea de roupa, nem que fosse uma meia velha... ele nunca mais te incomodava - assegurou, 
meneando a cabea de um lado para o outro.

- No faz mal. Agora j est tudo bem - respondi, igualmente num murmrio.

Ela fitou-me por bastante tempo. A parte branca dos seus olhos parecia mais brilhante, como se tivesse duas chamas atrs de cada rbita. Finalmente, Annie voltou 
a mover a cabea, deu algumas pancadinhas na minha mo como forma de consolo e recostou-se.

- Vai tudo correr bem, s tens de ter cuidado para no perder esse osso de gato preto que eu te dei - afirmou.

- Obrigada - suspirei. O autocarro baloiou e virou na auto-estrada.  nossa frente, o caminho tornava-se cada vez mais claro,  medida que nos amos aproximando 
das reas mais povoadas e iluminadas, rumo  cidade que, na distncia, se assemelhava a um dos meus sonhos.

- j sei o que deves fazer quando chegarmos - continuou Annie. - Vais a uma cabina telefnica e procuras o nome dos teus parentes na lista. Alm do nmero de telefone, 
encontrars tambm a morada. Qual  o nome deles?

-Dumas - respondi.

-Dumas. oh, querida, mas h centenas de Dumas na lista... Sabes o primeiro nome?

- Pierre Dumas.

- Devem constar pelo menos uns doze! - comentou, abanando a cabea. - O nome tem alguma inicial no meio? --No sei - disse eu.

Ela ficou a meditar uns instantes.

- Que mais sabes acerca dos teus parentes, querida?

- Apenas que vivem numa casa muito grande, numa manso     exclamei. Os olhos de Annie voltaram ento a brilhar. oh, talvez seja no Garden District, ento! Sabes 
qual  a sua profisso?

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Abanei a cabea. Reparei que tinha uma sobrancelha levantada, com um olhar novamente desconfiado.

-Quem  o Pierre Dumas? Teu primo? Teu tio? -No,  meu pai - respondi. Annie abriu a boca de espanto, com os olhos tambm muito abertos.

-Teu pai? E nunca te viu antes?

Voltei a abanar a cabea, respondendo que no. No queria contar a histria toda, e felizmente ela no perguntou mais pormenores. Apenas se benzeu, murmurando algo 
em seguida.

- Eu ajudo-te a procurar na lista telefnica. A minha grandmre dizia que eu tenho a viso de uma mama e que posso encontrar a luz na escurido. Eu ajudo-te - repetiu, 
dando-me pancadinhas na mo. - Mas h uma condio - acrescentou.

-Qual condio?

-Tens de me dar uma oferta, algo valioso para abrir as portas. oh!, no, no  para mim - explicou rapidamente.  um sinal para os santos, um presente de gratido 
pela ajuda que vo dar ao teu gris-gris. Temos de a deixar na igreja. O que  que pode ser?

-No tenho nada de valor - afirmei.
- Trazes algum dinheiro? - indagou.

-Um pouco daquele que ganhei com a venda dos meus quadros - expliquei.

- ptimo - exclamou ela. - D-me uma nota de dez dlares na cabina telefnica, e eu terei os poderes necessrios. Tiveste sorte em me encontrar, querida, se no, 
passavas o dia e a noite a vaguear pela cidade. Foi o destino: deve ser o teu bom gris-gris.

Annie riu mais uma vez, comeando novamente a descrever como a sua vida seria maravilhosa em Nova Orlees, se a tia conseguisse arranjar-lhe uma oportunidade para 
cantar.

Quando vi pela primeira vez a cidade ao longe, senti uma enorme gratido por ter encontrado Annie Gray. Era como entrar num cu carregado de estrelas, com tantos 
edifcios e tantas luzes. O trnsito intenso era assustador, e a quantidade de pessoas e o labirinto das ruas impressionante. Para onde quer que olhasse, via inmeros 
folies vestidos com trajes brilhantes, usando mscaras e chapus com penas e chapus-de-chuva de papel coloridos. Alguns deles, em vez de mscaras, traziam o rosto 
pintado de forma a parecer palhaos, at mesmo as mulheres, e tocavam trombetas, trombones, flautas e tambores. O motorista do autocarro foi obrigado a abrandar 
e esperar que as multides passassem em quase todas as ruas do trajecto para
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a estao, onde por fim parou. Mal o fez, o autocarro foi imediatamente rodeado por bandos de gente e por msicos que queriam saudar os passageiros que chegavam. 
Distribuam inclusivamente mscaras, coroas de jias de plstico para colocar na cabea e chapus-de-chuva de papel. Era como se quisessem transmitir que quem no 
celebrasse o Carnaval no era bem-vindo a Nova Orlees.

- Despacha-te - disse-me Annie mal nos levantmos. Assim que coloquei um p no cho, algum me agarrou a mo esquerda para eu segurar um chapu-de-chuva de papel, 
impelindo-me para o grupo de mascarados. Acabei por ser obrigada a dar a volta ao autocarro com todos eles, enquanto Annie, rindo, atirava as mos ao ar e danava 
atrs de mim. Entrmos na marcha at o motorista retirar todas as malas, pois s quando Annie viu as nossas  que me puxou finalmente da fila e nos dirigimos para 
a estao. Havia pessoas a danar por toda a parte e ,onde quer que os meus olhos pousassem, existiam bandas de msicos a tocar jazz tradicional.

- Olha uma cabina telefnica! - exclamou entretanto Annie, apontando. Corremos ento para a cabina, onde Annie abriu a enorme lista telefnica. Ainda no me tinha 
apercebido bem da quantidade de habitantes de Nova Orlees. - Dumas, ,dumas - cantarolava, ao correr os dedos pela pgina. Okay, comeam aqui os nomes. Depressa 
- murmurou, voltando-se para mim -, dobra a nota de dez dlares muitas vezes, despacha-te.

Fiz o que ela pedira; depois, Annie abriu a carteira, mantendo as plpebras cerradas.

- Deita aqui a nota - ordenou. Assim o fiz e ela abriu devagar os olhos, pousando-os novamente na pgina aberta da lista telefnica, agindo como se estivesse realmente 
em transe. Depois, murmurou uma espcie de orao e colocou o dedo comprido na pgina, correndo-a lentamente. De repente, o dedo Parou, o corpo de Annie estremeceu 
e ela fechou e abriu os olhos. -  ele! - declarou, debruando-se sobre a lista e confirmando com a cabea. - e vive realmente no Garden District, numa manso. Deve 
ser rico. - Rasgou ento um canto da pgina e anotou no pedao de papel a morada: Avenida St. Charles,

- Tens a certeza? - perguntei.

- No viste o meu dedo parar neste nome? No fui eu que O fiz, algo o parou! - explicou, abrindo muito os olhos. Aceitei a explicao.

- Obrigada - agradeci.

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- De nada, querida. Bem - exclamou, pegando na mala _, vou andando. Agora vais ficar bem, porque foi a Annie Gray quem to prometeu - afirmou, afastando-se. - A Annie 
no se vai esquecer de ti, por isso no a esqueas - exclamou. Voltou-se para trs, com a mo direita erguida e as pulseiras coloridas a baloiar no brao, despedindo-se 
com um enorme sorriso. Juntou-se depois a um grupo pequeno de folies e foi danando atrs deles at  porta da estao e depois at  rua.

Olhei para a morada escrita no minsculo pedao de papel que tinha na palma da mo. Teria Annie verdadeiramente algum tipo de poder proftico ou estaria aquela morada 
incorrecta? Se me dirigisse para aquele local, no correria o risco de ficar ainda mais perdida? Observei a lista telefnica ainda aberta, ponderando que talvez 
fosse melhor anotar as moradas dos demais Pierre Dumas, mas descobri com surpresa que afinal existia apenas um nico Pierre Dumas na lista. Que tipo de magia era 
necessria para descobrir um s nome, pensei.

Ri-me sozinha, apercebendo-me de que tinha pago apenas a companhia e o divertimento durante a viagem. Mas como saber at que ponto aquilo que Annie me contara correspondia 
 verdade? No me considerava uma pessoa cptica no que respeita a poderes sobrenaturais, sobretudo depois de ter sido criada por uma av que era uma famosa traiteur.

Lentamente, fui-me dirigindo para a sada da estao, onde parei por alguns minutos apenas a observar a vista da cidade. Olhei em volta e assustei-me, receosa. Uma 
parte de mim queria voltar a correr para o autocarro; talvez fosse melhor viver em Houma com Mrs. Thibodeau ou Mrs. Livaudis, pensei. Mas as gargalhadas e a msica 
de um outro grupo de folies vindo de um autocarro interromperam os meus pensamentos. Passaram entretanto por mim, e um deles, um homem alto usando uma mscara de 
lobo preta e branca, parou a meu lado.

- Ests sozinha? - perguntou. Confirmei, meneando a cabea. -- Acabei de chegar.

Pude reparar que os olhos azuis brilharam por trs da mscara, pois eram a nica parte descoberta do rosto daquele homem. Tinha cabelo castanho-escuro e uma voz 
jovem, que me fez acreditar que no teria mais do que vinte e cinco anos.

- Eu tambm. Mas esta noite no se deve passar sozinho! exclamou. - s muito bonita, e hoje  Carnaval. No tens uma mscara que combine com esse chapu?

- No - expliquei. - Este chapu no era meu, deram-mo mal sa do autocarro. No vim para festejar o Carnaval. Vim para...

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- Claro que vieste festejar o Carnaval - interrompeu ele. Toma! - exclamou, retirando da mala que trazia consigo uma outra mscara, preta com diamantes de plstico 
nas extremidades. - Usa esta e junta-te a ns.

- Obrigada, mas preciso de encontrar esta morada - afirmei. Ele observou o papel.

- Sei onde fica essa rua, no  muito longe daqui. Vem connosco. Pelo menos, divertes-te no caminho! - acrescentou. Toma, pe a mscara. Hoje, todos tm de andar 
mascarados. Ento, no vais us-la? - insistiu, com o seu olhar penetrante fixo em mim. Vi no olhar dele que sorria e coloquei por fim a mscara.

- Agora sim, ests preparada! - exclamou.
- Conheces mesmo esta morada? - indaguei.

-Claro que sim. Vem - respondeu, pegando-me na mo. Talvez a magia de Annie Gray estivesse a dar resultado, pensei, pois acabara de encontrar um desconhecido que 
me levaria at  porta do meu pai. Dei-lhe a mo e corri com ele para alcanar o grupo. Tocavam msica em cada canto da cidade e por toda a parte se vendia comida, 
mscaras e fatos de fantasia. A cidade inteira estava transformada num enorme fais dodo, pensei. No se via um rosto triste em parte alguma, pois, caso os houvesse, 
estavam ocultos pelas mscaras. Das varandas enfeitadas por cima das nossas cabeas, atiravam serpentinas, e em cada esquina havia uma fila de mascarados a danar. 
Alguns dos trajes que as mulheres usavam eram mnimos e bastante reveladores. Regalei os meus olhos com tudo aquilo que via, apreciando aquela festa da vida: as 
pessoas beijavam quem quer que estivesse ao seu lado, estranhos abraavam-se e andavam de mos dadas e os malabaristas lanavam as suas bolas coloridas, tochas de 
fogo e at mesmo facas!

 medida que fomos avanando, a multido ia aumentando. O acompanhante que eu acabara de conhecer na estao fazia-me girar e depois atirava a cabea para trs, 
rindo. Comprou depois uma espcie de ponche para bebermos e uma sanduche de camaro, a qual dividimos. Era feita com ostras, camaro, rodelas de tomate, alface 
desfiada e molho picante e eu achei-a deliciosa. Apesar do meu receio em chegar a Nova Orlees e de todo o nervosismo por ir conhecer a minha famlia, aquela hora 
foi divertida.

- Obrigada. Chamo-me Ruby - informei. Tinha de gritar, apesar de ele estar mesmo ao meu lado, pois a msica, as gargalhadas e os gritos ao nosso redor eram ensurdecedores.

Ele abanou a cabea e aproximou o rosto do meu ouvido.
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- No se dizem nomes - gritou. - Hoje somos todos desconhecidos. - Com os lbios hmidos, deu-me em seguida um rpido beijo no pescoo, que me deixou meio aturdida; 
depois soltou uma gargalhada e eu recuei ento um passo.

- Obrigada pela bebida e pela sanduche, mas tenho de encontrar esta morada - afirmei. Ele engoliu  pressa o resto da bebida.

- No queres assistir primeiro ao desfile? - indagou.
- No posso., Tenho de encontrar esta morada - insisti,
- Est bem.  por aqui... e antes que eu pudesse opor-me, pegou novamente na minha mo e conduziu-me para longe do desfile de mascarados. Percorremos uma rua, depois 
outra e em seguida ele declarou que tnhamos de seguir por um atalho.

- Se seguirmos por este beco, poupamos no mnimo vinte minutos. A multido vai l adiante.

O beco era comprido e sombrio. Havia latas amachucadas e pedaos de mveis partidos espalhados de um lado e de outro, e o cheiro cido de lixo e de urina era muito 
intenso; deixei-me ficar imvel.

- Vamos - apressou ele ento, forando-me a seguir atrs dele e ignorando a minha resistncia. Contive a respirao, na esperana de chegar rapidamente ao fim do 
beco, mas, a menos de metade do percurso, ele parou e voltou-se para mim.

- O que se passa? - perguntei, sentindo um frio to intenso no estmago como se tivesse acabado de engolir um cubo inteiro de gelo.

- Se calhar no devamos ter tanta pressa. Assim, estamos a desperdiar o melhor da noite. No queres divertir-te? - perguntou ento, aproximando-se mais e colocando 
uma mo no meu ombro. Eu recuei rapidamente.

- Tenho de ir ter com a minha famlia, para lhes dizer que j cheguei - afirmei, sentindo-me completamente idiota por ter permitido que um perfeito desconhecido, 
que nem sequer quisera mostrar-me o rosto ou dizer o seu nome, me conduzisse para um beco escuro. Porque era eu to tola e confiante?

-Tenho a certeza de que eles no devem esperar que tu chegues to cedo numa noite de Carnaval. Esta  uma noite mgica, tudo  diferente - declarou. - s muito bonita 
continuou, retirando a mscara do rosto que eu no consegui distinguir muito bem, devido s sombras. Mas, antes que eu pudesse escapar, ele puxou-me para si e abraou-me.

- Por favor - exclamei, tentando libertar-me -, tenho de ir e no quero fazer isso.

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-Claro que queres. Afinal  Carnaval! Liberta-te e solta os teus desejos - respondeu, pressionando os lbios contra os meus e segurando-me com tanta fora que eu 
no conseguia mexer-me. Senti ento a mo dele descer pelas minhas costas e levantar-me a saia. Virei-me e esbracejei, mas ele prendeu-me os braos com as mos fortes. 
Comecei ento a gritar, e ele abafou os meus gritos, pressionando novamente a sua boca na minha. Quando senti a lngua dele sobre a minha, faltou-me o ar e lancei 
um grito sufocado. Entretanto, a mo dele encontrara as minhas cuecas e tentava agora pux-las. senti-me quase a desfalecer. Quanto mais tempo iria ele manter a 
sua boca na minha? Finalmente, afastou a cabea e eu pude respirar um pouco de ar, mas ele obrigou-me a voltar, levando-me para aquilo que me pareceu ser um velho 
e roto colcho num dos cantos do beco.

- Pra! - gritava eu, lutando por me libertar. - Deixa-me ir embora!

- noite de festa! - respondia, lanando de novo uma gargalhada seca e estridente. Mas desta vez, ao aproximar o rosto do meu, consegui libertar a mo direita do 
brao dele e arranhei-lhe a face e o nariz. Ele gritou e atirou-me para o cho, fora de si.

-Cabra! - insultou, passando a mo pela cara. Eu encolhi-me no escuro, enquanto ele levantava a cabea e libertava mais uma gargalhada. Afinal, teria eu escapado 
de Buster Trahaw apenas para encontrar um perigo ainda maior? Onde estaVa, nesse momento, a proteco das magias de Annie Gray? Todas essas questes se sobrepunham 
na minha mente, vendo aquele estranho alto e oculto pela penumbra avanar na minha direco, um vulto perigoso surgido dos meus piores pesadelos para invadir a realidade.

Felizmente, mal ele me alcanou, um grupo festivo entrou no beco, fazendo a msica ecoar pelas paredes escuras. Vendo-os chegar, o meu atacante baixou a mscara 
sobre o rosto e correu na direco oposta, desaparecendo na escurido, como se  tivesse regressado para o mundo dos pesadelos.

No perdi um s minuto: peguei na mala e corri para o gruPo de mascarados, que, gritando e rindo, tentaram deter-me para que eu me juntasse a eles.

- No! - gritei, rompendo em lgrimas e fugindo para fora do beco. Uma vez na rua, corri o mais que pude para longe daquele local; os meus ps batiam com tanta fora 
no pavimento que chegavam a doer. Finalmente, acabei por parar, sem flego, de ombros descados e com dores nas costas. Quando

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olhei em frente, fiquei contente por avistar um polcia na esquina.

- Por favor - murmurei, aproximando-me dele -, estou perdida. Acabei de chegar e queria encontrar esta morada.
- Escolheu uma pssima altura para chegar a Nova Orlees e perder-se - comentou, abanando a cabea. - oh!, isto fica no Garden District. Pode esperar aqui pelo autocarro. 
Venha comigo - continuou, indicando-me a paragem.

- Obrigada - respondi. Pouco depois, o autocarro chegou; indiquei a morada ao motorista, que prometeu avisar-me quando chegssemos quele destino. Sentei-me rapidamente 
e limpei o rosto com um leno, esperando que o corao abrandasse antes de parar  porta de casa do meu pai. Caso contrrio, o estado de nervos em que me encontrava 
devido a tudo o que se passara, alm da emoo que iria sentir ao confront-lo, decerto me fariam desmaiar aos seus ps.

Quando entrou no bairro a que chamavam Garden District de Nova Orlees, o autocarro percorreu uma espcie de tnel formado pelas copas de alguns carvalhos viosos 
e por imensos jardins floridos, onde abundavam as camlias e as magnlias. Reparei nas casas elegantes com jardins rodeados por muros, de onde se avistavam bananeiras 
enormes e bgulas vermelhas. Em cada esquina havia um azulejo antigo embutido, indicando o nome da rua. Algumas das pedras da calada estavam j reviradas pelas 
raizes dos velhos carvalhos, o que, quanto a mim, conferia ao bairro um toque ainda mais tradicional e peculiar. Nesta parte da cidade, havia muito menos agitao, 
e nas ruas por onde amos passando notava-se cada vez menos folies.

-Avenida Saint Charles - gritou o motorista de repente. Um arrepio carregado de electricidade invadiu todo o meu corpo, amolecendo-me as pernas, que ficaram to 
pouco firmes quanto manteiga. Durante um momento, julguei que no conseguiria levantar-me; tinha finalmente chegado e estava quase cara a cara com o meu pai verdadeiro. 
No meu peito, o corao batia descompassadamente. Apoiei-me ento a uma das pegas do autocarro e forcei as pernas at ficar de p. As portas laterais abriram-se 
com tamanha rapidez que engoli em seco. Finalmente, coloquei um p no cho e dei um passo para a rua. As portas fecharam-se rapidamente e o autocarro seguiu, deixando-me 
ali sozinha no passeio, sentindo-me mais deslocada e mais miservel do que nunca, segurando a minha pequena mala.

Podia ainda ouvir os sons da celebrao do Carnaval vindos do centro da cidade. Passou depois um automvel cheio de folies, que deitaram as cabeas fora da janela, 
tocando trombe-
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tas e atirando serpentinas na minha direco. Acenaram-me e gritaram, continuando a sua alegre marcha, enquanto eu permanecia parada no mesmo stio, como se tivesse 
criado raizes firmes como as dos carvalhos. O fim de tarde era morno, mas ali na cidade, com tanta iluminao, era mais difcil vislumbrar as estrelas, que no bayou 
haviam sido sempre o meu consolo. Respirei fundo e resolvi prosseguir por fim pela Avenida St. Charles at chegar ao nmero que constava do pequeno pedao de papel 
a que eu me segurava como a um rosrio.

A Avenida St. Charles era muito sossegada, comparada com as ruas centrais da cidade, cheias de sons festivos e excitao. Pareceu-me no entanto um pouco sombria, 
como se tivesse entrado por uma porta mgica que separava a realidade da fico para a minha prpria "terra de Oz". Nada ali parecia real: nem as palmeiras altas, 
nem os candeeiros antigos, nem as pedras das caladas, nem principalmente as manses gigantescas, que se assemelhavam a pequenos palcios, a casas de prncipes e 
de princesas, de rainhas e de reis. Estas moradias, a maioria das quais murada, assentavam no meio de grandes reas de terreno, rodeadas por jardins maravilhosos 
repletos de uma abundante e viosa folhagem verde, enfeitada por rosas e todos os tipos de flores que se pudesse imaginar.

Caminhei vagarosamente, observando toda aquela opulncia e imaginando como uma famlia poderia viver naquelas casas to grandes com jardins to bonitos. Como  que 
algum podia ser assim to rico, perguntava-me. De to embrenhada nos meus pensamentos e de to hipnotizada pelo que via, quase passei o nmero da morada do papel 
que trazia na mo. Quando parei em frente  residncia dos Dumas, fiquei parada a olhar, de boca aberta. Os edifcios adjuntos  casa principal, em conjunto com 
os jardins e os estbulos, ocupavam a maior parte do quarteiro.

Era a casa do meu pai, mas aquela manso de branco cor de marfim na minha frente parecia ter sido construda para um deus grego. O edifcio era constitudo por duas 
partes, separadas por colunas altas, cujos topos eram esculpidos em forma de campainhas invertidas decoradas com folhas. Havia duas varandas, uma enorme ao longo 
da entrada principal e outra posicionada sobre esta ltima. Cada uma tinha uma decorao diferente de ferro forjado, a de cima com flores, a de baixo com frutos.

Resolvi dar a volta  casa, e fui seguindo pelo passeio os vrios relvados do jardim. Vi a piscina e os campos de tnis e continuei maravilhada. Havia ali uma atmosfera 
mgica, como

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se aquela fosse a terra dos meus sonhos de uma Primavera eterna. Dois esquilos passaram por mim correndo atrs de comida e observaram-me com mais curiosidade do 
que receio. No ar, notava-se o aroma de bambu verde e de gardnias e ,onde quer que os meus olhos pousassem, via azleas em flor, rosas vermelhas e amarelas e hibiscos. 
Os jasmins-da-virgnia e as glicnias roxas enfeitavam o caramancho e o terrao, e as begnias os canteiros das balaustradas e os parapeitos.

quela hora, as luzes dentro de casa estavam j acesas e todas as janelas iluminadas. Lentamente, acabei de dar a volta completa em redor da casa e parei de novo 
em frente do porto principal. e ,embora continuasse deslumbrada com a elegncia e a grandiosidade daquela manso, comecei nessa altura a ponderar no que me teria 
feito viajar para to longe apenas para vir parar quele local. Certamente os habitantes daquela casa seriam bem diferentes de mim; podia ter viajado para outro 
pas, onde todos falassem uma lngua desconhecida, que seria praticamente o mesmo. Senti um peso sbito no corao e uma dor aguda na cabea, que de repente comeou 
a latejar. O que estava eu a fazer ali, uma pobre rapariga cajun rf, que se tinha iludido o suficiente para acreditar que existia um arco-ris  sua espera no 
final da violenta tempestade de problemas da sua vida? Tive ento a certeza de que s me restava uma soluo: procurar o caminho de volta para a estao e regressar 
a Houma.

Completamente desfeita e com o corao partido, voltei as costas  casa de meu pai e comecei a fazer o caminho inverso, quando subitamente, parecendo vir do ar, 
um pequeno carro vermelho descapotvel parou abruptamente diante de mim. O condutor saltou por cima da porta e vi que era um jovem alto com um bonito cabelo louro 
bem tratado, que caa farto sobre a testa. Contudo, apesar das madeixas louras, tinha uma tez bastante morena, que fazia os seus olhos muito azuis brilhar ainda 
mais, iluminados pela fraca luz do candeeiro de rua. Vestido de smoking, com ombros largos e tronco esbelto, surgiu diante de mim como um prncipe: educado, elegante 
e forte, com as feies de bonito rosto to bem esculpidas como se de facto descendesse de alguma casa real.

A sua boca era perfeita e firme, o nariz to bem traado como o de um romano, condizente com os lindos olhos azul-celeste. As linhas do queixo eram to finas e bem 
traadas que seria fcil acreditar que aquele rosto tinha sido delineado para se assemelhar a alguma estrela de cinema. Fiquei completamente sem fala durante alguns 
segundos, incapaz de me mexer
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diante da radincia do seu sorriso doce e atraente, que rapidamente se transformou num riso suave.

-Onde  que julgas que vais? - perguntou ento. e que fato  esse? Ests mascarada de rapariga pobre, ?continuou, dando voltas em meu redor, como se estivesse a 
avaliar-me segundo o critrio da moda.

- Desculpe?

A minha resposta provocou-lhe uma cadeia de gargalhadas.
Colocando o brao sobre o abdmen, encostou-se  capota do carro desportivo.

-Que engraado! - comentou. - Adorei: "Desculpe?"
- imitou.

- No acho nada engraado - respondi, indignada, o que s aumentou ainda mais as suas gargalhadas.

- Nunca imaginei que escolhesses um disfarce desses afirmou, apontando na minha direco com a palma da sua mo elegante. - e onde descobriste essa mala, nalguma 
loja de antiguidades, no? Encheste-a de qu, de outros trapos?

Puxei a mala para diante de mim e endireitei os ombros.
- Isto no so trapos - retorqui, mas ele comeou novamente a rir. Tudo o que eu pudesse dizer ou fazer, at mesmo a minha forma de olhar, lhe provocava ondas de 
histeria. O que  que acha to engraado? Trago aqui tudo quanto me pertence - insisti. Ele abanou a cabea, mantendo o amplo sorriso nos lbios.

- Realmente, Gisselle, no podias estar melhor, juro! respondeu, erguendo a mo para fazer um juramento - e este foi o melhor disfarce que j alguma vez inventaste. 
Ainda por cima, com esse ar de indignao!... Vais com certeza ganhar algum prmio, e todas as tuas amigas vo morrer de inveja! Brilhante! Surpreendeste-me muito! 
Adorei!

- Primeiro - comecei eu -, o meu nome no  Gisselle.
- oh! - exclamou, fazendo uma careta como se estivesse a satirizar uma cena com uma mulher louca. e que nome escolheste ento?

- O meu nome  Ruby - informei.

- Ruby? Gosto desse nome... - respondeu com um olhar pensativo. - Ruby... uma jia... para descrever o teu cabelo. Bem, na verdade o teu cabelo sempre foi o teu 
bem mais precioso, alm dos teus diamantes verdadeiros,  claro, e dos rubis, das esmeraldas e das prolas -- continuou ele, rindo. Visto isso - afirmou, endireitando-se 
e fazendo uma expresso mais sria -, devo apresentar-te a todos como Mademoiselle Ruby, no  assim?

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- No quero saber do que deve fazer - respondi. - e pode ter a certeza de que no estou  espera que me apresente a ningum - acrescentei, comeando a afastar-me.

-- H?... - gritou ele. Atravessava j a rua quando ele correu para junto de mim e me agarrou pelo cotovelo. - O que ests a fazer? Aonde vais? - indagou, com uma 
expresso perturbada, devido ao atordoamento que lhe causei.

-Vou para casa - respondi. -Para casa? Qual casa?

- Vou regressar para Houma, se quer realmente saber expliquei. - Agora, agradecia que me deixasse seguir.

- houma? O qu? - Fitou-me durante alguns instantes e depois, em vez de me libertar agarrou tambm o meu outro brao e fez-me voltar o rosto directamente para a 
luz vinda do candeeiro da rua. Estudou-me ento o rosto durante alguns momentos, com os olhos doces agora perturbados e penetrantes.
- Pareces, realmente... diferente - murmurou. - e nem sequer ests maquilhada. No percebo, Gisselle.

-J disse - comecei - que no me chamo Gisselle. O meu nome  Ruby e vim de houma.

Ele continuou a fitar-me, mantendo ainda as mos nos meus braos. Depois abanou a cabea e sorriu novamente.

- V l, Gisselle! Desculpa ter chegado um bocado tarde, mas j ests a levar esta histria longe de mais. Reconheo que  um fato de Carnaval incrvel e um ptimo 
disfarce, mas que mais queres que eu faa?

-Queria. que me largasse os braos - respondi. Ele largou-me ento e recuou um pouco, agora mais indignado e rritado do que propriamente confuso.

- Mas afinal o que  que se passa? - quis saber. Eu suspirei e olhei para trs, para a casa. - Se no s a Gisselle, ento o que estavas a fazer em frente de casa? 
Porque vieste a esta rua?

- Eu ia bater  porta e apresentar-me a Pierre Dumas, mas mudei de ideias - informei.

- Apresentar-te a... - Abanou a cabea e avanou novamente na minha direco. - Deixa-me ver a tua mo esquerda
- pediu ento. - Por favor - acrescentou, estendendo a mo. Acedi e ,pegando-me na mo, ele ficou a observar os meus dedos por alguns instantes; lanou-me um olhar 
de espanto, com o rosto retorcido pelo choque. - Tu nunca tiras aquele anel, nunca! - exclamou, falando quase sozinho. - e os teus dedos
- continuou, voltando a observar a minha mo -, toda a tua mo est mais spera! - Soltou-me rapidamente a mo, to
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depressa como se eu a tivesse colocado antes numa fogueira a arder. - Quem s tu?

- J disse: chamo-me Ruby.

- Mas pareces tal e qual a... s igual  Gisselle! - conCluiu.

- oh!, ento  esse o nome dela - murmurei, falando mais para mim prpria do que para ele. - Gisselle...

- Quem s tu? - perguntou outra vez, olhando-me como se estivesse cara a cara com um fantasma. - Quer dizer, o que s em relao  famlia Dumas? Uma prima? O qu? 
Exijo que me respondas, se no, chamo a Polcia - acrescentou com determinao.

- Sou irm da Gisselle - confessei, num sussurro.

- Irm da Gisselle?! Mas a Gisselle no tem nenhuma irm! - retorquiu, ainda com um tom de voz alterado. Depois fez uma pausa, claramente impressionado pela nossa 
parecena.
- Pelo menos, que eu tenha conhecimento - concluiu.

- Tenho a certeza de que a Gisselle tambm no tem qualquer conhecimento a meu respeito.

-A srio? Mas...

-  uma histria demasiado comprida para lhe contar agora e no tenho nenhuma razo para o fazer - declarei. -Mas se s irm da Gisselle, porque  que te ias embora?

Porque vais regressar a... onde foi que disseste? A houma?
- Julguei que era capaz de o fazer, de me apresentar  famlia, mas agora vejo que no.

-Quer dizer que eles no sabem que ests aqui? - Eu abanei a cabea. - Ento no podes partir sem lhes dizer que ests aqui em Nova Orlees. Vamos - disse ele, estendendo-me 
a mo. - Eu levo-te.

Porm, eu recusei e recuei, mais aterrorizada do que nunca.
- Vem comigo - insistiu. - Olha: chamo-me Beau Andreas e sou um velho amigo da famlia. Na verdade, a Gisselle  minha namorada, mas j antes disso os meus pais 
conheciam a famlia Dumas. So amigos h muitos anos. Sou quase um membro da famlia, por isso  que fiquei to chocado com aquilo que me contaste. Vem - repetiu 
por fim, pegando-me na mo.

-  melhor no ir - respondi, negando-me a avanar. Afinal no  uma boa ideia.

-O qu?

- Surpreend-los.

-Ento, Mister e Mistress Dumas no sabem da tua vinda? - indagou, cada vez mais confuso. Eu abanei a cabea. -
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Isto  realmente tudo muito estranho. A Gisselle no sabe que tem uma irm gmea e os Dumas no sabem que tu vinhas. Bem, ento porque  que fizeste a viagem at 
aqui, se era apenas para dares meia volta e regressares? - indagou, com as mos na cintura.

- Eu...

- Ests com medo, no  ?- concluiu rapidamente.  isso, ests com medo da reaco deles. Mas no tenhas. O Pierre Dumas  um homem bom e a Daphne  simptica, tambm. 
A Gisselle - continuou, sorrindo -  a Gisselle. Para dizer a verdade, mal posso esperar por ver a reaco dela quando te vir!

-No posso entrar - afirmei, voltando-lhe as costas.
- Se no entrares, vou j dizer-lhes que estiveste aqui e que fugiste - ameaou ele. - Assim, algum vir atrs de ti e vais sentir-te ainda mais envergonhada.

-No  capaz de fazer isso - respondi.

- Claro que sou - respondeu, sorrindo. - Por isso  melhor tomares a atitude certa. - Estendeu-me novamente a mo, e eu olhei para a casa e depois para ele. O seu 
olhar era amigvel, embora um pouco malicioso. Relutantemente, com o corao a bater tanto que julguei no conseguir respirar e desmaiar antes de chegar  porta, 
dei-lhe a mo e permiti que ele me levasse de novo para junto do porto e depois para o trio principal, onde havia uma escada ladrilhada.

- Como chegaste at aqui? - perguntou ele antes de alcanarmos a porta.

- De autocarro - respondi.

Ele levantou o enorme puxador e o som ecoou por aquilo que me pareceu, a julgar pela repercusso da batida, um enorme vestbulo de entrada. Alguns minutos depois, 
um homem mulato abriu a porta, vestido com uma farda de mordomo. No era alto nem baixo, tinha o rosto largo, o nariz achatado e os olhos grandes e escuros; o cabelo 
castanho-escuro era encaracolado e salpicado com alguns fios cinzentos. Tinha nas faces e na testa pequenas pintas castanhas e os lbios eram levemente alaranjados.

- Boa noite, Monsieur Andreas - cumprimentou, olhando logo depois para mim e ficando imediatamente de boca aberta.
- Mas, Mademoiselle Gisselle, acabei de a ver... - Voltou-se para trs, tentando detectar algum. Beau Andreas desatou ento a rir.

- Esta menina no  Mademoiselle Gisselle, Edgar. Edgar, quero apresentar-te a Ruby. Ruby, este  o Edgar Farrar, o mor-
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domo da famlia Dumas. Mistress e Mister Dumas esto em casa, Edgar? - perguntou.

-No, senhor. Saram para o baile h cerca de uma hora
- respondeu, de olhos fitos ainda em mim.

- Bem, ento s nos resta esperar que eles voltem. At l, podes vir conhecer a Gisselle - disse-me Beau, guiando-me pela manso.

O cho do trio da entrada era de mrmore rosado, e o tecto, que parecia a muitos metros de distncia da minha cabea, tinha imagens pintadas de ninfas, anjos e 
pombas num cu azul. Havia pinturas e esculturas em quase toda a parte, a no ser na parede da direita que estava tapada por uma enorme tapearia, retratando um 
imponente palcio francs e seus jardins.

- Onde est Mademoiselle Gisselle, Edgar? - indagou Beau.

- Ainda no desceu - esclareceu Edgar.

- J sabia que ela deveria demorar uma eternidade para se arranjar. Chego sempre atrasado quando levo a Gisselle a sair
- comentou Beau -, especialmente a um baile de Carnaval. Para ela, ser pontual  chegar com uma hora de atraso. Elegantemente atrasada,  claro - acrescentou. - 
Queres beber ou comer alguma coisa?

- No, comi ainda h pouco metade de uma sanduche de camaro -respondi, fazendo uma careta ao lembrar-me daquilo que quase me acontecera depois.

- No gostaste? - perguntou Beau.

-No, no foi isso.  que um homem... um estranho em quem eu confiei, atacou-me num beco a caminho daqui - confessei.

- Sim? e ests bem? - quis logo saber.

- Estou. Consegui fugir antes que acontecesse algo mais grave, mas fiquei muito assustada.

- Acredito. As ruas mais desertas de Nova Orlees so muito perigosas durante o Carnaval. No devias ter andado sozinha pela cidade. - e ,voltando-se para Edgar, 
perguntou: Onde est a Nina, Edgar?

-Na cozinha, a arrumar a loia.

-  Optimo. Vem comigo - pediu Beau. - Vou levar-te at  cozinha e a Nina prepara-te pelo menos alguma bebida. Edgar, fazes-me o favor de informar Mademoiselle Gisselle 
que cheguei com um convidado surpresa e que estamos na cozinha?

- Com certeza, monsieur - respondeu Edgar, encaminhando-se para a bonita escadaria curvada com um lustroso corrimo em mogno, cujos degraus estavam revestidos com 
alcatifa macia.

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- por aqui - informou Beau, guiando-me atravs do trio de entrada e passando por vrias salas, todas repletas de antiguidades, mobiladas com pinturas e mveis 
franceses. Tinha a sensao de ter entrado num museu e no numa casa.

A cozinha era to grande quanto eu imaginara, com vrias mesas e bancadas, grandes lava-louas e paredes tapadas por armrios. Tudo ali brilhava, e o asseio era 
tanto que at mesmo os utenslios em uso pareciam acabados de estrear. De costas, envolvendo restos de comida em papel celofane, estava uma mulher baixa e aprumada, 
com um vestido de algodo castanho e um avental branco. Trazia o cabelo preto bem apanhado num carrapito no cimo da cabea, usando igualmente um leno branco. Enquanto 
trabalhava, ia cantarolando e s quando Beau Andreas bateu na porta  que ela se virou rapidamente.

-No quero que fiques assustada, Nina - declarou ele.
- Est por chegar o dia em que conseguir assustar a Nina Jackson, Monsieur Andreas - respondeu ela, meneando a cabea. Tinha os olhos pequenos e escuros prximos 
do nariz, e a boca to diminuta que quase se afundava nas faces rosadas e no queixo redondo; a pele, porm, era muito bonita e suave e resplandecia por debaixo da 
bata. Nas orelhas pequenas, trazia uns brincos de marfim em forma de conchas.

- Mademoiselle, mudou outra vez de fato? - indagou, mal acreditando no que via.

Beau deu uma gargalhada.

- Esta no  a Gisselle - informou. Nina continuou a menear a cabea.

- Por favor, monsieur, no brinque comigo. Esse disfarce no  suficiente para enganar a Nina Jackson.

- No estou a brincar, Nina. Esta no  a Gisselle - repetiu Beau. - Chama-se Ruby. Repara bem - pediu. - Se h algum capaz de distinguir as diferenas, esse algum 
s tu, Nina. Afinal foste tu quem praticamente criou a Gisselle - declarou.

Ela sorriu atrapalhada, limpou as mos ao avental e atravessou a cozinha at junto de ns, Reparei que usava uma pequena bolsa ao pescoo, presa por um atacador 
de sapatos azul. Durante um minuto, ela observou o meu rosto, semicerrando os olhos e fixando-os nos meus. De repente, abriu-os muito, recuou e segurou a pequena 
bolsa entre o polegar e o indicador, de forma a coloc-la entre ns.

-Quem s tu, rapariga? - exigiu saber.

- O meu nome  Ruby - respondi rapidamente, lanando um olhar a Beau, que mantinha o seu sorriso endiabrado.
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-A Nina est a afastar os males com os poderes do vodu que existem naquela bolsa pequena, no  assim, Nina?

Ela olhou para ele, depois para mim e em seguida deixou cair no peito a bolsa que trazia pendurada ao pescoo.

- Chamam-se ervas-de-cinco-dedos - comunicou. Com elas, posso desviar todo o mal que os cinco dedos podem causar, ouviste?

Fiz um sinal afirmativo.

-Quem  ela? - perguntou Nina a Beau.

- a irm desconhecida da Gisselle -- comunicou ele. irm gmea, obviamente       acrescentou. Nina fitou-me mais uma vez.

- Como  que sabes?       indagou, recuando mais um passo.
- A minha grandmre uma vez contou-me uma histria de um zumbi com a aparncia de uma mulher. Toda a gente espetava alfinetes nesse zumbi e a mulher gritou com dores 
at morrer na cama.

Beau deu um grito de horror, meio divertido.

- No sou nenhuma boneca zumbi - disse eu. Ainda desconfiada, Nina continuou a observar-me,

- Tenho a certeza, Nina, que se espetares alfinetes nesta rapariga, no  a Gisselle quem vai gritar,  ela! - O sorriso dele esmoreceu e a sua expresso tornou-se 
sria. - A Ruby fez a viagem de Houma at aqui, Nina, mas a caminho de casa teve uma m experincia e tentaram atac-la num beco da cidade. Nina meneou a cabea 
como se j soubesse.

- Na verdade, ela est bastante assustada e perturbada informou Beau.

--Senta-te aqui, rapariga - ordenou Nina, indicando-me uma das cadeiras da mesa. - Vou preparar-te algo para acalmar os nervos. Tens fome?

Abanei a cabea.

- Sabias que a Gisselle tinha uma irm? - perguntou Beau, enquanto ela me preparava uma bebida. Nina ficou uns segundos sem responder e depois voltou-se.

-No sei nada que no deva saber - respondeu, fazendo Beau erguer as sobrancelhas. Nina misturou ento uma colher de melao escuro num copo de leite, onde deitou 
tambm uma gema de ovo e um p; mexeu vigorosamente e trouxe-me ento a mistura.

- Bebe isto num s flego, sem respirar - aconselhou, enquanto eu observava o lquido.

- A Nina normalmente cura todos os males desta casa informou Beau. - No tenhas receio.

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-A minha grandmre tambm fazia o mesmo. Ela era traiteur...

- A tua grandmre era traiteur? - indagou Nina. Eu confirmei. - Ento era sagrada - afirmou, impressionada. Uma mulher cajun traiteur pode apagar um incndio e parar 
uma hemorragia s com um toque de mos - explicou Nina a Beau.

- Ento a rapariga j no  zumbi, pois no? - perguntou Beau com um sorriso. Nina deteve-se.

- Talvez no - respondeu, ainda com um olhar suspeito. Bebe - mandou novamente, ao que eu obedeci, apesar de no saber muito bem. Senti o lquido cair no estmago 
e agit-lo, mas, de facto, comecei a sentir-me mais calma.

- Obrigada - agradeci. Voltei-me para Beau e ambos ficmos a olhar para a porta ao ouvir passos no trio. Um minuto depois, Gisselle Dumas apareceu, trazendo um 
magnfico vestido encarnado de cetim, que lhe deixava um ombro a descoberto, tapado apenas com o longo cabelo ruivo muito brilhante. Tinha praticamente o mesmo comprimento 
que o meu. Usava uns pendentes de diamante nas orelhas e uma gargantilha a condizer, com ouro e diamantes.

- Beau - comeou ela -, porque  que chegaste atrasado e que histria  essa de trazeres um convidado surpresa? perguntou. Preparava-se para me encarar e colocou 
as mos na cintura antes de se voltar na minha direco. Mesmo sabendo o que esperava, ver o meu rosto como uma realidade noutra pessoa deixou-me sem respirar. Gisselle 
Dumas lanou um grito e colocou a mo na garganta.

Quinze anos e alguns meses depois do dia em que nascramos, tnhamo-nos encontrado novamente.
COMO UMA CINDERELA

Quem  ela? - indagou Gisselle, abrindo muito os olhos de espanto, mas depressa os convertendo em duas linhas estreitas e desconfiadas.

-Qualquer um pode ver que  a tua irm gmea - respondeu Beau. - O nome dela  Ruby.

Gisselle fez uma careta e abanou a cabea.

- Que tipo de brincadeira  esta, Beau Andreas? - inda-
gou ela, aproximando-se de mim. Ficmos ambas de olhos fitos no rosto da outra.

Julgo que tivemos as duas o mesmo instinto: procurar as diferenas; mas acontece que,  primeira vista, as diferenas eram muito dificeis de encontrar, pois ramos 
gmeas idnticas. Tnhamos a cor do cabelo exactamente do mesmo tom, o mesmo esmeralda como cor de olhos e at as sobrancelhas tinham o mesmo formato. Nenhuma de 
ns tinha no rosto pequenas cicatrizes ou sinais que pudessem distinguir-nos rapidamente uma da outra, e as faces de Gisselle, o seu queixo e a sua boca tinham exactamente 
a mesma configurao que os meus. No apenas as nossas feies eram idnticas, como tambm a nossa estatura correspondia; at os nossos corpos se haviam desenvolvido 
e amadurecido como se tivessem sido esculpidos do mesmo molde.

Contudo, numa segunda anlise um pouco mais atenta e detalhada, um observador perspicaz poderia detectar que existiam algumas diferenas nas nossas expresses e 
no nosso porte. Gisselle assumia uma atitude mais altiva e arrogante, sem o mnimo trao de timidez. Parecia ter herdado a garra e a determinao da grandmre Catherine, 
pensei. O seu olhar era imperturbvel e ela franzia um dos cantos da boca de uma forma desdenhosa.

-Quem s tu? - perguntou sem rodeios.

- Chamo-me Ruby, Ruby Landry, mas o meu nome devia ser Ruby Dumas - respondi.

Gisselle, ainda sem acreditar naquilo que via e com esperana de encontrar alguma explicao razovel para a confuso que o seu crebro comeava a transportar para 
o seu olhar, virou-se para Nina Jackson, que logo se benzeu.

- Vou acender uma vela preta - anunciou, afastando-se a murmurar uma orao vodu.

- Beau! - exclamou Gsselle, batendo o p.

Ele riu-se e encolheu os ombros, esticando os braos.

- Juro que nunca a tinha visto antes desta noite. Encontrei-a l fora no porto, quando vinha a chegar. Veio de... de onde  que disseste que vinhas?

- Houma - repeti -, no bayou.  uma rapariga cajun.

- Isso vejo eu, Beau, mas no entendo - disse ela, observando-me com os olhos cheios de lgrimas provocadas pela frustrao que sentia.

- Tenho a certeza de que deve haver uma explicao lgica - respondeu Beau. -  melhor eu ir chamar os teus pais.
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Gisselle continuou de olhos fitos em mim.

- Como  possvel que eu tenha uma irm gmea? - inquiriu ela. Senti vontade de lhe contar tudo, mas pensei que seria melhor que fosse o nosso pai a faz-lo. - Onde 
vais, Beau?
- gritou ento, ao ver Beau afastar-se.

Buscar os teus pais, como acabei de dizer.

Mas... - Ela olhou para mim e depois para ele. - e o baile?

-O baile?... Como  que podemos ir agora para o baile? -- perguntou Beau, fazendo um sinal para acentuar a minha presena.

- Comprei este vestido especialmente para esta noite, tenho uma mscara fantstica e - Cruzou ento os braos e fixou em mim o olhar. - Como  que isto foi acontecer? 
- exclamou, com as lgrimas a cair pelas faces; depois, fechou os punhos e colocou-os na cintura com irritao. - e logo nesta noite?

-Lamento - disse eu, numa voz baixa e comedida. Quando viajei para Nova Orlees, nem me apercebi de que era Carnaval, mas...

- No te apercebeste de que era Carnaval!... - repetiu ela.
- oh, Beau!

-Tem calma, Gisselle - pediu ele, voltando-se para a abraar. Durante alguns instantes, ela enterrou o rosto nos ombros de Beau, que lhe acariciava o cabelo e olhava 
para mim com um sorriso. -- Tem calma - apaziguava.

-No posso ter calma - insistiu Gisselle, batendo outra vez com o p e recuando, lanando-me um olhar furioso.  apenas uma coincidncia, uma estpida coincidncia 
que algum descobriu. Mandaram-na para aqui s para nos extorquir dinheiro.  isso, no  ?- acusou.

Abanei a cabea.

- uma semelhana forte de mais para ser apenas uma coincidncia, Gisselle. Basta olhar para vocs as duas! - replicou Beau.

- Mas h algumas diferenas que se notam: ela tem o nariz mais comprido, os lbios mais finos e e as orelhas maiores que as minhas!

Beau riu e abanou a cabea.

-Algum te mandou aqui para nos pedires dinheiro, no foi? No foi? - perguntou Gisselle, de novo com as mos na cintura e as pernas afastadas.

- No, vim por conta prpria. Foi uma promessa que fiz  grandmre Catherine.

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- Quem  a grandmre Catherine? - quis saber ela, fazendo uma careta de nojo, como se tivesse provado leite azedo.
- Alguma personagem de uma histria infantil?

-No, de Houma - repliquei.

- e era traiteur - acrescentou Beau, que se divertia com a exaltao de Gisselle e adorava provoc-la.

- oh, como tudo isto  ridculo! No fao tenes de perder o melhor baile de Carnaval, apenas porque chegou uma... rapariga cajun, que se parece um pouco comigo 
e diz ser a minha irm gmea - declarou.

- Um pouco... - repetiu Beau, espantado. - Quando a encontrei, pensei que eras tu.

- Eu? Como  que pudeste pensar que essa... - dizia ela, apontando para mim - ... que essa pessoa era eu? Repara nas roupas dela! V os sapatos!

- Julguei que fosse um disfarce de Carnaval - explicou ele. Quanto a mim, no fiquei muito satisfeita por ouvir que consideravam as minhas roupas um fato de Carnaval.

- Beau, achas que alguma vez usaria uma roupa to simples, mesmo como disfarce?

- O que  que as minhas roupas tm de mal? - indaguei, assumindo um tom de indignao.

- Parece que foram feitas em casa - respondeu Gisselle, condes'cendendo em analisar mais uma vez a minha saia e blusa.

- e foram. Foi a grandmre Catherine quem as fez.

, - Vs? - exclamou ela, voltando-se para Beau, que se limitou a fazer um gesto afirmativo ao reparar na minha irritao.

-O melhor  eu ir buscar os teus pais.

- Beau Andreas, se te atreveres a deixar esta casa sem ser para me levar ao baile de Carnaval...

- Prometo que iremos assim que este assunto se esclarecer
- disse ele.

- Este assunto nunca vai esclarecer-se, porque  uma mentira, uma mentira horrvel! Porque  que no te vais embora daqui? - gritou ela para mim.

- Como  que podes mand-la embora? - perguntou Beau.

- oh, tu s um monstro, Beau Andreas. S um monstro Poderia tratar-me assim - exclamou, correndo para as escadas.
- Gisselle!

- Lamento muito - afirmei ento. - Eu bem disse que no devia entrar. No tive inteno de vos estragar a noite.
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Beau olhou-me em silncio por uns segundos e depois fez um gesto de indignao.

- Como  que ela pode culpar-me? Olha - continuou ele vai para a sala de espera e fica  vontade. Sei onde esto o Pierre e a Daphne e demoro s uns minutos para 
os trazer at aqui. No te preocupes com a Gisselle - acrescentou, afastando-se. - Espera na sala. - Saiu ento, deixando-me ali sozinha, sentindo-me, mais do que 
nunca, uma estranha naquela casa. "Ser que alguma vez a iria considerar minha?", indaguei, ao observar a sala de espera.

Tinha receio de tocar em alguma coisa, receava at caminhar sobre o tapete persa oval que se estendia desde a entrada da sala at debaixo dos dois grandes sofs. 
Os cortinados das janelas altas eram de veludo vermelho com cordes dourados e as paredes estavam forradas em papel, num delicado padro floral, cujos tons combinavam 
com as duas poltronas altas e macias e com os sofs. Sobre a slida mesa de mogno a meio da sala estavam duas jarras de cristal macio, e sobre as mesas de apoio 
laterais dois candeeiros que pareciam muito antigos e valiosos. Havia pinturas nas paredes, algumas de paisagens rurais, outras de cenas da vida no Bairro Francs. 
Por cima da lareira de mrmore, estava o retrato de um velho senhor muito distinto, com barba e cabelo grisalhos, cujos olhos escuros pareciam seguir os meus passos.

Sentei-me ao de leve no canto do sof e deixei-me ficar muito direita, agarrada  minha pequena mala, analisando a sala, observando as esculturas e figuras das pinturas 
e dos objectos da sala. Tinha receio de olhar novamente para o retrato em cima da lareira, pois aquele senhor parecia-me demasiado acusador.

Entretanto, um relgio de nogueira com numerao romana, to antigo quanto o prprio tempo, bateu as horas. Fora esse som, no se ouvia nenhum outro em toda a casa. 
De vez em quando, tinha a impresso de ouvir umas batidas no andar de cima e pensei que talvez pudesse ser Gisselle, dando asas  sua fria no quarto.

O meu corao, que batia descompassadamente desde que Beau. Andreas me trouxera para aquela casa, comeou finalmente a acalmar. Respirei fundo e fechei os olhos. 
Teria agido erradamente ao aparecer ali? Poderia a minha atitude prejudicar a vida de algum? O que tinha dado  grandmre Catherine tanta certeza de que eu deveria 
tomar essa deciso? A minha irm gmea continuaria a negar a minha existncia? Tinha o corao preso por um fio  beira de um precipcio, prestes a cair, caso o 
meu pai viesse para me rejeitar.

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Passado pouco tempo, ouvi os passos de Edgar Farrar no corredor, e depois a porta da frente a abrir. Ouvi vozes e mais passos.

- Est na sala, monsieur - disse Beau Andreas e ,um minuto depois, estava face a face com o meu pai.

Quantas vezes antes no me tinha eu sentado em frente do espelho a tentar imagin-lo, transpondo as minhas feies para um rosto masculino? Sim, de facto, ele tinha 
os mesmos olhos verdes e o mesmo formato de nariz e queixo. O rosto dele era mais magro, mais firme, e a testa recuava numa curva suave, com o espesso cabelo cor 
de avel puxado para trs de lado, apenas com alguma altura na parte da frente.

Era alto, tinha pelo menos um metro e oitenta de altura e uma constituio esbelta mas robusta, com uma elegante linha de ombros. O seu fsico, facilmente detectvel 
debaixo do fato de Carnaval era semelhante ao de um jogador de tnis. Quanto ao fato, imitava uma armadura usada pelos cavaleiros da Idade Mdia, muito justa e prateada, 
e ele trazia o elmo na mo. Pousou o olhar em mim e a sua expresso inicial foi de espanto e de choque, mas logo em seguida mostrou tambm contentamento.

Antes de se pronunciar uma palavra, Daphne Dumas avanou e colocou-se a seu lado. Usava um vestido azul com mangas compridas e justas, cuja saia tinha uma cauda 
longa, debruada com uma franja dourada. Era justo at  anca, mas largo a partir da e tinha botes desde o decote at ao cho. Por cima, ela trazia uma capa que 
deixava o pescoo e o decote a descoberto, mas que abotoava no peito com um fecho de diamantes. A sua aparncia era a de uma princesa sada de um conto de fadas.

Daphne era igualmente muito alta, e a sua postura era to aprumada quanto a de um modelo. Alis, poderia facilmente ter seguido essa carreira, pois possua beleza 
suficiente e uma figura esbelta e curvilnea. O cabelo louro com madeixas arruivadas caa-lhe graciosamente pelos ombros com a mxima ordem, sem um s fio despenteado. 
Os seus olhos eram grandes e tinham um tom azul-claro, e a boca, eu no a poderia ter desenhado mais perfeita. Foi ela a primeira a falar, depois de me ter analisado 
pormenorizadamente.

- Isto  alguma brincadeira, Beau, alguma partida de Carnaval que tu e a Gisselle se lembraram de nos pregar? -No, madame - replicou Beau.

- No  nenhuma brincadeira - afirmou o meu pai, avanando at meio da sala, sem desviar de mim os olhos nem por um instante. - Esta no  a Gisselle. Ol - cumprimentou.

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-Ol. - Continumos de olhos fitos um no outro, sem que nenhum de ns pudesse desviar o olhar, Ele parecia to ansioso por me conhecer, pelo menos visualmente, quanto 
eu a ele.

-  Descobriste-a  entrada de casa? - indagou daphne a Beau.

- Foi sim, madame - respondeu ele. - Ela ia-se embora, tinha perdido a coragem de entrar e de se apresentar - esclareceu. Finalmente, eu desviei os olhos do meu 
pai e pousei-os em daphne, em cuja expresso pude ver o desejo de que eu tivesse realmente ido embora.

- Ainda bem que chegaste nesse momento, Beau - afirmou Pierre. - Tomaste a atitude certa. Obrigado.

Beau ficou radiante. A aprovao e o reconhecimento do meu pai eram, obviamente, muito importantes para ele.

- Vieste de Houma? - perguntou o meu pai. Eu fiz sinal que sim e daphne lanou um grito sufocado e levou a mo ao peito. Em seguida, ela e o meu pai trocaram um 
olhar e depois daphne indicou Beau com a mo.

-No queres ir ver como est a Gisselle, Beau? - sugeriu Pierre com firmeza.

- Sim, senhor - acedeu Beau, saindo logo em seguida. O meu pai aproximou-se ento mais e sentou-se no sof  minha frente, enquanto daphne fechava as duas enormes 
portas com suavidade e ficava na expectativa.

-Disseste que o teu apelido  Landry? - continuou o meu pai. Eu confirmei.

- Mon Dieu - exclamou daphne, que engoliu em seco e procurou com as mos as costas de uma poltrona de veludo para se apoiar.

- Calma - retorquiu o meu pai, levantando-se rapidamente em direco  mulher. Colocou os braos em redor de daphne e f-la sentar-se na poltrona, onde ela se recostou 
com os olhos fechados. - Ests bem? - perguntou ele; daphne fez um gesto tranquilizador, incapaz de falar. Ele voltou-se ento de novo para mim.

- O teu av... chama-se Jack?
- Sim.

-  caador do pntano e guia? Eu confirmei.

-Como  que eles puderam fazer isto, Pierre? - exclamou subitamente daphne. -  horrvel! Durante -tantos anos
- Bem sei, bem sei - respondeu o meu pai. - Deixa-me

tentar perceber bem o que se passou, daphne. - Voltou-se
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mais uma vez para mim, com um olhar doce, mas agora tambm atribulado. - Ruby...  esse o teu nome, no  ?- Disse mais uma vez que sim. - Conta-nos aquilo que sabes 
sobre este assunto e diz-nos porque decidiste vir agora dizer quem eras. Por favor - acrescentou.

- A grandmre Catherine contou-me tudo sobre a minha me... como ela engravidou e depois como o grandpre Jack conseguiu um acordo para a... - Ia dizer "venda", 
mas receei que fosse um termo demasiado forte. - ... Para a vinda da minha irm para esta casa. A grandmre Catherine nunca aprovou esse acordo e ela separou-se 
do grandpre logo a seguir.

O meu pai lanou um olhar a daphne, que fechou e abriu os olhos e depois voltou a fixar o olhar em mim. -Continua - pediu depois.

-Agrandmre Catherine sabia que a minha me estava grvida de gneos, mas escondeu isso de todos, at mesmo do grandpre Jack. Decidiu que eu ia viver com ela e 
com a minha me, mas... - Mesmo agora, embora nunca tivesse chegado a conhecer a minha me ou a ouvir a sua voz, o simples facto de mencionar a sua morte provocava-me 
lgrimas nos olhos e embargava-me a voz.

- Mas o qu? - perguntou o meu pai.

-A minha me morreu logo depois de ter dado  luz a mim e  Gisselle - revelei, vendo as faces do meu pai enrubescerem. Reparei como a sua respirao ficou alterada 
e como os seus olhos se enevoaram, mas logo depois recuperou a compostura e lanou um outro olhar a daphne e depois novamente a mim.

- Lamento muito - murmurou, com a voz quase a falhar.
- No faz muito tempo, a minha grandmre Catherine morreu tambm. Ela fez-me prometer que, se algo lhe acontecesse, eu viria para Nova Orlees e me apresentaria, 
em vez de ficar a viver com o grandpre Jack - contei. O meu pai fez um gesto que indicava que concordava.

- Conhec-o mal, mas compreendo o que levou a tua grandmre a no querer-que ficasses a viver com esse homem
- declarou.

-No tens mais nenhuns parentes... tios ou tias? - indagou logo Daphne.

- No, madame - respondi. - Ou pelo menos, nenhuns de que tenha conhecimento em houma. O grandpre falava nalguns parentes que viviam noutros bayous, mas a grandmre 
Catherine nunca gostou que convivssemos com eles.

- Que horror! - comentou daphne, abanando a cabea.
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Fiquei sem perceber se ela estava a referir-se  minha vida familiar ou  situao presente.

- Isto  espantoso: tenho duas filhas! - exclamou Pierre, permitindo soltar um sorriso, que era, alis, um sorriso muito bonito. Senti-me um pouco mais descontrada, 
pois, debaixo do seu olhar terno, a tenso diminua. No pude deixar de pensar que Pierre correspondia ao pai que sempre desejara: um homem delicado e bondoso.

No entanto, Daphne lanou-lhe um olhar duro e reprovador.
- Tens o dobro de constrangimento, tambm.

- como? Ah, sim, certamente. Fico feliz que tenhas finalmente decidido vir - disse-me ele -, mas  certo que isso nos causa algumas dificuldades.

- Algumas dificuldades?! Algumas?! - exclamou daphne, com o queixo a tremer.

- Bem, problemas um pouco mais graves, receio bem concordou o meu pai, pensativo.

-No quero ser um peso para ningum - informei, erguendo-me rapidamente. - Vou voltar para houma. H algumas amigas da minha grandmre que...

-  uma boa ideia - concordou daphne de imediato. Ns tratamos do transporte e damos-te algum dinheiro para a viagem. At podemos mandar-lhe uma quantia de vez em 
quando, no achas, Pierre? Podes dizer s amigas da tua av que...

- No - interrompeu Pierre, fixando de tal forma os seus olhos nos meus que senti que os seus pensamentos alcanavam o meu corao. - No posso mandar a minha prpria 
filha embora.

- Mas  uma filha que no criaste, Pierre. No a viste uma s vez depois de ela ter nascido, tal como eu nunca a vi. Foi educada num mundo completamente diferente 
do nosso - argumentou daphne; mas o meu pai nem parecia ouvir as suas palavras. O seu olhar continuava fito no meu.

- Conheci melhor a tua av do que o teu av - disse ele e sempre achei que era uma mulher especial, com poderes nicos.

- Francamente, Pierre! - interrompeu daphne.

-No, daphne,  verdade. Ela era aquilo que os cajuns chamam... traiteur, no  ?- perguntou-me. Fiz que sim com a cabea. - Se ela achou que era melhor para ti 
vires ter connosco, devia ter tido as suas razes, provavelmente alguma espcie de intuio ou orientao espiritual - afirmou Pierre.

-No podes estar a falar a srio, Pierre! - exclamou Daphne. Nunca acreditaste nessas crenas pags. Daqui a pouco, ainda me dizes que comeaste a acreditar no vodu 
da Nina.
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-Nunca o rejeitei totalmente, Daphne. H certos mistrios que a lgica, a razo e a cincia no podem explicar - defendeu. Daphne fechou os olhos e suspirou.

- Como  que pensas ento lidar com... com esta situao, Pierre? Que explicao vamos ns dar aos nossos amigos e  sociedade? - inquiriu.

Eu continuava de p, receando dar um passo em frente, mas temendo tambm voltar a sentar-me. Segurava com tanta fora a pequena mala que continha tudo quanto me 
pertencia que os ns dos dedos ficaram brancos enquanto o meu pai ponderava.

-A Nina no estava connosco quando se deu o suposto nascimento da Gisselle - comeou.

-e da?

- Tnhamos aquela mulher mulata a trabalhar para ns, a Tituba, lembras-te?

- Lembro-me... Lembro-me bem como a detestava. Era muito desleixada, muito preguiosa e assustava-me com todas as supersties idiotas em que acreditava - recordou 
Daphne.
- Deitava pedras de sal em todo o lado, queimava a roupa num barril com escrementos de galinha... Pelo menos, a Nina mantm as suas crenas em privado.

- e por tudo isso despedimos a Tituba logo a seguir ao suposto nascimento da Gsselle, lembras-te? Pelo menos, foi isso que dissemos em pblico.

- Aonde  que pretendes chegar, Pierre? Como  que esse assunto vai resolver o nosso problema? - indagou cautelosamente.

- Nunca dissemos a verdade, porque estvamos a trabalhar com detectives privados - respondeu ele.

- Como? A que verdade te referes?

- Refiro-me a recuperar o beb perdido, a irm gmea que foi roubada da maternidade no prprio dia em que nasceu. H pessoas que acreditam que as crianas roubadas 
representavam sacrifcios vodu, e sabes bem que as rainhas vodu so frequentemente acusadas de raptar e assassinar crianas - afirmou.

- Eu prpria tambm suspeitei muitas vezes disso - adInitiu Daphne.

- Precisamente. Nunca ningum provou nada acerca disso, Pois h sempre o perigo de criar uma histeria colectiva sobre esse tema e de ocasionar que alguns vigilantes 
abusem das pessoas. Assim - continuou, encostando as costas  cadeira -, mantivemos o nosso drama em privado e encarregmo-nos de investigar por conta prpria. At 
hoje - acrescentou, juntando as mos e oferecendo-me um sorriso.

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- Ela foi raptada h mais de quinze anos e foi descoberta agora?! - concluiu Daphne. -  isso que vamos contar a todos, aos nossos amigos?

Ele confirmou.

- Tal como o filho prdigo. S que, neste caso,  uma filha prdiga, cuja av falsa teve um ataque de conscincia no leito de morte e lhe contou a verdade. e ,milagre 
dos milagres, a Ruby conseguiu regressar a casa.

-Mas, Pierre...

- Sers o tema de conversa de toda a cidade, Daphne. Todos vo querer ouvir a histria, nem vais conseguir aceitar tantos convites - declarou.

daphne ficou a olhar uns segundos para ele e depois olhou para mim mais uma vez.

- No  espantoso? - disse o meu pai. - Repara como elas so iguais.

- Mas ela  to... pouco instruda - gemeu Daphne.

- O que, de incio, causar uma curiosidade ainda maior. Mas podes encarregar-te dela, tal como fizeste com a Gisselle
- sugeriu ele -, como Pigmaleo e Galateia -- continuou. Todos vo admirar os resultados do teu trabalho - concluiu.

- No sei - respondeu Daphne, mas agora com muito menos resistncia, lanando-me um olhar ainda mais perscrutante. - Talvez se comear a usar umas roupas melhores.:.

- Estas roupas no so ms - retorqui, j cansada de ouvir todos criticarem as minhas roupas. - Foi a grandmre Catherine quem as fez, e no bayou todos estimavam 
e procuravam ter produtos feitos com as suas mos!

- Tenho a certeza de que sim - respondeu Daphne, com um olhar frio e penetrante -, mas no estamos no bayou, querida, estamos em Nova Orlees. Vieste para c, porque 
querias viver nesta cidade... com o teu pai      afirmou, olhando para Pierre antes de voltar a encarar-me.      No  verdade?

Lancei tambm um olhar ao meu pai antes de responder. -Sim - respondi, ento. - Acredito nos desejos e nas previses da grandmre Catherine.

- Ento vais ter de te integrar. - Recostou-se e parou um momento para pensar. -  um grande desafio - afirmou depois -, mas no deixa de ser interessante.

- Sem dvida - afirmou Pierre.

- Achas que conseguirei faz-la evoluir tanto que ningum as distinga? - perguntou daphne a meu pai. No gostei muito do tom da pergunta, senti que tinha sido comparada 
a um aborgene incivilizado ou a um animal selvagem que precisava de ser domesticado.

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- Claro que consegues, querida. V os resultados que conseguiste atingir com a Gisselle, apesar do temperamento insubordinado que ambos to bem conhecemos! - comentou, 
sorrindo.

- Sim, realmente consegui dominar e subjugar essa parte do seu temperamento, a herana cajun - afirmou daphne com desprezo.

- No sou insubordinada, madamme - retorqui, praticamente agredindo-a com cada palavra. - A minha grandmre Catherine ensinou-me apenas bons modos e amos sempre 
 igreja.

- No  algo que algum consiga ensinar per se - replicou. -  algo natural, algo que se herda -- insistiu. - Mas o sangue azul de Pierre e a minha orientao tm 
sido o suficiente para dominar essa parte do temperamento da Gisselle. Se estiveres disposta a cooperar, se quiseres fazer parte desta famlia, disponho-me a ajudar-te 
da mesma forma. - Virou-se para o meu pai. - Apesar dos muitos anos de educao insuficiente que ela teve, Pierre, no te deves esquecer disso.

- Com certeza, daphne - respondeu ele com doura. Ningum est  espera que acontea um milagre da noite para o dia. Como tu prpria disseste h pouco,  um desafio 
- afirmou, sorrindo. - No pediria a tua ajuda, se no te achasse capaz de semelhante tarefa, querida.

Mais calma,'Daphne recostou-se outra vez. Quando pensava com mais intensidade em algo, premia os lbios e ganhava um brilho novo no olhar. Apesar de tudo quanto 
dissera, no podia deixar de admirar a sua beleza e os seus modos delicados. Seria assim to mau adquirir um pouco da beleza e dos modos daquela mulher? Poderia 
tornar-me depois uma princesa no conto de fadas de uma outra pessoa. Uma parte de mim, que no podia ser negada, gritava "por favor, por favor, tenta, coopera" e 
a outra parte, que se sentia insultada pelas suas observaes, recolhia para os locais mais sombrios da minha mente.

-Bem, mas o Beau j a conhece - observou Daphne.
- Sim, de facto - concordou o meu pai ---, mas claro que vou pedir-lhe para manter o segredo. Tenho a certeza de que ele preferiria morrer a revel-lo. No entanto, 
h situaes que se descobrem acidentalmente tambm, e ,se for esse o caso, o que faremos? Isso pode deitar por terra tudo o que at hoje elabormos.

Daphne concordou.

- O que dirias  Gisselle? - indagou ento ela, com a voz mais sria e triste. - Ela ficaria a saber a verdade a meu resPeito: que no sou a sua verdadeira me. 
- Limpou os olhos muito levemente com um leno de seda azul-claro.

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- Claro que s a me dela. A Gisselle no conheceu nenhuma outra e at hoje sempre foste uma excelente me para ela. Vamos apenas contar-lhe a histria que acabei 
de inventar e ,depois do choque inicial, ela vai acabar por aceitar que tem uma irm gmea e ,talvez at, comear a cooperar connosco. Nada vai mudar, a no ser 
o facto de as nossas vidas ficarem duplamente abenoadas - concluiu, sorrindo para mim.

Seria o meu optimismo exagerado herdado do meu pai?, pensei ento. Era ele um sonhador como eu?

Isto  - acrescentou passado uns segundos -, se a Ruby concordar,  claro. No gosto de pedir a ningum para mentir - informou -, mas, neste caso,  uma mentira 
benfica, que vai impedir que todos sofram - concluiu, lanando um olhar a daphne.

Fiquei alguns instantes a ponderar. Teria de fingir, pelo menos para Gisselle, que a grandmre Catherine fazia parte de algum plano de raptores e isso no me agradava, 
mas depois lembrei-me que a prpria grandmre quereria que eu fizesse o possvel para ficar naquela casa, longe do grandpre Jack.

Sim - concordei finalmente -, estou de acordo. daphne lanou um leve suspiro, mas depressa recuperou a sua compostura.

Vou mandar a Nina preparar um dos quartos de hspedes afirmou ento.

-No, no. Prefiro que ela ocupe o quarto que fica ao lado do da Gisselle, para que sejam irms desde o incio - salientou o meu pai. daphne acabou por concordar.

Vou tratar j disso. Por esta noite, ela pode usar uma camisa de dormir da Gisselle. Felizmente - continuou, sorrindo-me de uma forma calorosa pela primeira vez 
-, tu e a tua irm parece serem exactamente do mesmo tamanho. e ,analisando depois os meus ps, afirmou: - e ,pelos vistos, at no calado devem usar o mesmo nmero.

Mas amanh ters de ir com ela s compras, querida. Sabes como a Gisselle  possessiva em relao s suas roupas avisou o meu pai.

 assim que deve ser. Uma mulher deve orgulhar-se do
seu guarda-roupa, no deve ser como uma pattica menina da escola a partilhar at a roupa interior com a colega de quarto. daphne ergueu-se ento com graciosidade 
da poltrona 

abanou ligeiramente a cabea ao olhar para mim. - Que noite de Carnaval esta! - e voltando-se para Pierre: - Tens a certeza absoluta de que queres levar adiante 
esta histria?

Tenho, querida. Desde que possa contar com todo o teu
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apoio e cooperao,  claro - respondeu, levantando-se e dando-lhe um beijo na face. - A partir de agora, vou ter de te compensar ao dobro - acrescentou. Ela olhou-o 
nos olhos e sorriu muito levemente.

- A caixa registadora tem estado sempre a trabalhar nos ltimos cinco minutos - declarou ela fazendo com que ambos se rissem. Em seguida, ele beijou-a ao de leve 
nos lbios e ,pela forma como a olhava, eu pude concluir que era muito importante para ele agradar a Daphne, que deveria ocupar o topo na sua lista de prioridades. 
Um minuto depois, ela dirigiu-se para a porta mas, antes de sair, parou.

- Vais conversar com a Gisselle?

- Dentro de poucos minutos - respondeu ele.

- Vou-me deitar. Foi uma noite cheia de surpresas e estou bastante fatigada - afirmou. - Quero ter fora suficiente para enfrentar a Gisselle amanh.

- De acordo - disse o meu pai.

- Vou mandar preparar o quarto - informou antes de nos deixar.

- Senta-te, por favor - pediu-me ento o meu pai. Assim fiz e ele sentou-se tambm. - Queres beber ou comer alguma coisa?

- No, obrigada. Bebi h pouco uma bebida que a Nina me preparou.

- Uma das suas receitas milagrosas? - indagou, sorrindo.
- Sim... e deu resultado.

- D sempre resultado. Falei a srio quando disse que respeitava certos mistrios e crenas espirituais. Gostava que me contasses mais acerca da tua grandmre Catherine.

-Com muito gosto.

Inspirou profundamente e depois lanou um suspiro lento, com o olhar baixo.

- Lamento muito a morte da Gabrielle. Era uma rapariga muito bonita. Nunca conheci nem voltei a encontrar ningum como ela, to inocente e verdadeira, uma alma to 
pura.

- A grandmre Catherine achava que era uma fada do pntano - observei, sorrindo.

- Sim, sim. Poderia muito bem ter sido uma fada. Ouve -continuou, assumindo de repente um tom muito mais grave. Calculo como tudo isto deve perturbar-te e afectar. 
Com o temPo, eu e tu vamo-nos conhecer melhor e vou tentar explicar-te tudo. No posso modificar os acontecimentos do passado, nem apagar os meus erros, mas espero 
conseguir, pelo menos, que entendas porque tudo sucedeu daquela forma.

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-A Gisselle, ento, no sabe de nada?

- No, nem sequer desconfia. Tinha de pensar na daphne... j a tinha magoado o suficiente. Tinha de a proteger, e a nica forma de o conseguir era fazendo acreditar 
que a Gisselle era sua filha.

"Uma mentira, um erro, cria normalmente a necessidade de mais erros e mentiras e ,antes que se saiba, j se formou uma teia de iluses em nosso redor. Como podes 
ver, ainda estou a fazer isso, ainda estou a proteger a Daphne.

"Na verdade, tive e tenho muita sorte em a ter ao meu lado. Alm de ser uma linda mulher,  algum capaz de demonstrar um grande amor. Amou o meu pai e ,quanto a 
mim, aceitou tudo isto por causa do amor que sentia por ele e por mim. Aceitou tambm assumir uma grande responsabilidade.

Baixou entretanto a cabea e apoiou-a nas mos.

- Porque no podia engravidar, no foi? - perguntei, fazendo-o erguer rapidamente o olhar.

- Sim - respondeu. - Vejo que sabes mais do que eu pensava. Pareces-me uma rapariga muito madura, bastante mais adulta do que a Gisselle.

"De qualquer forma - continuou -, no meio de tudo o que se passou, a Daphne conseguiu manter a dignidade e a compostura.  isso que me leva a pensar que ela pode 
ensinar-te muito, alm de me alimentar a esperana de que, com o tempo, possas vir a consider-la tua me.

" claro que - continuou, sorrindo -, primeiro, vou ter de conseguir ser aceite como teu pai. Qualquer homem saudvel pode fazer um filho com uma mulher jovem, mas 
nem todos os homens podem ser pais.

Reparei que, ao falar, as lgrimas se iam acumulando nos seus olhos; era como se cada molcula do seu ser se esforasse por me fazer entender aquilo que ele prprio 
deveria ter considerado inexplicvel.

Mordi a lngua para deter o meu impulso de lhe fazer mais perguntas. At respirar se tornara difcil, sem ser esmagada pelo ritmo rpido com que os acontecimentos 
se iam sucedendo. -O que trazes na mala? - inquiriu ele.

- Algumas roupas e fotografias.

- Fotografias? - Ergueu as sobrancelhas com interesse.
- Sim. - Abri a mala e retirei uma das fotografias da minha me. Ele segurou-a muito devagar e ficou por longos instantes a observ-la.

- Realmente, parece uma deusa ou uma fada. As recordaes que tenho desses dias so como as de um sonho: imagens
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e palavras que flutuam no meu pensamento como bolas de sabo, que rebentam se eu me esforar por recordar todos os pormenores.

"Tu e a Gisselle so muito parecidas com ela. No mereo ter a bno de vocs as duas me recordarem a Gabrielle, mas agradeo o destino ter-te enviado at mim - 
afirmou.

- Foi a grandmre Catherine - respondi. -  a ela que deve agradecer. - Ele fez um gesto afirmativo.

- Vou passar o mximo de tempo possvel contigo. Quero mostrar-te Nova Orlees e contar-te tudo sobre a nossa famlia. -O que  que faz? - indaguei, apercebendo-me 
de que

nem a profisso do meu pai eu conhecia. Vendo a forma como o perguntei e a maneira como abria os olhos para observar ao meu redor todos os mveis imponentes daquela 
manso, ele comeou a rir.

-Neste momento, negoceio em investimentos no ramo imobilirio. Ns possumos um nmero considervel de prdios com apartamentos e escritrios e estamos envolvidos 
noutros projectos. Tenho alguns escritrios no centro da cidade.

"Na verdade, somos uma famlia muito slida e antiga, que pode traar a sua ascendncia at  original Mississippi Trading Company, uma empresa colonial francesa. 
Um destes dias, mostro-te o quadro genealgico que o meu pai traou - acrescentou, sorrindo. - Ele comprovou que a nossa linhagem se origina das cem Filles a Ia 
Casette, ou "raparigas do ba". -Quem so? - quis eu saber.

- So mulheres francesas, escolhidas cuidadosamente de entre algumas boas famlias da classe mdia, a quem davam um pequeno ba com roupas e depois enviavam para 
esta terra, para virem casar com os franceses que aqui estavam estabelecidos. No traziam no ba muito mais do que tu trazes nessa pequena mala - explicou ele. - 
No entanto, a histria da famlia Dumas no est apenas preenchida por acontecimentos respeitveis e valorosos. Temos antepassados que eram donos das elegantes casas 
de jogo e que faziam lucro com os bordis em Storyville. A famlia de daphne tem o mesmo historial passado, mas ela no gosta assim muito de o confessar abertamente 
- declarou.

Esfregou depois as mos e levantou-se.

- Bem, teremos com certeza muito tempo para conversar sobre todos estes temas, prometo. Agora, deves estar cansada. Apetece-te com certeza tomar um banho, relaxar 
um pouco e dormir. Amanh de manh, comears a tua nova vida, da qual eu espero que gostes muito. Posso agora dar-te um beijo e as boas-vindas  tua nova casa e 
famlia? - acrescentou.

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- Sim - respondi, fechando os olhos enquanto ele aproximava os lbios da minha face.

O primeiro beijo que recebia do meu pai... Quantas vezes antes no sonhara com esse momento; quantas vezes no o imaginara a aproximar-se da minha cama para me vir 
dar as boas-noites, o pai misterioso dos meus quadros, que saltava da tela para vir oferecer-me o beijo na face e as carcias no cabelo que afugentavam todos os 
demnios que habitavam nas trevas do meu corao... o pai que nunca conhecera.

Abri ento os olhos para observar os dele e pude ver que estavam cheios de lgrimas, de tristeza e de dor, e pareceu-me at que ele envelhecera um pouco ao olhar 
para mim com tanto remorso.

- Fico feliz por t-lo finalmente encontrado - afirmei. Subitamente, toda a mgoa desapareceu do seu rosto e os seus bonitos olhos brilharam de contentamento.

- Deves ser uma pessoa muito especial. No sei o que fiz para merecer esta bno. - Segurou-me na mo e levou-me ento para fora da sala de estar, passando pelas 
outras divises e conversando sobre as pinturas e outras obras de arte que amos vendo, at chegarmos s escadas. Mal atingimos o andar de cima, abriu-se violentamente 
uma porta e Gisselle surgiu com Beau Andreas a seu lado.

-O que est a fazer ao lado dela? - inquiriu logo.

- Tem calma, Gisselle - pediu o nosso pai. - Vou j explicar-te tudo.

- Vai coloc-la no quarto ao lado do meu? - perguntou, fazendo uma careta de desagrado.

- Vou.

- Isto  horrvel, horrvel! - gritou ela, entrando de novo no seu quarto e batendo com a porta.

Beau Andreas, que continuava no mesmo stio, parecia sentir-se envergonhado.

-Acho melhor eu ir andando - afirmou ele.
- Sim - concordou o meu pai.

Beau comeou a descer as escadas, mas Gisselle abriu de sbito a porta.

- Beau Andreas, como  que te atreves a deixar esta casa sem me levares? - gritou.

- Mas... - Ele lanou um olhar ao meu pai. - Tu e a tua famlia tm um assunto a discutir e

- Isso pode esperar at amanh. Hoje  noite de Carnaval
- declarou Gisselle, encarando o pai. - Estive todo o ano  espera deste baile e todos os meus amigos l esto - queixou-se.
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- Monsieur? - indagou Beau. O meu pai fez um gesto permissivo.

- Pode esperar at amanh - confirmou.

Gisselle atirou para trs os fios de cabelo que, com a fria, haviam cado sobre os ombros e saiu do quarto com determinao, fixando em mim o olhar enquanto se 
colocava ao lado de Beau Andreas. Este, muito pouco  vontade, permitiu que ela lhe segurasse no brao para descerem juntos os degraus das escadas que Gisselle parecia 
querer esmagar.

- Ela tem estado muito ansiosa por ir a este baile - explicou o meu pai. Fiz sinal que entendia, mas ele sentiu necessidade de continuar a justificar o comportamento 
de Gisselle. No valia a pena for-la a ficar. Teria ainda menos vontade de ouvir e no tentaria compreender. Quando est assim, a Daphne  que sabe lidar com ela 
- acrescentou. Encaminhou-se para aquele que seria o meu quarto. - Tenho a certeza de que, com o passar dos dias, ela vai ficar contentssima por saber que tem uma 
irm. Foi filha nica por demasiado tempo e est um pouco estragada de mais. Mas, agora - afirmou -, tenho mais outra filha para estragar.

Mal entrmos no meu novo quarto, pude verificar que comeava desde esse momento a ficar estragada. A cama era de pinho escuro, muito larga, e de dossel, este ltimo 
de cor prola com franjas. As almofadas eram enormes e pareciam muito fofas, e a colcha, as fronhas e o lenol de cima eram todos em cetim, com flores coloridas 
e brilhantes. O papel de parede copiava o padro floral da roupa de cama e ,por cima da cabeceira, havia um retrato de uma senhora jovem e bonita, que alimentava 
um papagaio num jardim e que tinha um engraado cachorro branco e preto puxando a bainha da sua saia comprida. De cada um dos lados da cama, havia um candeeiro com 
o abajur em forma de campainha. Ao lado da cmoda e do armrio condizentes, estava um toucador com um enorme espelho oval, cuja moldura em marfim tinha rosas vermelhas 
e amarelas pintadas  mo. e ,nesse canto ao lado do toucador, havia uma gaiola de estilo francs.

- Tenho uma casa de banho privativa'? - indaguei, espreitando pela porta aberta  direita. A casa de banho tinha uma banheira enorme, uma pia e um lavatrio muito 
grande, e todas as loias tinham ornamentos em lato. A pia e a banheira tinham at flores e aves pintadas  mo.

- Claro que sim. Sendo ou no tua irm gmea, a Gisselle no  o tipo de pessoa com quem se deva partilhar uma casa de banho! - comentou o meu pai, sorrindo. - Esta 
porta -

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acrescentou, apontando para a porta da esquerda - une os dois quartos. Tenho esperana que dentro em breve vocs as duas a utilizem frequentemente!

-Tambm eu - respondi, indo em seguida at  janela observar os terrenos da propriedade. O quarto ficava de frente para a piscina e para os campos de tnis e ,atravs 
da janela aberta, entrava o cheiro do bambu verde, das gardnias e das camlias em flor.

- Gostas? - indagou o meu pai.

- Se gosto? Adoro!  o quarto mais fantstico que eu alguma vez vi - declarei. Ele riu da minha exuberncia.

- Ser muito animador ver algum apreciar tudo isto novamente. Na maior parte das vezes, deixamos de dar importncia s coisas mais importantes - explicou ele.

-Nunca vou deixar de lhes dar a devida importncia prometi ento.

-Veremos. Espera at sofreres a influncia da Gisselle! Bem, estou a ver que te arranjaram uma camisa de dormir e uns chinelos. - Abriu depois a porta do armrio, 
onde estava pendurado um roupo de seda cor-de-rosa. - e tens aqui tambm um roupo. Encontrars tudo o mais que tens necessidade na casa de banho: uma escova de 
dentes nova, sabonetes, etc. Mas, se precisares de alguma coisa,  s pedir. Quero que comeces a considerar esta casa como tua o mais depressa possvel
- acrescentou.

- Obrigada.

- Bem, agora trata de te pores  vontade e dorme bem. Se te levantares antes de ns, o que  muito provvel a seguir  noite de Carnaval, vai at  cozinha e pede 
 Nina que te prepare o pequeno-almoo.

Concordei e ele despediu-se, fechando a porta com suavidade antes de sair.

Durante muito tempo, fiquei ali parada a admirar simplesmente o que me rodeava. Estaria eu realmente ali, transportada atravs do tempo e da distncia para um mundo 
novo, um mundo onde teria uma me e um pai verdadeiros e ,logo que ela o aceitasse, uma irm tambm?

Fui ento at  casa de banho e descobri os sabonetes perfumados com aroma de gardnia e os frascos de sais de banho. Deixei correr a gua quente e deliciei-me depois 
com a suavidade da espuma dos sais perfumados. Quando terminei, coloquei uma camisa de dormir da Gisselle, que cheirava bem, e deslizei para debaixo dos lenis 
macios e da colcha recolhida. Sentia-me uma verdadeira Cinderela.

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Mas, tal como ela, no podia deixar de sentir igualmente algum receio; temia o bater das horas que,  medida que iam correndo, fariam chegar a meia-noite, a hora 
mgica.

Ficaria, nessa hora, a minha felicidade reduzida a destroos, se  a minha carruagem se transformasse numa abbora?

Ou continuaria o relgio a pulsar, assegurando a cada minuto  que passava a realidade da minha vida encantada?

"Oh, grandmre", murmurei ento em pensamento, sentindo  as plpebras comear a fechar: "Estou aqui. Espero que, sabendo isso, descanse agora mais em paz."
SANGUE AZUL BEM-VINDO

Acordei com o canto dos gaios azuis e das cotovias, sem que nos primeiros segundos tivesse noo de onde estava. A minha viagem para Nova Orlies e todos os acontecimentos 
subsequentes mais pareciam um sonho. Durante a noite, devia ter chovido bastante, pois, embora o sol entrasse em abundncia atravs da janela, no ar restava ainda 
o cheiro da terra hmida e das folhas molhadas, misturado com os variados aromas das flores e rvores que rodeavam a casa.

Sentei-me lentamente na cama, confirmando a beleza do meu novo quarto  luz do dia, que ainda me pareceu mais intensa. Apesar da moblia ser bem antiga, assim como 
todos os acessrios e at a caixa de jias sobre o toucador, a mim, tudo me parecia tambm novo em folha. Era como se aquele quarto tivesse sido muito recentemente 
preparado, tendo sido tudo polido e lavado antes da minha chegada; ou ento, era como se tivesse adormecido quando era tudo novo e tivesse depois passado muitos 
anos a dormir, sem me aperceber do passar do tempo.

Levantei-me da cama e fui at  janela. O cu era como uma manta de retalhos, tecida com nuvens cremes e pedaos de azul-claro. Em terra, havia muitas pessoas trabalhando 
com afinco, aparando as sebes e os relvados e arrancando as ervas daninhas dos canteiros. Havia tambm algum no campo de tnis que retirava as folhas de murta e 
os pequenos ramos que provavelmente a chuva havia feito cair; na piscina, um outro homem apanhava as folhas dos carvalhos e das bananeiras.

Pensei que aquele era, sem dvida, um dia maravilhoso pa-
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ra iniciar uma nova vida e ,com o corao cheio de alegria, fui para a casa de banho, onde escovei o cabelo e vesti a saia e blusa cinzentas que havia trazido comigo 
na mala. Coloquei depois tudo quanto trouxera numa das gavetas da cmoda e calcei os meus moccassins, saindo do quarto para ir tomar o pequeno-almoo.

A casa estava extremamente silenciosa e todas as portas dos quartos continuavam bem fechadas, mas, quando cheguei  escadaria, a porta de entrada abriu-se e bateu 
violentamente. Vi ento que era Gisselle a entrar em casa, sem dar mostras de se preocupar com o barulho que fazia nem com a possibilidade de acordar algum em casa.

Atirou a capa e o toucado com penas brilhantes para cima da mesa de entrada e comeou depois a subir as escadas. Subiu at metade, de olhos postos nos degraus, e 
s quando ergueu a cabea  que me viu, parada no cimo a observ-la.

- Chegaste agora do baile de Carnaval? - perguntei, pasmada.

- Oh, j me tinha esquecido de ti... - afirmou Gisselle, rindo-se de uma forma tola. Algo de diferente nos seus movimentos levou-me a admitir que ela devia ter estado 
a beber.  para veres como me diverti!... - acrescentou de seguida num tom agressivo. - e o Beau foi to querido que, durante toda a noite, nem por uma vez me recordou 
a tua traumatizante chegada. - Em seguida, a expresso dela revelou alguma admirao e dureza. quando foi finalmente capaz de captar a pergunta que eu fizera ao 
v-la. - Claro que cheguei agora! Toda a gente sabe que o baile de Carnaval dura at ao amanhecer. No penses que vais poder contar alguma novidade aos meus pais 
para me meteres em sarilhos! - avisou.

-No quero meter-te em nenhum sarilho, apenas fiquei... espantada.  que eu nunca cheguei assim to tarde.

- Nunca te divertiste num baile, ou ser que l no Bahou no sabem o que  isso? - indagou Gisselle com desprezo.
- Sabemos, sim. Os nossos bailes chamam-se Fis dodo expliquei -, mas no duram a noite toda.

- Fais dodo? Deve ser um baile muito antiquado... Dana-se a dois passos ao som de um acordeo e de uma flauta, no?
- Sorriu, fazendo troa e comeando a subir os degraus que faltavam para chegar ao p de mim.

- Costumam ser bailes divertidos e h sempre muito boa comida. e o baile desta noite foi agradvel? - perguntei.

- Agradvel? - Ela deteve-se no degrau anterior e riu novamente. - Agradvel? "Agradvel"  um termo que se aplica
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a uma festa da escola, ou a um ch da tarde no jardim, mas a um baile de Carnaval?! Foi mais do que agradvel, foi espectacular! Estava toda a gente l! - declarou, 
subindo o degrau que faltava. - e todos olharam para mim e para o Beau com inveja. Somos considerados o casal jovem crioulo mais bonito, sabias? No sei quantas 
amigas minhas me pediram para danar com o Beau e todas estavam a morrer de curiosidade para saber onde eu tinha comprado o vestido, mas eu no lhes contei.

- um vestido muito bonito - admiti.

- Mas no esperes que to empreste, agora que apareceste de surpresa nas nossas vidas! - retorquiu logo, recuperando a sua sagacidade natural. - Ainda no percebi 
como vieste at aqui, nem quem tu s - acrescentou, com um tom de voz gelado.

- O teu pai... o nosso pai vai explicar-te - afirmei, mas ela lanou-me outro dos seus olhares de desprezo e atirou o cabelo para trs dos ombros.

- Duvido que haja uma explicao, mas posso ouvir de qualquer maneira. Mas no agora, que estou exausta. Quero dormir e no tenho disposio para ouvir nada a teu 
respeito.
- Fazia tenes de se encaminhar para o quarto, mas antes parou para me observar da cabea aos ps e perguntou: - Onde foste buscar essas roupas?  tudo - feito 
 mo? - indagou, com ar de troa.

-Nem tudo. Trouxe muito pouca - respondi. -Felizmente! - exclamou, bocejando. - Tenho de ir dormir: o Beau vem tomar ch connosco  tarde. Queremos reviver o baile 
desta noite, comentar o mau gosto de algumas pessoas. Se ainda aqui estiveres, podes ficar a ouvir e a aproveitar para aprender.

- Claro que ainda aqui vou estar - respondi. - Agora, esta tambm  a minha casa.

- Por favor, j estou a ficar com dores de cabea - afirmou, massajando as tmporas com o polegar e o indicador. De repente, voltou-se de novo para mim e ,esticando 
as palmas das mos, afirmou: - Acabou-se. As raparigas cajuns tm de se Poupar. Somos mais... femininas, mais delicadas, como flores que precisam do suave beijo 
da chuva e do toque do sol.  o que o Beau costuma dizer. - Parou ento de sorrir com aquilo que estava a dizer e olhou para mim, curiosa. - No pes bton antes 
de receber as pessoas?

- No. No tenho nenhum bton - respondi. -e o Beau ainda acha que somos gmeas!

199
-e somos! - disparei, sem ser capaz de ficar calada.
- S se for nos teus sonhos - retorquiu, encaminhando-se para o quarto e fechando a porta.

Desci ento as escadas e parei para admirar o toucado e a capa de Gisselle. Porque os tinha deixado ali e quem depois os arrumaria por ela?

Como se pudesse ouvir os meus pensamentos, saiu nesse momento uma criada da sala de estar e encaminhou-se para o corredor para retirar os adereos de Gisselle. Era 
uma mulher jovem, de cor, com uns grandes olhos castanhos muito bonitos, que no devia ter muito mais idade do que eu.

- Bom dia - cumprimentei.

- Bom dia.  a menina que se parece com a Gisselle? perguntou ela.

-Sou. Chamo-me Ruby.

- Eu chamo-me Wendy Williams - informou, pegando na roupa de Gisselle com os olhos fixos em mim e saindo em seguida.

Decidi ir ento para a cozinha, mas, quando passei pela sala de jantar, vi o meu pai sentado na mesa comprida, tomando caf e lendo a seco econmica do jornal. 
Assim que me viu, levantou-se com um sorriso.

- Bom dia. Entra e senta-te - pediu ele. Era uma sala de jantar enorme, quase to grande como uma sala de reunies cajun, pensei ao entrar. Por cima da longa mesa 
estava um dispositivo prprio para espantar moscas, uma espcie de leque enorme que na altura das refeies um empregado abanava com a finalidade de refrescar a 
sala e , claro, impedir que as moscas incomodassem quem estava a comer. Julguei que servisse apenas de decorao, pois s tinha visto semelhante instrumento nas 
casas cajuns mais ricas, que dispunham de ventoinhas elctricas.

- Senta-te aqui - afirmou o meu pai, indicando o lugar  sua esquerda. - Daqui para a frente, este vai ser sempre o teu lugar. A Gisselle fica  minha direita e 
a daphne senta-se  minha frente, na outra ponta da mesa.

-Fica to longe o lugar dela! - comentei, medindo o comprimento da bonita mesa de cerejeira, to polida que podia ver a minha imagem reflectida na superfcie. O 
meu pai riu da minha observao.

- Sim, mas a daphne gosta assim. Ou melhor,  a forma mais correcta para dispor os lugares  mesa. e ento, dormiste bem? - indagou, enquanto eu me sentava.

- Maravilhosamente. Nunca tinha dormido numa cama to confortvel.  como dormir numa nuvem!

200
Ele sorriu.

-A Gisselle quer que eu lhe compre um novo colcho, queixa-se que aquele  muito duro. Mas, se eu lhe comprar um colcho mais macio, ela acaba por afundar e vir 
parar ao cho!
- acrescentou, fazendo com que ns dois nos rssemos. Pensei ento se ele a teria ouvido chegar, sabendo, portanto. que Gisselle ficara at to tarde no baile. - 
Tens apetite?

- Tenho - admiti, sentindo o estmago a protestar. O meu pai tocou ento a campainha e Edgar apareceu, vindo da cozinha.

- J conheces o Edgar, no  assim? - confirmou ele.
- J, sim, Bom dia, Edgar - cumprimentei. Ele respondeu com um ligeiro curvar de cabea.

- Bom dia, mademoiselle.

- Edgar, pede  Nina que prepare panquecas com doce de amora para Mademoiselle Ruby, por favor. Gostas de panquecas, no gostas?

- Gosto sim, obrigada - confirmei. O meu pai fez a Edgar um gesto que indicava que podia prosseguir.

- Muito bem, senhor - respondeu Edgar, oferecendo-me um sorriso.

- Queres um sumo de laranja? Foi acabado de fazer - informou o meu pai, pegando no jarro de sumo.

- Obrigada.

-No creio que a Daphne tenha de se preocupar com os teus modos. A grandmre Catherine fez um bom trabalho elogiou ele. No pude impedir que os meus olhos se desviassem 
ao ouvir mencionado o nome da grandmre. - Deves sentir muito a sua falta.

-Sinto, sim.

- Ningum pode substituir o lugar de uma pessoa querida, mas espero poder preencher o vazio que deves sentir no corao - disse ele. - Bem - continuou, recostando-se 
na cadeira -, hoje a Daphne tambm vai dormir at tarde. Ela prometeu que te levava s compras apenas a meio da tarde - disse, piscando o olho. - e ,quanto  Gisselle, 
o mais certo  ela dormir o dia quase todo, o que significa que vamos ter a manh e a hora de almoo s para ns. Que tal se eu te levar a conhecer um pouco da cidade?

-Gostava muito, obrigada - respondi.

Depois do pequeno-almoo, samos de Rolls Royce e atravessmos a longa auto-estrada. Nunca antes havia entrado num automvel to luxuoso; por isso, fiquei estupidamente 
a observar os adereos em madeira, passando as mos sobre a pele macia.

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- Sabes conduzir? - quis saber o meu pai.
        
- Oh, no! Nem sequer andei muito de carro. No bayou deslocamo-nos quase sempre a p ou de canoa.

- Sim, eu lembro-me - respondeu, oferecendo-me um grande sorriso. - A Gisselle tambm no conduz, no se quer incomodar a aprender. Na verdade, ela gosta  de ser 
conduzida. Mas, caso queiras aprender a guiar, terei muito gosto em ensinar-te - afirmou.

- Sim, gostava muito, obrigada.

Ele passou depois pelo Garden District e vimos muitas casas bonitas com jardins to bem cuidados quanto os nossos, algumas cercadas por sebes de oleastro. Havia 
menos nuvens no cu, o que significava que as ruas e as flores tinham menos sombras a escond-las. Os passeios laterais e os trios ladrilhados brilhavam com a luz 
do Sol. Algumas sarjetas, devido  chuva da noite anterior, estavam inclusivamente enfeitadas com camlias rosas e brancas.

- Algumas destas manses foram construdas em mil oitocentos e quarenta - contou o meu pai, inclinando-se para indicar uma casa  nossa direita. - O presidente da 
Confederao, Jeffierson Davis, morreu nessa casa em mil oitocentos e noventa e nove. Nesta cidade, h vrias referncias histricas - acrescentou com orgulho.

O nosso carro virou depois numa curva e parmos para dar passagem ao autocarro verde que passou junto s palmeiras na avenida. S depois seguimos a St.. Charles 
at ao centro da cidade.

- Fico contente por termos tido esta oportunidade de estarmos sozinhos algumas horas - disse o meu pai. - Alm de poder mostrar-te a cidade, d-nos tambm a oportunidade 
de nos conhecermos melhor - afirmou. - Foi preciso muita coragem para vires ter comigo.

A minha expresso mostrou-lhe que eu pensava o mesmo. Depois aclarou a garganta e continuou a falar.

- Vai ser difcil para mim falar sobre a tua me quando estiver mais algum presente, principalmente se for a Daphne. Julgo que sabes porqu.

Fiz que sim com a cabea.

-Tenho a certeza de que  difcil para ti entender agora como tudo sucedeu. Por vezes - continuou, sorrindo -, quando penso no passado, parece que foi apenas parte 
de um sonho.

e ,de facto, parecia que ele estava a sonhar; tinha os olhos fixos num ponto longnquo e a voz suave, tranquila e relaxada.
- Tenho de te falar sobre o meu irmo mais novo, o Jean.
202
Sempre foi muito diferente de mim, muito mais energico e extrovertido, um autntico Don Juan, se  que alguma vez essa personagem existiu - acrescentou, sorrindo 
de uma forma doce.
- Eu sempre fui muito tmido no que dizia respeito aos membros do sexo mais gentil.

"0 Jean tinha um porte de atleta, era campeo de corrida e saltos e um ptimo marinheiro. No lago Pontchartrain, fazia deslizar o nosso barco  vela mesmo quando 
nem as folhas dos salgueiros nas margens se mexiam.

"Escusado ser dizer que ele sempre foi o preferido do meu pai, e a minha me sempre pensou nele como o seu menino. Mas nunca senti cimes - acrescentou rapidamente. 
- Sempre tive mais vocao para os negcios; sentia-me muito melhor num escritrio a fazer contas, a falar ao telefone ou a fazer projectos, do que num campo de 
jogo ou num barco  vela rodeado de raparigas bonitas.

"0 Jean era extremamente sedutor, no tinha de se esforar para fazer amigos ou para aumentar os seus conhecimentos. Tanto homens como mulheres adoravam a sua companhia. 
gostavam de conversar com ele, de ser o alvo das suas atenes e dos seus sorrisos.

"Nesse tempo, a casa estava sempre cheia de gente nova. Nunca sabia quem poderia estar a conversar na sala, a jantar na casa de jantar ou a tomar banho de piscina.

- Ele era mais novo quantos anos? - perguntei.

- Quatro anos. Quando acabei a faculdade, o Jean iniciou o seu primeiro ano, e comeou logo a destacar-se no atletismo. Foi eleito chefe de turma e era o mais popular 
entre o grupo dos rapazes.

"Era fcil entender por que motivo o meu pai gostava tanto dele e tinha tantos planos para o Jean - explicou o meu pai, conduzindo o carro atravs de uma srie de 
curvas que nos levaram para as reas mais movimentadas de Nova Orlees. Contudo, o trnsito, a multido e as inmeras lojas interessavam-Me menos do que a histria 
que o meu pai me contava.

Parmos ento num semforo.

- Eu ainda no era casado, eu e a Daphne apenas saamos juntos. Secretamente, o meu pai fazia planos para o Jean se casar com a filha de um dos nossos scios. Seria 
um casamento talhado no cu: ela era uma jovem muito atraente e tinha um pai que era rico, tambm. A cerimnia de casamento e a recepo seriam apenas comparveis 
s da realeza.

-e o Jean queria casar? - perguntei.

- O Jean? Ele idolatrava o nosso pai e fazia todas as suas
203
vontades. Por isso, considerava o casamento inevitvel. Se o pudesses conhecer, terias simpatizado imediatamente com ele e passarias depressa a am-lo. Ele no sabia 
o que era o desnimo, via sempre uma luz a brilhar ao fundo do tnel, por maior que fosse o problema ou a dificuldade.

- O que lhe aconteceu? - indaguei por fim, receando ouvir a resposta.

- Sofreu um acidente no lago Pontchartrain. Raramente o acompanhava nas suas sadas de barco, mas, dessa vez, deixei-me convencer pelos seus argumentos. Ele tinha 
o hbito de tentar modificar-me, para que me parecesse mais com ele. Queria que eu apreciasse mais a vida, porque, segundo ele, eu era demasiado srio e responsvel. 
Normalmente, eu no costumava dar ouvidos s suas queixas, mas, naquela vez, ele argumentou que devamos ser melhores irmos e eu cedi. Tnhamos ambos bebido alm 
da conta e comeou, de repente, a trovejar. Eu quis voltar imediatamente, mas o meu irmo achou que seria divertido desafiar a tempestade, e o barco acabou por se 
virar. Se no fosse o mastro ter batido na cabea do Jean, estou certo de que teria conseguido escapar, pois nadava muito melhor do que eu.

-oh!, no! - exclamei.

- Esteve em coma durante muito tempo. O meu pai no poupou um tosto e contratou os melhores mdicos, mas nenhum podia fazer nada. Ele apenas vegetava.

-Que horror!

- Julguei que os meus pais nunca se recomporiam da perda, principalmente o meu pai, mas foi a minha me quem ficou ainda mais deprimida. A sua sade comeou a fraquejar 
e ,menos de um ano depois, sofreu o primeiro ataque cardaco. Sobreviveu, mas ficou invlida.

Continumos a percorrer a cidade, adentrando-nos mais na rea de escritrios. O meu pai virou ento para uma rua, depois para outra, e finalmente estacionou o automvel 
num lugar, mas no desligou o motor. Limitou-se a olhar em frente a fim de continuar a reviver as suas recordaes.

- Um dia, no nosso escritrio, o meu pai veio ter comigo e fechou a porta do gabinete. Tinha envelhecido muito depois do acidente do meu irmo e da doena da minha 
me. Um homem que sempre fora forte e orgulhoso, caminhava agora com os ombros descados, a cabea baixa e as costas curvadas, Passara a ter uma cor plida e o olhar 
vago e perdera quase todo o interesse pelos negcios.

"- Pierre - comeou ele -, no creio que a tua me te-
204
nha uma longa vida pela frente e ,francamente, sinto que os meus dias tambm esto contados. O nosso maior desejo era ver-te casar e formar uma famlia.

"Eu e a daphne j fazamos tenes de casar, mas depois daquela conversa, apressei o casamento e quis ter filhos logo depois. Ela aceitou, mas, depois de meses e 
meses sem conseguir engravidar, comemos a ficar preocupados.

."Levei-a a vrios especialistas e todos chegaram  concluso que a daphne no era capaz de ter filhos. O seu corpo no produz uma determinada hormona em quantidade 
suficiente. J no me lembro do diagnstico exacto.

- Que pena - exclamei. Ele fez um gesto afirmativo com a cabea e desligou o motor do carro.

- O meu pai comeou ento a sofrer de uma profunda depresso. Raramente ia trabalhar e passava muitas horas de olhar fito num ponto vago, sem j quase saber tomar 
conta de si prprio. A daphne tomava conta dele o melhor que podia, mas sentia-se culpada tambm pelo seu estado; eu sei que sentia, apesar de ela o negar at hoje.

"Por fim, consegui interessar o meu pai numas excurses de caa. Viajmos para o bayou a fim de caar patos e gansos e contratmos o grandpre Jack para nos guiar. 
e foi assim que conheci a Gabrielle.

- Eu sei - respondi.

-Tens de tentar entender como a minha vida era triste e difcil nesses dias. O futuro promissor do meu irmo, to sedutor e inteligente, tinha sido estupidamente 
interrompido. A minha me tinha morrido, a minha mulher no podia ter filhos e o meu pai piorava a cada dia que passava.

"Subitamente... nunca esquecerei esse momento... voltei-me, enquanto retirava as malas do carro perto do porto e vi a Gabrielle a passear ao longo do canal. A brisa 
agitava-lhe o cabelo e fazia-o flutuar  volta dela, to escuro e to ruivo quanto o teu. Sorria de uma forma celestial. O meu corao parou e senti o sangue correr 
depressa nas veias e afluir at ao rosto, que depressa ganhou cor.

"Tinha um tecelo pousado no ombro e ,quando ela estendeu o brao, o pssaro saltitou na mo dela antes de voar. Ainda consigo ouvir o doce riso da Gabrielle, to 
infantil e encantador, que o vento se encarregou de fazer chegar aos meus ouvidos.

"- Quem  ?- perguntei ao teu grandpre. "- Apenas a minha filha - respondeu.

""Apenas a filha dele, pensei, ou uma deusa acabada de emergir do bayou? Apenas a sua filha?"

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"Sabes, no consegui conter-me. Nunca antes me sentira to apaixonado. Aproveitava cada oportunidade que surgia para estar a seu lado ou para falar com a Gabrielle. 
e depressa ela comeou a sentir o mesmo: vontade de estar comigo.

"No podia esconder os meus sentimentos do meu pai, mas ele no me impediu de nada. Na verdade, tenho a certeza de que ele se dispunha sempre a fazer novas excurses 
ao bayou por causa da minha relao com a Gabrielle. Na altura, no me apercebi do que motivava o seu interesse, mas devia ter entendido no dia em que lhe comuniquei 
que ela esperava um filho meu.

- Sem que o soubesse, o seu pai fez um acordo secreto com o grandpre Jack - afirmei.

- Exactamente. No queria que a situao tivesse evoludo dessa forma. J tinha feito planos para sustentar a Gabrielle e a criana e ela tinha ficado feliz, mas 
o meu pai estava obcecado com a ideia de ter um neto, completamente enlouquecido.

Fez ento uma pausa e respirou fundo antes de prosseguir o seu relato.

-Ele chegou ao ponto de contar tudo  Daphne. -O que fez depois? - indaguei.

-No o neguei, confessei tudo. -e ela ficou muito transtornada?

- Ficou perturbada, mas a Daphne  uma mulher de carcter e como ela mesma costuma dizer, "uma senhora de classe"
- acrescentou com um sorriso. - Disps-se a educar essa criana como se fosse um filho seu, concordando com o pedido do meu pai, que lhe tinha feito antes algumas 
promessas. Mas havia ainda o problema da Gabrielle por resolver. Tinha de se levar em conta os seus sentimentos e desejos. Contei  Daphne o que sabia ser a vontade 
da Gabrielle e disse-lhe que, apesar do acordo que o meu pai fizera com o teu grandpre, ela se oporia.

- A grandmre Catherine explicou-me que a minha me ficou perturbada, mas nunca consegui perceber por que razo permitiu que o grandpre Jack levasse a cabo o plano, 
por que razo abdicou da Gisselle.

- No foi o grandpre Jack quem a convenceu. Quem acabou por o conseguir - explicou - foi a Daphne. - Fez ento uma pausa e voltou-se para mim. - Posso ver pela 
tua expresso que ainda no o sabias.

- Pois no - admiti.

- Talvez a tua grandmre Catherine tambm no o soubesse. Bem, j chega desse assunto. O resto j tu sabes - acres-
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centou rapidamente. - Queres dar um passeio pelo Bairro Francs? Mesmo diante de ns fica a Bourbon Street - informou, apontando em frente.

- Est bem.

Samos do carro e ele pegou na minha mo para atravessar a rua. Mal tnhamos acabado de o fazer, ouvimos msica vinda de vrios clubes, bares e restaurantes, mesmo 
quela hora do dia.

-  O Bairro Francs  mesmo o corao da cidade - explicou o meu pai. - e nunca pra de pulsar. Sabes, na verdade, no  francs,  mais espanhol. Nesta cidade houve 
dois incndios desastrosos, um em mil setecentos e oitenta e oito e outro em mil setecentos e noventa e quatro, que destruram a maior parte das originais estruturas 
francesas - relatou ele. Reparei no quanto ele gostava de Nova Orlees e pensei se alguma vez viria a amar tanto essa cidade quanto o meu pai.

Fomos andando e passmos as colunas listadas e os portes de ferro de alguns ptios. Ouvi umas gargalhadas e olhando para cima vi homens e mulheres inclinados nas 
varandas dos seus apartamentos, alguns a chamar transeuntes que passavam nas ruas. Numa entrada adornada com um arco, um homem de cor tocava guitarra, como se estivesse 
a tocar para si mesmo, sem reparar em qqem passava por ele e se detinha a ouvi-lo tocar.

- H muitas referncias histricas aqui - afirmou o meu pai, apontando. - Jean Lafitte, um pirata famoso, e o seu irmo Pierre montaram aqui um negcio de branqueamento 
para todo o contrabando que traziam. e ,nestes ptios, j muitos aventureiros planearam montar negcios elaborados.

Tentei reparar em tudo: nos restaurantes, nos quiosques de caf, nas lojas com recordaes para turistas e nos antiqurios. Caminhmos at chegar a Jackson Square 
e  Catedral de So Lus.

- neste lugar que se recebem as figuras mais importantes e onde se celebram conferncias e celebraes - comunicou-me ele. Antes de entrarmos na catedral, parmos 
para observar a esttua de bronze de Andrew Jackson no seu cavalo e depois acendi uma vela para a grandmre Catherine e rezei uma orao. Samos ento e demos a 
volta  praa, circundando os artistas que ali vendiam os seus trabalhos mais recentes.

-Vamos parar para tomar um caf au lait, com beignets
- sugeriu o meu pai. Os beignets, uns bolos redondos cobertos de acar em p, eram os meus preferidos.

Enquanto comamos, vimos alguns artistas desenhar retratos de turistas.

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- Conhece uma galeria de arte com o nome de Dominique's?

-Sim, conheo. Fica perto daqui, cerca de um ou dois quarteires depois daquela rua. Porqu?

- Tenho algumas pinturas minhas expostas nessa galeria
- expliquei.

-Como? - ele endireitou as costas, de boca aberta. Tens pinturas expostas?

- Tenho. Um dos quadros j foi vendido, foi assim que eu arranjei o dinheiro para viajar.

- No acredito! - exclamou. - s uma artista e no disseste nada?

Contei-lhe ento como tinha comeado a pintar e como Dominique tinha parado naquele dia perto da tenda da grandmre Catherine e reparado ento nos meus quadros.

- Temos de ir a essa galeria imediatamente - afirmou ele.
- Nunca vi tamanha modstia! A Gisselle tem bastante que aprender contigo.

At mesmo eu fiquei estupefacta quando chegmos  galeria. O meu quadro com a gara a emergir da gua estava exposto na montra principal, especialmente destacado. 
Dominique no estava na galeria, que nesse momento estava a cargo de uma bonita jovem. Quando o meu pai lhe explicou quem eu era, ela deu largas ao seu entusiasmo.

-Qual  o preo do quadro da montra? - perguntou o meu pai.

- Quinhentos e cinquenta dlares, monsieur - respondeu ela.

"Quinhentos e cinquenta dlares", pensei! Por algo que eu mesma tinha feito? Sem hesitao, ele pegou na carteira e retirou o dinheiro.

-  um quadro maravilhoso - declarou, segurando-o com os braos estendidos, para o analisar melhor. - Mas vais ter de mudar a assinatura, para Ruby Dumas. Quero 
que o teu talento tenha o nome da minha famlia! - acrescentou, sorrindo. Fiquei sem perceber se ele se teria apercebido ou no de que aquele quadro retratava a 
ave do pntano que a grandmre Catherine me contara ser a preferida da minha me.

Depois de o quadro estar embrulhado, o meu pai pediu-me que me apressasse, bastante entusiasmado.

- Espera at a Daphne ver o quadro! Tens de continuar a trabalhar, Ruby. Vou comprar-te todos os materiais necessrios e arranjamos uma diviso na casa para funcionar 
como o teu estdio de pintura. Vou tambm procurar o melhor professor de
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pintura de Nova Orlees para te dar aulas particulares - prometeu. Eu, encantada, ia acompanhando o seu passo, sentindo o corao pulsar de alegria.

Colocmos o quadro no carro.

- Quero que conheas uns museus, passamos por um ou dois cemitrios famosos e depois levo-te a almoar a um dos meus restaurantes preferidos nas docas. Afinal - 
acrescentou, rindo -, esta  uma excurso de primeira!

Foi um passeio maravilhoso. Rimos bastante juntos, e o restaurante escolhido no podia ser melhor. Tinha a montra em vidro, de forma que, sentados  mesa, podamos 
observar os barcos a vapor e de recreio que chegavam e partiam, subindo o Mississpi.

Enquanto comamos, o meu pai foi-me colocando questes acerca do que fora a minha vida no bayou. Contei-lhe que eu e a grandmre Catherine nos dedicvamos aos trabalhos 
artesanais e aos bordados em linho, para depois os vender. Ele fez-me depois perguntas sobre a escola e quis saber se eu alguma vez tivera um namorado. Comecei a 
contar-lhe sobre Paul, mas depois parei, no apenas porque me entristecia falar sobre ele, mas tambm porque senti vergonha em relatar mais outro acontecimento terrvel 
da vida da minha me e mais outra atrocidade da parte do grandpre Jack. Contudo, o meu pai apercebeu-se da minha tristeza.

- Tenho a certeza de que ters muitos outros namorados
- afirmou -, assim que a Gisselle te apresentar a todos os amigos da  escola.

- Escola? - Tinha-me esquecido desse pormenor.

- Com certeza. Ainda esta semana vamos ter de te inscrever. Senti um arrepio, ao imaginar se todas as raparigas da escola seriam como a Gisselle. O que esperariam 
de mim?

- Calma, calma - murmurou o meu pai, fazendo-me festas na mo. - No fiques nervosa por causa disso, vers que vai correr tudo bem. Agora - afirmou olhando para 
o seu relgio -, as senhoras j devem ter-se levantado. So horas de regressar a casa. Afinal de contas, ainda vou ter de explicar a tua chegada  Gisselle - acrescentou.

Ouvindo-o falar, parecia tudo muito simples, mas... como a grandmre Catherine costumava dizer: "Tecer um pequeno pano de mentira  mais difcil do que tecer um 
enorme lenol de verdade."

Daphne estava sentada numa cadeira acolchoada de uma mesa de jardim,  sombra de um guarda-sol; tinham acabado de
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lhe servir o pequeno-almoo tardio no pequeno ptio do jardim. Apesar de estar ainda com o seu roupo de seda azul e de chinelos, estava impecavelmente maquilhada 
e tinha o cabelo muito bem escovado, o qual na sombra parecia adquirir o tom de mel. Podia facilmente ser a capa da revista Vogue que estava a ler e que pousou ao 
ver-nos chegar. O meu pai cumprimentou-a depois com um beijo na face.

-  mais correcto dizer bom dia ou boa tarde? - perguntou.
- Para vocs os dois, no parece haver dvidas que seja j de tarde - respondeu daphne, de olhos fitos em mim. - Como foi a vossa manh?

-Muito boa - declarei.

- Que bom. Vejo que compraste um quadro, Pierre.

- No  apenas um quadro novo, daphne.  uma pintura assinada pela Ruby Dumas! - anunciou, sorrindo de uma forma cmplice para mim. As sobrancelhas de daphne arquearam.
- Desculpa?...

O meu pai desembrulhou ento o quadro e segurou-o a uma certa distncia.

-No  bonito? - indagou.

-  - admitiu ela, num tom de voz bastante indiferente mas ainda no estou a entender.

-No vais acreditar, daphne - comeou ele a explicar, ocupando rapidamente a cadeira em frente dela e relatando toda a histria que eu lhe havia contado. Enquanto 
ia falando, daphne olhava alternadamente para o meu pai e para mim.

-  realmente notvel - afirmou, quando ele concluiu.
- e podes ver por este quadro e pela forma como nos receberam na galeria que ela tem realmente muito talento.  um dom que deve ser desenvolvido.

- Sim - respondeu daphne, ainda bastante indiferente. No entanto, o meu pai no pareceu ficar desapontado com a reaco contida da mulher,  qual parecia j estar 
habituado. Assim, continuou a relatar tudo o mais que tnhamos feito, enquanto ela ouvia, bebericando pequenos goles de caf de uma linda chvena de porcelana pintada 
 mo, com os olhos azul-claros mudando de tom consoante a excitao que a voz dele denunciava.

-Na verdade, Pierre - afirmou depois -, j no te via assim to entusiasmado h anos.

-Agora tenho um bom motivo! - justificou ele.

- Detesto ser desmancha-prazeres, mas queria apenas recordar-te que ainda no falaste com a Gisselle, nem lhe contaste a tua histria sobre a Ruby - comunicou daphne.

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O entusiasmo do meu pai diminuiu a olhos vistos, e ele acenou com a cabea.

- Mais uma vez, tens razo, minha querida. So horas de despertar a princesa e conversar com ela - acedeu, levantando-se e pegando no quadro. - Onde  que pensas 
que devo pendurar o quadro? Na sala de estar?

- Julgo que ficaria melhor no teu escritrio, Pierre - respondeu daphne. A mim, pareceu-me que ela desejava coloc-lo no local onde seria menos visto.

-Sim, boa ideia. Assim vou poder v-lo mais vezes afirmou. - Bem, aqui vou eu. Desejem-me sorte - pediu, oferecendo-me um sorriso antes de se dirigir para casa a 
fim de conversar com Gisselle. Eu e Daphne ficmos a olhar-nos por alguns instantes e ,em seguida, ela pousou a chvena.

- Vejo que iniciaste da melhor forma o relacionamento com o teu pai - afirmou ento.

- Ele  muito simptico comigo - respondi. Daphne ficou de novo a observar-me.

- H muito tempo que ele no estava to feliz. J que te tornaste de uma hora para a outra um membro da famlia, devo informar-te que o Pierre, o teu pai, sofre 
de perodos de melancolia. Sabes o que isso significa? - Eu abanei a cabea. Entra em depresses profundas, de tempos a tempos. e no se pode nunca prever quando 
iro suceder - acrescentou.

- Depresses?...

- Sim. Fecha-se durante horas, at mesmo durante dias inteiros, sem querer ver nem falar com ningum. s vezes, quando estamos a falar com o Pierre, ele olha-nos 
com um olhar vago  e deixa-nos a falar sozinhos. Ultimamente, ele nem sequer se  lembra de agir dessa forma - comentou.

No pude deixar de ficar surpreendida; era difcil aceitar essa  descrio, depois de ter passado uma manh to agradvel na  companhia do meu pai.

- Por vezes, o Pierre fecha-se no escritrio e fica horas a ouvir msica, que geralmente e sempre triste e deprimente. J tentei as receitas de vrios mdicos, mas 
ele no gosta de tomar medicamentos.

"A me do Pierre tambm era assim - continuou ela. A histria da famlia Dumas est repleta de acontecimentos desagradveis.

- Eu sei. Hoje soube o que se passou com o irmo mais novo do meu pai - informei. Ela olhou-me intensamente.
- Ento ele j te contou?  isso que eu penso - comentou, abanando a cabea. - O Pierre no pode esperar por con-
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tar os acontecimentos mais incomodativos e deprimir todos os que o ouvem,

- Mas a mim no me deprimiu, apesar de ser uma histria muito triste - retorqui. daphne comprimiu os lbios e semicerrou os olhos; no gostava de ser contrariada.

- Imagino que te contou que a morte do irmo foi ocasionada por um acidente de barco - afirmou.

Sim. e no foi?

No quero falar desse assunto agora. Na verdade, deprime-me -- acrescentou, com os olhos muito abertos. - De qualquer forma, tenho tentado e continuo a tentar fazer 
tudo o que est ao meu alcance para tornar o Pierre feliz. O que nunca deves esquecer, j que vais viver connosco,  que devemos preservar a harmonia nesta casa. 
Discusses mesquinhas, intrigas e mexericos, cimes e traies no tm lugar na casa dos Dumas.

"0 Pierre est to feliz por te ter descoberto que nem se apercebe dos problemas que vamos enfrentar - continuou ela. Quando daphne falava, usava um tom to firme 
e formal que eu nada mais conseguia fazer, a no ser ouvi-la, de olhos fixos.
- O Pierre est cego para a imensa tarefa que temos pela frente. Sei como  diferente o mundo de onde vens e o tipo de experincias a que ests habituada.

Quais experincias, madame? - perguntei, curiosa. Experincias, apenas - respondeu com firmeza, com um olhar penetrante. - No  um tema que as senhoras gostam de 
discutir.

Mas no sei do que est a falar - protestei.

Nem sequer te apercebes daquilo que fizeste, do gnero de vida que levaste at agora. Bem sei como os Cajuns tm um sentido de moralidade distinto, como os seus 
cdigos de comportamento diferem.

- Isso no  verdade, madame - respondi, mas daphne continuou como se eu no tivesse sequer falado.

-- No podes aperceber-te at seres... seres educada, instruda e ensinada - declarou.

"Uma vez que a tua presena  to importante para o Pierre, farei todos os possveis para te ensinar e orientar,  claro, mas vou precisar tambm da tua cooperao 
e obedincia. Se tiveres alguma dificuldade, e  quase certo que vais sentir de incio, por favor fala comigo. No incomodes o Pierre.

"S faltava - acrescentou, falando mais para si prpria do que para mim - acontecer mais alguma coisa para o deprimir. Ainda pode acabar como o irmo mais novo.

- No compreendo - confessei eu.
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- Neste momento, isso no  importante - respondeu logo, levantando-se com as costas muito direitas.      Vou vestir-me para depois irmos s compras - afirmou. 
Dentro de vinte minutos, fica, por favor,  minha espera.

- Sim, madame.

- Espero que - disse ento, parando perto de mim para retirar alguns fios de cabelo da minha testa -, com o tempo, possas comear a tratar-me por me.

- Assim o espero, tambm -- respondi, mas no com a inteno que soasse daquela forma, quase como uma ameaa. daphne afastou-se um pouco e semicerrou as plpebras,

lanando-me um breve sorriso fechado e partindo em seguida para se aprontar para me levar s compras.

Enquanto esperava por daphne, continuei a explorar a casa, parando para conhecer o escritrio do meu pai. Reparei que ele havia apoiado o meu quadro na secretria 
antes de ter ido falar com a Gisselle. Havia na parede atrs da sua secretria um outro quadro, um retrato que pensei ser do seu pai e ,portanto, meu av. Neste 
quadro tinha uma expresso menos austera, embora estivesse vestido de uma forma formal; tinha um olhar pensativo, mas no se notava o mais leve sorriso nos lbios.

A secretria do meu pai era de nogueira, os armrios eram de estilo francs e as cadeiras em pele. Havia estantes em ambos os lados do escritrio, cujo soalho era 
de madeira polida com uma carpete oval de cor bege debaixo da secretria e da cadeira. No canto esquerdo estava um globo e no tampo da secretria, tal como em toda 
a diviso, tudo estava impecavelmente arrumado e organizado. Era como se os habitantes daquela casa andassem sempre em bicos de ps e de luvas. Cada pea de mobilirio, 
o imaculado cho e as paredes, todos os acessrios e estantes, as peas antigas e as esculturas faziam-me sentir receio de estragar ou sujar o que quer que eu tocasse. 
Tinha medo de me mexer depressa de mais, de me virar abruptamente, mas principalmente de pousar as mos em qualquer dos objectos. Contudo, tinha entrado no escritrio 
apenas para ver as fotografias que estavam em cima da secretria.

Em brilhantes molduras de prata polida, o meu pai colocara fotografias de Daphne e de Gisselle, e havia uma outra de um casal que eu conclu que fossem os seus pais, 
os meus avs. A minha av, Mrs. Dumas, era uma mulher pequena e bonita, com feies delicadas; no entanto, notava-se uma certa tristeza nos seus olhos e nas rugas 
que formava em volta dos lbios. Mas onde, pensei ento, estaria uma fotografia do irmo mais novo do meu pai, Jean?

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Sa nessa altura do escritrio e reparei que existia um pequeno estdio ao lado, uma espcie de biblioteca com sofs e poltronas de pele vermelha, mesas com abas 
douradas e candeeiros em bronze. Havia uma vitrina antiga com clices em cristal feitos manualmente, pintados de vrias cores: vermelho, verde e roxo. As paredes 
do estdio, tal como todas as outras paredes das outras divises da casa, estavam forradas com quadros a leo. Resolvi entrar e folhear alguns dos livros.

- Ah, ests aqui! - ouvi depois o meu pai exclamar, enquanto me voltava para o ver na entrada acompanhado por Gisselle, que trazia um roupo de seda rosa e calava 
uns chinelos da mesma cor, com um aspecto extremamente macio e confortvel. Notava-se que escovara apressadamente o cabelo e tinha olheiras sob os olhos ensonados. 
De braos cruzados debaixo do peito, exclamou ento: - Estvamos  tua procura.

- Queria conhecer a casa. Espero que no tenha importncia.
- Claro que no tem importncia. Esta  a tua casa, podes andar por onde quiseres. Bem, agora a Gisselle j est a par do que aconteceu e quer cumprimentar-te como 
se esta fosse a primeira vez que te v - continuou ele com um sorriso nos lbios. Olhei para a Gisselle, que suspirando, avanou um passo em frente.

- Desculpa a forma como me comportei - comeou ento. - No sabia o que tinha acontecido. Nunca tinha ouvido uma histria como esta - acrescentou, lanando um olhar 
ao nosso pai, cuja expresso revelava tambm arrependimento. Seja como for, agora tudo vai mudar, porque agora j sei que s minha irm e que sofreste bastante antes 
de aqui chegar.

- Fico contente por isso - afirmei. - e no tens de me pedir desculpa por nada. Percebo perfeitamente que tenhas ficado aborrecida com a minha chegada inesperada.

As minhas palavras parecia terem agradado a Gisselle, que voltou a olhar para o pai e depois novamente para mim.

- Quero dar-te as boas-vindas a esta famlia e dizer-te que tenho muita vontade de te conhecer melhor - acrescentou ela ainda. A forma mecnica como ela proferiu 
aquela frase dava a impresso de estar a repetir algo que havia memorizado antes, mas, de qualquer forma, eu fiquei feliz com as suas palavras.
- e no te aflijas com a escola. O pap disse-me que estavas preocupada, mas no precisas de estar. Ningum vai ter coragem de criar dificuldades  minha irm - 
declarou.

- A Gisselle  a mais popular da turma - anunciou o meu pai, sorrindo.

- No, no sou, mas no vou deixar que aqueles palermas
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impliquem connosco - jurou. - Se quiseres, podes ir depois ter comigo ao meu quarto, para conversar mais um pouco. Temos de comear a nos conhecer melhor.

- Gostava muito.

-Talvez tu queiras acompanhar a Ruby e a daphne. Elas vo fazer compras para o novo guarda-roupa da Ruby - sugeriu o meu pai.

- No posso, o Beau vem hoje ter comigo. - Gisselle sorriu para mim. - Quer dizer, podia telefonar e pedir-lhe para desmarcar, mas ele tem muita vontade de estar 
comigo e ,alm disso, quando eu estivesse finalmente pronta, tu e a me j teriam, com certeza, quase terminado as compras. Vem ter  piscina quando chegares - sugeriu.

- Est bem.

- No deixes que a me te compre aquelas horrveis saias compridas que vo quase at ao cho. Ultimamente, usam-se as saias mais curtas - aconselhou ela. Embora 
eu no conseguisse imaginar-me a sugerir a daphne o que devia ou no comprar, pois ficaria grata por qualquer pea, fiz um gesto afirmativo, mas Gisselle percebeu 
a minha hesitao.

- No te preocupes - afirmou ela. - Se no comprarem roupa da moda, eu empresto-te uma minha para poderes usar no primeiro dia da escola.

- Boa ideia - respondeu o meu pai. - Obrigado por estares a ser to compreensiva, querida.

- De nada, pap - respondeu ela, dando-lhe um beijo. Ele esfregou as mos de contentamento.

-Tenho duas filhas gmeas! - exclamou. - Ambas j crescidas e muito bonitas. Quantos homens haver com a minha sorte?

Desejei que ele estivesse certo. Entretanto, Gisselle pediu licena e subiu para se vestir, e eu e o meu pai fomos para a entrada esperar por daphne.

-Estou certo que tu e a Gisselle se vo entender muito bem - afirmou ele -, mas em qualquer relao h sempre algumas arestas por limar, principalmente numa relao 
entre duas irms que s agora se conhecem. Se surgir algum problema, gostava que viesses falar comigo e que no incomodasses a daphne com esse tipo de assunto - 
pediu. - Ela tem sido uma ptima me para a Gisselle, apesar da invulgaridade das circunstncias, e tenho a certeza de que se esforar por fazer o mesmo contigo. 
No entanto, gostava de ser eu a assumir a maior parte da responsabilidade e tenho a certeza de que tu me compreendes. Pareces-me muito madura, muito mais do que 
a Gisselle - acrescentou, sorrindo.

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"Que situao estranha!", pensei. A daphne queria que eu falasse com ela e o meu pai preferia que eu falasse com ele: esperava no ter de incomodar nenhum dos dois.

Ouvi os passos de Daphne a descer as escadas e olhei na sua direco. Escolhera uma saia preta com roda, uma blusa de veludo branca, sapatos pretos de salto raso 
e um colar de prolas autntico. Os olhos azuis brilhavam e o seu sorriso mostrava a brancura dos dentes. Era inegvel a elegncia com que se movia.

- H poucos programas que me dem mais prazer do que fazer compras - declarou, dando um beijo a meu pai.

- Nada me d mais satisfao do que ver-te a ti e  Gisselle felizes, daphne - respondeu ele. - e agora posso acrescentar: e  Ruby.

- Vai trabalhar, querido. Ganha dinheiro, que eu vou mostrar  tua nova filha como gast-lo - retorquiu.

- e no h melhor professora para essa matria - gracejou ele, abrindo-nos a porta para sairmos.

Ainda sentia que tudo o que estava a acontecer era bom de mais para ser verdade, e que depressa acordaria no meu pequeno quarto do bayou. Resolvi beliscar-me, e 
foi com satisfao que senti a suave picada que me assegurava a realidade do presente.
NO POSSO SER COMO TU

Pela forma apressada como a minha nova madrasta me levou s compras, sentia que tinha sido apanhada num redemoinho. Mal terminvamos as compras numa boutique, daphne 
arrastava-me para outra ou entrava num centro comercial. Sempre que achava que alguma pea me ficava bem ou era apropriada para qualquer ocasio, mandava imediatamente 
embrulh-la, por vezes, levando duas, trs ou quatro blusas, saias ou sapatos idnticos, apenas diferindo na cor. A mala e o banco traseiro do carro depressa se 
encheram; cada compra quase me retirava o flego, mas daphne nem por uma s vez pareceu importar-se com os preos.

Em todos os stios aonde fomos, daphne era j conhecida e respeitada. ramos tratadas como membros da nobreza e os vendedores interrompiam aquilo que estavam a fazer 
mal nos
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viam entrar na loja. A maioria partia do princpio que daphne vinha acompanhada por Gisselle, mas ela preferia no perder tempo com explicaes.

- O que estas pessoas sabem ou deixam de saber no tem a mnima importncia - afirmou daphne, quando um vendedor me chamou Gisselle. - Quando te chamarem Gisselle, 
por agora, no digas nada. A quem interessa, rapidamente diremos a verdade.

Apesar da pouca importncia que daphne dava aos vendedores, reparei no cuidado e no esmero com que estes lhe faziam sugestes e no quanto se preocupavam com a possibilidade 
de uma proposta no ser do seu agrado. Quando daphne se decidia por determinada cor ou estilo, todos eles concordavam imediatamente, cumprimentando-a em seguida, 
em coro, pela escolha.

Na verdade, daphne estava muito bem informada sobre as ltimas tendncias da moda, sabia o nome dos estilistas e quais as roupas que haviam sido anunciadas nas revistas 
de moda; sabia mais sobre vesturio do que os prprios vendedores ou at mesmo do que os donos das lojas. Ser elegante e estar sempre actualizada era, evidentemente, 
uma prioridade para a minha madrasta, que ficava mal impressionada se um vendedor lhe trazia peas com cores que no combinavam perfeitamente ou se uma manga ou 
uma bainha no estavam impecavelmente acabadas. Na maior parte do tempo que passvamos na deslocao de uma loja para outra, ou dentro do carro, daphne discursou 
sobre o tema da moda e da elegncia e sobre a importncia da aparncia; aconselhou-me tambm a ter sempre muito cuidado com as escolhas que iria fazer, para que 
todas as peas de roupa que eu usasse combinassem em perfeita harmonia.

- Cada vez que sares de casa para atender a algum compromisso social, estars a fazer uma declarao acerca de ti mesma - avisou -, e essa declarao reflectir-se- 
na tua famlia.

"Sei que, vivendo no bayou, ests habituada a roupas simples e prticas. Ser feminina no era importante; vi mulheres cajuns a trabalhar lado a lado com homens, 
que mal se distinguiam deles. Se no fosse pelo peito...

-No  bem assim, daphne - retorqui. - As mulheres do bayou sabem vestir muito bem quando vo a bailes e a festas. Podem no ter jias valiosas, mas, como todas 
as outras mulheres, adoram roupas bonitas, mesmo no tendo estas lojas caras para frequentar. Na verdade, nem precisam dessas lojas
- acrescentei, com o meu orgulho cajun a vir  tona. - A mi-

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nha grandmre Catherine fez muitos vestidos lindssimos, que...

-Tens de parar de fazer isso, Ruby, principalmente em frente da Gisselle - interrompeu ela. Senti uma tnue sensao de pnico invadir-me o peito.

-Parar de fazer o qu?

- Referir a tua grandmre Catherine como se fosse uma pessoa maravilhosa - explicou daphne.

- Mas era uma pessoa maravilhosa!

- No, segundo a verso que contmos  Gisselle e que vamos divulgar aos nossos amigos e  sociedade. O que todos vo saber  que essa senhora, Catherine, sabia 
que tinhas sido raptada e vendida  sua famlia. Os remorsos que sentiu antes de morrer foram prova de uma certa bondade, pois contou-te a verdade para poderes regressar 
 tua verdadeira famlia, mas seria prefervel que no demonstrasses o quanto a amavas declarou.

- No mostrar que amava a grandmre Catherine? Mas...
- Se o fizeres, vamos parecer uns verdadeiros idiotas, principalmente o teu pai - afirmou, sorrindo em seguida. Se no conseguires dizer nada de mal, opta por no 
dizer nada.

Encostei as costas ao banco, pensando que era um preo demasiado elevado, mesmo sabendo que a grandmre Catherine me aconselharia a pag-lo. Mordi o lbio para prevenir 
quaisquer outros protestos.

- Sabes, algumas mentiras no so pecados mortais continuou daphne. - No h quem no diga pequenas mentiras, Ruby. Decerto, tu prpria j as disseste.

"Pequenas mentiras"? Era esse o nome que daphne dava a essa histria e a todas as outras que da derivariam? "Pequenas mentiras"?

- Todos alimentamos as nossas iluses e as nossas fantasias - afirmou, lanando-me um olhar malicioso. - Principalmente os homens, podes contar com isso - acrescentou.

De que tipo de homens estaria daphne a falar?, pensei eu. Homens que esperavam que as suas mulheres mentissem e fantasiassem? Poderiam os homens da cidade ser assim 
to diferentes dos homens do bayou?

-  por isso que nos arranjamos e maquilhamos, para lhes agradar. Alis, isso faz-me lembrar que no tens nenhuns cosmticos para o teu toucador - afirmou, decidindo 
levar-me  prxima loja de cosmticos para comprar tudo aquilo que considerava apropriado para uma adolescente. Quando confessei que nunca antes havia usado maquilhagem, 
nem mesmo bton,
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daphne pediu a um vendedor uma demonstrao, revelando finalmente a algum que eu no era Gisselle. daphne abreviou, no entanto, a histria, relatando-a como se 
no fosse nada de extraordinrio. Apesar disso, tal revelao espalhou-se por toda a loja, e todos faziam comentrios a nosso respeito. Sentaram-me diante de um 
espelho e mostraram-me como utilizar o rouge, como misturar diferentes tons de bton para combinar com o meu tom de pele e como depilar as sobrancelhas.

- A Gisselle utiliza eyeliner s escondidas - afirmou daphne -, mas a mim no me parece necessrio.

Fomos, em seguida, para a seco de perfumaria e ,desta vez, daphne permitiu que a ltima escolha ficasse ao meu critrio. Optei por um perfume que me recordava 
o aroma da terra no bayou depois de uma chuva de Vero, embora no contasse a daphne qual a razo da minha escolha. Ela concordou e comprou-me tambm ps de talco, 
espumas de banho e champs perfumados, alm de escovas, pentes, ganchos, fitas, vernizes e limas. Depois escolheu uma requintada bolsa de pele vermelha para guardar 
todos os meus novos artigos de cosmtica.

daphne decidiu ento que devamos comprar em seguida um casaco de meia estao e de Vero, uma gabardina e alguns chapus. Desfilei com uma srie de modelos diferentes 
em duas lojas at ela optar finalmente por aquele que melhor me ficava. Entretanto, imaginava se ela por acaso submeteria Gisselle a todas aquelas provas sempre 
que viessem s compras. Contudo, quando reparou numa careta que eu fiz depois de ela recusar seis casacos de uma s vez, daphne fez questo de responder  minha 
interrogao ntima.

- Estou a tentar escolher peas semelhantes s roupas da tua irm, mas suficientemente distintas para estabelecer algumas diferenas entre vocs as duas.  claro 
que seria engraado se tivessem algumas toilettes parecidas, mas no creio que a Gisselle concordasse.

Ento a Gisselle tinha direito a escolher o seu guarda-roupa, conclu. Quanto tempo seria necessrio para eu adquirir igualmente esse direito?

Nunca imaginei que fazer compras, especialmente tantas compras s para mim, pudesse ser uma tarefa to cansativa; contudo, quando samos da ltima grande loja, onde 
daphne comprou imensas peas de roupa interior, muitas cuecas e alguns soutiens, foi com imensa satisfao que a ouvi comunicar que, por enquanto, tnhamos adquirido 
o suficiente.

-Nas prximas vezes em que vier fazer compras para Mim, eu mesma te escolho mais algumas roupas - prometeu.
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Olhei ento para a imensa pilha de sacos no banco traseiro do carro, que era de tal forma volumosa e compacta que quase tapava o vidro de trs. Nem conseguia imaginar 
quanto teria sido a soma total do custo de tudo aquilo, mas tinha a certeza de que seria um nmero capaz de impressionar a grandmre Catherine. daphne surpreendeu-me 
ento a abanar a cabea.

- Espero que estejas contente com as compras - afirmou. -Ah, sim - exclamei. - Sinto-me como... como uma princesa!

daphne arqueou as sobrancelhas e dedicou-me um pequeno sorriso.

- Bem, de facto, s a princesinha do teu pai, Ruby.  melhor habituares-te a ser estragada com mimos. Muitos homens, principalmente os crioulos ricos, julgam ser 
mais fcil e mais conveniente comprar o amor das mulheres que os rodeiam, e muitas mulheres crioulas, especialmente as mulheres como eu, facilitam-lhes essa tarefa 
- afirmou, presunosamente.

- Mas o amor no  verdadeiro se algum o comprar, ?
- perguntei.

- Claro que sim - respondeu ela. - O que  que julgas ser o amor? Ouvir campainhas a tocar, msica no vento e sentir o corao bater com as promessas poticas de 
um homem bonito e galante, promessas essas que ele nunca poder cumprir? Pensei que vocs, cajuns, tinham uma mentalidade mais prtica
- concluiu com o mesmo sorriso fechado. O meu rosto corou, tanto de vergonha como de revolta. Sempre que daphne tinha algo de negativo a dizer, eu era uma cajun, 
mas sempre que tinha algo de simptico para dizer, passava a ser uma crioula de sangue azul; a julgar pelas suas palavras, todos os cajuns eram uns perfeitos idiotas, 
especialmente as mulheres.

- Imagino que, at hoje, sempre tiveste namorados pobres. O presente mais caro que puderam comprar-te talvez tenha sido uns gramas de camaro. Mas os rapazes que 
irs conhecer daqui em diante tero automveis bons e roupas caras e ,de vez em quando, oferecer-te-o prendas que faro os teus olhos cajuns sair das rbitas! - 
afirmou, dando uma gargalhada. Repara nos anis que uso! - exclamou depois, erguendo a mo direita do volante.

Cada dedo tinha um anel e cada anel ostentava uma jia diferente: diamantes, esmeraldas, rubis e safiras, todos incrustados em ouro e platina. A mo de daphne mais 
parecia uma montra de uma joalharia.

-Calculo que o valor que tenho nesta mo seria o suficiente para comprar alimentos e habitaes para dez famlias do pntano!

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-Com certeza -- admiti. Gostaria de ter acrescentado "e muito injustamente", mas permaneci em silncio.

-O teu pai deseja oferecer-te umas pulseiras e uns anis, mas ele notou que tu no tens nenhum relgio. Com jias boas, roupa bonita e um pouco de pintura, pelo 
menos, vai parecer que foste toda a vida um membro da famlia Dumas. A minha prxima tarefa ser ensinar-te as mais simples regras da etiqueta, mostrar-te a forma 
mais correcta de estar  mesa e de conversar.

- O que estar errado na minha forma de comer e de falar? - pensei, em voz alta. O meu pai no me tinha parecido nem um pouco arreliado durante o pequeno-almoo 
e o almoo.

- Nada. Se continuasses a viver no bayou, no estaria nada errado. Mas agora vives em Nova Orlees e fazes parte da alta sociedade. Vais participar de vrias recepes 
e jantares de gala. Queres ser uma menina educada, elegante e atraente, no  assim? - indagou daphne.

No podia deixar de querer ser assim. daphne era to elegante e movia-se com tanta segurana... mas, no entanto, sempre que concordava com algo que ela dizia ou 
obedecia a alguma sugesto sua, sentia que estava a desprezar os cajuns, e a trat-los como gente menos importante e no to vlida.

Decidi fazer tudo quanto possvel para tornar feliz o meu pai e integrar-me no seu mundo, mas, se o pudesse evitar, no abrigaria quaisquer sentimentos de superioridade. 
Receava apenas que, em vez de Gisselle se tornar mais parecida comigo, conforme o meu pai desejava, eu comeasse a assemelhar-me mais com ela.

-Desejas ser realmente uma Dumas, no desejas? - continuou daphne.

- Sim - respondi, embora sem muita convico. A minha hesitao deu azo a que Daphne voltasse a encarar-me, com os olhos azuis a revelar bastantes suspeitas.

-Espero sinceramente que faas todos os esforos para responder aos chamados do teu sangue crioulo, a tua verdadeira herana, e que rapidamente te desligues e esqueas 
o mundo cajun em que injustamente foste educada. V bem - declarou, agora com uma certa leveza na voz -, foi apenas por acaso que a Gisselle teve oportunidade de 
ter uma vida melhor. Se tivesses sido a primeira a sair do ventre da tua me, seria a Gisselle a pobre menina cajun.

Semelhante ideia provocou-lhe o riso.

- Tenho que lhe dizer que poderia ter sido ela a ser raptada e forada a viver no pntano - acrescentou. - S para ver a expresso dela.

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Daphne continuava a rir. Como poderia eu explicar-lhe que, apesar das dificuldades que eu e a grandmre Catherine tnhamos sido obrigadas a suportar e apesar das 
crueldades do grandpre Jack, o meu mundo cajun tinha tambm os seus encantos?

Aparentemente, se algo no estava  venda em alguma loja, deixava de ser importante para Daphne, e ,apesar do que antes afirmara, o amor no se podia adquirir numa 
loja. Disso o meu corao estava certo, e essa certeza cajun Daphne nunca poderia abalar, mesmo estando em causa uma vida de riqueza e de elegncia.

Quando nos aproximmos de casa, Daphne chamou Edgar para levar todos os sacos para o meu quarto. Fiz meno de o ajudar, mas Daphne impediu-me de prosseguir mal 
expressei essa vontade.

-Ajud-lo? - repetiu, como se eu tivesse afirmado que desejava incendiar a casa. - No s tu quem tem de ajud-lo, ele  que tem de te ajudar a ti.  para isso que 
existem empregados, minha querida. Vou mandar a Wendy separar a roupa, pendurar no teu armrio o que deve ser pendurado e guardar o resto na cmoda e no toucador. 
Vai ter com a tua irm e aproveita o tempo livre para fazer aquilo que as raparigas da tua idade fazem nos dias em que no tm aulas.

Ter empregados que faziam por mim as tarefas mais simples era uma das coisas a que mais me custaria habituar, pensei. Ser que no me tornaria preguiosa? Mas nesta 
casa ningum tinha essa preocupao; alis, ser preguioso era algo que se esperava de todos ns, quase uma exigncia.

Lembrei-me que Gisselle afirmara que estaria na piscina, na
companhia de Beau Andreas. Na verdade, era a que ambos se encontravam, recostados em espreguiadeiras de metal almofadadas em cor bege, bebendo uma limonada rosa 
servida em copos altos. Mal me viu, Beau sentou-se e esboou um largo e simptico sorriso. Usava uma camiseta azul e branca e cales, enquanto Gisselle trazia um 
biquni azul-escuro, com uns culos de sol to grandes que quase poderiam servir de mscara.

Ol - exclamou Beau imediatamente. Gisselle ergueu a cabea, baixou os culos e espreitou por cima, como se fossem culos para ler.

A me ainda deixou alguma roupa nas lojas para quem vier a seguir poder comprar? - gracejou ela.

- Pouca - respondi. - Nunca tinha visto lojas to grandes, com tanta roupa e tantos sapatos! - Beau riu do meu entusiasmo.

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- Com certeza, foram ao Diana's, ao Rudolph Vite's e ao Moulin Rouge, no foi? - perguntou Gisselle.

Abanei a cabea.

- Para dizer a verdade, samos e entrmos em tantas lojas com tanta rapidez que no me lembro do nome de quase nenhuma - confessei, suspirando. Beau voltou a rir, 
mudando de posio: dobrou os joelhos e colocou os braos ao redor das pernas.

- Senta-te e descansa um pouco - sugeriu ele.

- Obrigada. - Sentei-me na cadeira ao lado da de Beau e pude sentir ento o cheiro adocicado da loo solar  base de coco com que ele e Gisselle haviam protegido 
a pele do rosto.

- A Gisselle contou-me a tua histria - disse ele.  simplesmente fantstica. Como eram esses cajuns com quem viveste? Transformaram-te numa espcie de escrava ou 
algo parecido?

- oh, no - exclamei, contendo logo depois o meu entusiasmo. - Mas claro que tinha tarefas dirias.

- oh, tarefas... - gemeu Gisselle.

- Ensinaram-me a fazer bordados e eu ajudava a fabricar os artigos que vendamos na tenda ao p da estrada onde passavam os turistas. Tambm ajudava na cozinha e 
na limpeza da casa -- expliquei.

- Sabes cozinhar? - perguntou Gisselle, espreitando novamente por cima dos culos.

- A Gisselle no sabe ferver gua sem a deixar queimar gracejou Beau.

-Pois, mas isso que importa? No fao tenes de cozinhar para ningum... nunca - declarou, retirando os culos e lanando a Beau um olhar furibundo, que apenas 
sorriu e se voltou novamente para mim.

- Ouvi dizer que s tambm uma artista - continuou ele
- e que tens quadros expostos numa galeria do Bairro Francs.
- Fiquei muito surpreendida quando o dono de uma galeria quis expor os meus quadros - contei eu. O sorriso de Beau aumentou, e o tom azul-acinzentado dos seus olhos 
tornou-se mais suave.

- At agora foi o meu pai o nico comprador, no foi? desafiou Gisselle.

- No, houve um quadro que foi vendido antes. Foi com o dinheiro dessa venda que eu comprei o bilhete de autocarro para viajar at aqui - respondi. Gisselle pareceu 
ficar desapontada e ,quando Beau a encarou, voltou a colocar os culos e recostou-se novamente na espreguiadeira.

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- Onde est o quadro que o vosso pai comprou? - indagou Beau. - Adorava v-lo.

- Est no escritrio.

- Ainda no cho - apressou-se Gisselle a afirmar. -O mais certo  ele deix-lo assim durante meses!

- Mesmo assim, gostava de o ver -- voltou Beau a afirmar.
- Ento vai at ao escritrio - respondeu Gisselle.

 apenas um pssaro.

-Uma gara - esclareci -, no pntano.

-J fui algumas vezes ao bayou para pescar.  um local muito bonito - afirmou Beau.

Bah! Pntanos... - gemeu Gisselle.

 muito bonito, principalmente na Primavera e no Outono. Aligatores, cobras e mosquitos, j para no falar da lama, que est em toda a parte. Muito bonito... - ironizou 
Gisselle,

- No lhe ligues; ela nem sequer gosta de passear no meu barco no lago Pontchartrain, porque a gua salpica e molha-lhe o cabelo. Tambm no gosta de ir  praia, 
porque no suporta a areia no fato de banho e no cabelo.

- e da? Por que razo tenho de aguentar tudo isso se posso nadar aqui nesta gua limpa e filtrada? - proclamou Gisselle.
- No gostas de sair e conhecer novos lugares?         perguntei ento.

- S se puder levar o toucador colado s costas        brincou Beau. Gisselle levantou-se to rapidamente como se tivesse sido agredida.

- Ai sim, Beau Andreas, subitamente transformaste-te num grande naturalista, num pescador, num marinheiro, num amante da Natureza! Tu detestas tudo isso quase tanto 
como eu, ests s a fingir o contrrio para impressionar a minha irm acusou, fazendo Beau corar.

- Mas gosto de pescar e de andar de barco - protestou ele.

-  e quantas vezes o fazes? Duas vezes por ano, no mximo?
- Depende - respondeu ele.

- De qu? Da tua agenda social ou da marcao no salo de cabeleireiro? - interrogou Gisselle, agressiva. Eu estava a olhar alternadamente para um e para o outro. 
Os olhos de Gisselle brilhavam com tanta irritao que era difcil acreditar que gostava de o ter como namorado.

- Sabes, foi uma mulher que lhe cortou o cabelo em casa continuou Gisselle. A vermelhido das faces de Beau estendeu-se at ao pescoo. -  a esteticista da me 
e tambm trata das mos dele de duas em duas semanas!

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- A minha me gosta da forma como ela a penteia - afirmou Beau. - Eu...

-Tens o cabelo muito bonito - afirmei. - No  muito invulgar ser uma mulher a cortar o cabelo a um homem. De vez em quando, eu costumava cortar o cabelo ao meu 
grandpre, quer dizer, ao homem que eu chamava grandpre.

-Tambm sabes cortar o cabelo? - indagou Beau, com os olhos muito abertos de espanto.

- e naturalmente tambm sabes pescar e caar, no? - inquiriu Gisselle, sem disfarar o sarcasmo.

- J pesquei e ajudei a apanhar ostras, mas nunca cacei. ,No gosto de ver matar aves, nem veados. Detesto at ver matar os aligatores - declarei.

- Apanhaste ostras? - repetiu Gisselle, abanando a cabea. - Apresento-te a minha irm, a dama pescadora - acrescentou.

- Quando  que tomaste conhecimento do que te tinha sucedido quando criana? - perguntou Beau.

- Antes de a minha grandmre Catherine morrer - respondi.

- Referes-te  mulher que julgavas ser a tua av - recordou Gisselle.

- Sim.  difcil lembrar-me disso, depois de tantos anos expliquei, dirigindo-me mais a Beau, que ouvia com ateno. -Tinhas pai e me?

- Disseram-me que a minha me morreu quando nasci e que o meu pai fugiu,

- Portanto viveste com esses avs?

- S com a minha av. O meu av  caador e vive sozinho no pntano.

- Ento, antes de morrer, a tua av contou-te a verdade?
- perguntou Beau. Fiz um sinal afirmativo.

- Que horror, manterem um segredo durante tantos anos!
- exclamou Gisselle, fitando-me  espera de uma reaco da minha parte.

- Sim.

- Que sorte a tua av falsa ter resolvido contar a verdade. De outra forma nunca virias a conhecer a tua famlia verdadeira. Foi um gesto simptico da sua parte 
- declarou Beau, enfurecendo Gisselle.

- Essa gente com quem ela viveu no so melhores do que animais! Roubaram um beb e - com eles! A Claudine Montaigne contou-me tudo acerca desses cajuns: uma famlia 
vive toda numa casa s com uma diviso, dormem

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todos juntos. Para eles, o incesto no  mais grave do que roubar uma ma!

-Isso no  verdade - retorqui logo.

-A Claudine no ia mentir - insistiu Gisselle.

-No bayou, h pessoas ms, tal como as h em toda a parte - expliquei. - Ela pode ter ouvido falar dessas pessoas, mas no devia julgar todas as outras pelos actos 
de algumas. Nunca nada desse gnero me aconteceu.

-Tiveste sorte - insistiu Gisselle... -No, na verdade...

- Compraram um beb que tinha sido raptado, no foi? continuou. - Isso no  um acto criminoso?

Olhei ento para Beau, cujos olhos estavam fixos em mim, atentos  minha resposta. O que poderia eu dizer? Tinha de reprimir todos os pensamentos; a verdade era 
proibida, havia que preservar a mentira.

- Sim - murmurei, pousando os olhos nos meus dedos entrelaados. Gisselle recostou-se, satisfeita, e houve um momento de silncio que Beau depois quebrou.

- Sabes, na prxima segunda-feira, vocs as duas vo ser o centro das atenes na escola - disse ento.

- Bem sei. e no posso deixar de estar um pouco nervosa
- confessei.

-No te preocupes; venho-vos buscar de manh e acompanho-vos durante todo o dia - prometeu Beau. - Nas primeiras horas, vais ser o centro de todos os olhares, mas 
depois tudo se aquietar.

- Duvido - afirmou Gisselle. - Principalmente, quando toda a gente souber que ela viveu como uma cajun durante toda a vida, e que cozinhou, pescou e fez bordados 
para vender  beira da estrada!

-No lhe ligues.

- Sempre que eu no estiver presente para a proteger, vo fazer troa dela - insistiu Gisselle.

- Se no estiveres presente, estarei eu - declarou Beau. -No quero ser um peso para ningum - contrapus.
- No vais ser - assegurou Beau. No  verdade, Gisselle? - perguntou; ela relutava em responder. - No ?

- Sim, sim - respondeu por fim. - Estou cansada deste assunto.

- Tenho de me ir embora - comunicou ele. - J  tarde. Ainda queres manter o encontro de logo  noite? - perguntou Beau. Gisselle hesitou. - Gisselle?

- Vais trazer o Martin? - indagou ela, agressivamente. Beau lanou um olhar na minha direco e depois voltou a fit-la.
226
-Achas que devo?  que...

- Acho. Gostavas de conhecer um dos amigos do Beau esta noite, no gostavas, Ruby? Quer dizer, tu pescavas, apanhavas ostras, perseguias aligatores... com certeza 
tambm tinhas um namorado, no tinhas?

Olhei para Beau, cuja expresso ficara subitamente perturbada e aflita.

- Sim - respondi.

- Ento, no h problema, Beau. Ela gostava de conhecer o Martin - afirmou Gisselle.

-Quem  o Martin? - quis saber.

- O mais bonito dos amigos do Beau. A maioria das raparigas gosta dele, tenho a certeza de que tambm vais gostar respondeu ela. - No achas, Beau?

Ele limitou-se a encolher os ombros, levantando-se.

- Vais gostar, sim - insistiu Gisselle. - Encontramo-nos aqui fora s nove e meia - combinou ela. - No se atrasem.
- Sim, patroa. Conheceste algum assim to ditador no
bayou? - perguntou-me Beau. Olhei para Gisselle, que sorriu, desconcertada.

- S um aligtor - respondi, provocando uma gargalhada de Beau.

- No tem graa! - gritou Gisselle.

- Ser um aligator! - brincou Beau, piscando-me os olhos antes de se afastar.

- Desculpa - pedi depois a Gisselle. - No tive inteno de fazer troa de ti. - Ela amuou uns segundos, mas depois esboou um largo sorriso.

- No deves encoraj-lo - preveniu Gisselle. - O Beau s vezes  demasiado brincalho.

- Parece ser um rapaz muito simptico.

- Apenas mais um menino rico e mimado - insistiu Gisselle. - Mas serve... por agora.

-O que queres dizer com "por agora"?

- O que  que te parece? No me digas que prometeste casar com todos os namorados que tiveste no pntano! -- Semicerrou os olhos, desconfiada. - Quantos namorados 
tiveste?
- quis saber depois.

-No muitos.

- Quantos! - insistiu. - J que vamos ser irms, temos de confiar uma  outra os pormenores mais ntimos das nossas vidas. A no ser que no queiras que sejamos 
esse gnero de irms - acrescentou.

-No,  claro que quero.

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- Ento? Quantos foram? -S um - confessei.

-Um? - Ela olhou para mim durante alguns instantes.
- Bem, ento deve ter sido um romance muito srio e escaldante, no?

- Gostvamos muito um do outro - admiti. -At que ponto? - persistiu ela.

- Penso que at nos deixarem.

- Ento dormiste com ele? Foste at ao fim?
- Como?...

- Sabes bem o que quero dizer... Se tiveste relaes sexuais.

- oh, no - respondi. - Nunca chegmos a esse ponto. Gisselle tombou a cabea e aparentou um ar cptico.

- Pensei que todas as raparigas cajuns perdiam a virgindade antes dos treze anos - afirmou.

- O qu? Quem te contou essa estupidez? - inquiri depressa. Ela endireitou os ombros, como se lhe tivesse dado uma estalada.

- No  uma estupidez. Vrias pessoas me contaram isso.
- Bem, ento todas mentiram - respondi com veemncia.  verdade que existem muitas raparigas que se casam muito

novas. As raparigas no costumam ir trabalhar nem frequentam a universidade, mas...

- Ento sempre  verdade. De qualquer forma, no continues a defend-los, afinal, compraram-te quando tinhas poucos dias de idade, no foi? - disparou Gisselle.

Eu desviei o olhar para que ela no visse as lgrimas que me inundavam os olhos. Que irnico! Era ela quem tinha sido comprada por uma famlia crioula rica, no 
por uma cajun. Mas eu no podia contar nada; tinha de engolir a verdade e mant-la oculta, embora esta ameaasse vir a descoberto e afluir-me  boca sempre que a 
revolta provocava uma torrente de palavras.

- Seja como for - continuou Gisselle, agora num tom mais calmo -, os rapazes vo esperar que sejas muito mais sofisticada do que aparentemente s.

Fitei-a, receosa.

-O que queres dizer?

- O que chegaste a fazer com esse namorado de que tanto gostavas! Ao menos, beijaste e trocaste carcias? - respondi que sim, meneando a cabea. - Tiraste a roupa, 
pelo menos, parcialmente! - Abanei a cabea e ela fez uma careta. - J alguma vez deste um beijo na boca... daquela forma - e acres-
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centou rapidamente -, a tocar as lnguas? - No conseguia lembrar-me se isso alguma vez tinha sucedido, e a minha hesitao foi o suficiente para convencer Gisselle 
que no. - Alguma vez o deixaste dar beijos a chupar a tua pele?

- No.

- Fizeste bem, tambm odeio isso. Eles beijam at ficarem satisfeitos e depois ns  que ficamos com aquelas marcas feias no pescoo e no peito.

-No peito?

- No te preocupes - respondeu, levantando-se. - Vou ensinar-te o que deves fazer. Por agora, se o Martin ou algum mais fizer demasiadas exigncias, diz-lhe que 
ests com o perodo, percebes? Nada os acalma melhor.

"Anda - disse depois -, vamos ver a roupa que a me te comprou. Quero ajudar-te a escolher uma para usares logo  noite.

Segui-a at casa, caminhando pelo ptio com muito menos segurana, sentindo o corao bater tmida e aceleradamente. Eu e Gisselle, fisicamente, ramos de tal forma 
idnticas que olhvamos uma para a outra e pensvamos estar diante de um espelho, mas, interiormente, ramos to diferentes como um co e um gato. Fiquei a imaginar 
que tipo de afinidade descobriramos (se  que existia alguma) para nos unir, de forma a sermos as irms de que de facto deveramos ser.

Gisselle ficou muito surpreendida pela maioria das peas que daphne me tinha comprado. Depois, permaneceu uns instantes pensativa, e a surpresa depressa passou a 
um ataque de cime e de irritao.

- Para a me me comprar saias assim to curtas, tenho de protestar e amuar e ela sempre achou estas cores muito fortes. Adoro esta blusa. No  justo - queixou-se. 
--- Agora, tambm vou querer comprar outras roupas.

- A daphne explicou-me que escolheu roupa diferente da tua. Achou que no irias gostar, se, alm de sermos iguais, tivssemos roupas iguais -- afirmei.

Ainda amuada, Gisselle pegou numa das minhas blusas e ensaiou como lhe ficaria diante do espelho. Depois largou-a em cima da cama e abriu as gavetas para inspeccionar 
a minha roupa interior.

- Quando comprei um par de cuecas igual a estas, a me achou-as demasiado provocantes - afirmou, pegando nas reduzidas peas de seda clara.

- Nunca usei nenhumas assim - confessei.

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-Bem, ento levo-as emprestadas, mais esta saia e esta blusa para usar logo  noite - informou, num tom determinado.

-No me importo - respondi -, mas...

-Mas o qu? As irms partilham aquilo que tm, no  assim?

Tive vontade de recordar a Gisselle a promessa que ela proferira na manh em que regressara do baile de Carnaval: que nunca me emprestaria o seu lindo vestido vermelho, 
mas depois apercebi-me de que isso fora antes da conversa que o meu pai tivera com ela. De facto, a explicao que ele lhe deu ocasionou uma mudana na atitude de 
Gisselle em relao a mim. Seguidamente, recordei-me de algo que daphne afirmara.

-A Daphne no concorda que as raparigas partilhem as suas roupas, mesmo que sejam irms. Foi ela que o disse expliquei.

- Deixa estar, com a me preocupo-me eu. H muitas coisas que ela diz, mas que depois faz exactamente o contrrio respondeu Gisselle, enquanto inspeccionava as outras 
blusas a fim de decidir se deveria levar mais alguma emprestada.

e assim, no primeiro jantar que iramos ter como famlia eu e Gisselle usmos o mesmo estilo de saia e blusa. Ela foi da opinio que seria engraado se apanhssemos 
os nossos cabelos e nos arranjssemos ambas no meu quarto, sentadas diante do toucador.

-Toma - disse ela, retirando um anel de ouro do dedo mindinho e entregando-me. - Usa-o esta noite. Eu prefiro no usar jias, j que tu tambm no tens nenhuma.

-Porqu? - indaguei, vendo um brilho malicioso nos olhos da minha irm.

- O pap quer que te sentes  sua esquerda e eu calculo, que vou ficar, como sempre,  sua direita.

- e ento?

- Eu sento-me  esquerda e tu  direita. Vamos ver se ele nos distingue.

- Ah, vais ver que sim. Mal me viu, soube logo que no eras tu - contei-lhe.

Gisselle ficou sem saber se deveria aceitar esse comentrio como um elogio ou como uma ofensa. Notava-se na sua expresso a hesitao que sentia, e depois finalmente 
notou-se que havia decidido.

- Veremos - afirmou. - Disse ao Beau que havia diferenas entre ns, diferenas que talvez apenas eu mesma possa distinguir. J sei! - continuou, baloiando a cadeira. 
- Vamos
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pregar uma partida ao Beau esta noite: eu fao de conta que sou a Ruby e tu finges que s a Gisselle.

-No, no posso fazer isso - respondi, sentindo o corao agitado apenas pela possibilidade de ser, por alguns minutos, a namorada de Beau.

-Claro que podes. Ele no te confundiu comigo da primeira vez que te viu?

-Mas isso foi diferente, ele ainda no sabia da minha existncia - expliquei.

-Vou dizer-te exactamente o que deves dizer e fazer continuou, ignorando a minha opinio. - Ah, isto vai ser muito divertido, para variar! e vai comear logo ao 
jantar - decidiu.

Todavia, tal como eu previra, o nosso pai soube instantaneamente que tnhamos trocado de lugares  mesa. Quanto a Daphne, mal nos viu usando as minhas roupas novas, 
arqueou as sobrancelhas e ficou hesitante por alguns minutos. Mas o meu pai lanou para trs a cabea e rompeu em gargalhadas.

- Onde  que est a graa, Pierre? - inquiriu Daphne, que se vestira com toda a formalidade para o jantar, escolhendo um vestido preto, brincos em forma de lgrimas 
e um colar e uma pulseira de diamantes a condizer. O vestido tinha um decote em V, suficientemente cavado para mostrar o incio do peito. Estava muito bonita e elegante.

- As tuas filhas vestiram-se da mesma forma e planearam uma conspirao para me testar na nossa primeira refeio juntos - afirmou ele. - Esta  a Ruby com o anel 
da Gisselle e esta  ,a Gisselle sentada no lugar da Ruby.

Daphne olhou para mim, para Gisselle e depois novamente para mim.

- Isso  ridculo - comentou depois. - Julgavam que ns no iramos perceber a diferena? Ocupem, por favor, os vossos lugares - ordenou.

Gisselle riu e levantou-se. Os olhos do pai brilharam de contentamento quando olhou para mim, mas logo depois ficou mais srio, ao ver que Daphne, do outro lado 
da mesa, no mostrava estar muito divertida.

- Espero que este seja o princpio do fim desse tipo de tolices - declarou Daphne, dirigindo-se a Gisselle. - Estou a tentar ensinar  tua irm a forma correcta 
de se comportar durante as refeies e na companhia de outras pessoas. No ir ser fcil, mas ser ainda menos se deres um mau exemplo, Gisselle.

- Desculpa - pediu ela, olhando para baixo durante algUns instantes, mas endireitando logo depois a cabea. - Por-
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que  que lhe compraste saias to curtas e outras roupas que eu te pedi tanto no ms passado?

- Foram ao gosto dela - respondeu Daphne.

Virei rapidamente a cabea. Ao meu gosto? Se nem sequer tivera oportunidade de dar uma opinio, por que motivo teria Daphne dito aquilo?

- Assim, tambm quero umas roupas novas - exigiu Gisselle.

- Podemos comprar algumas peas, mas no vejo motivo para desperdiar um guarda-roupa inteiro.

Gisselle encostou as costas  cadeira e fitou-me com um sorriso de satisfao.

Entretanto, comearam a servir o jantar. Utilizmos um servio de porcelana com motivos florais, o qual Daphne declarou ser do sculo dezanove. A forma pomposa como 
se referia a todos os utenslios da mesa, at mesmo s peas que serviam para prender os guardanapos, fazia com que tudo parecesse ser to raro e precioso que os 
meus dedos tremiam todas as vezes que segurava os talheres. Ao ver dois garfos, hesitei um pouco, mas Daphne fez questo de explicar como eu deveria utilizar o faqueiro 
de prata, qual a forma mais correcta de segurar os talheres e como deveria sentar-me.

No percebi se a ementa tinha sido escolhida especialmente para celebrar a nossa primeira refeio juntos, mas, de qualquer forma, pareceu-me maravilhosa.

Comeou com uma entrada de miolo de caranguejo servida em conchas de vieira; depois serviram um grelhado de galinha com cebola guisada e molho de alho com feijo-verde 
crioulo. Como sobremesa, foi servido sorvete de baunilha regado com molho quente de usque.

Reparei que, depois de servir cada prato, Edgar ficava posicionado atrs de Daphne, aguardando que ela provasse e fizesse um gesto de aprovao, apesar de ser difcil 
imaginar um motivo para algum no ficar satisfeito com tudo o que estava na mesa. O meu pai pediu-me que descrevesse a comida do bayou, e referi ento os gumbos 
e asjambalayas, bem como os bolos e pastis caseiros.

-J percebi que no te deixavam passar fome - comentou Gisselle; no consegui deixar de descrever com entusiasmo as refeies que a grandmre Catherine costumava 
cozinhar.

- O gumbo pouco mais  do que um guisado -- afirmou Daphne. - Um prato bastante simples e modesto, que no requer muita imaginao. Entendes bem porqu, no entendes, 
Ruby? - perguntou-me ela com firmeza. Fitei o meu pai, que aguardava a minha resposta.

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-- A Nina Jackson  uma cozinheira fantstica. Nunca comi nada parecido -- admiti. As minhas palavras agradaram a daphne, e assim mais uma pequena crise passou. 
Como me era difcil menosprezar e criticar a minha vida anterior com a grandmre! Contudo, ia comeando a compreender que esse era o preo que tinha de pagar pela 
vida que agora levava.

A conversa  mesa progrediu da minha descrio dos pratos do bayou para as perguntas que daphne colocou a Gisselle acerca do baile de Carnaval. Esta ltima descreveu 
os fatos e a msica, referindo todas as pessoas que ambas conheciam. Tanto ela quanto daphne parecia partilharem opinies comuns acerca de algumas famlias e dos 
seus filhos e filhas. Cansado daquele tema, o meu pai comeou a falar do meu trabalho de pintura.

- J estive a informar-me acerca de um professor. Madame Henreid, da Galheer House, recomendou-me um instrutor que d aulas em Tulane, mas que aceita alunos particulares. 
J falei com ele, que aceitou vir conhecer a Ruby e dar uma opinio acerca da sua pintura.

- Por que razo  que eu nunca cheguei a ter aulas de canto!
- perguntou logo Gisselle.

-Nunca mostraste muito interesse, Gisselle. Todas as vezes que te pedia para ires a uma aula, tinhas sempre uma desculpa para faltar - explicou ele.

- Ento, a professora deveria ter vindo aqui a casa - insistiu Gisselle.

-Podia ter vindo - concordou ele, fitando daphne.

- Claro que podia ter vindo. Queres que o teu pai lhe pea para vir? -- perguntou daphne.

- No - respondeu Gisselle. - Agora  j demasiado tarde.

-Porqu? - inquiriu o meu pai. -Porque sim - afirmou ela, amuada.

Quando o jantar terminou, o meu pai resolveu mostrar-me a diviso que ele planeava transformar em estdio de arte. Piscou o olho a daphne, sempre com um sorriso 
nos lbios, enquanto Gisselle, relutantemente, nos seguia at s traseiras da casa; ento, ele abriu uma determinada porta e fez aparecer um completo atelier de 
pintura, com cavaletes, tintas, pincis, argilas, e tudo o mais que eu pudesse sonhar ou desejar. Durante alguns instantes, fiquei completamente sem fala.

- Mandei preparar tudo isto quando foste s compras com a daphne - revelou ele. - Gostas?

- Se gosto?... Adoro! - Dei umas voltas pela sala, inspeccionando tudo. Havia at uma pilha de livros de arte, comeando
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pelos teMas mais bsicos at aos mais elaborados e complicados. -  tudo... maravilhoso!

- Achei que, com um talento como o teu, no deveramos perder tempo. Qual  a tua opinio, Gisselle? - Voltei-me e vi-a  porta, esboando um sorriso forado.

-Odeio as aulas de pintura da escola - comentou, lanando-me em seguida um olhar de cumplicidade e acrescentando: - Vou para o meu quarto. Vem l ter assim que possas, 
temos alguns preparativos a fazer para mais logo.

-Para logo? - indagou o meu pai.

- So assuntos de raparigas, pap - respondeu Gisselle, saindo. Ele encolheu os ombros e aproximou-se de mim e das prateleiras com artigos de pintura.

- Pedi ao Emile da loja de pintura para me vender tudo o que fosse necessrio para um atelier completo - contou ele.
- Ficaste satisfeita?

- oh!, muito! Esto aqui artigos, materiais e instrumentos que nem conhecia, e que nunca usei.

-  por isso que precisamos do tal professor o mais depressa possvel. Penso que, quando vir este estdio, vai sentir vontade de te aceitar como um dos seus alunos. 
O que no significa que no fique encorajado a aceitar-te apenas por analisar a tua pintura! - afirmou, lanando-me um enorme sorriso.

- Obrigada... paizinho - agradeci ento, fazendo o sorriso dele aumentar.

- Gosto de ouvir esse tratamento - respondeu. - Espero que tenhas sentido que foste bem-vinda.

- Senti, sim. Fiquei maravilhada! -e feliz?

- Muito feliz - admiti, ficando em bicos de ps para conseguir dar-lhe um beijo na cara. Os olhos dele brilharam ainda mais.

-Bem... - exclamou. - Bem... - repetiu, j com os olhos humedecidos. - Vou ver o que a daphne estar a fazer. Goza o teu atelier e pinta aqui muitos quadros maravilhosos!
- acrescentou, afastando-se em seguida.

Fiquei ali parada admirando o que me rodeava. A sala tinha uma vista agradvel da fila de carvalhos e do enorme jardim. Ficava virada para oeste, o que significava 
que dali poderia pintar o Sol ao declinar, na fase final da sua viagem. Para mim, o crepsculo tinha sido sempre um momento mgico no bayou, e tinha muita esperana 
de que aqui tambm fosse, porque acreditava que o que trazia no corao e na alma estariam sempre comigo, vivesse onde vivesse e fosse qual fosse a paisagem
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que avistasse da janela. A minha pintura estava dentro de mim, aguardando apenas ser exprimida.

Depois daquilo que me pareceu a mim um curto espao de tempo, deixei o atelier e fui depressa para o quarto de Gisselle, onde bati  porta.

- J no era sem tempo! - exclamou ela, puxando-me para dentro e fechando a porta. - No temos muito tempo para planear, eles chegam daqui a vinte minutos.

- No creio que consiga fazer isso, Gisselle - gemi. -Claro que consegues - afirmou ela. - Vamos estar sentadas  mesa da piscina quando eles chegarem. Vai haver 
copos de Coca-Cola com gelo para todos. Mal eles cheguem, tu apresentas-me ao Martin. Diz apenas: "Apresento-te a minha irm, a Ruby." Depois, retiras isto debaixo 
da mesa e despejas nos copos - explicou, mostrando-me uma garrafa de rum que retirou de um cesto de palha. - V se deitas pelo menos isto em cada copo - acrescentou, 
medindo com o polegar e o indicador uma medida de trs ou quatro dedos. - Se o Beau te vir fazer isso, vai ficar convencido que sou eu - afirmou.

-e depois?

- Depois... o que tiver de acontecer, acontece. O que se passa? - Deu um salto para trs. - No queres fazer de conta que, s... eu?

-No  que no queira - respondi. -Ento? O que ?

- Acho apenas que no consigo ser como tu - justifiquei. -Porque no? - inquiriu ela, com os olhos srios e as plpebras franzidas de fria.

- No sei o suficiente - respondi, o que lhe agradou, pela forma como relaxou os ombros.

- Limita-te a no falar de mais. Bebe e ,quando o Beau disser alguma coisa, concorda e sorri. Eu sei que consigo fazer de conta que sou a Ruby - acrescentou. e depois, 
num tom de voz que pretendia que fosse uma imitao, afirmou: - No consigo acreditar que estou aqui; a comida  muuuito boa, a casa  muuuito grande e eu durmo 
numa cama sem mosquitos e sem lama.

Ela riu ento. Seria eu realmente assim aos seus olhos?
- Deixa de ser to sria - pediu, ao ver que no me ria da sua imitao. Guardou a garrafa de novo no cesto de palha.
- Vem - disse ela, pegando no cesto e dando-me a mo. Vamos gozar com esses meninos crioulos convencidos at eles implorarem por misericrdia.

Fui seguindo a minha irm pelas escadas como um papa-
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gaio preso no fio, sentindo o corao bater e a mente num redemoinho. Nunca vivera um dia to repleto de acontecimentos emocionantes, nem podia ainda imaginar o 
que essa noite me traria.
EST ALGUEM A CHORAR

Sentamo-nos ali - anunciou Gisselle, apontando para as cadeiras da ponta extrema da piscina, perto do chal. Era suficientemente longe para nos manter a todos fora 
do alcance das luzes exteriores, envolvidos numa suave penumbra. A noite estava quente, tanto quanto poderia ser uma noite do bayou, mas sem a brisa fresca que costumava 
atravessar os canais do golfo. O cu, contudo, estava muito nublado, anunciando chuva.

Gisselle pousou o cesto com a garrafa de rum em cima da mesa, e eu a garrafa de Coca-Cola, o balde de gelo e os copos. A fim de nos dar mais nimo para levar a cabo 
a sua farsa, Gisselle lembrou-se de misturar rum nos nossos copos de Coca-Cola antes de os rapazes chegarem, mas antes, tentei avis-la dos efeitos do lcool; afinal, 
sabia por dolorosa experincia prpria como podiam ser perigosos.

- O homem a quem eu chamava grandpre bebia muito contei-lhe -, e o lcool afectou-lhe o crebro.

Descrevi-lhe aquela vez em que decidira ir visit-lo ao pntano de canoa e como o vira perder o juizo no alpendre. Como gritara e esbracejara pela casa, partindo 
a loia e arrancando as tbuas do soalho e como depois finalmente adormecera sobre a lama e a imundcie, inconsciente.

- Custa-me muito a acreditar que fiquemos dessa forma retorquiu Gisselle. - Alm disso, no ests a pensar que esta  a primeira vez que bebo do licor da casa, ou 
ests? Todos os meus amigos bebem e nunca ningum ficou to mal quanto esse velho de que falas - insistiu.

Ainda pensei em tirar-lhe o copo com o rum e Coca-Cola, mas Gisselle colocou a mo na anca e franziu as sobrancelhas. -No me digas que vais ser uma velhinha resmungona

agora, e que no vais divertir-te, sabendo que eu convidei os rapazes de propsito para te arranjar um namorado.

-Eu no disse que no ia provar, mas...

- Bebe a tua bebida e descontrai-te - insistiu ela. - Toma! -- acrescentou, entregando-me o copo.

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Com alguma relutncia, aceitei e provei a bebida, vendo-a tomar longos goles da sua. Mas no consegui deixar de fazer uma careta, pois, para mim, era como se tivesse 
bebido um dos remdios com as ervas da grandmre.

Gisselle lanou-me um olhar duro e penetrante e abanou depois a cabea.

- J percebi que, no bayou, no te divertias nada. Devia ser s trabalho e nada de diverso - comentou, rindo. - Pareces vir, realmente, de outro pas - continuou, 
lanando dramaticamente a cabea para trs. - Acho que vou ter de obedecer  me e ensinar-te a falar e a andar. - Voltou a beber mais um gole da bebida, levando-me 
a pensar que nem a grandmre conseguia beber daquela forma veloz. Seria Gisselle to sofisticada quanto gostava de fazer crer?

- Ol, boa noite - ouvimos em seguida Beau cumprimentar. Voltmo-nos para trs e as duas silhuetas davam a volta a casa; o meu corao comeou a bater mais fortemente, 
na expectativa dos minutos seguintes.

-Faz apenas aquilo que te disse para fazeres e diz s o que te ensinei - sussurrou Gisselle.

No vai dar bom resultado - insisti, num murmrio.  bom que d - ameaou ela.

Os dois rapazes vieram ento pela borda da piscina e foram-se aproximando de ns. Martin era um bonito rapaz, mais alto alguns centmetros do que Beau, com o cabelo 
preto retinto. Era tambm mais magro do que Beau, tinha as pernas mais compridas e ,ao caminhar, baloiava mais. Vinham ambos vestidos com calas de ganga e camisas 
de algodo branco com os colarinhos desapertados. Quando a tnue luz de um candeeiro os iluminou, reparei que Martin usava um relgio de ouro no pulso esquerdo e 
uma pulseira com o nome no direito. Tinha os olhos escuros e quando sorria retorcia um dos cantos da boca, como se olhasse de soslaio.

Gisselle deu-me uma cotovelada e aclarou a garganta para me incitar a comear.

-Ol - disse ento, com a voz quase a fraquejar. Mas senti depois a respirao quente e alterada de Gisselle no meu Pescoo, e consegui conter-me. - Martin, gostava 
de te apresentar a minha irm, Ruby - recitei.

No conseguia entender como algum podia confundir-me Com a Gisselle, mas Martin olhou alternadamente para ns duas Com uma expresso de espanto e no de incredulidade.

-Bolas, vocs as duas so mesmo iguais! Nem sequer se distinguem.

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Gisselle soltou um riso idiota.

- Obrigada, Martin - respondeu, imitando um tolo sotaque. - Isso foi um verdadeiro elogio.

Olhei para Beau e vi que sorria com desagrado. Certamente, apercebia-se do que estvamos a fazer, pensei, mas, no entanto, ele continuou sem dizer nada.

- O Beau contou-me o que te aconteceu - disse Martin a Gisselle, julgando estar a falar comigo. - J estive no bayou, mesmo em houma. Podia ter-te encontrado.

- Teria sido muito bom - respondeu Gisselle, fazendo o sorriso dele aumentar. - No pntano, no temos muitos rapazes com a tua boa aparncia.

Martin riu ainda mais, feliz e satisfeito.

- Que maravilha! - exclamou depois, olhando novamente para ns duas. - Sempre pensei que o Beau era um felizardo por ter uma namorada to bonita quanto a Gisselle 
e ,agora, eis que surge uma segunda Gisselle!

- oh!, mas no sou to bonita como a minha irm - respondeu Gisselle, batendo as plpebras e encolhendo os ombros. A irritao que senti, alimentada pelo rum que 
me aquecia

o sangue, fez o meu corao bater acelerado. Uma fria terrvel percorreu o meu ser, vendo Gisselle fazer pouco de mim. Incapaz de me conter, retorqui:

- Claro que s to bonita quanto eu, Ruby. Talvez sejas ainda mais bonita - retorqui.

Beau soltou uma gargalhada e eu lancei-lhe um olhar furibundo; confuso, franziu as sobrancelhas e depois aquietou-se, pousando os olhos nos copos que ambas tnhamos 
nas mos.

- Parece que as meninas no esperaram por ns para comear a divertir-se - comentou ele, dirigndo-se a Martin e indicando com a cabea o cesto de palha, o balde 
de gelo e a garrafa de Coca-Cola.

- Ah, referes-te a esta bebida - exclamou Gisselle, erguendo o copo. - Mas isto no  nada, comparado com o que ns costumamos fazer no bayou.

- Ah, sim? - afirmou Martin, bastante interessado. e o que  que costumam fazer?

- Prefiro no dizer nem fazer nada que possa comprometer os meninos da cidade - gracejou ela. Martin sorriu para Beau, cujo olhar danava de to divertido.

- No posso imaginar nada que me d maior prazer do que ser corrompido pela irm gmea da Gisselle - respondeu Martin. Gisselle riu e estendeu o brao, para que 
Martin pudesse beber do seu copo. Este sentou-se imediatamente e assim fez.
238

Voltei-me ento para Beau e os nossos olhos encontraram-se, mas ele no disse nada para impedir aquela charada.

-Vou preparar o meu copo. No te importas, pois no, Gisselle? - perguntou-me Beau.

Antes que pudesse revelar a minha verdadeira identidade, Gisselle lanou-me um olhar glido.

-  Claro que no, Beau - respondi, encostando as costas  almofada da cadeira. Por quanto mais tempo quereria ela manter a brincadeira? Martin voltou-se ento para 
mim.

- Os teus pais vo mandar a Polcia ao bayou para prender aquela gente? - indagou ele.

-No - esclareci -, esto todos mortos e enterrados.
- Mas antes de morrer, torturaram-me - queixou-se Gisselle. A cabea de Martin voltou-se imediatamente para ela. -O que te fizeram? - quis logo saber.

- Muitas coisas que no posso contar, principalmente a um rapaz - respondeu Gisselle.

-  No fizeram nada disso! - gritei. Gisselle abriu muito os olhos e disparou-me vrios olhares zangados.

- Francamente, Gisselle - exclamou em seguida, no seu tom de voz mais desdenhoso e arrogante -, julgas que te contei tudo o que me aconteceu, julgas? S no quis 
causar-te pesadelos, s isso!

- Uau! - exclamou Martin, encarando Beau, que trazia ainda nos lbios o mesmo sorriso trocista.

- Talvez no devas fazer perguntas  tua irm sobre a sua vida anterior - comentou ele, sentando-se aos meus ps, na espreguiadeira. - Assim, s vais trazer-lhe 
ms recordaes.

-  verdade - concordou Gisselle. - e esta noite gostava de no ter ms recordaes - acrescentou, passando o brao pelo ombro esquerdo e pelo brao de Martin. - 
Nunca estiveste com uma rapariga cajun, pois no, Martin? - indagou, sedutora.

-No, apesar de saber a fama que tm.

Gisselle inclinou-se e deixou que os seus lbios quase tocassem o ouvido de Martin.

-  Pois  tudo verdade - respondeu, lanando a cabea para trs e rindo. Martin riu tambm, bebendo um longo gole e esvaziando o copo. - Gisselle, importas-te de 
nos preparar mais uma bebida? - pediu ento ela, numa voz to melosa que fez o meu estmago dar voltas.

Foi necessrio usar tudo o meu autodomnio para no atirar o copo  cara de Gisselle e correr para casa. Mas certamente aquela brincadeira terminaria em breve, pensei, 
e Gisselle fica-

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ria satisfeita por ter tido a sua hora de divertimento  minha custa. Levantei-me ento e comecei a preparar a bebida da forma como ela me ensinara. Beau mantinha 
o olhar fixo em mim e reparei que Gisselle tambm o notava.

- Adoro o anel que ofereceste  minha irm, Beau - comentou Gisselle. -- Espero que um dia haja algum rapaz que goste o bastante de mim para me oferecer um anel 
como esse. Era capaz de fazer qualquer coisa por isso - acrescentou.

A garrafa escorregou ento da minha mo e caiu na mesa, mas no se partiu. Beau levantou-se.

- Deixa-me - - disse ento ele, segurando rapidamente a garrafa, de forma a impedir que se entornasse uma maior quantidade de rum.

--- oh, Gisselle, no devias desperdiar um rum to bom quanto esse - exclamou Gisselle, rindo mais uma vez. Vendo que a minha mo ainda tremia, Beau pegou rapidamente 
na garrafa e olhou-me nos olhos.

- Ests bem? - perguntou. Fiz um sinal afirmativo. - Eu acabo de preparar a bebida - disse ento Beau, entregando depois o copo a Gisselle.

-Obrigada, Beau - agradeceu ela. Beau sorriu-lhe, mas no disse nada. - Desculpa no poder contar-te mais acerca da minha vida, Martin - continuou depois, voltando-se 
novamente para ele. -- No entanto, gostava muito de saber mais sobre ti.
- Com certeza - respondeu ele.

-Vamos dar uma volta - sugeriu ento Gisselle, levantando-se da cadeira. Martin olhou para Beau, que os fitava, incapaz de exprimir qualquer emoo. Estaria ele 
 espera de ver at que ponto Gisselle iria? Tinha a certeza de que no acreditara que Gisselle era eu; mas, ento, por que motivo no tinha ainda terminado aquela 
farsa?

Gisselle deu o brao a Martin, puxando-o mais para perto dela, rindo. Depois deu-lhe a beber mais rum e Coca-Cola, tal como se estivesse a alimentar um beb. Ele 
bebeu gole aps gole, fazendo ssaltar a sua ma-de-ado com o esforo despendido, at Gisselle afastar o copo da sua boca para beber tambm.

- Tens uns braos to fortes, Martin - elogiou Gisselle. Julgava que s os rapazes cajuns tinham braos assim. Dedicou-me ento um sorriso e acrescentou rindo: - 
e as raparigas cajuns tambm. - Obrigou-o depois a voltar-se e caminharam juntos para a escurido, com o riso de Gisselle a ecoar cada vez mais forte e inapropriado.

- Bem -- exclamou Beau, sentando-se novamente na mi-
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nha espreguiadeira. --- Vejo que a tua irm j est a adaptar-se muito bem  sua nova vida.

- Beau - exclamei, mas ele colocou o dedo nos meus lbios.

- No, no digas nada. Sei como toda esta situao tem sido difcil para ti, Gisselle - afirmou ele, inclinando-se para mim.

- Mas...

Antes que pudesse dizer alguma outra palavra, Beau pressionou os seus lbios contra os meus, suavemente de incio e depois com mais fora; envolveu-me nos seus braos 
e apoiou a minha cabea contra o recanto entre o seu ombro e o peito. Pressionava a palma da mo contra a parte mais delgada das minhas costas, erguendo-me um pouco. 
O beijo e o abrao de Beau deixaram-me sem flego e ,quando os seus lbios deixaram os meus, engoli em seco. Ele beijou a ponta do meu nariz, roou a sua face na 
minha e suspirou.

- Tens razo -- afirmou ele. --- No devamos esperar mais. J no consigo tirar as mos de cima de ti e no penso em mais nada seno em te tocar e fazer amor contigo 
- continuou, deslizando a palma da mo pela minha anca e subindo at  cintura e depois at ao peito. Pressionou depois o seu corpo contra o meu, fazendo-me deitar 
na cadeira de descanso.
- Espera... Beau...

e de novo os lbios dele estavam sobre os meus, levando a cabo o beijo a que Gisselle se referira. Ao sentir a lngua dele tocar a minha, um arrepio de excitao 
e medo percorreu toda a minha espinha. Resisti, dando vrias voltas debaixo dele, at conseguir finalmente afastar a cabea para trs e libertar a minha boca da 
dele.

- Pra - gritei. - No sou a Gisselle, sou a Ruby. Foi tudo uma farsa.

- Como?

Pela expresso do seu rosto e pelo brilho do seu olhar era fcil concluir que Beau sabia. Empurrando o peito dele com as mos, afastei-o; ele sentou-se, tentando 
ainda apresentar uma expresso de espanto e de surpresa.

- Es a Ruby?

- Pra com isso, Beau. Soubeste desde o princpio, tenho a certeza. Mas no sou o tipo de rapariga que a Gisselle me quer obrigar a ser. No devias ter feito o que 
fizeste - reprovei. Sentindo-se repreendido, ele corou e apressou-se a responder.

- Mas concordaste em participar na brincadeira, no foi? -Foi, e no devia ter deixado que ela me convencesse, mas nunca imaginei que a Gisselle fosse to longe.

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Beau concordou, fazendo um gesto com a cabea e deixando o corpo relaxar.

- A Gisselle  assim... sempre a arquitectar alguma extravagncia. Devia ter fingido melhor que tinha acreditado - afirmou. - Pelo menos, ela aprendia uma lio.

- O que queres dizer? - Olhei para a minha esquerda e vi Gisselle e Martin no terrao. Beau seguiu o meu olhar e vimo-los a trocar um beijo. Os olhos dele semicerraram-se 
e o queixo avanou.

- As vezes, ela vai longe de mais - desabafou, num tom de voz subitamente irritado. - Vem comigo - pediu, segurando-me na mo e levantando-se.

- Aonde? - perguntei, levantando-me tambm.

- Para o chal - respondeu. Vou dar uma lio  Gisselle.
- Mas...

- No te aflijas, vamos s conversar. Mas ela vai julgar o contrrio, e  muito bem feito - afirmou, puxando-me. Em seguida, abriu a porta do chal e obrigou-me 
a entrar na pequena diviso, batendo a porta para que Gisselle e Martin no pudessem deixar de ouvir. Havia um sof encostado  parede em frente, mas nenhum dos 
dois deixou a porta. Sem luz, era difcil ver o que quer que fosse com a porta fechada.

- Sei que isto a vai irritar - afirmou Beau. - J aqui estivemos os dois e ela sabe muito bem porqu.

-Esta situao est a ir longe de mais, Beau. A Gisselle vai passar a odiar-me - conclu.

-Seja como for, ela agora tambm no est a ser muito simptica para ti - respondeu ele.

Conversar assim na completa escurido era simultaneamente estranho e fcil, porque sem o ver, sem sentir os seus olhos em mim, podia descontrair-me e dizer aquilo 
que queria. Pensei que talvez Beau estivesse a sentir o mesmo.

- Desculpa ter-me aborrecido h bocado contigo - disse-lhe eu. - No tens culpa de nada. Eu  que no devia ter-me deixado convencer.

- Estavas em desvantagem e ,sempre que pode, a Gisselle adora abusar dos mais fracos. No me surpreende nada, mas, daqui em diante, no deixes de ser quem realmente 
s. No te conheo h muito tempo, Ruby, mas acho que s uma rapariga muito simptica que j passou por muitos problemas, sem perder o bom feitio. No permitas que 
a Gisselle o faa - preveniu Beau.

Um instante depois, senti a mo dele na minha face. O seu toque foi suave, mas fez-me estremecer de espanto.

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- e beijas muito melhor - sussurrou, agitando de novo o meu corao. Pousou a mo no meu ombro e senti depois a sua respirao na minha face e os seus lbios cada 
vez mais perto, at encontrarem os meus. Dessa vez no resisti e ,quando a lngua dele tocou a minha, retribu o toque na ponta da sua lngua. Beau soltou um gemido 
e foi ento que ouvimos bater  porta e nos separmos rapidamente.

- Beau Andreas, vem imediatamente aqui, ouviste? Imediatamente! - gritava Gisselle. Ele comeou a rir.

- Quem  ?- gritou ele, atravs da porta fechada. -Sabes muito bem quem sou - respondeu ela. - Sai da?

Beau abriu ento a porta e Gisselle deu uns passos para trs. Martin, completamente aturdido, estava atrs dela. Gisselle cruzou os braos e bamboleou a cabea.

-O que  que pensas estar a fazer? - inquiriu ela.
- Ruby - comeou ele -, eu e a tua irm...

- Sabes muito bem que no sou a Ruby e que ela no  a Gisselle. Sabes muito bem, Beau Andreas.

- O qu? - exclamou ele, fingindo-se surpreendido e chocado. - Nunca podia imaginar..  espantoso!

- Pra com isso, Beau, tudo no passou de uma pequena brincadeira. e ,quanto a ti - continuou Gisselle, dirigindo os olhos avermelhados sobre mim -, soubeste participar 
muito bem, para algum que dizia estar muito assustada e que no iria resultar.

- O que  que se passa? - indagou finalmente Martin. Quem  quem?

Ns os trs voltmo-nos para ele. Beau e Gisselle desataram a rir, e eu, sentindo o corao mais leve por causa do rum e dos beijos de Beau, comecei tambm a rir.

Gisselle contou a brincadeira a Martin e sentmo-nos novamente os quatro, desta vez com Martin sentado a meu lado. Gisselle continuava a deitar rum nos copos, e 
bebia todo o contedo mal enchia o seu. Depois, Gisselle puxou Beau para o chal, voltando-se para trs e lanando-me um olhar de satisfao, fechando a porta em 
seguida.

Recostei-me na cadeira, sem ser capaz de esquecer o toque meigo da mo de Beau e os seus beijos. Seria o efeito do rum que me causava tal calor? Subitamente, Martin 
abraou-me e beijou-me, tentando avanar mais, mas eu afastei-o com firMeza.

-Ento? - exclamou, com os olhos meio fechados O que se passa? Pensei que amos divertir-nos.

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-- Apesar de tudo o que possas ter ouvido e pensado acerca das raparigas do bayou, Martin, eu no sou assim. Desculpa...

O lcool perturbara, decisivamente, o seu juizo, pois mur-murou uma desculpa, deixou-se cair na espreguiadeira e ,momentos depois, adormeceu. Fiquei ao lado dele 
 espera, mas no por muito tempo. Logo depois, Beau e Gisselle emergiram do chal, com ela a chorar com dores de estmago, to enjoada que pensei que fosse vomitar 
o almoo e o jantar. Martin acordou e ficmos os dois a v-la, at ela se aperceber do que se passava e comear a chorar de vergonha.

-- Eu tomo conta dela - disse a Beau.    -   melhor vocs irem embora.

-Obrigado --- respondeu ele. - J no  a primeira vez que ela faz isto - acrescentou, murmurando "boa noite", depois de me ter dito, num sussurro:  do teu beijo 
que vou lembrar-me esta noite.

Fiquei por alguns instantes sem fala, vendo-os sair, mas depois Gisselle recomeou a lamuriar-se.

- oh, vou morrer!

- No vais morrer, mas vais com certeza desejar ter morrido, se bem me lembro de como o grandpre se sentia s vezes
-   respondi. Ela gemeu de novo, com mais vmitos.

- Estraguei a minha blusa nova       chorava -, e sinto-me to mal! Tenho a cabea a latejar.

- Tens de te ir deitar, Gisselle     aconselhei. -No consigo, no me posso mexer.

- Eu ajudo-te a entrar em casa. Vem. - Coloquei os braos em redor dela e assim fomos avanando.

-No deixes que a me nos veja - avisou. - Espera, traz tambm a garrafa de rum. - Detestava ter de fazer aquele tipo de coisas, mas no tinha alternativa. Com uma 
mo, segurava o cesto com a garrafa e ,com a outra, auxiliava Gisselle, conduzindo-a at casa, entrando to silenciosamente quanto possvel.

L dentro, estava tudo calmo. Comemos a subir as escadas, com Gisselle sempre a queixar-se. Depois de termos chegado ao primeiro andar, quando nos dirigamos para 
o quarto de  Gisselle, julguei ouvir um rudo; parecia algum a chorar.
- O que  este barulho? - perguntei, sussurrando.

- Qual barulho?

-Est algum a chorar - respondi.

- Esquece isso e leva-me ao meu quarto - disse Gisselle.
- Depressa.

Entrmos as duas pela porta e eu ajudei-a a entrar.
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-- Devias tirar a roupa e tomar um duche - sugeri, mas ela deixou-se cair na cama e recusou-se a sair.

- Deixa-me em paz -- gemia ela -, deixa-me em paz. Esconde a garrafa no teu armrio. - Foram as suas ltimas palavras.

Recuei ento um pouco e fiquei parada a observ-la. Era um peso morto agora, no podia fazer mais nada por ela. Eu mesma tambm no estava a sentir-me muito bem 
e repreendia-me por ter permitido que a Gisselle me convencesse a tomar tanto rum com Coca-Cola.

Deixei-a com o rosto enterrado na almofada, completamente vestida, at mesmo com sapatos, e encaminhei-me para o meu quarto. Ouvi soluos e ,curiosa, atravessei 
o corredor e fiquei  escuta. O choro vinha de um quarto do lado direito. Caminhei devagar at esse quarto e encostei a cabea  porta. Estava realmente algum a 
chorar l dentro e parecia ser.. um homem.

O som de passos na escada fez-me correr para o meu quarto. Entrei apressadamente e escondi depressa o cesto com o rum dentro do armrio. Depois fui at  porta e 
abri-a o suficiente apenas para espreitar. Era Daphne, usando um esvoaante roupo de seda azul e caminhando to suavemente que parecia deslizar pelo corredor at 
ao quarto principal. Todavia, antes de chegar  porta, ela deteve-se como se estivesse a ouvir o choro. Vi-a abanar a cabea e depois entrar no quarto. Quando ela 
fechou a porta, eu fechei tambm a minha.

Pensei em sair de novo e bater  porta daquele quarto para descobrir quem estaria l dentro a chorar. Seria o meu pai? Pensando nessa possibilidade, sa e - da porta, 
onde fiquei de novo  escuta, s que, desta vez, sem nada ouvir. Mesmo assim, bati devagar e esperei,

-Est a algum? - murmurei atravs do espao entre a porta e a parede. No obtive resposta; portanto, resolvi bater mais uma vez e esperar. Mas nada; estava prestes 
a ir-me embora quando senti uma mo sobre o meu ombro e me voltei, engasgada, para deparar com o rosto do meu pai.

- Ruby - afirmou ele, sorrindo. - Passa-se alguma coisa?
- Eu... julguei ter ouvido algum a chorar naquele quarto e resolvi bater -- expliquei. Ele abanou a cabea.

- Foi apenas a tua imaginao a trabalhar, querida - afirmou. - H anos que no dorme ninguem naquele quarto. Onde est a Gisselle?

- Foi dormir - respondi rapidamente. - Mas tenho quase a certeza de que ouvi algum - insisti, vendo-o abanar novamente a cabea.

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- No,  impossvel. - Sorriu depois. - A Gisselle foi-se deitar to cedo? Deve ser fruto da tua boa influncia. Bem, eu tambm me vou deitar. Amanh tenho um dia 
bastante ocupado. No te esqueas que o teu professor de pintura vem ver-te amanh s duas. Eu tambm vou estar presente para o receber. Fiz sinal que no iria esquecer-me.

- Boa noite, querida - despediu-se, dando-me um beijo na testa e encaminhando-se para o quarto principal. Poderia eu ter imaginado aquele choro? Seria um efeito 
de todo o rum que eu havia bebido?

- Paizinho? - exclamei, antes de atravessar o corredor para entrar no meu quarto; ele parou e voltou-se.

- Sim?

- De quem era aquele quarto? - perguntei.

Ele olhou para o quarto e fitou-me com os olhos escuros muito brilhantes; percebi ento porque brilhavam: estavam cheios de lgrimas.

-Era do meu irmo - respondeu -, do Jean. Suspirando, deu meia volta e afastou-se. Senti um arrepio frio percorrer toda a minha espinha e fazer-me estremecer. Fatigada 
e esgotada por tantas emoes, regressei ao meu quarto e preparei-me para dormir. Tinha a cabea cheia de pensamentos diferentes, e o corao a transbordar com tantas 
emoes opostas. Sentia-me to estonteada e to cansada que ansiava por poder deitar a cabea na fofa almofada. Quando fechei os olhos, uma sucesso das imagens 
do dia passou diante dos meus olhos, fazendo-me subir e descer ao ritmo das recordaes, como numa montanha-russa. Vi as ruas de Nova Orlees que tinha visitado 
com o meu pai, a quantidade infinita de lojas de moda que percorrera com Daphne, o meu novo e maravilhoso atelier, a expresso de Gisselle quando representava a 
sua farsa idiota, e senti mais uma vez o beijo que Beau me havia dado no chal, carregado de electricidade.

Aquele beijo mais longo assustara-me muito, porque fora incapaz de resistir ao desejo de o retribuir. O contacto inesperado dos seus lbios, e a sua lngua a forar 
a entrada nos meus, provocara em mim uma onda de excitao que destrura toda a minha resistncia. Poderia isso significar que eu era de m ndole e que havia demasiado 
sangue Landry a percorrer-me as veias?

Ou significaria apenas que Beau tinha tocado uma parte carente e solitria do meu ser, sussurrando suavemente na escurido com uma convico que restaurara a paz 
na minha alma confusa e atormentada? Teria o beijo de qualquer outro rapaz
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provocado a mesma sensao, ou seria apenas Beau capaz de a provocar?

Tentei recordar os beijos de Paul, mas todas essas lembranas se haviam tornado obscuras e contaminadas pela descoberta das nossas verdadeiras identidades. Era agora 
impossvel pensar em Paul como o meu primeiro amor sem sentir remorsos, mesmo sabendo ter estado ambos isentos de culpa.

Que dia complexo e perturbador aquele e ,no entanto, igualmente maravilhoso! Seria a minha vida sempre assim, da em diante?

Todas essas questes me iam fatigando ainda mais; desejava apenas poder dormir. Quando o entorpecimento tomou conta de mim e o meu pensamento se aquietou, ouvi de 
novo o som distante de algum a chorar. Vinha dos recantos mais sombrios da minha mente; porm, antes de adormecer, no tive a certeza se se trataria do meu prprio 
choro ou se seria algum que eu ainda no conhecia, a soluar.

Fiquei espantada por ter dormido at to tarde na manh seguinte; quando finalmente acordei, pensei que j todos se teriam levantado e tomado o pequeno-almoo sem 
mim. Envergonhada, saltei da cama, lavei-me e vesti-me a correr, decidindo atar o cabelo para no perder tempo a escov-lo. Contudo, ao descer apressadamente as 
escadas para alcanar a casa de jantar, descobri que estava vazia. Edgar era o seu nico ocupante, entretido a limpar copos e pratos.

- O pequeno-almoo j acabou de ser servido? - perguntei-lhe.,

- Se j acabou? oh, no, mademoiselle. Monsieur Dumas j o tomou e saiu para trabalhar, mas a mademoiselle  a primeira senhora a descer - esclareceu ele. - O que 
 que deseja tomar hoje? Ovos feitos pela Nina e cereais?

- Sim, obrigada - aceitei. Edgar esboou um sorriso sincero e prometeu trazer-me sumo de laranja fresco e uma chvena de caf quente. Sentei-me e fiquei  espera, 
admitindo ouvir a qualquer momento os passos de daphne ou de Gisselle no trio da entrada; no entanto, quando Edgar apareceu com o meu pequeno-almoo, eu era ainda 
a nica sentada  mesa. Ele ficou atento, lanando-me de vez em quando um olhar, para verificar se necessitaria de algo mais.

Quando terminei, Edgar apareceu imediatamente para levantar a mesa. Quanto tempo levaria, pensei ento, para me habituar a ser servida e tratada daquela forma? No 
conseguia ainda evitar o impulso de me levantar para levar o prato sujo para a cozinha. Edgar dedicou-me um sorriso.

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-Est a gostar de Nova Orlees, mademoiselle? - indagou.

- Muito - respondi-lhe. - Viveu toda a vida aqui, Edgar?

-Vivi, sim, mademoiselle. A minha famlia trabalha para os Dumas desde a guerra civil.  claro que, nessa altura, trabalhavam como escravos - acrescentou, encaminhando-se 
para a cozinha. Levantei-me e segui-o, disposta a comunicar a Nina o quanto tinha apreciado a sua comida. Ela recebeu-me com alguma surpresa, mas ficou muito contente 
e acrescentou com satisfao que tinha agora a certeza absoluta de que eu no era um esprito.

- De outra forma, teria de ter morto um gato preto no cemitrio,  meia-noite - afirmou depois.

- Santo Deus, porqu?

-Porqu? Porque  o que se deve fazer, quando aparece um esprito para nos atormentar. Mata-se o gato, retiram-se as entranhas e cozem-se em banha a ferver, com 
sal e ovos. Depois come-se mal comea a esfriar - explicou Nina, fazendo o meu estmago dar voltas.

Eh! - exclamei. - Que horror!

Depois, na noite de sexta-feira seguinte, volta-se ao cemitrio para chamar o gato - continuou, abrindo mais os olhos. - Quando o gato responde, chama-se pelos nomes 
os mortos que conhecemos e dizemos ao gato que acreditamos no diabo. Quando se v pela primeira vez um esprito, pode-se ter a certeza de que se vai ver mais vezes. 
Por isso,  melhor conhec-los antes e dar-nos tambm a conhecer.

" claro que --- acrescentou como um parte - isto resulta muito melhor em Outubro.

A conversa sobre os espritos recordou-me o choro que eu tinha a certeza de ter ouvido naquele que fora o quarto de Jean.
- Nina, j alguma vez ouviu soluos no andar de cima, naquele que foi o quarto do meu tio Jean? - indaguei.

Os olhos dela, que eu julgava estarem to abertos quanto seria possvel, tornaram-se ainda maiores, agora com uma expresso de terror.

- Ouviu soluar? - perguntou-me. Respondi que sim e ela benzeu-se imediatamente, segurando-me no pulso em seguida. -- Vem com a Nina -- ordenou.

- Como?

Deixei que ela me levasse pela cozinha at s traseiras.
- Aonde estamos a ir, Nina?

Ela passou rapidamente pelo trio, dirigindo-se  parte de trs da casa.

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- Este  o meu quarto - comunicou ento, abrindo a porta, Hesitei e lancei um grito sufocado.

As paredes do quarto estavam tapadas por acessrios de culto vodu: bonecos, ossos, madeixas, daquilo que parecia ser plo preto de gato, fios de cabelo atados por 
cordes de pele, raizes retorcidas e pedaos de pele de cobra. As prateleiras estavam cheias de pequenos frascos com ps de vrias cores, filas de velas amarelas, 
azuis, verdes e castanhas, potes com cabeas de cobras e uma fotografia de uma mulher sentada numa espcie de trono, ladeada por velas brancas.

- Essa  a Marie Laveau - explicou Nina quando me viu a olhar para a fotografia. -- A rainha do vodu.

Nina tinha uma cama pequena, uma mesa-de-cabeceira e uma cmoda de rotim.

- Sente-se aqui - pediu ela, apontando para a nica cadeira do quarto. Obedeci e sentei-me lentamente. Nina aproximou-se das prateleiras e foi buscar algo que procurava, 
voltando em seguida para junto de mim. Colocou um pequeno pote de cermica nas minhas mos e pediu-me que o segurasse. Cheirei em seguida o contedo.

- Enxofre - esclareceu Nina, reparando na minha careta. Em seguida, acendeu uma vela branca, rezou uma orao e ,fixando os seus olhos em mim, proferiu: -- Algum 
lhe rogou um feitio', de certeza. Precisa de manter afastados os espritos malignos.

Levou a vela para perto do pote de cermica e fez com que a chama tocasse o contedo, de forma a que o enxofre ardesse. Umapequena nuvem de fumo saiu ento do pote; 
o cheiro no era agradvel, mas Nina ficou contente por eu ter conservado o pote na mo.

-Feche os olhos e incline a cabea, para o fumo lhe tocar a cara - ordenou; obedeci e ,aps uns minutos, declarou: Chega, est bom. - Em seguida retirou o pote das 
minhas mos e apagou a chama. - Agora vai ficar melhor. Mas tem de fazer o que eu pedir, sem troar... Lembro-me que disse que a sua grandmre era uma traiteur, 
no foi?

- Sim.

-  bom para si, mas lembre-se que os espritos malignos procuram primeiro os mais sagrados - avisou ela. --  uma vitria maior. - Fiz um gesto que indicava que 
compreendia.

- J mais algum ouviu chorar no andar de cima, Nina? -perguntei.

- No  bom falar desse assunto. Se falamos do diabo, ele entra-nos em casa a fumar um cigarro preto, estreito e comprido.
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Agora temos de voltar. Madame Daphne deve estar a descer para vir tomar o pequeno-almoo - afirmou.

Segui-a novamente para fora e ,tal como Nina previra, Daphne estava j pronta e sentada  mesa.
J tomaste o pequeno-almoo? - perguntou-me. -J, sim.

-Onde est a Gisselle?

Julgo que ainda deve estar no quarto - respondi. Daphne fez um trejeito de desagrado.

- Isto  ridculo! Por que razo  que ela ainda no se levantou como todas as outras pessoas! - perguntou, apesar dela prpria ter acabado de se levantar. - Sobe, 
por favor, e diz-lhe que a quero aqui em baixo imediatamente.

- Sim, senhora - respondi, subindo a passos largos as escadas. Bati suavemente  porta do quarto de Gisselle, que depois acabei por abrir, deparando com a minha 
irm ainda a dormir, vestida com as mesmas roupas da noite anterior.

- Gisselle, a Daphne quer que te levantes e desas - afirmei, mas ela nem sequer se mexeu. - Gisselle - chamei, abanando-lhe o ombro. Ela gemeu e voltou-se, fechando 
rapidamente os olhos, mais uma vez. - Gisselle!

- Vai-te embora - murmurou por fim. -A Daphne manda que...

Deixa-me em paz. Sinto-me mal, tenho a cabea a doer muito e o estmago s voltas.

-Avisei-te de como irias sentir-te. Bebeste de mais e demasiado depressa - respondi.

Bom para ti que acertaste - retorquiu, de olhos ainda fechados.

Que queres que diga  Daphne? - Ela no respondeu. Gisselle?

No quero saber. Diz-lhe que morri - respondeu, tapando a cabea com a almofada. Fiquei  espera alguns minutos, mas percebi que ela no fazia tenes de se mover.

Daphne no se mostrou agradada pelas minhas notcias. A Gisselle no quer levantar-se? - repetiu, pousando com tanta fora a chvena no pires que julguei que se 
fosse partir. - O que fizeram vocs ontem  noite? - inquiriu, com um brilho de desconfiana nos olhos.

Estivemos... a conversar com o Beau e com um amigo dele, o Martin, ao p da piscina.

-Apenas a conversar?
- Sim, senhora.

- Chama-me me ou Daphne, mas no me trates por senhora. Faz-me parecer muito mais velha - retorquiu.

         250
- Desculpe... me.

Ela fitou-me com um ar furioso e depois levantou-se e saiu decididamente da sala, deixando-me sozinha com o corao a bater mais depressa que o costume. No tinha 
exactamente mentido, pensei, tinha apenas omitido parte da verdade; mas, se a tivesse contado, teria colocado Gisselle numa situao difcil. Apesar disso, sentia-me 
mal, no gostava de me comportar de uma forma falsa e furtiva. daphne estava de tal forma irritada que subiu cada degrau das escadas com um passo pesado e ruidoso.

Pensei no que iria fazer para ocupar o meu tempo e resolvi ir  biblioteca e ler um livro at chegar o professor de pintura. Tinha acabado de pegar num e folheava-lhe 
as pginas quando ouvi o grito de daphne no cimo das escadas.

- Ruby!

Guardei o livro na estante e corri para a porta.
- Ruby!

- Sim?

- Vem at aqui imediatamente - ordenou daphne.

"Oh, no", pensei, "ela deparou com a Gisselle naquele estado e quer saber o que realmente se passou." O que poderia dizer? Protegeria Gisselle, sem mentir? Quando 
cheguei ao topo das escadas, reparei, no entanto, que a porta do meu quarto estava aberta e que daphne estava no meu quarto e no no de Gisselle. Aproximei-me lentamente.

- Entra - mandou ela. Passei pela porta e vi-a de braos cruzados debaixo do peito, com as costas muito direitas e os ombros 'aprumados. A pele em volta do queixo 
estava to esticada que parecia poder rasgar-se a qualquer instante. - J percebi por que motivo a Gisselle no consegue levantar-se - exclamou ento. - Vocs ontem 
 noite estiveram s a conversar?
- No - respondi.

- Hum - prosseguiu, estendendo o brao direito e apontando para o meu armrio. - O que  aquilo ali dentro do armrio? O que ? A sua voz tornou-se estridente ao 
ver que eu no respondia imediatamente.

-Uma garrafa de rum.

- Uma garrafa de rum - repetiu daphne, meneando a cabea -, que retiraste do nosso bar.

Levantei os olhos e abanei a cabea.

- No negues! A Gisselle j confessou tudo... Como a convenceste a tomar o rum no jardim e lhe ensinaste a mistur-lo com o refrigerante.

A minha boca no se fechava.

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- Que mais aconteceu? O que fizeste com o Martin Fowler? continuou ela.

-Nada -- respondi.

Daphne semicerrou os olhos e continuou a menear a cabea, como se ouvisse no seu pensamento uma torrente de palavras que lhe confirmavam alguma terrvel suspeita.

- Ontem  noite, disse ao Pierre que os teus valores eram diferentes dos nossos, que tinhas crescido num mundo completamente distinto e que, por isso, seria difcil, 
se no de todo impossvel, que no corrompesses a Gisselle. A influncia que podes exercer sobre ela  maior do que aquela que ela pode exercer sobre ti. No tentes 
negar nada - disparou, quando movi os lbios -, tambm j fui da vossa idade. Conheo as tentaes e sei. como  fcil ser influenciado por algum a cometer actos 
proibidos.

Daphne abanava a cabea, descontente.

- Depois de te termos tratado to bem, de te termos recebido da melhor forma em nossa casa, de te termos aceite... e eu que perdi tanto tempo para te arranjar com 
as melhores roupas... porque ser que vocs no tm o mnimo sentido de responsabilidade e de decncia? Ser do vosso sangue?

-No  verdade. Nada disso  verdade - gemi.

- Por favor - continuou, fechando e abrindo os olhos. s dissimulada. Ensinaram-te a ser to astuta como um cigano. Guarda a garrafa de rum de novo no bar.

-Nem sequer sei onde fica o bar - respondi.

-No vou perder mais tempo com esta discusso, que j chegou para me estragar o pequeno-almoo e a manh. Faz o que te mandei e no voltes a repetir o que fizeste. 
O teu pai vai tomar conhecimento do que aconteceu, podes ter a certeza -acrescentou, passando por mim e saindo do quarto.

As lgrimas que tentei reprimir brotaram finalmente dos meus olhos e percorreram-me as faces at ao queixo. Abri o armrio, retirei o cesto e fui at  porta ao 
lado, irrompendo pelo quarto de Gisselle. Ela estava a tomar banho, cantarolando. Entrei na casa de banho e gritei com ela atravs da porta de vidro.

-- O qu? - respondeu, fingindo no conseguir ouvir-me.
- O qu?

-Porque  que mentiste e me culpaste de tudo?

- Espera um pouco - gritou, enxugando o cabelo antes de fechar a torneira. - Passa-me a toalha, por favor - pediu. Pousei o cesto na bancada e entreguei-lhe a toalha. 
- O que foi que disseste?

. - Contaste  Daphne que fui eu quem levou a garrafa de rum - repeti. - Como  que foste capaz?

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- Ai, teve de ser, Ruby. Por favor, no te zangues. J tive problemas que cheguem h mais ou menos um ms, quando cheguei a casa muito tarde e a cheirar a usque. 
Fiquei quase de castigo nessa altura. Por isso, agora iam castigar-me de certeza.

-Mas disseste que a culpa era minha! e agora a daphne pensa o pior a meu respeito!

- Acabaste de chegar, o pap ainda est embeiado por ti... podes aguentar alguma culpa. No vo fazer-te nada - explicou ela. -- Desculpa - pediu, esfregando o 
cabelo com a toalha -, no consegui lembrar-me de mais nada, mas afinal resultou: consegui que a me me deixasse em paz.

Suspirei.
- Somos irms -- afirmou, sorrindo. - Temos de nos valer uma  outra, nestas ocasies.

- Mas no desta forma, Gisselle, no com mentiras protestei.

-- Claro que  com mentiras. De que outra forma poderia ser? - retorquiu.

Olhei-a nos olhos e pensei que tinha sido exactamente dessa maneira que daphne definira a situao: "Pequenas mentiras". Era sobre essa base que a famlia Dumas 
assentava a sua felicidade e satisfao, sobre "pequenas mentiras"?

-- No te preocupes - continuou Gisselle. - Eu falo com o pap, caso ele fique muito aborrecido contigo. Fao-lhe crer que fui eu que te incentivei a me convenceres, 
e ele vai ficar to confuso que no conseguir castigar nenhuma de ns. J fiz isso antes - confessou, com um sorriso malicioso e enjoativo.
- Descontrai-te - continuou, enrolando a toalha em volta do seu corpo nu. - Depois da tua lio de pintura, vamos com o Beau e o Martin ao Bairro Francs. Prometo 
que vai ser divertido.

- Mas... onde  que guardo a garrafa? Nem sei onde fica o bar!

-- Fica no estdio, eu mostro-te - informou. - Vem ajudar-me a escolher a roupa.

Abanei a cabea e deixei escapar um suspiro.

- Que manh esta! Contei  Nina que tinha ouvido algum a chorar e ela levou-me ao quarto dela para queimar enxofre! e depois isto!

-Algum a chorar?

- Sim - respondi, seguindo-a at ao armrio -, acho que vinha do quarto que era do Jean.

- Ah! - exclamou ela, como se nada fosse.
- Tambm ouviste?

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-Claro que sim - confirmou. - Que achas desta saia?
- perguntou a seguir, retirando o cabide e colocando a saia  frente da cintura. - No  to curta quanto as tuas saias, mas gosto da forma como me assenta nas ancas. 
e o Beau tambm
- acrescentou, sorrindo com malcia.

-  bonita. Quer dizer que j ouviste os soluos? e porque  que disseste... "claro que sim"?

-Porque o pap de vez em quando costuma fazer isso.
- Isso o qu? O que  que ele costuma fazer?

- Vai para o quarto do tio Jean e chora, a lembrar-se do irmo. Faz isso desde... desde que me lembro. No consegue aceitar o acidente e a forma como tudo aconteceu.

-Mas ele disse-me que no estava ningum a chorar naquele quarto - contei-lhe.

-O pai no gosta que se saiba. Todos fingimos que no sabemos de nada - explicou.

Abanei a cabea, entristecida.

- Foi realmente terrvel - comentei. - O pai contou-me: o Jean devia ser um homem muito forte, e morrer assim to novo com a vida toda pela frente...

- Morrer? O que queres dizer com isso? O pai disse-te que o tio Jean tinha morrido?

-Como? Bem, pensei que... disse que o Jean tinha sido atingido pelo mastro do barco  vela e - Detive-me a relembrar os pormenores da conversa. - ... e que apenas 
vegetava depois disso, mas percebi que ele queria dizer que...

- oh, no, no - afirmou Gisselle. - O tio Jean no morreu.

- No?... Ento o que lhe aconteceu?

- Ele realmente vegeta, mas ainda tem uma excelente aparncia. Limita-se a andar para l e para c, como quem est absorvido por alguma ideia, e olha para tudo e 
para todos como se nunca os tivesse visto, sem se lembrar de ningum.

-Onde est ele?

-Numa clnica nos arredores da cidade. Ns s o vemos uma vez por ano, no dia do seu aniversrio. Pelo menos,  quando eu o vejo. Opap se calhar vai vsit-lo mais 
vezes. A me nunca vai - explicou Gisselle. - O que achas desta blusa?

Ela estendeu-a para mim, mas era como se no a visse; esperei at Gisselle comear a vesti-la.

- Porque  que no existe nenhuma fotografia do Jean nesta casa? - indaguei a seguir.

- Pra de falar nisso! Normalmente, o pap no suporta
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que toquem nesse assunto, fiquei at espantada por te ter contado. No h fotografias do tio Jean, porque  demasiado doloroso para o pap - respondeu. - e agora, 
pela ltima vez, achas que fico bem com esta blusa? - Voltou-se para se ver ao espelho.

- muito bonita - respondi.

- oh!, detesto essa palavra - protestou ela. - Bonita!? Quero saber se  sexy?

Analisei finalmente a blusa com ateno.

- Esqueceste-te de pr o soutien - comentei. Gisselle sorriu.

-No me esqueci... Quase todas as raparigas esto a deixar de o usar.

- Esto?

- Claro! Cus, tens realmente muito que aprender! Tiveste sorte em sair do pntano! - acrescentou.

Nessa altura, porm, j no tinha assim tanta a certeza acerca dessa minha sorte.

UMA VISITA A STORYVILLE

Sentei-me no ptio para almoar, enquanto Gisselle tomava ainda o pequeno-almoo. A minha irm continuava a queixar-se da acidez que sentia no estmago, devido  
m disposio da noite anterior; culpava a todos, menos a si prpria.

- O Beau devia ter-me impedido de continuar a beber. Estava to preocupada em garantir que todos estavam a divertir-se que nem me apercebi - argumentou.

- Mas eu avisei-te antes de comeares a beber - lembrei-a; Gisselle sorriu, desdenhosa.

- A bebida nunca me tinha causado este efeito - respondeu, fazendo um trejeito de dor.

Gisselle tinha de usar os seus enormes culos de sol, pois a mnima luz causava-lhe fortes dores de cabea. Tinha colocado uma espessa camada de rouge nas faces 
e pintara os lbios com bton, para disfarar as olheiras e o tom amarelado com que acordara nesse dia.

As longas nuvens cinzentas que tinham escurecido a maior Parte da manh haviam-se dispersado finalmente pelo horizonte, e agora um suave mar de azul surgia no cu 
para acompanhar o

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Sol, cujos raios se projectavam sobre ns e faziam florir as magnlias e as camlias. Os gaios azuis esvoaavam de ramo em ramo com maior vigor e energia, cantando 
mais melodiosamente.

Num cenrio to belo e alegre, era difcil alimentar sentimentos de desnimo ou de tristeza, mas no conseguia impedir que um pressentimento mau ganhasse espao 
no meu pensamento., avanando lenta, mas decisivamente, como a sombra de uma nuvem. Daphne estava desiludida comigo; em breve, o meu pai estaria tambm, e Gisselle 
achava melhor mentir a ambos. Tinha imensa vontade de ir ter com Nina para lhe pedir uma soluo mgica, algum p ou algum osso enfeitiado, capaz de apagar o que 
de mau acontecera.

- Pra de estar amuada - ordenou Gisselle. - Preocupas-te demasiado.

- A daphne est furiosa comigo, graas a ti - afirmei. -e ,em breve, o pap vai ficar tambm.

--Porque  que continuas a trat-la por daphne? No a queres tratar por me? - inquiriu Gisselle. Desviei os olhos dos dela e encolhi os ombros.

- Claro que quero,  s um pouco... difcil, ainda. Os nossos pais parecem-me dois estranhos, no vivi toda a vida com eles - expliquei, voltando a encar-la. Ela 
digeriu a minha resposta, com a mesma lentido com que mastigava o croissant com geleia.

-- Mas acabaste de tratar o pai por paizinho - afirmou finalmente. - Porque  que com ele  mais fcil?

-- No sei - respondi apressadamente, deixando cair o olhar para que Gisselle no detectasse nele a desonestidade. No suportava viver naquele clima de falsidade; 
sabia que, de alguma forma, a mentira acabaria por afectar as nossas vidas e transform-las muito negativamente, tinha a certeza disso.

Gisselle bebeu o caf, mas continuou a fitar-me, enquanto mastigava preguiosamente.

- O que foi? - perguntei, antecipando mais alguma pergunta ou suspeita da sua parte.

-O que fizeste com o Beau no chal antes de eu bater  porta? - inquiriu. No consegui deixar de corar; o tom da voz de Gisselle era francamente acusador.

- Nada. Foi apenas uma partida que o Beau quis pregar-te, como resposta ao que estavas a fazer. Ns ficmos apenas... a conversar.

- O Beau Andreas ficou no escuro sozinho contigo a conversar? - persistiu ela, fazendo uma careta desconfiada.
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- Ficou.

- No sabes mentir muito bem, querida rm. Vou ter de te dar umas lies.

-  um tema que no desejo dominar - respondi.

- Mas vais acabar por o fazer, especialmente, se quiseres continuar a viver nesta casa - retorquiu, despreocupadamente. Antes que pudesse responder, Edgar aproximou-se 
atravs das portas envidraadas.

- O que  ,Edgar? - perguntou Gisselle, petulante. Devido  ressaca dessa manh, o menor barulho e a mais pequena interrupo eram o suficiente para a incomodar.

- Monsieur Dumas acabou de chegar. Ele e Madame Dumas desejam falar a ambas no estdio - anunciou.

- Diz-lhes que vamos j. Estou s a acabar de comer o meu croissant - afirmou Gisselle, voltando-lhe as costas. Edgar lanou um olhar na minha direco, mostrando 
o descontentamento que lhe causava o tom da voz de Gisselle. Sorri-lhe, e a sua expresso tornou-se mais branda.

- Muito bem, mademoiselle -- respondeu.

- O Edgar  demasiado empertigado! Anda por a, como se fosse dono da casa e de tudo o que nos pertence - queixou-se Gisselle. - Se eu ponho uma jarra na mesa, ele 
volta a coloc-la onde estava. Uma vez, mudei todas as fotografias da sala, s para o irritar, mas, no dia seguinte, estavam todas nos seus lugares. Ele decorou 
o lugar de cada objecto, at sabe onde ficam os cinzeiros de vidro! Se no acreditas em mim, tenta mudar de stio um objecto qualquer.

- Deve ser por ter muito orgulho na arrumao da casa -argumentei. Gisselle abanou a cabea e engoliu o ltimo pedao de croissant.

- Vamos ento despachar a conversa - declarou, colocando-se em p.

Quando chegmos perto do estdio, ouvimos as queixas de Daphne.

- Sempre que te peo para vires a casa almoar ou para irmos almoar os dois, tens sempre uma desculpa para no ir. Ests sempre demasiado ocupado para interromper 
o teu precioso dia de trabalho. Mas, agora, de repente, tens este tempo todo livre para seleccionares um professor de pintura para a tua filha cajun! - censurou 
ela.

Gisselle sorriu-me e puxou o meu brao, de forma a atrasar a nossa entrada.

- Ouve! Adoro assistir s discusses deles! - sussurrou, excitada. Eu no s no desejava ser bisbilhoteira, como receava que eles dissessem algo que revelasse toda 
a verdade.

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-Tento sempre dedicar-te o mximo de tempo, Daphne, mas, quando no posso,  devido a uma razo de fora maior, e ,quanto  minha vinda hoje aqui a casa,  apenas 
porque achei que, devido s circunstncias, devia dedicar-lhe uma maior ateno - protestou o meu pai.

- Dedicar-lhe mais ateno devido s circunstncias? e quanto s circunstncias que me dizem respeito? Porque  que no resolves tambm dedicar-me mais ateno? 
Dantes, costumavas considerar-me algum especial - retorquiu Daphne.
- e considero - protestou ele, de novo.

- Mas vejo que no to especial quanto a tua princesa cajun. Bem, e agora que te contei o que se passou, qual  a tua opinio?

- Estou desapontado,  certo - respondeu ele - e bastante surpreendido. - Fiquei com o corao partido por detectar tanta desiluso na voz de meu pai, mas o sorriso 
de Gisselle aumentou de alegria.

-Pois eu no - acentuou Daphne. - Avisei-te, no avisei?

- Gisselle - murmurei -, tenho de...

- Vamos - respondeu ela imediatamente, puxando-me para a frente e entrando comigo no estdio. Daphne e o meu pai voltaram-se depressa para ns. Senti vontade de 
chorar, ao ver a expressso triste e desapontada do meu pai, que soltou um suspiro profundo.

- Sentem-se, meninas - mandou, indicando o sof de pele.

Gisselle avanou instantaneamente e eu seguia-a, mas sentei-me longe dela, no lado oposto. O nosso pai ficou a fitar-nos alguns instantes com as mos atrs das costas, 
depois lanou um olhar na direco de Daphne, que endireitou a cabea e cruzou os braos debaixo do peito, aguardando com expectativa a conversa. O meu pai voltou-se 
ento para mim.

- A Daphne contou-me o que aconteceu ontem  noite e o que encontrou hoje no teu quarto. No me importo que vocs bebam vinho ao jantar, mas no posso nunca aprovar 
que levem licores e outras bebidas para beber com rapazes...

Olhei para a Gisselle, que mantinha os olhos postos nas mos que pousara no colo.

- No  dessa forma que as jovens de bem se devem comportar. Gisselle - continuou, voltando-se agora para ela no devias ter permitido que isso acontecesse.

Gisselle retirou os culos de sol e comeou a chorar, soltando lgrimas verdadeiras, como se tivesse um reservatrio atrs
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das plpebras prprio para as fabricar e deixar cair a qualquer momento.

- Eu no queria, principalmente aqui em nossa casa, mas a Ruby insistiu e eu quis fazer o que o pai pediu: faz-la sentir-se bem-vinda e amada na primeira oportunidade. 
e agora, afinal, estou a ser castigada por isso - gemeu ela.

Chocada pelas palavras de Gisselle, tentei captar o seu olhar e fix-lo, mas ela recusou-se a encarar-me, receando no conseguir desviar os seus olhos, uma vez que 
encontrasse os meus.

Daphne abriu mais os olhos e fez um gesto indicativo ao meu pai, que abanou a cabea.

-No disse que ias ser castigada, apenas disse que estou desiludido convosco as duas, apenas isso - respondeu. - Ruby - comeou, voltando-se para mim -, sei que 
as bebidas alcolicas so muito frequentes onde viveste.

Comecei a abanar a cabea.

- Mas aqui temos outra forma de pensar e de agir. H uma altura prpria para beber, e as raparigas novas nunca o deveriam fazer sozinhas. Imagina que vo passear 
de carro e um dos teus amigos bebe demasiado, assim como todos os outros que esto com ele... nem gosto de pensar no que pode acontecer..

- Ou naquilo que as raparigas podem ser levadas a fazer depois de terem bebido de mais - acrescentou Daphne. No te esqueas desse ponto - advertiu, dirigindo-se 
ao marido, que, obedientemente, fez um sinal afirmativo.

- A vossa me tem razo, meninas; beber traz sempre maus resultados. Bem, mas estou disposto a perdoar-vos e a esquecer este desagradvel incidente, desde que tenha 
a vossa promessa solene de que nada semelhante ao que sucedeu ontem voltar a repetir-se.

- Prometo - afirmou Gisselle prontamente. - Afinal, nunca quis que acontecesse e hoje estou com uma terrvel dor de cabea. H pessoas que esto habituadas a beber 
muito lcool e h outras que no... - frisou, lanando um olhar na minha direco.

- Isso  uma grande verdade - secundou Daphne, fitando-me. Virei a cabea, para que ningum visse a revolta que se ia acumulando dentro de mim. O calor que me ardia 
no peito fazia-me acreditar que era capaz de pr fogo  gua.

- Ruby? - insistiu o meu pai. Engoli em seco para impedir que as lgrimas me sufocassem e forcei-me a pronunciar as palavras.

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-Prometo - afirmei ento.

- Muito bem. Agora... - comeou ele, mas foi interrompido pelo toque da campainha. Consultou o relgio e concluiu: -Deve ser o professor de pintura da Ruby.

- Dadas as circunstncias - afirmou Daphne -, no seria melhor adiar essa visita?

- Adiar? Bem... - Ele olhou para mim, e eu baixei imediatamente os olhos. - Agora vamos ter de o receber. Afinal, dispensou-nos estas horas e veio at aqui...

- No devias ter sido to impulsivo - retorquiu Daphne.
- Para a prxima, gostaria que conversasses primeiro comigo antes de tencionares fazer algo pelas meninas. Afinal - acrescentou com determinao -, sou a me delas.

O meu pai comprimiu os lbios, como se tentasse reprimir as palavras que quase lhe saram da boca e abanou a cabea.
- De acordo. No voltar a repetir-se - assegurou ento.
- Peo desculpa, monsieur - afirmou Edgar,  porta da sala ---, mas acabou de chegar o professor Ashbury. Aqui est o seu carto - afirmou, entregando-o ao meu pai.

- Manda-o entrar, Edgar.

- Muito bem, monsieur - respondeu ele.

- No creio que a minha presena seja necessria - afirmou Daphne. - Tenho alguns telefonemas para fazer. Tal como previste, todos os nossos amigos querem saber 
mais acerca da histria do desaparecimento e do rapto da Ruby. Comeo at a estar j cansada de a repetir! Teria sido boa ideia se a tivssemos publicado e distribudo 
- acrescentou, dando uma volta e saindo do estdio.

- Vou tomar uma aspirina - afirmou Gisselle, levantando-se imediatamente. - Depois, contas-me como correu o encontro com o teu professor, Ruby - disse, sorrindo 
para mim, apesar de eu no retribuir o sorriso. Quando Gisselle saiu, Edgar fez entrar o professor Ashbury, o que no me deu tempo para contar a meu pai a verdade 
acerca dos acontecimentos da noite passada.

- Como est, professor Ashbury? - cumprimentou o meu pai, estendendo-lhe a mo.

Com a aparncia de um homem que iniciara a casa dos cinquenta, Herbert Ashbury media cerca de um metro e oitenta e trazia vestidos um casaco cinzento desportivo, 
uma camisa azul-clara, uma gravata azul-escura e calas de ganga tambm azul-escuras. Tinha um rosto magro, onde todas as feies pareciam esculpidas com preciso: 
o nariz angular e um pouco comprido e a boca fina e suave como a de uma mulher.
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- Como est, Monseur Dumas? - respondeu o professor, revelando uma voz que me pareceu bastante agradvel. Estendeu a sua mo comprida e apertou a mo do meu pai. 
Usava um lindssimo anel de prata com uma pedra turquesa no dedo mindinho.

- Bem, obrigado. Agradeo-lhe a sua visita e o facto de estar a considerar admitir a minha filha como sua aluna. Gostaria agora de lhe apresentar a minha filha, 
Ruby - afirmou o meu pai com orgulho, voltando-se para mim.

Devido s suas faces descarnadas e  forma como a testa se afundava na raiz do cabelo, os olhos do professor Ashbury pareciam maiores do que de facto eram. De cor 
castanho-escuro, com laivos acinzentados, detinham-se naquilo que contemplavam com tanta firmeza que parecia que o professor estava hipnotizado pelo que via. Nesse 
momento, fixaram-se em mim de uma forma to profunda que no consegui deixar de me sentir acanhada.

- Boa tarde - cumprimentei rapidamente.

Ele passou os dedos compridos pelos fios desalinhados do cabelo castanho-claro grisalho, afastando-o da testa, e depois esboou um largo sorriso, pestanejou e ficou 
depois novamente srio.

- At agora, onde tem aprendido pintura, mademoiselle? inquiriu ento.

- Tive apenas algumas aulas no liceu estatal - respondi.
- No liceu estatal? - repetiu ele, revirando os cantos  boca como se eu tivesse dito "casa de correco para menores". Voltou-se ento para o meu pai, em busca 
de uma explicao. 

-  exactamente por esse motivo que julgo ser altamente benfico para a Ruby receber agora lies particulares de um professor to conhecido e respeitado - explicou 
o meu pai.

- No estou a perceber, monsieur. Disseram-me que os quadros da sua filha esto expostos numa das nossas galerias e pensei que...

- verdade - esclareceu o meu pai, sorrindo. - Vou mostrar-lhe um desses quadros, alis, o nico que possuo neste momento.

-Como? - indagou o professor Ashbury, com uma expresso de perplexidade no rosto. - O nico?

- Isso  outra histria, professor. Vamos comear pelo incio. Venha por aqui - pediu, conduzindo o professor at ao seu escritrio, onde o meu quadro com a gara 
azul ainda permanecia no cho, encostado  secretria.

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O professor Ashbury fitou por alguns instantes o quadro e depois avanou dois passos para lhe pegar.

- D-me licena? - perguntou ao paizinho. -Faa favor.

O professor Ashbury pegou ento no quadro e segurou-o a alguma distncia dos olhos. Observou-o por alguns instantes e depois voltou a pous-lo lentamente no cho.

- Agrada-me - afirmou, voltando-se para mim. - Captou um sentido de movimento. Tem um aspecto realista e ,no entanto... tem algo de misterioso. Soube utilizar muito 
bem as sombras, de uma forma inteligente. O cenrio tambm foi bem retratado... Passou algum tempo no bayou?

- Vivi no bayou desde que nasci - expliquei.

O brilho dos olhos do professor Ashbury intensificou-se, interessado. Abanou ento a cabea e voltou-se mais uma vez para o paizinho.

- Desculpe, monsieur - comeou -, no gostaria que esta nossa entrevista fosse um interrogatrio cerrado, mas julguei ter ouvido que a Ruby era sua filha.

-Ouviu bem,  essa a verdade - respondeu o pai. Mas a Ruby s agora veio viver comigo.

- Compreendo - respondeu ele, pousando de novo os olhos em mim. No se mostrou espantado, nem chocado pela informao, mas sentiu que teria de continuar a justificar 
o seu interesse pelas nossas vidas pessoais. - Gosto de conhecer os meus alunos, principalmente aqueles a quem dou aulas particulares. A arte, a arte genuna, vem 
sempre do interior - declarou, colocando a mo direita sobre o corao. - Posso ensinar-lhe as tcnicas, mas os motivos que a sua filha escolhe pintar nenhum professor 
pode determinar ou ensinar. Trata-se de um contributo prprio, da sua vida, da sua experincia e da sua viso     continuou. - Compreende, monsieur?

Eh... Bem - respondeu o meu pai-, certamente que sim. Caso assim o entenda, pode saber tudo acerca da vida da minha filha. Mas a questo principal  a seguinte: 
acredita que a Ruby tem talento, conforme pensam aqueles que exibiram os seus quadros?

- Sem dvida - admitiu o professor Ashbury, analisando de novo o quadro e fitando-me em seguida. - Pode vir a ser a melhor aprendiz que alguma vez tive - acrescentou 
ento.

Abri a boca de espanto, enquanto o meu pai sorriu de contentamento.

- Foi exactamente o que pensei, apesar de no ser um perito em arte.

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- Nem  necessrio s-lo para compreender o potencial aqui existente - retorquiu o professor Ashbury, observando mais uma vez o meu quadro.

- Deixe-me agora mostrar-lhe o atelier - pediu o meu pai, conduzindo o professor pelo corredor. Este ficou muito impressionado, alis, como qualquer um ficaria.

- melhor do que aquele que temos no colgio - murmurou em voz baixa, como se receasse que os directores o ouvissem.

- Quando acredito em algum ou nalguma ideia, professor Ashbury, empenho-me de uma forma total - declarou o meu pai.

-  Assim o vejo. Muito bem, monsieur - afirmou de uma forma um pouco pomposa -, aceito a sua filha como minha aluna. Desde que... - acrescentou, pousando em mim 
os olhos. - Desde que ela deseje,  claro, aceitar plenamente a minha instruo, sem a questionar.

-Estou certo que  essa a sua vontade, no  assim, Ruby?

- Como? oh!, sim! Obrigada - acedi imediatamente. Estava ainda a digerir os anteriores elogios do professor Ashbury. -Vai ter de recordar todas as regras bsicas 
- avisou ele. ,    Depois vai aprender a disciplinar essas normas e s quando a considerar preparada  que ter oportunidade de expandir a sua imaginao. So muitos 
os que nascem com talento - declarou-, mas muito poucos os que aceitam a disciplina necessria para desenvolver correctamente esse dom.

-A Ruby ir, com certeza, aceit-la - assegurou o meu pai.

-  Assim o espero, monsieur.

-Queira acompanhar-me at ao meu escritrio, a fim de acertarmos as nossas contas - pediu ento o pai. O professor Ashbury, ainda com os olhos fitos em mim, acenou 
com a cabea. - Quando  que pensa ser possvel comear as aulas, professor?

- Na prxima segunda-feira, monsieur - respondeu. Apesar de este ser um dos melhores ateliers da cidade, posso, ocasionalmente, julgar oportuno que a sua filha v 
at ao meu
- esclareceu.

-No ser difcil.

- Trs bien - respondeu o professor Ashbury, cumprimentando-me com um inclinar de cabea e saindo aps o meu pai.

O meu corao pulava de excitao. A grandmre Catheri-
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ne tinha sempre manifestado tanta certeza acerca do meu talento artstico! Sem uma grande educao escolar e apesar de serem mnimos os seus conhecimentos sobre 
arte, ela sempre acreditara de todo o corao que eu viria um dia a ter sucesso. Quantas vezes no me tinha a grandmre assegurado isso! e ,agora, um conhecedor 
de arte e professor de um colgio, tinha acabado de me declarar com potencial suficiente para ser, talvez, a sua futura melhor aluna.

Ainda a tremer de alegria, subi as escadas a correr para ir contar a Gisselle, tendo o corao to cheio de alegria que j no era capaz de sentir raiva. Repeti 
rapidamente tudo quanto o professor havia dito, enquanto Gisselle, experimentando vrios chapus sentada diante do espelho do toucador, ouvia o meu relato, fitando-me 
espantada no final.

- Queres mesmo ficar horas a ouvir esse professor, depois de teres passado quase todo o dia na escola? - perguntou.
- Claro que quero! Uma coisa no tem nada a ver com a outra. Foi o que sempre... sonhei fazer - respondi.

Ela encolheu os ombros.

- Eu no era capaz. Foi por isso que nunca insisti em ter aulas de canto. Temos to pouco tempo para nos divertir! Esto sempre a dar-nos mais alguma coisa para 
fazer: os professores pedem imensos trabalhos de casa e obrigam-nos a estudar para os testes... e ainda temos de adaptar as nossas vidas aos horrios dos pais!

"Quando conheceres mais rapazes e fizeres novos amigos, no vais ter vontade de perder tempo com um professor de pintura!

-Mas no  uma perda de tempo.

- Por favor - suspirou ela. - Toma - exclamou, atirando-me uma boina azul-escura. - Experimenta essa boina. Vamos ao Bairro Francs dar uma volta. No deves parecer 
uma criancinha acabada de nascer - acrescentou.

Soou ento a buzina de um carro, com um som muito engraado: Blip, blip, blip.

-O Beau e o Martin chegaram. Vamos - anunciou Gisselle, levantando-se de um salto. Pegou depois na minha mo e puxou-me, sem mostrar o mnimo sentimento de remorso 
por aquilo que havia dito ao nosso pai e a Daphne acerca de mim, h poucos minutos atrs. De facto, as mentiras esvoaavam por aquela casa to facilmente como bales.

- No vo mentir-nos mais uma vez acerca de quem  quem, pois no? - indagou Martin com um sorriso, abrindo a porta do carro desportivo de Beau para entrarmos.

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- Agora que ests a ver-me  luz do dia - retorquiu Gisselle -, decerto vais poder ver que sou a Gisselle. - Martin olhou para ela, depois para mim, e finalmente 
acenou com a cabea, convencido.

- Sem dvida - concordou, usando um tom de voz que nos deixou na dvida se se trataria de um elogio a mim ou a Gisselle. Beau soltou uma gargalhada e Gisselle, aborrecida, 
declarou que nos sentaramos ambas no banco de trs.

Muito apertadas no pequeno banco de trs do carro desportivo de Beau, segurmos as boinas para que no voassem da cabea, quando este acelerou na curva. Devido  
velocidade que atingimos na rua seguinte, ambas gritmos, embora os gritos de Gisselle soassem mais alto, pelo simples prazer da velocidade; os meus eram provocados 
apenas pelo medo que fazia bater mais depressa o meu corao cada vez que os pneus chiavam ao fazer uma curva. Devamos proporcionar, pensei ento, um espectculo 
engraado: sentadas lado a lado, exactamente iguais e com o cabelo ruivo despenteado a esvoaar, como chamas a danar ao vento. Na rua, havia at quem parasse para 
nos ver passar, e os rapazes assobiavam e gritavam.

-No adoras receber estes piropos? - gritou Gisselle ao meu ouvido. Devido ao barulho do motor e ao vento que assobiava nos nossos ouvidos, tnhamos de gritar para 
que mesmo quem estava sentado ao nosso lado pudesse ouvir.

Fiquei sem saber o que dizer. Lembrava-me que, ocasionalmente, no bayou, quando passava um camio ou um carro, havia homens que gritavam e assobiavam da mesma forma. 
Quando era mais nova, achava isso muito engraado, mas, em determinada ocasio, apanhara um grande susto, quando um certo homem que conduzia uma camioneta castanha 
muito suja, depois de gritar elogios, me tinha seguido lentamente ao longo de um canal, incitando-me a entrar. Oferecera-se para me dar uma boleia at  cidade, 
mas algo de esquivo na forma como me olhava fez o meu corao bater de pavor. Voltei ento a correr para casa e ele acabou por se afastar, mas no contei nad  grandmre 
Catherine, porque tive medo que ela me proibisse de ir sozinha at  cidade.

e ,no entanto, tinha conscincia de que havia raparigas da minha idade e mais velhas que passeavam nas ruas todos os dias sem nunca terem direito a um segundo olhar. 
Era lisonjeador receber elogios, mas, ao mesmo tempo, assustador, apesar de a minha irm gmea apenas sentir satisfao por ser o alvo de tanta ateno e ficar at 
espantada por eu no reagir da mesma maneira.

265
A nossa visita ao Bairro Francs foi bastante diferente daquela que tinha feito antes na companhia de meu pai, pois Beau, Martin e Gisselle apontaVam-me tudo aquilo 
que eu ainda no vira, apesar de se tratar exactamente das mesmas ruas. Talvez fosse por ser mais tarde, mas reparei que as mulheres que estavam  porta dos bares 
e clubes de jazz usavam muito pouca roupa, algumas pareciam mesmo apenas vestidas com peas de roupa interior. Usavam tambm muita maquilhagem e quase pareciam palhaos, 
tanta era a quantidade de rouge, bton e eyeliner.

Beau e Martin olhavam embasbacados para elas, sorrindo de uma forma maliciosa. De vez em quando, havia uma que murmurava algo ao ouvido de um deles, o que lhes provocava 
um riso histrico. Gisselle dava cotoveladas a um e a outro e acabava tambm por rir.

Os ptios pareciam-me mais escuros, as sombras mais intensas e a msica mais alta. Nas portas dos bares e dos restaurantes, quase sempre muito pouco iluminados, 
estavam homens e por vezes tambm mulheres a incitar os pedestres a entrar e a apreciar o melhor jazz, a melhor dana ou a melhor comida de Nova Orlees. Parmos 
num quiosque para comprar sanduches e Beau, conseguiu garrafas de cerveja para todos ns, apesar de ningum ser maior. Sentmo-nos numa mesa de uma esplanada do 
passeio para comer e beber, mas, quando dois polcias surgiram no outro lado da rua, o meu corao disparou. Julguei que fossem prender-nos a todos, mas eles passaram 
sem sequer reparar em ns.

Em seguida, entrmos e samos de vrias lojas, entretidos com os souvenirs, as quinquilharias e as novidades. Depois, Gisselle resolveu entrar numa loja pequena 
que anunciava os apetrechos sexuais mais chocantes que eu alguma vez vira. Era preciso ter dezoito anos ou mais para poder entrar nessa loja, mas o vendedor no 
nos mandou sair. Os rapazes folhearam livros e revistas, com um riso nervoso e estridente, e Gisselle chamou a minha ateno para uma rplica em borracha do rgo 
sexual masculino. Quando ela perguntou ao vendedor se a podia ver melhor, sa a correr para a rua.

Minutos depois, todos me seguiram, rindo de mim.

- Quando vieste visitar o Bairro Francs, o pap no deve ter-te trazido aqui - gracejou Gisselle.

- Que nojo! - exclamei. - Como  que existem compradores para esse gnero de coisas?

A minha pergunta apenas aumentou as gargalhadas de Gisselle e de Martin, mas, quanto a Beau, esse apenas esboou um leve sorriso.

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Na esquina seguinte, Martin pediu-nos para esperar um pouco, enquanto ele se aproximava de um homem com um casaco de couro preto, sem camisa por baixo, com os braos 
e os ombros cheios de tatuagens. O homem ouviu o que Martin lhe disse e depois ambos se encaminharam para dentro de um beco.
- O que est o Martin a fazer? - quis saber.

-Est a arranjar aquilo que vamos tomar mais logo respondeu Gisselle, lanando a Beau um olhar, a que este correspondeu com um sorriso.

-A arranjar o qu?

- Depois vs - disse ela. Martin, entretanto apareceu, acenando satisfeito com a cabea.

- Vamos levar a Ruby a Storyville - sugeriu Gisselle.
- e que tal se fssemos antes ver as lojas das arcadas da doca? - contraps Beau.

- oh!, visitar, Storyville no lhe vai fazer mal nenhum. Alm disso, ela precisa de ser instruda, se vai passar a viver em Nova Orlees - insistiu Gisselle.

- O que  Storyville? - perguntei, imaginando um local onde se venderiam livros e outros artigos relacionados com histrias famosas. - O que vendem nesse stio?

A minha pergunta provocou outra vez o riso histrico dos trs.

-No percebo porque riem de tudo aquilo que eu digo ou pergunto - retorqui, irritada. - Se um de vocs fosse para o bayou e passeasse comigo pelos pntanos, iriam 
com certeza fazer tambm muitas perguntas idiotas. e posso garantir-vos que ficariam muito mais assustados do que eu - acrescentei, o que fez desaparecer os sorrisos 
que tinham estampados nos rostos.
- Tens razo - respondeu Beau.

- e da? Agora estamos na cidade e no nos pntanos retorquiu Gisselle. - e ,pela minha parte, no tenho a menor inteno de ir ao bayou.

Vamos - continuou ela, pegando de uma forma brusca no meu brao. - Subimos aqui umas ruas e depois dizes-nos o que achas que se vende em Storyville.

O desafio lanado por Gisselle devolveu um sorriso ao rosto de Martin, mas Beau mostrou-se ainda preocupado. Tambm j curiosa, segui Gisselle pelas ruas seguintes 
at virarmos uma esquina e depararmos com uma rua com muitas casas elegantes. -Onde ficam as lojas? - indaguei.

- Olha para ali - apontou Gisselle, indicando um edifcio de quatro andares com janelas de sacada e uma cpula no telhado, pintada num tom de branco-plido. Entretanto, 
uma lu-

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xuosa limusina encostou na entrada, e o motorista saiu para abrir a porta a um senhor de idade com uma aparncia muito distinta. Este subiu solenemente o breve lano 
de escadas at  porta de casa, tocou  campainha e um momento depois entrou.

Estvamos suficientemente perto para poder ouvir a msica que vinha de dentro de casa e para ver a mulher que veio abrir a porta. Era alta, tinha uma tez escura, 
e usava um vestido vermelho de brocado; o colar e a pulseira que trazia tinham que ser imitaes de diamantes, pois eram enormes. Mas o mais curioso era que tinha 
na cabea umas plumas muito grandes.

Pude tambm ver o enorme vestbulo de entrada da casa, com lustres de cristal, espelhos dourados e sofs de veludo. Um pianista negro tocava piano, baloiando-se 
no banco e ,mesmo antes de fecharem a porta, vi uma rapariga que levava uma travessa com taas de champanhe, usando apenas umas cuecas e um soutien.

- Que lugar  este? - perguntei, sufocada.
- Lulu swhites -     esclareceu Beau.

-No estou a perceber. Esto a dar alguma festa?

- S para aqueles que pagam - respondeu Gisselle.  um bordel, uma casa de prostitutas - acrescentou, ao ver que eu no respondia imediatamente.

Voltei a fixar a enorme porta que logo depois se voltou a abrir para, desta vez, sair um senhor acompanhado por uma rapariga nova com um vestido verde-brilhante, 
de tal forma decotado que quase deixava ver o umbigo. De incio, o rosto da rapariga estava encoberto por um leque de plumas brancas, mas, quando ela o afastou, 
vi-lhe as feies e no pude deixar de abrir a boca. Levou ento o senhor at ao carro e deu-lhe um beijo vistoso antes de ele se acomodar no banco de trs. Quando 
o carro arrancou, ela voltou-se e viu-nos.

Era Annie Gray, a rapariga mestia que eu conhecera na viagem de autocarro para Nova Orlees, que utilizara a magia vodu para me ajudar a encontrar a morada do meu 
pai. Ela tambm me reconheceu imediatamente.

-Ruby! - chamou, acenando.
- H?... - exclamou Martin.

-Essa mulher conhece-te? - perguntou Beau. Gisselle deu dois passos para trs, perplexa. -Ol - respondi-lhe eu.

-Vejo que j conheces muito bem a cidade - afirmou ela. Fiz sinal que sim, sentindo a garganta seca. Entretanto, Annie lanou um olhar  porta da frente.      A 
minha tia trabalha aqui, estou s a ajud-la - continuou.      Mas, em breve, vou
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ter um emprego melhor. Descobriste bem a casa do teu pai? Eu acenei com a cabea. - Ol, meninos - cumprimentou ela.

- Ol - respondeu Martin; Beau cumprimentou-a apenas com a cabea.

- Tenho de voltar a entrar - afirmou Annie. - Vais ver que, muito brevemente, vais encontrar-me a cantar nalgum bar
- acrescentou, subindo apressada os degraus, acenando  porta e desaparecendo em seguida.

- No posso acreditar! Tu conhece-la? - inquiriu Gisselle.
- Conheci-a no autocarro - comecei a explicar.

- Conheces uma verdadeira prostituta... - continuou ela e disseste que no sabias o que era este local?

-e no sabia - protestei.

- A pequena menina bem-comportada conhece uma prostituta - prosseguiu Gisselle, dirigindo-se aos rapazes, que olharam para mim como se tivessem acabado de me conhecer.

- Conheo-a muito mal - insisti, mas Gisselle apenas sorriu. -  verdade!

-Vamos embora - disse Gisselle.

Voltmos para trs caminhando bastante depressa, e durante os primeiros minutos ningum falou. De vez em quando, Martin olhava para mim, sorria e abanava a cabea.

-Onde  que vamos para fazer aquilo? - perguntou Beau, quando j estvamos todos dentro do carro.

- Para minha casa - respondeu Gisselle. - A minha me deve ter ido tomar ch a casa de alguma amiga e o pap deve estar ainda no escritrio.

-Fazer o qu? - indaguei.

- Espera e vers - respondeu Gisselle, acrescentando para os rapazes: - Se calhar, ela tambm j o fez muitas vezes. Se conhece uma prostituta...

-J disse que a conheo muito mal. Esteve s algumas horas no autocaro sentada ao meu lado - insisti.

-Ela sabia que estavas  procura do teu pai... Pareciam velhas amigas... - provocou Gisselle. - Por acaso, no foram colegas? - continuou. Martin voltou-se para 
trs, com uma expresso trocista e curiosa.

- Pra com isso, Gisselle - respondi eu.

Beau acelerou o carro e arrancou, ao som das gargalhadas de  Gisselle.

Edgar cumprimentou-nos na entrada, mal entrmos em casa.
- A minha me est em casa? - perguntou-lhe Gisselle.
- No, mademoiselle - respondeu ele. Gisselle lanou um olhar cmplice a Martin e a Beau, que a foram seguindo at ao seu quarto.

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- O que vamos fazer? - perguntei, vendo-a tirar a boina e cobrir o mximo possvel as janelas.

Beau, entretanto, pulou para cima da cama, enquanto Martin retirava do bolso aquilo que me parecera serem os cigarros que o grandpre Jack enrolava para fumar.

- So cigarros? - indaguei, espantada, mas tambm um pouco aliviada. Sabia de alguns midos do bayou que tinham comeado a fumar aos dez ou onze anos. Havia pais 
que no se importavam, mas a maioria no aprovava. Eu nunca gostara do sabor, nem da sensao de ter a boca transformada em cinzeiro e tambm no gostava do cheiro 
com que ficavam as roupas de alguns colegas meus.

- No so cigarros! So charros - informou Gisselle.
- Charros?

O sorriso de Martin aumentou e Beau sentou-se, de sobrancelhas arqueadas e com uma expresso curiosa no rosto. Abanei a cabea.

-Nunca ouviste falar de marijuana? - perguntou ento Gisselle.

- oh! - exclamei, apenas com os lbios, sem chegar a emitir algum som. Apesar de nunca ter visto assim de perto, sabia o que era. No bayou, havia alguns bares de 
m qualidade onde se sabia que fumavam marijuana, mas a grandmre Catherine avisara-me que nunca deveria entrar nesses stios. Alguns dos colegas da escola falavam 
sobre isso, havia mesmo quem j tivesse provado, apesar de aqueles que eu conhecia melhor nunca o terem feito.

- Claro que j ouvi falar - respondi.

- Mas nunca provaste? - indagou ela, sorrindo. Respondi que no com um gesto de cabea.

- Ser que desta vez devemos acreditar nela, Beau? perguntou Gisselle; ele encolheu os ombros.

- verdade - insisti.

-Ento esta vai ser a tua primeira vez - afirmou Gisselle. - Martin! - Este levantou-se e distribuiu um charro a cada um de ns, mas hesitei antes de aceitar.

-No tenhas medo, que no te vai morder - disse ele, rindo. - Vais adorar!

- Se queres sair connosco e com o resto dos meus amigos, no podes ser sempre uma desmancha-prazeres - avisou Gisselle.

Olhei para Beau.

- Devias experimentar, pelo menos uma vez - afirmou ele. Ento, embora com bastante relutncia, acabei por aceitar.
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Martin acendeu-os todos e eu apressei-me a colocar o meu na boca, expelindo o fumo mal o senti chegar  garganta.

- No, no, no - disse Gisselle -, no podes fumar isto como se fosse um cigarro. Ests a fingir que no sabes ou s mesmo tola?

-No sou tola - retorqui, indignada. Olhei para Beau que se deitara na cama a fumar marijuana com inegvel experincia.

-No  mau - anunciou ento.

- Inalas o fumo, mas no o expeles logo - instruiu Gisselle. - Vamos, faz como te ensinei - ordenou, fixando em mim os seus olhos glidos. Contra vontade, obedeci.

- Isso mesmo - aprovou Martin, que sentado no cho tambm fumava.

Gisselle resolveu ento pr uma msica a tocar. Todos tinham os olhos fitos em mim; por isso, continuei a fumar e a inalar, a segurar o fumo e a exalar. No estava 
certa de quais seriam as consequncias, mas logo depois comecei a sentir a cabea muito leve, como se, fechando os olhos, pudesse voar at ao tecto. Devia ter feito 
uma expresso muito engraada, porque os trs comearam a rir de mim, s que, desta vez, tambm me ri. O meu riso aumentou as gargalhadas deles, que por sua vez 
aumentaram as minhas. Na verdade, ria-me tanto que o estmago me doia; porm, apesar das dores, no conseguia parar de rir. Cada vez que parava, bastava-me olhar 
para um deles e sentia de novo vontade de rir.

Subitamente, a vontade de rir converteu-se em vontade de chorar, sem eu saber porqu. Senti apenas as lgrimas correr pelo rosto e a minha expresso a alterar-se. 
Antes que me pudesse aperceber, estava sentada no cho com as pernas cruzadas a soluar como um beb.

- Ei! - exclamou Beau, levantando-se de imediato para tirar o cigarro de marijuana da minha mo e lanando o meu e o que restava do dele na sanita da casa de banho 
de Gisselle.

- Ouve, estes charros so bom material... - gritou Martin.
- e so caros tambm! - acrescentou.

-  melhor fazeres alguma coisa, Gisselle - afirmou Beau, ao verificar que o meu choro, em vez de parar, aumentava. Sentia os ombros a tremer e o peito a doer, mas 
no conseguia controlar-me. - Foi demasiado forte para ela.

- Mas o que  que eu posso fazer? - perguntou Gisselle.
- Acalm-la.

- Acalma-a tu - respondeu ela, deitando-se de costas no cho. Martin soltou uma gargalhada e arrastou-se para perto dela.
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- Muito bem - exclamou Beau, aproximando-se de mim e segurando o meu brao. - Vem comigo, Ruby. Tens de te deitar no teu quarto. Vem - insistia ele.

Ainda a chorar, permiti que ele me ajudasse a levantar e me conduzisse para o meu quarto.

- Este quarto  o teu? - perguntou, indicando a porta do lado. Confirmei, e Beau fez-me entrar, levando-me at  cama, onde me deitei de costas com as mos a cobrir 
os olhos. Aos poucos, fui parando de soluar e fiquei apenas a fungar; depois, de repente, fiquei com soluos e no fui capaz de parar. Beau foi  casa de banho 
e trouxe-me um copo de gua.

- Bebe um pouco de gua - pediu, sentando-se a meu lado, ajudando-me a levantar a cabea e levando o copo at aos meus lbios.

-Obrigada - murmurei, comeando de novo a rir.

- oh, no - exclamou ele. - Vamos, Ruby, tenta controlar-te. Vamos - pediu ele. Tentei conter a respirao, mas no consegui e comecei novamente a rir, por tudo 
e por nada. Finalmente, fiquei to cansada que bebi um pouco mais de gua, fechei os olhos e respirei fundo.

- Desculpa - gemi -, desculpa.

- No faz mal. J tinha ouvido falar desse tipo de reaco mas nunca tinha assistido a nada assim. Sentes-te melhor?
- J me sinto bem, mas estou muito cansada - confessei,

deixando cair a cabea na almofada.

- s um verdadeiro mistrio, Ruby - afirmou Beau.

- Sabes muito mais do que a Gisselle e ,no entanto, conheces tambm muito menos.

- No estou a mentir - respondi. -O qu?

- No estou a mentir! S conheci aquela mulher no autocarro.

- Ah! - exclamou, deixando-se estar ali sentado. Senti depois a mo dele a acariciar o meu cabelo e os seus lbios tocarem os meus com muita suavidade. No abri 
os olhos durante o beijo, nem os abri depois, e mais tarde, quando me lembrei disso, no tive a certeza se teria realmente acontecido ou se tinha sido apenas mais 
outra reaco a marijuana.

Apercebi-me de que Beau se levantou da cama; quando abriu a porta para sair, eu estava j completamente adormecida e s acordei quando senti que algum me abanava 
vigorosamente os ombros, fazendo toda a cama estremecer. Abri ento os olhos e vi Gisselle.

-A me mandou-me vir chamar-te - queixou-se.
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-O qu?

-Esto  tua espera para jantar, estpida.

Sentei-me lentamente e esfreguei os olhos para conseguir ver as horas.

- Devo ter desmaiado - murmurei, chocada com as horas.
- Est bem, mas, por favor, no lhes digas o motivo nem lhes contes nada do que fizmos, percebeste? - ordenou. -Claro que no.

- Acho bem. - Gisselle fitou-me durante uns segundos e depois os seus lbios esboaram um sorriso irnico. - Parece que o Beau gosta muito de ti - afirmou. - Ficou 
muito abalado com o que aconteceu.

Fiquei a olhar para ela, sem dizer nada; era como se estivesse  espera que casse o segundo sapato, que Gisselle se encarregou de deixar cair, encolhendo os ombros.

-De qualquer forma, j estou a cansar-me do Beau confessou. - Se calhar, vou deixar-te ficar com ele. Depois, mais tarde, retribuis a minha generosidade - acrescentou. 
Agora, despacha-te e desce.

Fiquei a v-la sair e depois abanei a cabea, imaginando o que levaria qualquer rapaz a gostar de uma rapariga que encarava to futilmente o seu afecto, a ponto 
de decidir abdicar dele por puro capricho e partir em busca de outra pessoa.

Ou estaria apenas Gisselle a fingir que podia abdicar de algo que, na verdade, j sabia ter perdido? Mas, mais importante que tudo, desejaria eu verdadeiramente 
o que a minha irm pretendia ceder?

APRENDENDO A ADAPTAR-ME

Alguns dias depois, as frias acabavam e recomeava a escola. Apesar de todos me assegurarem que tudo iria correr bem, de Beau prometer solenemente estar todo o 
tempo possvel a meu lado e de Nina me oferecer mais um amuleto, no conseguia deixar de me sentir muito apreensiva e terrivelmente nervosa por ir frequentar um 
outro liceu, especialmente por ser um liceu de cidade.

Beau veio buscar a Gisselle para a levar  escola, mas nessa primeira manh de escola em Nova Orlees, daphne e o meu pai acompanharam-me a fim de fazer a matrcula.

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Deixei que fosse Gisselle a escolher a saia e a blusa que usaria nesse dia, e ,mais uma vez, a minha irm resolveu vestir tambm a minha roupa, o que sucederia sempre 
at ela convencer daphne a comprar-lhe mais algumas roupas.

- No posso reservar-te um lugar ao p de mim na sala de aulas - informou, antes de descer a correr para vir ao encontro de Beau -, porque estou rodeada por rapazes 
e todos se negam a sair do meu lado. Mas no te aflijas que na hora de almoo ficars na nossa mesa, na cantina - acrescentou, j sem flego. Estava com pressa, 
pois Beau j apitara duas vezes e graas a Gisselle, contara ele antes, tinham chegado trs vezes atrasados s aulas apenas nesse ms e ,se isso voltasse a acontecer, 
sofreriam ambos como castigo uma semana de suspenso.

- Est bem - gritei, to nervosa que sentia os dedos entorpecidos. Olhei-me pela ltima vez ao espelho e desci a fim de esperar por Daphne e pelo meu pai. Foi ento 
que Nina me ofereceu o amuleto, um outro pedao de osso da perna de um gato preto, que, certamente, teria sido morto exactamente  meia-noite. Agradeci-lhe e guardei-o 
no meu livro de bolso, ao lado do outro pedao de osso que Annie Gray me havia oferecido. Com tamanha boa sorte, pensei, como poderia eu sofrer algum azar?

Uns momentos mais tarde, daphne descia as escadas, acompanhada por meu pai. Ela parecia extremamente elegante, com o cabelo entranado penteado para trs. Usava 
argolas de ouro e trazia um vestido de algodo marfim, com um cinto por baixo do peito, mangas compridas de punhos tufados e decote subido. Com sapatos de saltos 
altos e com uma sombrinha a condizer com o vestido, parecia que se tinha arranjado para uma recepo de fim de tarde, e no como uma me que ia ao liceu matricular 
a filha.

O meu pai sorria despreocupadamente, mas daphne no escondia a sua preocupao acerca da atitude com que eu deveria iniciar a escola em Nova Orlees.

- J todos sabem da tua existncia - discursou ela, quando amos a caminho. - Tens sido o principal tema de todas as conversas, quer nos jogos de brdege, nos chs 
da tarde ou nos jantares do Garden District, bem como de outras zonas. Por isso,  natural que os filhos de todas essas famlias estejam igualmente curiosos a teu 
respeito.

"0 que no deves esquecer nunca  que, a partir de agora, tens Dumas no teu nome. Como tal, mantm isso no teu pensamento, no importa o que acontea e apesar do 
que algum diga. Tudo aquilo que disseres e fizeres reflecte-se em todos ns. Ests a compreender, Ruby?
- Sim, senhora... Quer dizer, me - emendei rapidamente. daphne tinha j franzido as sobrancelhas, mas a minha rpida correco agradou-lhe.

- Vai tudo correr bem - afirmou o meu pai. - Vais conhecer tanta gente e fazer novos amigos to depressa que vais sentir a cabea a andar  roda! Tenho a certeza.

-Assegura-te de que escolhes bem as companhias, Ruby
- avisou daphne. - Nos ltimos anos, uma classe diferente conseguiu instalar-se neste bairro, sem a educao nem o conhecimento das boas famlias crioulas.

Uma onda de pnico invadiu o meu peito. Como saberia eu distinguir um crioulo de boa famlia de um outro qualquer? daphne apercebeu-se, entretanto, dos meus receios.

- Se sentires alguma dvida, pergunta  Gisselle - aconselhou.

Gisselle frequentava, tal como eu iria passar a fazer, a Escola Beauregard, que tinha esse nome em homenagem a um general sulista de quem os estudantes pouco ou 
nada sabiam. Mas a esttua do general com a sua espada erguida tinha sido vtima de muitos ataques de vandalismo e estava j partida, rachada e deformada; ficava 
no centro da praa que dava para a entrada principal da escola.

Chegmos logo aps ter soado o primeiro toque da manh. O grande edifcio de tijolos vermelhos pareceu-me imenso e austero, com os seus trs pisos a lanar uma longa 
sombra densa sobre os canteiros, as flores, os sicmoros, os carvalhos e as magnlias. Depois de termos estacionado, entrmos no edifcio e dirigimo-nos ao escritrio 
do director, antecedido por um gabinete exterior onde trabalhava como secretria uma senhora de idade. Esta parecia assoberbada pelas pilhas de papis, pelo constante 
toque do telefone e pelas exigncias dos estudantes que se amontoavam diante da sua secretria. Tinha os dedos manchados de tinta azul, por tanto passar cpias de 
mensagens e comunicados no mimegrafo e at mesmo no queixo e na face direita tinha uma ndoa de tinta. Imaginei que devia ter chegado  escola no mximo do aprumo, 
mas nessa altura j os fios do cabelo grisalho azulado estavam espetados como cordas de guitarra partidas e os culos pendiam precariamente na ponta do nariz.

Mal entrmos, ela apercebeu-se da presena de daphne e ,voltando as costas aos alunos, comeou imediatamente a passar as mos pelo cabelo desalinhado, at se dar 
conta das manchas de tinta que tinha nos dedos; resolveu ento sentar-se e esconder as mos debaixo da secretria.

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Bom dia, Madame Dumas - cumprimentou ela. - Como est, monsieur? - O meu pai dedicou-lhe um sorriso e em seguida sorriu tambm para mim. - Ento esta menina  que 
 a nossa nova aluna?

Sim - confirmou daphne. - Temos uma reunio marcada para as oito com o doutor Storm - acrescentou, lanando um olhar ao relgio de parede que acabara de bater as 
oito.

-Com certeza, madame. Vou informar o doutor da vossa chegada -- afirmou, levantando-se. Bateu ento  porta do escritrio contguo e abriu-a apenas o suficiente 
para poder entrar no escritrio do director, fechando-a rapidamente logo de seguida.

Os alunos que ali estavam quando chegmos retiraram-se entretanto, fitando-me to intensamente como se tivesse uma verruga na ponta do nariz. Depois de sarem, passei 
os olhos pelas prateleiras cheias de impressos todos bem organizados, pelos anncios dos prximos acontecimentos desportivos e artsticos, pelas listas afixadas 
com as regras e os regulamentos em caso de incndios e exerccios de defesa antiarea, bem como com as devidas regras de comportamento dentro e fora das aulas. Reparei 
que fumar era expressamente proibido e que todos os actos de vandalismo, apesar do estado em que se encontrava a esttua de Beauregard, eram considerados uma ofensa 
punvel com a expulso.

A secretria voltou a aparecer e manteve a porta aberta para ns entrarmos, declarando:

-O doutor Storm est  vossa espera.

Haviam sido dispostas trs cadeiras diante da secretria do director. Sentia que tinha dzias de borboletas a esvoaar dentro do estmago e invejei a serenidade 
e a autoconfiana de daphne, que foi a primeira a entrar. O director levantou-se para nos receber.

O Dr. Lawrence P. storm, conforme informava a identificao metlica que trazia na lapela, era um homem baixo e robusto, de rosto redondo, com uma enorme papada. 
Os seus lbios grossos pareciam de borracha e os olhos salientes lembravam-me os de um peixe. Mais tarde, daphne, que conhecia todos os cidados respeitveis, informou-me 
que ele sofria da tiride, mas assegurou-me tambm que era o melhor director de todos os colgios da cidade, pois possua um doutoramento em Pedagogia.

O Dr. storm, que usava risca ao meio e penteara para trs o cabelo amarelado, estendeu a sua balofa mo, que o meu pai apertou imediatamente.

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- Monsieur e Madame Dumas - exclamou, baixando a cabea a Daphne. - Parece estarem ambos de muito boa sade.

- Obrigado, doutor Storm - agradeceu o meu pai, enquanto Daphne, que no fazia questo de disfarar a m vontade que sentia em ser obrigada a cumprir aquela tarefa, 
foi directa ao assunto.

- Estamos aqui para matricular a nossa filha. Estou certa de que j deve ter tomado conhecimento dos pormenores acrescentou.

As espessas sobrancelhas do director arquearam e uniram-se, lembrando duas lagartas juntas.

- De facto, madame. Sentem-se, por favor - pediu, o que todos fizemos enquanto ele comeou imediatamente a rebuscar uns papis. - J preparei todos os impressos 
necessrios para o efeito. Julgo que o teu nome  Ruby, estou certo? - perguntou, fitando-me pela primeira vez.

- Sim, monsieur.

- Doutor Storm - corrigiu Daphne.

- Doutor Storm - repeti. Ele esboou um pequeno sorriso. -Pois bem, Ruby - continuou-, quero dar-te as boas-vindas ao teu novo colgio e desejar que seja uma experincia 
bastante produtiva e agradvel para ti. Consegui encaixar-te em todas as aulas da tua irm, para que ela possa ajudar-te a acompanhar a matria. Seria bastante til 
se consegussemos obter as provas que a Ruby prestou na escola anterior - declarou, voltando-se para o meu pai -, e agradeo todas as informaes que nos possa dar 
para acelerar esse assunto, monsieur.

- Certamente - respondeu o meu pai.

-Frequentaste este ano a escola, no  assim, Ruby? quis confirmar o Dr. Storm.

- Sim, doutor Storm, sempre frequentei a escola - fiz questo de realar.

- Muito bem - exclamou, apoiando as mos gordas no tampo da secretria e inclinando o tronco, com o corpo a escorregar para a frente. Contudo, espero que venhas 
a considerar este tipo de ensino bastante diferente daquele que conheceste at hoje. Para comear, a Escola Beauregard  considerada uma das melhores da cidade e 
uma das mais avanadas. Temos os melhores professores e atingimos os melhores resultados.

Sorriu para o pai e para Daphne e depois continuou.

- Escusado ser dizer que as condies em que s admitida so nicas. A tua notoriedade e os acontecimentos do teu passado j so conhecidos de todos, julgo eu. 
Vais ser objecto de muita curiosidade e de muita conversa. Resumindo, durante

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algum tempo sers o centro das atenes, o que, infelizmente, dificultar o teu ajustamento.

"Mas no o impedir - acrescentou rapidamente, ao reparar no pnico que se estampara no meu rosto. - Estarei ao teu dispor para qualquer ajuda de que necessites. 
Sempre que queiras, podes vir at ao meu gabinete e pedir para ser recebida.

Vi os seus lbios de borracha esticarem mais e mais at se tornarem to finos quanto dois lpis, com os cantos abruptamente apontados para as faces rolias.

- Aqui tens o teu horrio - informou, entregando-me uma folha de papel. - Pedi a uma das-nossas alunas do quadro de honra, que por acaso faz parte da tua turma, 
para te acompanhar durante o primeiro dia. - Em seguida, o director voltou-se para o meu pai e para Daphne. - Faz parte da responsabilidade dos melhores alunos. 
Pensei em pedir  Gisselle, mas depois temi que isso apenas chamasse ainda mais a ateno sobre as vossas filhas. Espero que sejam do meu parecer.

- Com certeza, doutor Storm.

- Espero que compreenda por que motivo no possumos os papis necessrios para uma habitual matrcula - afirmou Daphne -, mas esta situao fugiu do nosso controlo.

- oh!, certamente - respondeu o Dr. Storm. - No-se preocupem com esse aspecto. Vou tomar nota das informaes disponveis e tratarei de descobrir as que esto em 
falta, seguindo o bom estilo de Sherlock Holmes!

Voltou a pousar em mim o olhar e recostou-se na cadeira.
- Preparei estes impressos para ti, uma vez que no ests familiarizada com as normas e regulamentos do colgio e porque irs, com certeza, sentir uma certa diferena 
- informou, entregando-me um mao de folhas. - A encontrars tudo o que necessitas saber: as normas de vesturio, de comportamento, os sistemas de avaliao, em 
resumo, aquilo que  e o que no  esperado de ti.

"Estou certo - continuou, alargando o sorriso - que, com a famlia e a casa que tens, nada disto ser novidade para ti. Contudo - acrescentou, num tom firme -, temos 
de assegurar o nosso padro, o qual sempre ser mantido. Compreendes? -Sim, senhor.

- Doutor Storm - corrigiu ele mesmo, desta vez.
- Doutor Storm.

Ele sorriu de novo.

-Bem, no vejo porque atrasar mais a Ruby - afirmou, erguendo-se da cadeira e avanando at  porta. - Mistress Eltz - chamou-, por favor, mande chamar a Caroline 
Hig-
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gins. - Voltou ento de novo para a secretria. - Enquanto a Ruby vai para as aulas, gostaria de anotar todas as informaes que puderem dispensar-me para a matrcula. 
Queria assegurar-vos de que tudo o que me contarem ser mantido em total confidncia - acrescentou, semicerrando os olhos.

- Calculo - declarou daphne, com imensa frieza - que tudo o que lhe podermos contar no constituir para si nenhuma novidade.

A postura rgida de Daphne e o seu tom aristocrtico funcionavam como jactos de gua sobre as chamas. O Dr. storm permaneceu encolhido na sua cadeira, com o sorriso 
mais tnue, abdicando da sua posio como importante administrador em funo do burocrata educacional. Titubeou algo e folheou alguns formulrios e documentos, mas, 
quando Mrs. Eltz bateu  porta para anunciar a chegada de Caroline Higgins, no escondeu o seu alvio.

-Ainda bem - exclamou, levantando-se mais uma vez.
- Podes vir agora, Ruby. Vamos dar incio ao teu primeiro dia de aulas! - Acompanhou-me at ao gabinete exterior, grato pela distraco e pela pausa temporria, 
fora do alcance do exigente olhar de Daphne.

- Esta  a Ruby Dumas, Caroline - anunciou, apresentando-me a uma rapariga magra, plida, de cabelo escuro e rosto pouco atraente. Os seus culos eram to grossos 
que aumentavam excessivamente o tamanho dos olhos, e os cantos da boca fina eram voltados para baixo, o que a fazia parecer constantemente infeliz. Sorriu de uma 
forma dbil e nervosa e estendeu-me a sua mo delgada, a qual apertei rapidamente.

- A Caroline j est a par daquilo que tem de fazer - informou o Dr. storm. - Qual  a primeira aula, Caroline? inquiriu depois, como para a testar.

-  a aula de Ingls, doutor storm.

- Certo. Muito bem, meninas, sigam. e lembra-te, Ruby, que a porta do meu gabinete estar sempre aberta para ti.
- Obrigada, doutor storm - agradeci, seguindo Caroline

pelo corredor. Mal avanmos um pouco, ela parou e voltou-se para mim, mas, desta vez, com um sorriso mais aberto e com uma expresso mais alegre.

- Ol!  melhor saberes j como todos me chamam, para no criar confuso: Mookie - revelou.

- Mookie? Porqu?

Ela encolheu os ombros.

- Algum me chamou um dia assim e depois acabei por ficar com essa alcunha.  como se fosse o meu nome. Se no
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respondo quando me chamam Mookie, eles repetem at eu responder - explicou, com um ar resignado. -- Bem, mas estou muito contente por ser a tua acompanhante e guia. 
Toda a gente fala de ti e da Gisselle e daquilo que aconteceu quando vocs eram pequenas. Mister Stegman est a tentar discutir Edgar AIlan Poe, mas ningum est 
a prestar ateno. Ficaram todos de olhos postos na porta e ,quando me chamaram para vir buscar-te, toda a turma comeou a falar to alto que o professor teve de 
gritar para se calarem.

Depois de ouvir aquela introduo, sentia-me apavorada com a simples ideia de entrar na sala de aula. Mas sabia que o teria de fazer; assim, com o corao a bater 
tanto que sentia as vibraes percorrerem a espinha, fui seguindo Mookie pelo corredor, pouco atenta  descrio que esta me ia fazendo da disposio da escola: 
quais os corredores que existiam, onde era a cantina, o ginsio, a enfermaria e os campos de jogos. Parmos, por fim,  porta da sala da aula de Ingls.

- Ests preparada? - perguntou-me ela.

- No, mas no tenho alternativa - respondi. Mookie riu e abriu a porta.

Foi como se um forte vento tivesse entrado na sala, obrigando todos os presentes a virar a cabea. At o professor, um homem alto com o cabelo muito escuro e os 
olhos pretos e pequenos, ficou por uns segundos paralisado, com o dedo direito no ar. Percorri aquele mar de rostos curiosos e descobri Gisselle sentada no canto 
direito com um sorriso irnico no rosto. Tal como afirmara, estava rodeada por rapazes, mas nem Beau nem Martin se encontravam nessa turma.

- Bom dia - cumprimentou Mr. Stegman, recobrando rapidamente a sua compostura. - Escusado ser dizer que estvamos  tua espera - afirmou, indicando a terceira cadeira 
na fila que ficava mais perto da porta. Fiquei espantada por existir uma cadeira vaga nas filas da frente, mas verifiquei depois que ficava mesmo atrs de Mookie 
e que, portanto, o meu lugar devia ter sido programado.

- Obrigada - respondi, dirigindo-me apressadamente para o meu lugar, carregando todos os cadernos, lpis e canetas que Daphne fizera questo que eu trouxesse.

- Chamo-me Mister Stegman - informou. - Ns j sabemos o teu nome, no  assim, meninos? - Todos riram, com os olhares ainda fitos em mim. O professor, entretanto, 
retirou dois livros de texto da sua secretria. - Estes livros so para ti, j tomei nota dos nmeros. Este  o manual de gramtica continuou, mostrando-me a capa. 
- e talvez seja melhor lem-
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brar-vos a todos que este  o vosso manual de gramtica - repetiu, provocando mais risos, desta vez menos tensos. - e este  o livro de literatura. Estamos agora 
a analisar Edgar Allan Poe e o seu conto Os Crimes da Rua Morgue, um conto que todos deveriam ter lido durante as frias, devo acrescentar afirmou, observando a 
classe. Houve quem mostrasse, com um olhar comprometido, que no o havia feito.

Voltou-se de novo para mim.

- Por agora, vais apenas ouvir, mas queria pedir-te que o lesses esta noite.

-J li esse conto, sir - informei.

- Como? - indagou, sorrindo. - Conheces a histria? Fiz um gesto afirmativo. - Ento a principal personagem ?...
- Dupin, o detective de Poe.

-Ento j sabes quem  o assassino? -J, sim - respondi com um sorriso. -e qual  a importncia deste conto?

- Foi uma das primeiras histrias de detectives americanas
- respondi.

- Bem... Vejo que os nossos vizinhos do bayou no so to ignorantes como imaginvamos - declarou o professor para toda a turma. -- Na verdade, talvez tenhamos aqui 
quem seja muito mais ignorante - continuou, dando-me a impresso que se estava a dirigir a Gisselle. -- Guardei-te esse lugar to afastado da cadeira da tua irm 
gmea, porque tive receio de no conseguir distinguir-vos, mas vejo que no vou ter esse problema - acrescentou, provocando uma srie de gargalhadas. Nem sequer 
olhei para trs, temendo encarar Gisselle.

Como tal, pousei os olhos na carteira, com o corao ainda muito agitado, enquanto prestava ateno  anlise literria. Ocasionalmente, o professor olhava na minha 
direco para confirmar ou reafirmar algo que acabara de explicar e ,no final da aula, marcou-nos um trabalho de casa. Voltei-me ento muito lentamente e olhei para 
Gisselle, cuja expresso magoada revelava um misto de surpresa e de desapontamento.

- Impressionaste Mister Stegman - comentou Mookie depois de tocar a campanha. - Fico contente por tambm teres lido o conto. Costumam gozar comigo por eu ler sempre 
muito.
- Porqu?

- Sempre foi assim - respondeu Mookie. Gisselle veio, entretanto, ao nosso encontro com o seu bando de amigos e amigas atrs.

- No vale a pena comear j a apresentar-te os nossos colegas - afirmou -, pois no ias conseguir-te lembrar de todos
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os nomes. Fao as apresentaes durante a hora de almoo. Duas das suas amigas protestavam e alguns rapazes ficaram desapontados. - Pronto, est bem! Apresento-te 
o Billy, o Edward, o Charles e o James - catalogou ela de uma forma to rpida que no consegui ligar o nome  pessoa. - Esta  a Claudine e esta a Antoinette, as 
minhas duas melhores amigas
- continuou Gisselle, indicando uma morena e uma loura, ambas da nossa altura.

 incrvel como vocs se parecem - comentou Claudine. So gmeas, sabias? - retorquiu Antoinette.

Sei bem que sim, mas as irms Gibson tambm so gmeas, e a Mary e a Grace so muito diferentes.

-  porque so gmeas falsas, e no verdadeiras - explicou Mookie, soando um pouco pedante. - Nasceram ao mesmo tempo, mas provm de vulos diferentes.

- oh, v se fazes uma pausa, sabichona! - retorquiu Claudine.

-Estou s a tentar ser til - argumentou Mookie.

- Da prxima vez que precisarmos de uma enciclopdia ambulante, podes ter a certeza de que te chamamos - respondeu Antoinette. - No tens de ir tirar nenhuma dvida 
 biblioteca? - acrescentou.

- O doutor storm encarregou-me de acompanhar a Ruby durante todo o dia.

- Pois ns dispensamos-te dessa tarefa. Desaparece, Mookie - ordenou Gisselle. - Posso muito bem acompanhar a minha irm, se me apetecer.

- Mas...

-No queria causar nenhum problema  Mookie, Gisselle
- afirmei.

-No faz mal - murmurou Mookie, lanando-me um olhar reconhecido.

- Faz como preferires, mas, por favor no a tragas para a nossa mesa durante o almoo.  que ela tira o apetite a qualquer um... - afirmou Gisselle, fazendo rir 
as amigas.

Entretanto, Beau, vindo com Martin de outra parte da escola, correu para se juntar a ns.

-Ento, como est a correr o teu dia? - perguntou-me.
- Bem - respondeu Gisselle. - No te preocupes que ela est nas mos da Mookie. Vamos - exclamou, dando-lhe o brao e obrigando-o a afastar-se com ela.

Mas... vemo-nos  hora de almoo - gritou ele.

 melhor irmos andando, se no, vamos chegar atrasadas  aula de Estudos Sociais - afirmou Mookie.

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- e ns no queremos chegar atrasados  aula de Estudos Sociais - gritaram em coro os rapazes e raparigas  nossa volta, fazendo Mookie corar.

- Mostra-me onde fica a sala - pedi, de imediato. Comemos a andar, mas cada aluno que encontrvamos no corredor parava para me observar. Alguns murmuravam um breve 
"ol" e outros sorriam, mas a maioria apenas olhava para mim e sussurrava algo ao acompanhante do lado. At mesmo alguns professores paravam nas portas das salas 
para me ver passar.

Quando deixaria eu de ser um objecto de curiosidade, pensei ento, para me poder misturar com os demais com naturalidade?

Em todas as aulas que se seguiram (Estudos Sociais, Cincias e Matemtica), fui verificando, contrariamente ao que todos tinham pensado, que os meus conhecimentos 
no eram muito desfasados em relao  matria. Isso devia-se, em grande parte, ao facto de eu sempre ter lido muitos livros sozinha. A grandmre Catherine ensinara-me 
a valorizar a importncia da educao, principalmente da leitura, e sempre me incitara a trazer emprestados os livros da biblioteca. Apesar de me sentir bastante 
intimidada pelos meus novos professores, achei-os a todos simpticos e prestveis. Tal como Nir. Stegman, todos os outros se mostraram muito impressionados com a 
minha aptido e com aquilo que j sabia. Tambm manifestaram um grande contentamento por ver algum que levava as aulas a srio.

 medida que a manh ia passando e os professores se iam apercebendo daquilo que sabia e da forma cuidadosa com que fazia os trabalhos pedidos, Gisselle, inevitavelmente, 
acabou por ser comparada comigo e repreendida por no levar as aulas a srio.

Por detrs dos comentrios e crticas dos professores, estava a ideia de que, afinal, a irm cajun no era mais atrasada e no estava em desvantagem, mas era, sim, 
mais avanada.

No queria que aquilo tivesse acontecido e reparei       como Gisselle se mostrava arreliada, mas no podia fazer         nada. Quando chegou a hora de almoo e 
nos encontrmos na cantina, a minha irm estava bastante irritada e frustrada, e   a sua disposio agreste e insolente agredia tudo e todos.

- Encontramo-nos depois do almoo - despediu-se Mookie, lanando um olhar na direco de Gisselle e dirigindo-se sozinha para outra mesa.

Impedindo-me de manifestar outra opinio, Beau aproximoU-se por detrs de mim e fez-me ccegas nas costas. Dei um grito e um salto, para ver quem seria.

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- Pra com isso, Beau. Assim ainda olham mais para mim... At pareo um caranguejo num gumbo de galinha! Ele riu e piscou os seus bonitos olhos azuis, lanando-me 
um olhar muito meigo.

-Ouvi dizer que todos esto a gostar muito de ti, principalmente os professores - afirmou. - J esperava que isso acontecesse. Anda, vamos almoar! - Beau foi para 
a fila comigo e depois levmos os tabuleiros para a mesa onde Gisselle comia com os amigos, como uma rainha rodeada dos sbditos da sua corte.

--Estava a contar aos nossos colegas como tiveste de pescar e bordar lenos para vender na estrada - comentou ela de imediato.

Todos riram da sua graa.

-Tambm contaste que a Ruby pinta e que j exps quadros numa galeria? - indagou Beau, apagando o sorriso do rosto de Gisselle. - No Bairro Francs - acrescentou 
ele, dirigindo-se a Claudine e a Antoinette.

--A srio? - perguntou Claudine.

- A srio! e agora a Ruby tem um professor de pintura, que d aulas num colgio, que diz que ela tem muito talento contou Beau.

-Beau, por favor... - implorei.

- No vale a pena continuares a ser modesta - afirmou. Afinal, s a irm gmea da Gisselle, no s? Ento deves agir como tal - acrescentou, provocando o riso de 
todos, menos de Gisselle, cada vez mais irritada.

Depressa se seguiram vrias perguntas: quando tinha comeado a pintar, como era a vida no bayou, como era a escola, quantos aligatores via diariamente, etc.

No entanto, cada uma dessas questes e cada resposta que eu dava aumentavam ainda mais a fria de Gisselle, que ainda tentou dizer piadas acerca da minha vida anterior, 
mas sem obter resultado, pois ningum riu, mais interessados em ouvir os meus relatos. Finalmente, levantou-se amuada e declarou que ia fumar um cigarro.

- Quem vem comigo? - perguntou.

- J no temos tempo - respondeu Beau. - e ,alm disso, agora  o Storm que anda a vigiar os campos de jogo. --- Antigamente no tinhas medo, Beau Andreas - respondeu, 
lanando na minha direco um olhar enraivecido.

-- Mas a idade trouxe-me mais juizo -- gracejou ele. Todos se riram, mas Gisselle rodou os calcanhares e marchou em frente, virando-se depois para verificar quem 
a acompanhava; s que ningum se tinha levantado da mesa.

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- Como queiram - ameaou, dirigindo-se a dois rapazes que estavam sentados numa outra mesa. Quando Gisselle lhes sorriu, as duas cabeas voltaram-se em unssono 
na sua direco, como se tivesse sido lanado isco nas guas; logo depois, os dois seguram-na para fora da cantina.

No fim do dia, Beau fez questo de me levar a casa. Espermos um pouco por Gisselle ao p do carro de Beau, mas, ao ver que esta no vinha logo, ele resolveu partir 
sem ela.

A Gisselle queria fazer-me esperar de propsito -- declarou.

-  Mas, assim, vai ficar muito zangada, Beau.

-  o que ela merece. No te preocupes - declarou, insistindo comigo para entrar. Olhei para trs quando o carro arrancou e tive a sensao de ter visto Gisselle 
a sair. Contei a Beau, que apenas riu.

- Digo-lhe depois que, mais uma vez, te confundi com ela respondeu Beau, carregando no acelerador. Com o vento a despentear o meu cabelo e a luz clida do Sol a 
realar o brilho e a vida de cada folha e de cada flor, era impossvel no me sentir bem. O osso de gato que pertencia a Nina Jackson. dera bom resultado, pensei. 
O meu primeiro dia na escola nova tinha sido um grande xito.

e da mesma forma se passaram os dias e as semanas seguintes. Depressa me dei conta de que, em vez de ser Gisselle a ajudar-me a retomar a matria, era eu quem a 
ajudava, apesar de ter sido ela a frequentar a escola e a a 'ssistir s aulas. Contudo, no era isto que Gisselle dava a entender aos seus amigos; segundo as histrias 
que contava todos os dias ao almoo, passava horas e horas a actualizar cada matria comigo. Num desses dias, chegou mesmo a dizer, rindo:

-As revises que tenho feito por causa da Ruby tm-me ajudado a progredir nos estudos.

Porm, na verdade, era eu quem fazia os trabalhos de casa, tanto os meus como os dela e ,consequentemente, as notas de Gisselle comearam a subir. Os nossos professores 
manifestavam publicamente as suas suspeitas e lanavam-me olhares duvidosos. Gisselle chegou mesmo a melhorar as notas dos testes, sempre que antes estudvamos juntas.

e ,assim, a minha adaptao  Escola Beauregard foi muito mais rpida do que imaginara. Fiz bastantes amizades, principalmente com rapazes, e continuei a procurar 
muito a companhia de Mookie, apesar da atitude pouco amigvel de Gisselle em relao a ela. Cheguei  concluso que Mookie era. uma pessoa muito sensvel e inteligente, 
bastante mais sincera do que a maioria, se no de todos, os amigos de Gisselle.

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Gostava tambm muito das aulas de pintura com o professor Ashbury, que, logo aps as duas primeiras lies, declarou que eu possua "olho artstico", ou seja, "a 
percepo que permite distinguir o que  visualmente significativo daquilo que no ".

A notcia acerca dos meus talentos artsticos espalhou-se na escola, contribuindo para chamar ainda mais ateno sobre mim. Mr. Stegman, que ocupava igualmente o 
cargo de supervisor editorial, pediu-me para ser editora de arte para o jornal da escola e perguntou-me se no desejava elaborar os desenhos que ilustravam os artigos. 
Como Mookie era a editora, isso significava que teramos mais tempo para passar juntas. Mr. Divito convidou-me tambm para ser membro do grupo de animao e ,na 
semana seguinte, aceitei participar nas audies para a pea teatral da escola. Nessa tarde, Beau apareceu tambm e ,para minha surpresa e ntimo deleite, tanto 
ele como eu fomos os escolhidos para os papis principais, o que provocou os comentrios de toda a escola. Apenas Gisselle se mostrou aborrecida, especialmente no 
dia seguinte  hora de almoo, quando Beau sugeriu, brincando, que,ela poderia oferecer-se para minha suplente.

- Assim, se acontecesse alguma coisa, ningum ia dar por nada - acrescentou. Mas antes que todos comeassem a rir, Gisselle explodiu.

- No me surpreende que digas isso, Beau Andreas - declarou, sacudindo a cabea -, porque no sabes distinguir uma cpia do original.

Todos desataram a rir, enquanto Beau corava e eu sentia vontade de me esconder debaixo da mesa.

A verdade  que - continuou Gisselle, espetando o dedo no peito -, desde que veio do pntano, a Ruby  que tem sido a minha suplente. - Todos os seus amigos sorriram 
e manifestaram o seu acordo e ,satisfeita com os resultados, Gisselle -prosseguiu: - Tive de a ensinar a tomar banho, a escovar os dentes e a retirar a lama dos 
ouvidos.

Isso  mentira, Gisselle - gritei, sentindo as lgrimas a brotar.
-No me culpes a mim por ter de contar estas coisas, culpa-o a ele! - retorquiu, apontando para Beau. - Ests a tirar proveito dela, Beau, sabes bem disso - afirmou, 
utilizando agora um tom mais fraternal. Em seguida, endireitando-se, declarou com um sorriso escarnecedor: -  tudo porque a Ruby, quando chegou, achava muito natural 
que um rapaz lhe apalpasse a roupa.
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As exclamaes que percorreram a mesa chamaram a ateno de todos os que se encontravam na cantina.

- Gisselle, isso  uma terrvel mentira! - gritei, enquanto agarrava nos livros e saa a correr, com as lgrimas a correr pelas faces. Durante o resto do dia, mantive 
os olhos baixos e mal pronunciei uma palavra nas aulas. Todas as vezes que levantava a cabea, tinha a impresso que os rapazes estavam a olhar para mim e que as 
raparigas comentavam umas com as outras aquilo que Gisselle afirmara. Estava ansiosa que chegasse o final do dia; no entanto, como sabia que Beau estaria no carro 
 minha espera e como sentia vergonha de ser vista a seu lado, sa por outra porta e dei a volta ao edifcio da escola.

Conhecia o caminho suficientemente bem para no me perder, mas a rua por onde ia tornou o regresso a casa muito mais demorado do que tinha imaginado. Sentia vontade 
de fugir, at mesmo de regressar ao bayou. Fui caminhando lentamente pelas largas e bonitas ruas do Garden District e fiz uma pausa ao ver duas adorveis meninas, 
com mais do que seis ou sete anos, a brincar nos baloios. Tive a certeza de que seriam irms, pois eram muito parecidas. Devia ser maravilhoso crescer ao lado de 
uma irm, com intimidade e carinho, aprendendo a conhecer os seus sentimentos, a saber confort-la na tristeza e a anim-la sempre que os receios infantis invadissem 
o seu mundo.

No pude deixar de imaginar que tipo de relao eu e Gisselle teramos tido, caso nos tivessem permitido crescer juntas. No mais ntimo do meu corao, tinha agora 
a certeza de que ela se teria tornado uma pessoa melhor, se tivesse crescido a meu lado, educada pela grandmre Catherine, e essa convico deixava-me profundamente 
revoltada. Que injustia terem-nos separado  nascena! Mesmo sem saber da minha existncia, o meu av Claudine no tinha o direito de decidir com tamanha altivez 
o futuro de Gisselle. Nada lhe dava o direito de jogar com as vidas das pessoas, como se nada mais fossem do que cartas num jogo de bourr ou pees num jogo de xadrez. 
No podia imaginar o que daphne havia dito  minha me para a convencer a abdicar da filha, mas, o que quer que tivesse sido fora decerto uma grande mentira.

Quanto a meu pai, sentia compaixo pela tragdia que envolvera o tio Jean e compreendia o que o levara a apaixonar-se loucamente e  primeira vista pela minha me, 
mas sabia tambm que deveria ter medido melhor as consequncias dos seus actos e que nunca deveria ter permitido que a minha irm fosse roubada  nossa me.

Sentindo-me muitssimo deprimida, cheguei finalmente ao
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porto de casa e durante alguns minutos fiquei ali parada a contemplar as manses  minha volta; pensei se toda aquela riqueza, e todas as vantagens que da resultariam 
para mim, seria realmente prefervel a uma vida modesta no bayou. O que teria a grandmre Catherine antevisto para o meu futuro? Teria ela manifestado tanta certeza 
apenas porque desejava que eu me afastasse do grandpre Jack? No existiria uma forma de viver no bayou, sem estar subjugada  sua nefasta influncia?

De cabea baixa, subi os degraus e entrei em casa. Estava tudo muito silencioso, o pai ainda no regressara do escritrio e a daphne deveria estar ou no estdio 
ou nos seus aposentos. Subi ento as escadas e fui para o meu quarto, fechando imediatamente a porta. Atirei-me para cima da cama e enterrei o rosto na almofada, 
mas logo depois ouvi uma chave a rodar na fechadura e vi a porta que ligava o meu quarto ao de Gisselle a abrir-se pela primeira vez. Essa porta sempre estivera 
trancada pelo lado de Gisselle e nunca pelo meu.

-O que  que queres? -- perguntei, fitando-a.

- Desculpa - pediu ela com uma expresso de arrependimento. Fiquei to espantada que, durante alguns segundos, permaneci em silncio e em seguida sentei-me na cama. 
- Perdi a cabea. No tinha a inteno de dizer todas aquelas coisas horrveis sobre ti, mas menti-te quando te disse que j no gostava do Beau e que no me importava 
que ficasses com ele. Todos os rapazes e mesmo algumas das minhas amigas me tm gozado por causa disso.

- No fiz nada que o levasse a deixar-te para me escolher a mim - declarei.

- Bem sei. A culpa no  tua e fui estpida por te ter culpado. Tambm j pedi desculpas ao Beau. Ele ficou  tua espera  depois das aulas.

-Sim, eu sei.

-Onde foste? - quis ela saber. -Fui dar um passeio.

Gisselle acenou com a cabea, indicando que compreendia.
- Desculpa - repetiu. - Vou fazer os possveis para que ningum acredite naquilo que eu disse a teu respeito.

Ainda bastante admirada, mas tambm reconhecida pela sua modificao, esbocei um sorriso e agradeci-lhe.

- A Claudine vai dar uma festa, uma reunio informal, amanh  noite.  s para raparigas e gostava muito que tu viesses comigo - convidou Gisselle.

Concordei logo.
- Est bem.
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- ptimo! Queres estudar para o maldito teste de Matemtica que temos amanh?

- Pode ser - acedi. "Ser possvel?", pensei ento. Haveria ainda uma forma de nos tornarmos as irms que deveramos sempre ter sido? Tinha esperana que sim, desejava-o 
do fundo do corao.

Nessa noite, a seguir ao jantar, estudmos, de facto, matemtica. Depois ouvimos discos, enquanto Gisselle me contava histrias de alguns rapazes e raparigas daquele 
que era suposto ser o nosso grupo de amigos. Era divertido falar da vida dos colegas e ouvir msica. Gisselle prometeu que me ajudaria a decorar o papel que eu ia 
representar na pea e ,em seguida, fez a declarao mais simptica que ouvi desde que ali chegara.

-Agora que abri a porta que liga os nossos dois quartos, no vou fech-la mais. O que  que tu achas?

-Acho bem -- respondi.

- Nem sequer temos de bater para entrar no quarto uma da outra. A no ser quando uma de ns tiver um convidado especial... - acrescentou, sorrindo.

No dia seguinte, o teste de Matemtica correu bem a ambas. Quando nos viram juntas e a conversar, os colegas deixaram de olhar para mim com sorrisos maliciosos. 
Beau ficou tambm bastante aliviado, e o ensaio que tivemos no fim das aulas correu bem. Ele convidou-me para ir ao cinema nessa noite, mas eu contei-lhe que tinha 
prometido a Gisselle acompanh-la  festa de Claudine.

- Uma festa? - repetiu Beau, preocupado. - No ouvi ningum falar dessa festa. Normalmente, ns, os rapazes, costumamos descobrir sempre que h uma festa s para 
raparigas. Encolhi os ombros.

- Talvez tivesse sido marcada de um momento para o outro. Vai l a casa amanh  tarde - sugeri. Beau ainda preocupado, concordou.

No sabia que Gisselle no tinha obtido ainda permisso para irmos a essa festa e s me apercebi disso quando ela referiu o assunto durante o jantar dessa noite. 
daphne queixou-se imediatamente de no ter sido avisada antes.

-Acabmos de decidir - afirmou Gisselle, lanando-me um olhar rpido, para garantir que eu no a desmentiria. Baixei a cabea e pousei os olhos no prato. - Mesmo 
que soubssemos antes, no teramos podido contar  me ou ao pai - lamentou-se. - Vocs tm andado to ocupados ultimamente...

- No vejo nenhum inconveniente em relao a essa festa, daphne - afirmou o paizinho. - e ,alm disso, elas merecem
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uma recompensa, depois de terem obtido notas to boas acrescentou, piscando-me o olho. - Estou muito contente com os teus progressos, Gisselle - elogiou.

- Bem - comeou daphne -, os Montaigne so uma famlia de respeito. Fico contente por teres feito amizades com as pessoas certas - disse-me ento, dando-nos a sua 
permisso.

Mal terminou o jantar, fomos aos quartos buscar as malas e o pap depois levou-nos de carro at  casa de Claudine, que ficava a trs quarteires dali e era quase 
to grande como a nossa. Os pais dela j no estavam em casa, tinham ido a algum local fora da cidade, e no voltariam seno muito mais tarde, e os empregados tambm 
j se haviam recolhido. Tnhamos, assim, a casa s para ns.

Havia mais duas raparigas alm de Claudine, Gisselle, Antoinette e eu: Theresa Du Pratz e Deborah Tallant. Comemos a fazer pipocas e a ouvir discos na enorme sala 
de estar; depois, Claudine sugeriu que misturssemos vodca e sumo de groselha, o que me deixou aterrada, temendo que tudo voltasse a repetir-se; mas todas as raparigas 
concordaram de imediato; afinal, o que seria uma festa sem se fazer nada de proibido?

-No te preocupes - sussurrou Gisselle. - Eu misturo as bebidas e fao de maneira a no deitar muita vodca. - Fiquei a observar e verifiquei que, de facto, Gisselle 
cumpria o prometido, piscando-me o olho enquanto preparava as bebidas.

- No bayou tambm ias a festas como esta? - perguntou Deborah.

-No. As nicas festas a que eu costumava ir eram os Fis dodo - expliquei, passando a fazer a descrio. Todas as raparigas se sentaram  minha volta, ouvindo-me 
descrever o tipo de comida, a msica e as actividades.

O que  bourr? - indagou Theresa.

 um jogo de cartas, uma espcie de mistura entre o pquer e o brdege. Quando se perde um lance, ganha-se dinheiro
- expliquei, sorrindo. Algumas das raparigas sorriram tambm.

- O bayou fica aqui to prximo e  como se vivssemos num outro pas - comentou Deborah.

- As pessoas no so assim to diferentes - respondi. Todas desejam o mesmo: amor e felicidade.

Houve um grande silncio.

- A conversa est a ficar demasiado sria - interrompeu Gisselle, olhando para Claudine e Antoinette, que concordaram.
- Vamos at ao sto buscar as roupas da minha av Montaigne e vestimo-nos como se estivssemos nos anos vinte!
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No era, obviamente, a primeira vez que o faziam.

- Vamos pr tambm msica desse tempo - acrescentou Claudine. Antoinette e Gisselle trocaram olhares cmplices e ,em seguida, subimos todas as escadas.

Da porta do sto, Claudine ia atirando as nossas roupas, indicando o que cada uma deveria vestir. A mim, coube-me um fato de banho antiquado.

- S vamos mostrar-nos umas s outras quando j estivermos prontas, l em baixo - afirmou Claudine, como se existisse um procedimento usual para aquele tipo de divertimento. 
Ruby, podes utilizar o meu quarto para te vestires - ofereceu, abrindo a porta e fazendo um gesto para eu entrar. Depois, indicou a Gisselle e a Antoinette os quartos 
que podiam utilizar e disse a Theresa e a Deborah para se vestirem no andar de baixo. Ela ficaria com o quarto dos pais. - Encontramo-nos todas na sala, daqui a 
dez minutos.

Fechei a porta e entrei no quarto de Claudine. O fato de banho pareceu-me ainda mais ridculo quando o coloquei  minha frente no espelho. Tapava quase todo o corpo, 
e da conclu que, naqueles tempos, as pessoas no deveriam dar tanta importncia ao bronzeado.

Imaginando como seria divertido desfilarmos todas com aqueles trajes antiquados, comecei logo a despir-me. Desabotoei a saia, tirei-a, desabotoei tambm a blusa 
e despia-a. Comeava a vestir o fato de banho quando ouvi bater  porta do quarto.

- Quem  ?Claudine entrou.

-Que tal est a correr?

-Bem. Mas o fato de banho  muito grande para mim.
- A minha av era uma senhora muito forte. No, no podes usar soutien e cuecas debaixo do fato de banho! Elas no faziam isso - afirmou. - Despacha-te - tira a 
roupa toda, veste o fato de banho e desce.

- Mas...

Ela voltou a fechar a porta. Vendo a minha imagem reflectida no espelho, encolhi os ombros e desabotoei o soutien; depois, baixei as cuecas; quando estas escorregaram 
pelos joelhos, ouvi risos camuflados. Senti uma onda de pnico invadir o meu corao. Voltei-me de imediato e vi a porta do armrio aberta e trs rapazes sarem 
l de dentro, rindo de uma forma histrica: Billy, Edward e Charles. Gritei e corri a apanhar as minhas roupas, mas senti nesse instante um flash disparar; abri 
a porta e senti ainda outro flash sobre mim.

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Gisselle, Antoinette e Claudine saram do quarto dos donos da casa, e Deborah e Theresa subiram as escadas com largos sorrisos estampados nos rostos.

-  O que se passa? - indagou Claudine, fingindo-se inocente.

-  Como  que puderam fazer uma coisa destas? - gritei. Os rapazes seguiram-me at  entrada do quarto de Claudine e ficaram a olhar para mim e a rir. Quando estavam 
prestes a tirar uma outra fotografia, entrei em pnico e ,procurando um local onde pudesse esconder-me, reparei que um dos quartos tinha a porta aberta e corri para 
dentro, trancando a porta em seguida. Ouvindo ainda as gargalhadas no corredor, vesti-me o mais rapidamente possvel, com lgrimas de raiva e de vergonha a molhar-me 
as faces e a descer at ao queixo.

Ainda a tremer, sentindo uma fria enorme, respirei fundo e sai, mas no vi ningum. Voltei a respirar fundo e desci as escadas; ouvi ento vozes e risos vindos 
da sala de estar. Parei na entrada e vi os rapazes deitados no cho a beber o sumo com vodca, e as raparigas em redor deles, sentadas nos sofs e nas cadeiras. Fixei 
o olhar de Gisselle, enraivecida.

-  Como  que os deixaste fazer uma coisa destas? - inquiri.

- oh, pra de ser desmancha-prazeres - exclamou ela. Foi s uma brincadeira.

- Ah, sim? - gritei. -- Ento despe a roupa em frente deles e deixa-os tirar fotografias! Vamos, gostava de ver! - desafiei. Os rapazes olharam-na, esperanosos.

No sou estpida - respondeu Gisselle, provocando gargalhadas gerais.

-No, no s - admiti. - Porque no s to crdula. Mas obrigada pela lio, querida irm - exclamei, dirigindo-me para a porta.

Aonde vais? No podes ir j para casa - gritou Gisselle, correndo atrs de mim, que estava j ao p da porta.

- Aqui no fico - afirmei. - Nunca, depois do que aconteceu.

- oh!, deixa de ser to infantil! Com certeza que deixaste que muitos rapazes do bayou te vissem sem roupa.

- No, no deixei. Porque, no bayou, as pessoas tm mais moral do que vocs aqui - respondi. Gisselle parou de sorrir.
-  Vais contar? - indagou.

Apenas abanei a cabea.
-

De que adiantaria? - respondi antes de sair.

Percorri apressadamente as ruas e os passeios empedrados,
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procurando os crculos de luz amarela que os candeeiros de rua projectavam, sentindo o corao a pulsar no peito. No encontrei nenhuma outra pessoa na rua, nem 
reparei que tivesse passado por mim algum automvel. Mal podia esperar por chegar a casa e subir as escadas o mais depressa possvel.

A primeira coisa que iria fazer era trancar de novo a porta que ligava o quarto de Gisselle ao meu.

UM CONVITE FORMAL PARA JANTAR

Edgar veio abrir a porta e ,ao ver-me, lanou-me um olhar de preocupao. Limpei rapidamente as lgrimas, mas a pele do meu rosto, ao contrrio da pele da minha 
irm, to resistente como a de um aligtor, era fina como algodo. Tentar disfarar as marcas das lgrimas era o mesmo que usar uma mscara de vidro.

- Est tudo bem, mademoiselle? - indagou, apreensivo.
- Est, sim, Edgar. -- Entrei, entretanto. - O meu pai est na sala?

-No, mademoiselle. - A tristeza e a melancolia com que Edgar respondeu, fizeram-me voltar para procurar o seu olhar que estava sombrio e perturbado.

-Passa-se alguma coisa, Edgar? - perguntei logo.

- Monsieur Dumas j se retirou - afirmou, como se isso explicasse tudo.

-e a minha... me?

- Tambm se foi deitar, mademoiselle - afirmou. -- Precisa de alguma coisa?

- No, obrigada, Edgar - respondi; ele acenou com a cabea e afastou-se. O silncio que reinava em casa era um pouco sinistro, pois a maioria das salas estava sem 
luz. Os candeeiros de cristal do tecto estavam apagados e sem vida, tornando os rostos das pinturas a leo soturnos e ameaadores. Uma outra onda de pnico invadiu 
o meu peito e fez-me sentir vazia e terrivelmente s. Senti um arrepio descer pelas costas e decidi subir rapidamente as escadas, mantendo presente no pensamento 
a ideia da minha cama macia esperando por mim. Contudo, ao chegar ao primeiro andar, ouvi de novo aquele som... os soluos.

"Pobre pai", pensei. Como deveria ser grande o seu sofri-
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mento e a sua tristeza, para sentir necessidade, depois de tantos anos, de se fechar no quarto do irmo para poder chorar  vontade. Com compaixo no corao, aproximei-me 
da porta e bati com suavidade. Queria conversar com ele, no apenas para o consolar, mas para que o meu pai me pudesse confortar tambm a mim.

- Paizinho?

Tal como anteriormente, os soluos pararam, mas ningum apareceu  porta; bati de novo.

-  a Ruby, paizinho. Voltei agora da festa e preciso de falar consigo. Por favor... - Fiquei atenta, de ouvido colado  porta. - Paizinho? - No ouvindo o mnimo 
rudo, tentei rodar a maaneta da porta, que logo cedeu. Lentamente, abri ento a porta e espreitei para o quarto, o qual era grande e tinha os cortinados corridos. 
A nica luz existente provinha das muitas velas, que projectavam sombras incertas e difusas sobre as paredes, a cama e as outras moblias. As sombras tremeluziam 
como num bailado fantasmagrico e lembraram-me o gnero de espritos que a grandmre Catherine costumava afugentar com as suas preces e os seus rituais. Com o corao 
aos saltos, fiquei parada  porta, hesitante.

- Paizinho, est a?

Julguei ouvir passos do meu lado direito e caminhei para o meio do quarto. No via ningum, mas estava fascinada com as velas, pois estavam todas dispostas em candelabros 
em cima da cmoda, rodeando dzias de fotografias em molduras de prata e ouro. Todas essas fotografias retratavam um bonito rapaz, o qual supunha ser o meu tio Jean. 
Havia algumas dele em criana, depois como adolescente e ,noutras, o meu pai estava a seu lado, apesar de a maioria ser retratos coloridos.

Era um homem realmente muito bonito, pensei, e o seu cabelo lembrava-me o de Paul, castanho-alourado. As fotografias a cores realavam os olhos claros com laivos 
de azul-esverdeado, o nariz perfeito, nem. demasiado curto, nem demasiado comprido, e a boca igualmente perfeita, cujo terno sorriso revelava os dentes muito brancos. 
Atravs das fotografias de corpo inteiro, reparei que tinha uma figura atraente e masculina, mas no entanto garbosa como a de um toureiro, com a cintura estreita 
e os ombros largos. Resumindo, o meu pai no tinha, de facto, exagerado na descrio que fizera do irmo. O tio Jean era a encarnao do ideal masculino de qualquer 
rapariga.

Passei os olhos pelo quarto e ,apesar da fraca iluminao, vi que nada havia sido alterado desde o acidente que ocorrera h tantos anos. A cama estava ainda feita, 
como se nessa mesma
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noite algum fosse ali dormir. Tudo o que estava nos armrios, na cmoda e nas mesas-de-cabeceira continuava intocado, apesar de um pouco poeirento. At um par de 
chinelos continuava no cho, ao lado da cama, como se na manh seguinte pudessem ser necessrios.

- Paizinho? - sussurrei para os cantos mais escuros do quarto. - Onde est?

- O que julgas estar a fazer? - ouvi a voz de daphne exclamar. - Virei-me de imediato e vi-a na porta, com as mos na cintura. - Porque entraste neste quarto?

- Julgava... que o meu pai estava aqui - expliquei.

- Sai imediatamente - ordenou ela, afastando-se da porta. Mal sa para o corredor, daphne inclinou-se para a maaneta e puxou a porta de imediato. - O que ests 
a fazer em casa? Tu e a Gisselle no tinham hoje uma festa?

daphne franziu as sobrancelhas e lanou um olhar  porta do quarto de Gisselle. Tinha um perfil admirvel, a zanga realava a perfeio das suas feies clssicas. 
Eu devia possuir realmente uma alma de artista, pois a meio de tudo o que estava a passar-se, s pensava na melhor forma de retratar o seu bonito rosto de grega.

- Ela tambm est em casa? - perguntou daphne.

- No - respondi, fazendo-a voltar para me fitar melhor. -Ento porque  que tu vieste antes? - indagou.

- Eu... no me senti bem, e resolvi vir para casa - respondi rapidamente. daphne fixou em mim o seu olhar penetrante, dando-me a sensao de que procurava nos meus 
olhos uma forma de me perscrutar a alma. Tive de desviar os olhos, sentindo-me culpada.

- Tens a certeza de que no ests a mentir? De certeza que no deixaste as raparigas sozinhas para fazerem alguma coisa proibida, talvez com os rapazes? - indagou 
daphne, desconfiada. Sentindo-me realmente doente, esforcei-me por falar de uma forma convincente.

- oh, no, eu  que tive de vir para casa. S quero ir deitar-me - expliquei.

daphne continuou a cravar os seus olhos nos meus, aprisionando-me da mesma forma que as borboletas so cravadas nos quadros. Trazia vestido o roupo de seda, calava 
os chinelos e tinha o cabelo cado, mas tinha ainda a maquilhagem fresca, com o bton a brilhar nos lbios e o rouge a colorir as faces. Mordi discretamente o lbio, 
sentindo-me de novo aterrorizada. Supunha que, nesse momento, j deveria realmente ter uma aparncia doentia.

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-O que  que se passa contigo? - insistiu Daphne.
- Di-me o estmago - respondi logo. Ela franziu as sobrancelhas, mas pareceu-me um pouco menos desconfiada.
- No esto a beber bebidas alcolicas, pois no? - perguntou. Abanei a cabea. - De qualquer forma, caso estivessem, no me contavas, no  verdade?

- Eu...

- No precisas de responder. Sei muito bem o que acontece quando um grupo de raparigas adolescentes se rene. O que me espanta   deixares de te divertir, s por 
causa de uma simples dor de estmago - comentou.

- No quis estragar a festa - respondi. Daphne inclinou para trs a cabea e mostrou-se complacente.

Est bem, ento vai-te deitar. Se te sentires pior.. No, j estou melhor - afirmei prontamente.

Muito bem. - e comeou a dirigir-se para os seus aposentos.

-Porque existem tantas velas naquele quarto? - corri o risco de perguntar. Lentamente, Daphne voltou-se para mim. -Na verdade - comeou, alterando subitamente o 
seu

tom de voz, agora bastante menos rspido e duro -, ainda bem que as viste, Ruby. Assim j podes entender melhor o que sou obrigada a suportar de tempos a tempos. 
O teu pai transformou aquele quarto num... num santurio. O que passou.

, passou comentou, friamente. - Queimar velas e murmurar preces e desculpas, no vai alterar nada. Mas ele no est no seu juizo perfeito. Tudo isto  muito constrangedor. 
Por isso, no comentes este assunto com ningum e ,principalmente, nunca o refiras diante dos empregados. No quero que a Nina ande por a a rezar e a deitar ps 
mgicos pela casa.

- O pai est dentro daquele quarto? Daphne lanou um olhar  porta do quarto. Est - respondeu.

Gostava de conversar com ele.

Ele no est com disposio prpria para conversar. O que se passa  que o Pierre, nestes momentos, fica completamente alterado, e com certeza no vais querer conversar, 
nem mesmo v-lo nesse estado. Depois, o Pierre ficaria mais perturbado ainda por saber que tu o viste assim, ainda mais do que tu ficarias agora. Vai dormir; podes 
conversar amanh de manh com o teu pai - concluiu, para logo a seguir semicerrar os olhos, suspeitando de algo mais. - Por que motivo queres tanto conversar agora 
com ele? O que tens para lhe dizer que no possas conversar comigo? Fizeste mais alguma tolice?

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-No - respondi, de imediato.

- Ento o que querias conversar com o teu pai? - insistiu Daphne.

-Queria apenas... confort-lo.

- Para o confortar, existem padres e mdicos -- retorquiu, deixando-me admirada por ela no ter acrescentado tambm o seu nome. - Alm disso, se o teu estmago te 
incomodava tanto que tiveste de voltar mais cedo para casa, como  que conseguirias estar sentada a conversar? - argumentou rapidamente, como se fosse uma advogada 
a defender um caso.

- Sinto-me um pouco melhor - expliquei. Daphne fitou-me, cptica. - Mas tem razo,  melhor ir-me deitar - acrescentei. Daphne concordou, acenando com a cabea, 
e dirigi-me ento para o meu quarto. Ela ficou no corredor a observar-me, at ter a certeza de que eu entrara no quarto.

Gostava de poder contar-lhe a verdade; no apenas sentia vontade de lhe contar o que se passara nessa noite, como desejava esclarecer o que sucedera na noite em 
que Gisselle me obrigara a beber rum, bem como todas as terrveis mentiras que ela contara na escola a meu respeito. Todavia, pensava que, se eu contasse a verdade, 
estaria a estabelecer claramente uma linha de guerra entre mim e Gisselle, que dessa forma nunca poderamos vir a ser as irms que eu desejava que fssemos. Gisselle 
passaria a sentir dio de mim. Apesar de tudo o que j acontecera entre ns, ainda alimentava a esperana de que, de alguma forma, consegussemos superar as diferenas 
que todos os anos de afastamento e de modos de vida to opostos haviam criado. Sabia que, nesses dias, eu dava uma maior importncia a esse desejo de unio do que 
a Gisselle, mas ainda admitia que, com o tempo, ela viesse a desej-lo tanto quanto eu. Neste mundo duro e cruel, ter uma irm ou um irmo, algum que nos pode amar 
e respeitar, no era algo que se pudesse desperdiar de nimo leve. e acreditava que, algum dia, a Gisselle compreendesse isso.

Fui ento deitar-me e fiquei depois a ouvir os passos de meu pai do lado de l da porta, que ocorreram logo depois da meia-noite, lentos e pesados. Senti-o parar 
e depois novamente caminhar, drigindo-se para o seu quarto, com certeza exausto, por tanto chorar no quarto que convertera num memorial ao seu irmo. "Porque ser 
essa mgoa to profunda?", pensei. Sentir-se-ia ele culpado?

As minhas dvidas pairavam na escurido, esperando uma hora de agarrar as respostas, tal como o velho falco do pntano quando aguarda pacientemente a chegada da 
presa.

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Fechei os olhos e lancei-me precipitadamente para a escurido que via dentro de mim, a mesma escurido que me prometia algum alvio.

Na manh seguinte, foi o meu pai quem me acordou, batendo  porta do quarto e espreitando com a cabea, to sorridente que duvidei no ter sonhado na noite anterior. 
"Como pode ele passar de um estado moral de profunda angstia para uma disposio to alegre?", pensei.

- Bom dia - exclamou, vendo-me sentar na cama e esfregar os olhos com os meus pequenos punhos.

-Bom dia.

- A daphne disse-me que tinhas vindo mais cedo ontem para casa, porque no estavas a sentir-te bem. Como te sentes hoje?

- Muito melhor - respondi.

- ptimo! Vou mandar a Nina preparar-te um pequeno-almoo leve. Aproveita para descansar, hoje. Comeaste da melhor forma as aulas de pintura e a nova escola... 
mereces ter um dia de descanso, para fazer s o que te apetecer. Tens de aprender a fazer isso com a Gisselle - acrescentou, dando uma gargalhada.

- Paizinho... - comecei. Queria contar-lhe tudo, confiar nele e desenvolver um tipo de relao na qual ele tambm pudesse confiar em mim.

-Sim, Ruby? - avanou mais um passo, j dentro do quarto.

-Nunca mais conversmos sobre o tio Jean. Gostava de um dia o ir visitar consigo - acrescentei. O que eu queria realmente dizer era que gostaria de partilhar com 
ele o peso de tanta mgoa e desespero. O pai esboou um sorriso triste.

-  uma atitude muito bonita da tua parte, Ruby, um gesto de bondade. Claro que - respondeu, alargando o sorriso - ele vai julgar que tu s a Gisselle. Vo ser precisas 
longas explicaes para que possa comear a aperceber-se de que tem duas sobrinhas.

- Ento ele consegue perceber algumas coisas? - perguntei.
- Julgo que sim. Tenho esperana que sim - respondeu, parando de sorrir. - Sou o nico a acreditar ainda que ele pode melhorar, os mdicos no acreditam. Mas eles 
no o conhecem como eu o conheo.

- Eu posso ajudar, paizinho - afirmei, impetuosamente.
- Se quiser, posso ir visit-lo, ler-lhe histrias, conversar com ele e passar horas e horas a fazer-lhe companhia - deixei escapar.

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- Boa ideia. Da prxima vez que for v-lo levo-te comigo
- exclamou.

- Promete?

- Claro que prometo. Agora, deixa-me ir l abaixo mandar preparar o teu pequeno-almoo - afirmou ele. - Ah! - exclamou, j ao p da porta -, a Gisselle dormiu em 
casa da claudine e telefonou a dizer que ia passar o dia com as amigas e perguntou por ti. Disse-lhe que, caso te apetecesse, telefonavas mais tarde a avisar que 
ias ter com elas. Se quiseres, posso levar-te.

- Prefiro seguir o seu conselho, paizinho, e vou aproveitar para ficar em casa a descansar.

- Como queiras - respondeu. - Demoras cerca de quinze minutos, no  assim?

- Sim, vou j vestir-me - respondi. Ele esboou um sorriso e depois saiu.

Talvez o que acabara de sugerir ao meu pai tivesse sido uma excelente ideia; talvez fosse essa a forma de tirar o pai do estado depressivo que daphne havia descrito 
e que eu testemunhara na noite anterior. Para Daphne, a situao era apenas embaraosa, pois ela no tolerava aquele tipo de comportamento, e ,quanto a Gisselle, 
decerto esse assunto no incomodava minimamente a minha irm. Talvez fosse esse um dos motivos que levara a grandmre Catherine a sentir que aquele era o meu lugar. 
Se eu conseguisse aliviar o meu pai do peso que aquela tristeza representava, seria uma forma de lhe oferecer algo que uma verdadeira filha devia dar a um pai.

Animada com essa hiptese, levantei-me e vesti-me depressa para ir tomar o pequeno-almoo. Mais uma vez, eu e o meu pai sentmo-nos sozinhos na mesa, o que comeava 
a ser mais a regra do que a excepo. Como daphne ainda no se levantara, perguntei ao pai por que motivo ela raramente descia para tomar o pequeno-almoo connosco.

- A Daphne gosta de acordar devagar. V um pouco de televiso, l e depois dedica-se s minuciosas preparaes dirias com que enfrenta cada manh: como se todos 
os dias fosse ser apresentada  sociedade! - respondeu, divertido: -  o preo que tenho de pagar por ter uma mulher to bonita e bem arranjada - acrescentou.

Em seguida, o meu pai fez algo que raramente o vi fazer: referiu a minha me, com um olhar saudoso e distante.

- A Gabrielle era diferente: acordava cada manh como uma flor que desabrocha  luz do Sol. O brilho dos seus olhos e o rosado natural das faces eram tudo do que 
necessitava para

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enfrentar um dia no bayou. v-la acordar era o mesmo que ver o nascer do Sol.

Gostava que ele me contasse muito mais e tinha inmeras perguntas a fazer sobre a me que eu nunca chegara a conhecer; queria ouvi-lo descrever a voz e o riso dela 
e ,se possvel, at mesmo o choro, pois era apenas atravs de meu pai que podia chegar a conhec-la um pouco. Porm, cada vez que se referia  minha me, ou que 
pensava nela, logo a seguir era dominado pelo medo e pelos remorsos. A lembrana da minha me estava trancada no armrio do passado da famlia Dumas, em conjunto 
com muitas outras recordaes proibidas.

Depois de ter tomado o pequeno-almoo, fiz o que o meu pai aconselhara e enrosquei-me numa das cadeiras compridas do terrao a ler um livro.  distncia, para l 
do golfo, podia, ver nuvens carregadas, mas que se movimentavam na direco oposta. Onde eu estava, a luz do Sol jorrava o seu brilho sobre mim, apenas ocasionalmente 
interrompida por uma pequena nuvem empurrada pela brisa martima. Duas cotovias empoleiradas no parapeito do terrao iam avanando milmetro a milmetro na minha 
direco; depois voavam, mas depressa regressaram ao ponto de partida, movidas pela curiosidade que sentiam a meu respeito. Cumprimentei-as com suavidade e ,sentindo-se 
seguras, inclinaram as cabecitas e sacudiram as asas, enquanto um esquilo cinzento subia os degraus do terrao para farejar o ar.

De vez em quando, fechava os olhos e inclinava-me para trs, imaginando que atravessava um dos canais na canoa, com a gua  minha volta a lamber suavemente a madeira 
do barco. Se existisse uma forma de conciliar o melhor desse mundo com este que agora conhecia, pensei, a minha vida seria perfeita. Talvez fosse isso que o pai 
sonhara quando comeou o romance com a minha me.

-Ento afinal, ests aqui! - algum exclamou perto de mim. Abri os olhos e deparei com Beau a subir os degraus. O Edgar disse que julgava ter-te visto a vir para 
aqui.

- Ol, Beau. Esqueci-me completamente que te tinha pedido para vires hoje ter comigo - confessei, endireitando-me na cadeira. Ele deteve-se a meio dos degraus do 
terrao.

- Vim mesmo agora da casa da Claudine -- comunicou, revelando no seu olhar que sabia muito mais do que eu imaginava.

-J soubeste o que me fizeram, no foi?

- Soube, o Billy contou-me. As raparigas estavam ainda a dormir, mas consegui conversar com a Gisselle.

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- - Imagino como todos devem estar a rir-se do que aconteceu - afirmei. Os olhos de Beau responderam antes que ele o pudesse realmente fazer e fitaram-me com compaixo.

-Um bando de vboras,  o que eles so - exclamou Beau, com os olhos azuis subitamente gelados. Tm inveja de ti, porque ganhaste muitas simpatias na escola e porque 
tens boas notas e talento -- continuou, aproximando-se mais. Desviei os olhos, sentindo as lgrimas a acumular-se.

-- Tenho tanta vergonha... No sei como vou conseguir voltar  escola - confessei.

- De cabea erguida, ignorando os escrnios e os risos declarou.

- Gostava de poder afirmar que sim, Beau, mas...

- Mas, nada. Venho buscar-te logo de manh e entramos juntos. S que antes disso...

-O qu?

-Vim aqui de propsito para te convidar para jantar anunciou educadamente, usando alguma formalidade. Tinha as costas muito direitas, para salientar a sua imagem 
de jovem gentleman crioulo.

- Para jantar?

- Sim, para te fazer um convite formal para jantar - explicou. Senti uma terrvel vontade de contar a Beau que nunca tinha recebido um convite para jantar, quer 
formal ou informal, mas mantive-me em silncio. - Tomei j a liberdade de fazer uma reserva para dois no Amaud's - acrescentou, com algum orgulho. Pela forma como 
se referia a esse jantar, conclu que aquela iria ser uma noite muito especial.

- Vou ter de pedir permisso aos meus pais -- respondi.
- Com certeza - respondeu, consultando o seu relgio. Tenho umas coisas para fazer, mas telefono-te por volta do meio-dia para confirmar as horas.

- Est bem - concordei, com a respirao alterada. Um jantar formal, uma sada  noite com Beau... todos iriam ficar a saber. Ele no estava apenas a ser simptico 
para mim na escola, ou a oferecer-se s para me dar boleia para casa.

- Bem - exclamou com um sorriso -, telefono-te daqui a pouco. - Comeou a afastar-se.

- Beau...
- Sim?

- No me convidaste s para que me sentisse melhor depois do que eles me fizeram passar, pois no? -- perguntei-lhe.
- O qu? - Comeou a rir, mostrando-se srio logo a seguir. - Ruby, quero apenas estar contigo, e ter-te-ia convidado
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de qualquer maneira, quer te tivessem feito aquela estpida partida, quer no - declarou. - Pra de te subestimar - acrescentou antes de partir. Fiquei imersa numa 
torrente de emoes contrrias, que iam desde a felicidade ao terror de fazer m figura e de contribuir apenas para aumentar a lista do que j haviam feito para 
provar que aquele no era o meu lugar.

Como? - exclamou daphne, desviando rapidamente os olhos da sua chvena de caf. - O Beau convidou-te a ti para jantar?

Sim. Ficou de telefonar ao meio-dia para confirmar expliquei. daphne olhou para o meu pai, que sentado a seu lado no ptio, a tomar mais outro caf, apenas encolheu 
os ombros.

- Porque ests to surpreendida? - indagou ento ele.
- Porqu? O Beau era o namorado da Gisselle - responM              deu daphne.

-Daphne, querida, eles no eram noivos, so apenas adolescentes. Alm do mais - acrescentou, lanando-me um sorriso -, tinha esperana que chegasse o tempo em que 
a Ruby fosse aceite como qualquer um de ns. Aparentemente, as roupas que lhe escolheste, os conselhos e as instrues que lhe deste acerca de como se comportar 
e de como se dirigir aos demais em sociedade, alm do teu bom exemplo, atingiram excelentes resultados. Devias ficar orgulhosa e no admirada, concluiu.

Daphne manteve-se pensativa e semicerrou as plpebras.
- Onde  que o Beau te tenciona levar? - indagou ela.
- Ao Arnaud's - respondi.

Ao Arnauds! - exclamou, pousando de repente a chvena-no pires. - Mas esse no  um restaurante qualquer! Vais ter de te vestir de uma forma adequada, muitos dos 
nossos amigos frequentam esse restaurante e ns somos amigos dos donos.

Por isso - interrompeu o meu pai -, vais ter de a ajudar a escolher uma roupa apropriada.

daphne limpou delicadamente os lbios com o guardanapo e mostrou-se de novo pensativa.

J  altura de ires ao cabeleireiro e tratarmos de te arranjar o cabelo e as unhas - comunicou.

-O que tem o meu cabelo?

Precisas de cortar as pontas e ficava melhor depois de lhe aplicarem uma mscara. Vou marcar uma hora hoje  tarde. Tenho a certeza de que vo encontrar uma forma 
de me atender, mesmo com to curta antecedncia - afirmou, confiante.
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-Boa ideia - concordou o meu pai.

- Vejo que j melhoraste do teu problema de estmago comentou daphne, propositadamente.

- Sim.

-A Ruby j est bem - afirmou o pai. - Estou muito orgulhoso da forma como ests a ajustar-te, Ruby, muito orgulhoso.

daphne fitou-o.

-No vamos h meses ao Arnaud's - comentou.

- No vou esquecer-me disso, e prometo que em breve regressaremos. S no devemos ir na mesma noite em que a Ruby l vai jantar, ela podia ficar sentida - explicou. 
daphne: continuou a fit-lo.

- Fico satisfeita por pensares nos sentimentos da Ruby, Pierre. Talvez agora comeces a considerar os meus - retorquiU, fazendo-o corar.

-  Eu...

-Vai subindo, Ruby - ordenou daphne. - Vou j ter contigo para te ajudar a escolher a roupa.

- Obrigada - agradeci. Antes de me retirar, lancei um olhar a meu pai, que parecia um menino que tinha acabado de sofrer uma repreenso, e depois fui para o meu 
quarto. Porque seria que tudo o que de agradvel me sucedera naquela casa, sempre causara algum aborrecimento?, interroguei-me.

Logo em seguida, daphne veio ter comigo ao quarto.

- Tens uma marcao para as duas horas no salo de beleza - informou, abrindo as portas do meu armrio e recuando, pensativa. - Ainda bem que me lembrei de te comprar 
isto afirmou, retirando um vestido do cabide -, e os sapatos a condizer. - Voltou-se e analisou-me. - Vais precisar de uns brincos. Podes levar uns meus e um colar 
tambm, para no pareceres to despida.

- Obrigada - respondi.

- Mas tem cuidado com eles - avisou, colocando de lado o vestido e voltando a fitar-me com desconfiana - Por que razo te fez o Beau este convite?

- Por que razo? No sei, ele disse apenas que queria convidar-me para jantar. No fui eu que lhe pedi, se  isso que est a pensar.

-No, no  isso que estou a pensar. O Beau e a Gisselle tm sado juntos j h bastante tempo e ,de repente, tu apareces em cena e ele deixa-a. J se passou alguma 
coisa entre ti e o Beau? - inquiriu daphne.

-No sei a que est a referir-se, me.

303
- Os homens muito jovens, os rapazes da idade de Beau, seguem os seus instintos sexuais - explicou. - Tm umas hormonas muito activas, o que os leva a procurar as 
raparigas mais promscuas, mais permissivas.

-No sou uma dessas raparigas - retorqui.

- Verdade ou no - continuou          o certo  que as raparigas cajuns tm fama.

- Mas  mentira. O certo  que        desabafei, irritada - as raparigas crioulas supostamente bem-educadas so muito mais promscuas.

- Isso  ridculo e no quero voltar a ouvir um disparate desses - declarou daphne, com firmeza; baixei os olhos. Aviso-te que - continuou -, se alguma atitude tua 
envergonhou ou vem a envergonhar a nossa famlia...

Envolvi o peito com os braos e voltei-lhe as costas, para que daphne no visse as lgrimas que me enevoavam a vista.
- Est preparada  uma e meia, para ir para o salo de beleza - concluiu finalmente, deixando-me a tremer de raiva e de frustrao. Seria sempre assim? Todas as 
vezes que atingia um objectivo ou que algo de agradvel me acontecia, Daphne conclua que se devera a um motivo imoral.

S quando Beau telefonou ao meio-dia  que comecei a sentir-me melhor, animada com a perspectiva do jantar.

Vou buscar-te s sete     anunciou ele.     De que cor  o teu vestido?

- Vermelho, como o vestido que a Gisselle levou ao baile de Carnaval.

-Muito bem. At logo, ento.

O motivo que o levara a querer saber a cor do meu vestido no me ocorreu at ao momento em que Beau apareceu  porta trazendo uma faixa ornamentada com rosas brancas 
para eu prender  cintura. Vestido de smoking, ficava ainda mais atraente e elegante. daphne fez questo de aparecer, assim que Edgar me avisou que Beau acabara 
de chegar.

- Boa noite, daphne - cumprimentou ele.

- Beau, ests muito elegante - elogiou daphne.

- Obrigado - exclamou, voltando-se para mim e entregando-me a faixa. - Tens um vestido muito bonito - afirmou. Reparei no nervosismo que o penetrante olhar de daphne 
lhe causava, pois os seus dedos tremiam ao abrir a embalagem para retirar a faixa. - Talvez seja melhor ser a daphne a coloc-la, no'quero magoar a Ruby.

- Nunca tiveste esse receio com a Gisselle            comentou daphne, avanando, no entanto, para fazer o que Beau pedira.
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- Obrigada - agradeci-lhe. Ela retribuiu os meus agradecimentos, baixando a cabea. - Leva cumprimentos nossos ao matre - pediu ento a Beau.

-Com certeza.

Beau deu-me o brao e deixei de boa vontade que ele me conduzisse para junto do seu carro.

- Ests muito bonita - elogiou, mal entrmos.
- Tambm ests muito elegante.

- Obrigado. - e o carro arrancou.

-A Gisselle ainda no voltou da casa da Claudine - informei.

-Esto a dar uma festa.

- Ah! Telefonaram a convidar-te?

- Sim - admitiu, sorrindo. - Mas respondi que tinha coisas mais importantes para fazer - acrescentou. Dei uma gargalhada, comeando finalmente a sentir que a pesada 
nuvem de ansiedade comeava a dissipar-se. Era agradvel poder descontrair-me um pouco e gozar o momento, para variar.

Contudo, ao entrar no restaurante, no pude deixar de me sentir outra vez nervosa. O local estava cheio de homens requintados e mulheres distintas, e todos eles, 
ao verem-nos entrar, desviaram os olhos dos pratos e interromperam as suas conversas para nos seguir com os olhos at  mesa que o empregado indicou. Recordei a 
ladainha que daphne repetira no caminho para o salo de beleza e de novo para casa: como me sentar direita, como segurar os talheres, qual o garfo a usar, como colocar 
o guardanapo no colo, mastigar sempre devagar com a boca fechada, deixar Beau pedir o jantar, etc...

"Se, por acaso, deixares, cair alguma coisa, uma faca ou uma colher, no a apanhes.  para isso que l esto os empregados", comunicou. Mas daphne lembrava-se sempre 
de algo mais. "E no sorvas a sopa, como se faz no bayou quando se come gumbo."

daphne fazia-me sentir to insegura que agora tinha a certeza de que acabaria por agir incorrectamente e envergonhar o Beau e a mim prpria. Tremia ao entrar no 
restaurante, tremia depois de sentada  mesa e voltei a tremer quando chegou a altura de pegar nos talheres e comer.

Beau fez tudo o que podia para me ajudar a relaxar. Elogiou-me vrias vezes e contou piadas acerca dos colegas que ambos conhecamos. Sempre que nos serviam alguma 
iguaria, explicava o que era e como tinha sido cozinhada.

- S sei tudo isto - justificou depois -, porque a minha me resolveu divertir-se a aprender a ser chefe de culinria. Est a deixar toda a famlia completamente 
maluca!

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Ri-me e continuei a comer, recordando, no entanto, a ltima advertncia de daphne: "No comas tudo e nunca deixes o prato vazio.  mais feminino ficar rapidamente 
cheia, pois uma mulher no deve parecer um lavrador a empanturrar-se de comida."

Apesar de o jantar ter sido sumptuoso e servido da forma mais requintada possvel, estava nervosa de mais para o apreciar e ,na verdade, quando apresentaram a conta 
e depois nos levantmos para sair, senti um certo alvio. Pensei, no entanto, que tinha conseguido enfrentar aquele elegante jantar sem fazer nada que daphne pudesse 
criticar. No importava o que viesse a acontecer: aos seus olhos eu acabaria por ficar bem vista por aquela noite, pois por algum motivo, apesar da forma desagradvel 
com que ela por vezes me tratava, a sua admirao e aprovao eram ainda muito importantes para mim, como se estivesse a tentar obter o respeito da realeza.

-  cedo - afirmou Beau, ao sair do restaurante. - Que tal se fssemos dar uma volta?

-Est bem.

No fazia a mais pequena ideia de para onde nos dirigamos, mas rapidamente verifiquei que j nos tnhamos afastado do centro mais movimentado da cidade. Beau, entretanto, 
conversava sobre os stios que conhecia e aqueles que gostaria de conhecer. Quando lhe perguntei aquilo que ele gostaria de ser na vida, Beau respondeu que estava 
a pensar seriamente em vir a ser mdico.

- Que excelente ideia, Beau!

- Mas  claro que, neste momento - explicou, sorrindo ainda  apenas isso, uma ideia. Quando eu tomar conscincia daquilo que me espera, se calhar, desisto.  o 
que normalmente acontece.

- No admitas isso a teu respeito, Beau. Se queres realmente atingir esse objectivo, vais conseguir.

- Falas como se isso fosse muito fcil, Ruby. Mas, realmente tens o condo de fazer com que as situaes mais dificeis e complicadas paream muito simples. Por exemplo, 
v como j conseguiste decorar o teu papel na pea e como tens feito todos os outros ganhar confiana em si prprios... inclusive eu, devo acrescentar... - Prosseguiu, 
abanando a cabea: A Gisselle est sempre a desfazer em tudo, a diminuir tudo aquilo de que gosto. Ela, s vezes,  to... negativa.

-Talvez no seja assim to feliz como finge ser - comentei em voz alta.

- Sim, podes ter razo. Mas tu tens todos os motivos para
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ser infeliz e ,no entanto, no deixas que ningum  tua volta pense que no s feliz.

-Foi a minha grandmre Catherine quem me ensinou a ser assim - expliquei-lhe, sorrindo. - Ensinou-me a ter esperana, a acreditar no amanh.

Beau esboou um leve sorriso, sem entender muito bem.
- Falas to bem dela e ,afinal, a tua grandmre fazia parte da famlia cajun que te raptou quando eras beb, no era? indagou.

-Sim, mas... ela s soube muitos anos depois - justifiquei, emendando rapidamente. - e ,nessa altura, j era tarde de mais.

- Ah...

- Aonde vamos? - perguntei, olhando pela janela e vendo que estvamos em plena auto-estrada, rodeados por terrenos pantanosos.

- A um local agradvel, onde s vezes vou. Tem uma boa vista l adiante - afirmou, virando para uma estrada secundria que nos levou at a um campo aberto, de onde 
se avistavam as luzes longnquas da cidade de Nova Orlees. - Bonito, no ?

- Sim,  lindo. - Fiquei a pensar se algum dia me habituaria aos edifcos altos e quele mar de luzes. Ainda me sentia uma estranha.

Beau desligou o motor, mas o rdio, que nesse momento tocava uma cano calma e romntica, continuou ligado. Embora o cu estivesse carregado de nuvens, as estrelas 
espreitavam pela mais pequena aberta, brindando-nos com o seu brilho intenso. 

- Quando saas  noite, no bayou, onde costumavas ir? perguntou Beau.

- Raramente saa. S fui uma vez at  cidade comer um gelado e fui tambm a um fais dodo, a um baile, com um amigo - contei.

-Ali... No escuro, no conseguia ver o rosto de Beau, o que me recordou aquela noite no chal. Tal como nessa ocasio, o meu corao comeou a bater sem qualquer 
motivo aparente. Vi a cabea e os ombros de Beau inclinarem-se sobre mim at os seus lbios encontrarem os meus. Foi um beijo rpido, mas Beau suspirou em seguida 
e pousou firmemente as mos sobre os meus ombros, apertando-me.

- Ruby - sussurrou ele -, s igual  Gisselle, mas s muito mais suave, muito mais feminina. Consigo distinguir-vos apenas com um olhar..

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Beijou-me novamente, e depois beijou a ponta do meu nariz. Mantive os olhos fechados, mas senti os seus lbios deslizarem pelo meu rosto; beijou-me as plpebras, 
a testa e depois novamente os lbios, desta vez de uma forma intensa e exigente, que fez o meu peito vibrar como se uma mo invisvel o percorresse at ao ventre.

- oh, Ruby, Ruby - murmurava ele, beijando-me o pescoo. Antes que me pudesse aperceber, os lbios de Beau percorriam a ponta dos meus seios, movendo-se rapidamente 
para a cavidade que existia entre os dois. A resistncia natural que ainda existia em mim diminuiu de imediato; soltei um gemido e deixei-me afundar no banco, enquanto 
ele se movia sobre mim, passando as mos pelo meu peito e desapertando, com experincia, o fecho do meu vestido, que logo baixou.

- oh, Beau, eu...

- s to bonita, muito mais do que a Gisselle. A pele dela  uma lixa comparada com a tua, que parece seda.

Os dedos de Beau encontraram o fecho do meu soutien, que rapidamente se desapertou. Instantaneamente, a boca dele percorria-me os seios, afastando o soutien de forma 
a expor cada vez mais a minha pele. Logo depois, Beau beijava-me o mamilo firme, erecto e desejoso, apesar da voz dentro de mim que tentava impedir o meu corpo de 
sentir tanto desejo. Era como se existissem duas identidades dentro de mim: a Ruby sensata, calma e lgica, e a Ruby ardente, emocional e faminta de amor e afecto.

- Tenho um cobertor na mala do carro - murmurou Beau. Se concordares, podemos estend-lo e ficar deitados a ver as estrelas e

"E o qu?", pensei eu, finalmente. Acariciarmo-nos e abraarmo-nos at no poder mais voltar atrs? De repente, o rosto enervado de daphne surgiu de novo diante 
de mim e as suas palavras ecoaram na minha cabea: "Procuram raparigas mais promscuas, mais permissivas... verdade ou no, o certo  que as raparigas cajuns tm 
fama."

-No, Beau. Estamos a ir demasiado longe e demasiado depressa. No posso fazer isso... - murmurei.

-  s para podermos estender-nos, para ficarmos mais confortveis - props ele, com os lbios colados ao meu ouvido.
- Sabes bem que no seria apenas isso, Beau Andreas. -V l, Ruby! J fizeste isto antes, no j? - afirmou com uma aspereza que cortou o meu corao.

-Nunca, Beau! No da forma como ests a imaginar! respondi, indignada. O meu tom firme f-lo arrepender-se da insinuao anterior, mas Beau no se deu por vencido.

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- Ento, deixa-me ser o primeiro, Ruby. Quero muito ser o primeiro. Por favor... - implorou.

- Beau...

Continuou a beijar-me o peito, incentivando-me e encorajando-me com os dedos, o toque, a lngua e a respirao quente, mas eu reforcei a minha resistncia, recordando 
as acusaes e especulaes de daphne. Estava decidida a no me encaixar na imagem da rapariga cajun que todos queriam que fosse; no daria a ningum essa satisfao.

-O que se passa, Ruby? No gostas de mim? - gemeu Beau, quando me afastei dele e tapei o peito com o vestido.
- Gosto, Beau, gosto muito de ti, mas ainda no quero fazer isso. No quero fazer o que todos esperam que faa... at mesmo tu - acrescentei.

Beau sentou-se de repente, agora mais irritado do que frustrado.

- Fizeste-me acreditar que gostavas realmente de mim! exclamou.

- e gosto, Beau, mas porque no podemos parar quando te peo para parar? Por que razo no podemos...

- Atormentarmo-nos um ao outro? - perguntou, sarcasticamente. - Era isso que fazias com os teus namorados do bayou?

-No tinha namorados. No da forma como tu ests a insinuar - respondi. Beau. ficou em silncio e depois respirou fundo.

- Desculpa, no quis insinuar que tinhas muitos namorados. Pousei a mo no ombro dele.

- Primeiro, no podemos conhecer-nos melhor, Beau?

- Sim, claro que sim,  essa a minha vontade. Mas fazer amor  a melhor forma de conhecer algum - insistiu, voltando-se novamente para mim. Beau falara de uma forma 
to convincente que parte de mim quis ceder; consegui, no entanto, manter essa parte isolada dentro de mim, trancada a sete chaves.
- No vais dizer-me agora para sermos apenas bons amigos, pois no? - acrescentou com ironia, ao ver que eu no cedia.

- No, Beau. Sinto-me atrada por ti, seria mentirosa se dissesse o  contrrio - confessei.

- Isso significa que?...

- Que no devemos precipitar os acontecimentos, para que depois no venha a arrepender-me - conclu. Beau ficou paralisado por  alguns instantes e depois inclinou-se 
para trs. Eu, entretanto, comecei a apertar o soutien.

De repente, Beau desatou a rir.

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- O que foi? - perguntei-lhe.

- Na primeira vez que trouxe a Gisselle a este stio, foi ela quem se atirou a mim e no o contrrio! - comentou, ligando o motor. - Vocs as duas so realmente 
muito diferentes. -Parece que sim - admiti.

- Como diria o meu av: " Vive Ia diffrence! " - respondeu, rindo-se outra vez. Fiquei sem perceber qual dos comportamentos Beau preferia, se o meu, se o de Gisselle.

- Ruby - disse ele, j de novo na auto-estrada -, vou seguir o teu conselho e vou tentar acreditar naquilo que disseste a meu respeito.

- O qu?

- Que, se eu quiser mesmo atingir um objectivo - explicou -, posso consegui-lo... um dia! - Os faris de um carro que passou por ns iluminaram o rosto de Beau, 
que sorria.

Beau era to bonito! e eu sentia realmente carinho e atraco por ele, apesar de estar satisfeita por no ter cedido e ter permanecido assim fiel a mim prpria e 
no  ideia que os outros tinham de mim.

Quando chegmos a casa, Beau acompanhou-me at  porta e depois deu-me um beijo de despedida.

- Venho ver-te amanh  tarde para ensaiar os papis, est bem? - sugeriu.

- Boa ideia. Gostei muito de ter sado contigo, Beau, obrigada.

Ele deu uma gargalhada.

- Porque te ris de tudo quanto eu digo? - perguntei-lhe. -No posso evitar, estou sempre a lembrar-me da Gisselle. Se fosse ela, esperava ser eu a agradecer-lhe 
por ter-me concedido a oportunidade de gastar uma pequena fortuna com o jantar! Mas no me rio de ti - acrescentou. - Fico apenas... admirado pela tua forma de falar 
e de agir.

-e gostas da forma como sou, Beau? - Fitei os seus olhos azuis e reconheci neles o desejo sincero de responder correctamente.

- Creio que sim, creio mesmo que sim - respondeu, como se pela primeira vez se apercebesse realmente disso. Beau beijou-me outra vez antes de partir. Fiquei a v-lo, 
e s depois bati  porta. Edgar abriu-a to rapidamente que pensei que devia ter estado do lado de trs  espera.

Boa noite, mademoiselle - cumprimentou ele.

Boa noite, Edgar - respondi, dirigindo-me para a escadaria.

- Mademoiselle...
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Voltei-me para trs, ainda risonha devido  imagem recente de Beau a despedir-se de mim.

- Sim, Edgar?

- Pediram-me para lhe comunicar que esto  sua espera no estdio - informou.

- Como?

- Os seus pais e Mademoiselle Gisselle esto  sua espera
- explicou.

- A Gisselle j chegou? - Surpreendida, mas cheia de receio, fui at ao estdio.

Gisselle estava sentada num dos sofs de pele e daphne numa das poltronas. O meu pai espreitava  janela, de costas para mim. Voltou-se mal ouviu daphne exclamar:

- Entra e senta-te.

Gisselle fitava-me, lanando-me olhares furibundos. Pensaria ela que eu lhes contara? Teria o meu pai e daphne ouvido de alguma outra fonte o que se passara na festa 
da noite anterior?

- Divertiste-te? - indagou daphne. - Comportaste-te bem e fizeste tudo quanto te disse que devias fazer no restaurante?

- Sim.

O meu pai mostrou-se aliviado com a minha resposta, apesar de estar ainda perturbado e distante. Desviei dele os olhos e pousei-os em Gisselle, que virou rapidamente 
a cabea; procurei ento o olhar de daphne, que entrelaou as mos sobre ocolo.

- Parece que, desde que chegaste, no nos contaste tudo acerca do teu srdido passado - afirmou. Voltei a fitar os olhos em Gisselle, que estava agora recostada 
de braos cruzados, gozando satisfeita a cena.

- No percebo. O que foi que no contei? daphne fez um trejeito com a boca.

-No nos contaste nada acerca da tua amiga de Storyville
- explicou ela. Nos primeiros instantes, o meu corao parou, recomeando depois a bater impulsionado por um misto de medo, raiva e imensa frustrao. Voltei-me 
imediatamente para Gisselle.

- Qual foi a mentira que inventaste desta vez? - inquiri, vendo-a encolher os ombros.

- Contei s que nos tinhas levado a Storyville para conhecermos a tua amiga - explicou, lanando ao pai um olhar de pura inocncia.

-Eu? Levei-vos a vocs?... Mas... - exclamei.

- Como foi que conheceste essa... prostituta? - quis saber daphne.

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-No a conheo - respondi. - No da forma como a Gisselle est a insinuar.

-Ela sabia o teu nome, no sabia? No sabia?
- Sim.

-e sabia que estavas  procura de mim e do Pierre? prosseguiu Daphne, como se estivesse a levar a cabo um inqurito.

-  Sim,  verdade, mas...

- Como a conheceste? - inquiriu com voz firme. Uma onda de sangue quente subiu-me  cara.

-Conheci-a no autocarro para Nova Orlees, e no sabia que era prostituta - gritei. - Disse-me que se chamava Annie Gray, e quando chegmos a Nova Orlees ofereceu-se 
para me ajudar a encontrar esta morada.

- Ento ela conhece a nossa morada - concluiu Daphne, acenando com a cabea ao meu pai, que fechou os olhos e mordeu o lbio.

- Disse-me tambm que vinha para c para ser cantora expliquei -, e est ainda  procura de emprego. A tia dela prometeu-lhe que...

-Queres fazer-nos crer que acreditaste que essa mulher era apenas uma cantora de bar?

-  verdade! - voltei-me para o paizinho. -  verdade!
- Est bem - respondeu ele. - Talvez seja.

- Qual  a diferena? - interrogou Daphne. - A esta altura j a famlia Andreas e Montaigne sabem que a tua... a nossa filha tem este tipo de conhecimentos.

- Ns explicamos-lhes - insistiu o pai.

- Explicars tu - retorquiu Daphne, voltando-se de novo para mim. - Essa mulher prometeu contactar-te ou deu-te alguma morada para tu a encontrares?

Olhei mais uma vez para Gisselle, que no se tinha esquecido de nenhum pormenor. Maldosa, a minha irm sorriu. -Sim, mas...

-Nunca, mas nunca te atrevas sequer a baixar a cabea a essa mulher se a encontrares em qualquer stio, e nunca aceites cartas ou telefonemas da sua parte, ouviste?

- Sim, senhora. - Olhei para baixo, arrepiada pelas lgrimas geladas que me corriam pelas faces.

- Tinhas obrigao de nos ter contado isto, para que pudssemos estar preparados para alguma eventualidade. Existe mais algum segredo srdido que no saibamos?

Abanei prontamente a cabea.

-Muito bem. - Daphne olhou para Gisselle. - Vo as duas para a cama - ordenou.

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Levantei-me devagar e ,sem esperar por Gisselle, comecei a subir as escadas, com os passos pesados, a cabea cada e ,no peito, um peso to grande como se carregasse 
uma tonelada de chumbo dentro de mim.

Gisselle pavoneou-se  minha frente, mostrando no rosto toda a satisfao que sentia.

- Espero que tu e o Beau se tenham divertido - comentou ao passar por mim.

Fiquei a imaginar qual teria sido a parte de minha me que, combinada com algum lado do meu pai, tivesse criado algum capaz de tanto dio e maldade.

A MALDIO

No dia seguinte, Gisselle e eu mal nos falmos. Acabei de tomar o pequeno-almoo antes de ela descer e ,logo a seguir, Gisselle saiu com Martin e mais duas amigas. 
O pai saiu para adiantar um trabalho do escritrio e ,quanto a daphne, apenas a vi uma vez, antes de sair com as amigas para almoar e fazer compras. Passei o resto 
da manh no atelier a pintar. Ainda no me sentia  vontade a viver numa casa to grande como aquela. Apesar das muitas antiguidades e trabalhos de arte, das moblias 
francesas e das valiosas tapearias e alcatifas, para mim, a casa continuava to vazia e to fria como um museu. Ao atravessar os longos corredores para ir almoar 
sozinha, pensei como era fcil sentir solido dentro daquela casa.

Assim, foi com imensa satisfao que recebi Beau no incio da tarde; resolvemos ir para o atelier ensaiar os papis, mas primeiro Beau esteve a ver todos os quadros 
que eu tinha pintado sob a orientao do professor Ashbury.

- Ento? - perguntei, ao v-lo observar quadro aps quadro sem fazer nenhum comentrio.

- No queres pintar o meu retrato? - sugeriu ele, acabando de analisar uma aguarela com um cesto de fruta.

- O teu retrato? - A ideia era completamente nova. No rosto de Beau foi surgindo lentamente um sorriso.

- Sim... Aposto que seria bastante mais interessante do que muitos destes quadros. - O sorriso desapareceu de repente e os olhos cor de safira fitaram-me como nunca 
antes o tinham feito, revelando claramente a intensidade do desejo. - Se quiseres, posso posar nu - afirmou.

313
Tenho a certeza de que corei. -Nu! oh, Beau!

-Apenas em nome da arte - justificou rapidamente. Um artista tem de aprender a desenhar e a pintar o corpo humano, no  assim? At eu sei isso - comentou. - De 
certeza que, daqui a uns tempos, o teu professor vai obrigar-te a pintar nus no atelier dele. J ouvi dizer que na escola h rapazes e raparigas que servem de modelos 
para essas pinturas s para ganhar dinheiro. Ou ser que j alguma vez pintaste um nu? perguntou, mostrando que a ideia no lhe agradava muito.

- Claro que no, ainda no estou preparada para esse tipo de trabalho, Beau - afirmei, com a voz quase a falhar. Ele avanou uns passos na minha direco.

-Achas que no sou suficientemente bonito? Achas que os  outros rapazes da escola podem ser melhores modelos? -No, no acho, no  isso.  que...

- O qu?

- No conseguiria pintar-te, ficaria demasiado envergonhada. Agora pra de falar nesse assunto! Viemos aqui para ensaiar, no foi? - afirmei, abrindo o guio. Beau 
continuava a fitar-me com a mesma expresso de desejo a intensificar a cor azul-celeste dos seus lindos olhos. Tive de fixar os olhos nas pginas do livro para que 
Beau no se apercebesse da agitao que desencadeara no meu peito. O corao batia descompassado sempre que a imagem de Beau, deitado numa chaise-longue sem roupa, 
me vinha  ideia e no conseguia parar de tremer. Desejava muito que ele no reparasse no quanto as minhas mos tremiam ao manusear as folhas do guio.

-Tens a certeza? - questionou ainda. - S depois de tentar  que se chega a alguma concluso. - Respirei fundo, pousei o guio e fitei-o com determinao.

- Tenho a certeza, Beau. Alm disso, nem posso imaginar no que pode acontecer se a Daphne resolver acreditar em mais alguma maldade minha. Ela j quase convenceu 
o pai que sou uma espcie de bruxa cajun, graas  Gisselle.

- O que queres dizer com isso! - perguntou Beau, vindo sentar-se logo ao meu lado. Com a respirao alterada, contei arrebatadamente o inqurito que me haviam feito 
acerca de Annie Gray.

- A Gisselle contou que a conhecias? - perguntou, abanando a cabea. -  tudo cimes - afirmou. - Ela bem sabe que tem motivos para os sentir - acrescentou, com 
o olhar cada vez mais terno. - Gosto demasiado de ti para voltar atrs, a Gisselle vai ter de se habituar a essa ideia e comear a portar-se bem.

314
Ficmos alguns segundos de olhos nos olhos. L fora, a nvoa matinal tinha dado lugar s nuvens escuras e uma chuva pesada comeara entretanto a cair. As gotas grossas 
batiam nas janelas e escorregavam pelas vidraas como lgrimas a descer pelo rosto de algum.

Aos poucos, Beau inclinou-se sobre mim. No me afastei e permiti que ele me beijasse suavemente os lbios, sentindo de imediato o meu pequeno muro de resistncia 
a desmoronar. Surpreendendo-me a mim prpria e a Beau, retribu o beijo no exacto instante em que ele terminara o seu. Nenhum de ns falou, mas ambos nos apercebemos 
de que os ensaios dessa tarde estavam destinados ao fracasso, pois agora era impossvel concentrarmo-nos na pea. Mal levantei os olhos do livro e me detive nos 
dele, a minha cabea rodou e perdeu toda a lgica do raciocnio.

Finalmente, Beau retirou o guio das minhas mos e colocou-o de lado, juntamente com o seu, voltando-se em seguida para mim.

- Pinta o meu retrato, Ruby - sussurrou ento, utilizando um tom to tentador como a serpente deveria ter usado no paraso. - Desenha-me e pinta o meu retrato. Vamos 
trancar a porta e comear agora mesmo.

- Beau, no posso... no devo.

- Porque no? No pintas os animais sem roupa? - brincou. - e a fruta, tambm no est nua diante de ti?

- Pra, Beau.

- No tem qualquer importncia - insistiu, de novo srio. Vai ser o nosso segredo - acrescentou. - Porque no comeamos j? No est ningum em casa para nos interromper
- argumentou, comeando a desabotoar a camisa.

- Beau...

De olhos fixos em mim, tirou a camisa e em seguida levantou-se para tirar tambm as calas.

-Vai fechar a porta  chave - pediu.
- Beau, no...

- Se no fechares a porta e algum entrar..
- Beau Andreas!

Tirou finalmente as calas, as quais dobrou cuidadosamente, e ficando apenas de cuecas, esperando, com as mos na cintura.
- Como  que devo ficar? Sentado, de joelhos ou deitado de costas?

- Beau j disse que no posso...

-A porta - respondeu, apontando para a entrada mais enfaticamente. Para me apressar, comeou a puxar com os de-
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dos o elstico das cuecas, puxando-as para baixo. Saltei imediatamente da cadeira e corri para a porta, mas, mal ouvi a chave correr na fechadura, tive conscincia 
de que tinha ido longe de mais. Seria apenas porque no conseguia det-lo, ou permitiria eu aquela situao porque tambm a desejava! Voltei-me e vi Beau com as 
cuecas na mo, usando-as para se tapar.

-Como  que queres a pose?

-Veste-te imediatamente, Beau Andreas - ordenei. -Agora j tirei a roupa,  demasiado tarde para voltar atrs. Comea a pintar.

Beau sentou-se ento na chaise-longue, ainda a cobrir as partes ntimas com as cuecas. Depois, levantou despreocupadamente as pernas e deitou-se, sempre de olhos 
fitos em mim; com um gesto rpido, atirou ento as cuecas para trs da cadeira, deixando-me de boca aberta.

- Achas bem que me incline assim sobre o brao?  uma boa pose, no ?

Abanei a cabea, desviei o olhar de Beau e atirei-me para a cadeira que estava mais prxima, pois o bater acelerado do corao tornara as minhas pernas moles como 
manteiga. ,

-Vamos, Ruby, comea a pintar - ordenou. -  um grande desafio este: tens de ver se consegues mesmo agir como uma artista, olhar para algum e ver apenas um objecto 
para esboar e pintar.  o que o mdico tem de fazer para poder tratar seu doente.

-No posso, Beau, por favor. No sou mdica e tu no s meu doente - insisti, ainda sem conseguir olh-lo.

-  o nosso segredo, Ruby - sussurrou. Vai ser sempre o nosso segredo - continuava. - Vamos, olha para mim. Tu consegues, olha para mim - comandou.

Lentamente, como se estivesse hipnotizada pelas suas palavras, virei a cabea e pousei nele os olhos, analisando o tronco musculado e a forma harmoniosa como as 
linhas do seu corpo se conjugavam e uniam. Seria eu capaz de fazer aquilo que Beau pedira? Conseguiria olh-lo, desligando-me o suficiente para o conseguir encarar 
apenas como um objecto para pintar?

A minha alma de artista sentia curiosidade em saber se isso seria possvel e exigia uma resposta. Levantei-me em seguida e fui at ao cavalete para virar a pgina, 
de forma a comear a desenhar numa em branco. Depois, com o lpis de desenho na mo, olhei para ele, absorvendo profundamente a sua imagem e devolvendo-a  folha 
que tinha diante de mim. Os dedos, de incio trmulos e hesitantes, comearam a ganhar firmeza e fora, ao esboar as linhas das suas formas. Demorei-me bastante
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a esboar-lhe o rosto, tentando retratar no s a imagem que tinha de Beau, mas tambm a forma como todos o viam. Desenhei-o com uma expresso sria e profunda no 
olhar e depois, satisfeita com o resultado, continuei a dar forma ao corpo. Depressa tive de esboar os ombros, a cintura, as ancas e as pernas, concentrando-me 
no peito e no pescoo, tentando captar os msculos fortes e as linhas suaves.

Durante todo esse tempo, Beau mantinha o olhar to fixo em mim que mais parecia um manequim. A prova servia tanto para ele, como para mim.

- Isto no  fcil - confessou finalmente. -Queres parar?

-No, posso aguentar mais um pouco. Aguento tanto quanto tu aguentares - acrescentou.

A minha mo comeou a tremer novamente quando comecei a desenhar a zona do estmago. Cada linha que traava era como se estivesse a passar a mo pelo seu corpo, 
que fatalmente teria de atingir a zona mais ntima. Beau sabia que eu chegara a esse ponto, pois exibiu um sorriso sensual.

- Se precisares de ver mais de perto, no tenhas medo afirmou, num sussurro bem audvel.

Pousei de novo os olhos no desenho e comecei logo a esboar o que vira, com movimentos to rpidos como os de uma louca. No precisei de observar mais nenhuma vez, 
pois a imagem do seu corpo permanecia diante dos meus olhos. Sentia as faces a arder e o corao a bater tanto que nem sei como pude continuar a pintar, mas o certo 
 que consegui. e quando, finalmente, me afastei do papel, vi que tinha desenhado a sua figura com grande pormenor.

- Que tal? - perguntou Beau.

- Julgo que est bem - respondi, surpreendida pela qualidade que tinha conseguido atingir. No me lembrava de ter desenhado uma s linha, era como se tivesse estado 
possuda.

- Subitamente, Beau levantou-se e veio colocar-se a meu lado para ver o desenho.

-Est muito bom - afirmou.

- J podes voltar a vestir-te, Beau - respondi, continuando a fitar o desenho.

-No estejas to nervosa - disse ele, colocando a mo no meu ombro.

- Beau...

- J viste tudo o que tinhas a ver, j no tens motivos para sentir vergonha - sussurrou. Quando ele me envolveu nos seus braos, ainda tentei resistir e ordenei 
aos meus ps que me

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levassem dali para fora, mas a minha ordem acabou por no ser cumprida; fiquei exactamente no mesmo stio, to malevel como a argila hmida, permitindo que Beau 
me virasse para ele e me beijasse. Senti o seu corpo despido contra o meu e a sua masculinidade avolumar.

- Beau, por favor..

- Schiu... - murmurou, passando ternamente a mo pela minha face. Beijou-me com ternura nos lbios e depois pegou-me ao colo e levou-me para a chaise-longue, onde 
me deitou, ajoelhando-se para melhor me beijar. Os seus dedos movimentavam-se com rapidez sobre a minha roupa, desabotoando a blusa e desapertando o fecho da saia. 
Desapertou tambm o soutien e deixou-o tombar. Senti os seios descobertos estremecerem, mas no pude resistir. Mantive os olhos fechados e apenas gemi quando Beau 
me beijou o pescoo e os ombros e mordiscou o peito. Em seguida, ele ergueu-se com suavidade e fez a saia escorregar, enterrando rapidamente a sua cabea no meu 
ventre. Os beijos de Beau eram como fogo, pois, por onde quer que passassem os seus lbios, deixavam um fervor latente no meu corpo.

- s maravilhosa, Ruby, maravilhosa! Por fora, s to bonita como a Gisselle, mas por dentro s muito mais linda e delicada - murmurava ele. - No posso deixar de 
me apaixonar, nem consigo deixar de pensar em ti. Estou louco por ti jurava.

Senti-me maravilhada. Amar-me-ia realmente Beau com tamanha paixo? Num precioso momento de silncio, ouvi o toque da chuva na janela e senti um arrepio quente percorrer 
todo o meu corpo. Os dedos de Beau continuavam a percorrer-me e a agitar-me. Tentei segurar a sua cabea com as minhas mos, mas, em vez disso, beijei-lhe a testa 
e o cabelo, abraando-o com firmeza contra o meu peito.

- Tens o corao a bater tanto quanto o meu - afirmou Beau, lanando-me um olhar profundo. Fechei os olhos e ,como num sonho, senti o toque suave dos seus lbios 
nas faces, no cabelo, depois muito gentilmente sob as plpebras e s ento novamente nos lbios. Dessa vez, ao beijar-me, correu os dedos pelo elstico das minhas 
cuecas e baixou-as.

Ainda tentei protestar, mas ele aquietou-me com outro beijo.
- Vai ser maravilhoso, Ruby - sussurrou. - Prometo. Alm disso, deves ficar a saber como  .Um artista tem de conhecer o amor - afirmou.

- Mas tenho medo, Beau. Por favor.. pra.

- No tenhas medo - pediu, sorrindo para mim. Sem rou-
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pa debaixo dele, senti o seu corpo nu vibrar contra o meu, o que me tirou o flego e dificultou muito mais a fala. - Quero ser eu o primeiro. - Tenho de ser o primeiro 
- repetiu porque te amo.

- Amas, Beau? Amas mesmo?

- Sim - jurou, devolvendo os seus lbios aos meus e deslizando simultaneamente para o meio das minhas pernas. Tentei resistir, mantendo as pernas unidas, mas ele 
incitava-me, beijando e acariciando zonas do meu corpo que nunca antes dera a conhecer a nenhum homem. Era como tentar impedir um dilvio pois, onda aps onda, a 
excitao vencia-me at eu me afundar por completo na torrente avassaladora da paixo. Deixei escapar a resistncia final e descontra as costas e as coxas, enquanto 
ele se movimentava com determinao para me penetrar. Gritei. Senti a cabea a andar  roda e uma tontura deliciosa devolveu-me o eco dos meus gemidos. As exploses 
que se davam dentro de mim enchiam-me de espanto e de receio, mas tambm de prazer. Por fim, ele atingiu o clmax, que foi rpido, quente e impetuoso. Senti o corpo 
de Beau estremecer e depois ficar subitamente imvel, com os lbios ainda colados  minha face e a respirao quente e ofegante.

- oh!, Ruby - gemeu ele -, Ruby, s linda, encantadora. Apercebi-me ento do que havia permitido que acontecesse e empurrei os ombros de Beau.

-Deixa-me levantar, Beau, por favor - exclamei. Ele sentou-se e eu comecei a procurar as minhas roupas e a vesti-las. -No ests zangada comigo, pois no? - quis 
saber ele. -Estou zangada comigo - afirmei.

-Porqu? No foi maravilhoso para ti tambm?

Cobri o rosto com as mos e rompi em lgrimas, sem poder controlar-me. Beau tentou consolar-me e acalmar-me.

- Est tudo bem, Ruby, acredita. No chores.

-No est, Beau, no est tudo bem. Pensava que eu era diferente... - lamentei.

- Diferente de quem? Da Gisselle?

-No, da... - No podia dizer. No podia contar a Beau que tinha esperana de no vir a comportar-me como uma Landry, porque ele no sabia quem era a minha verdadeira 
me. O sangue que corria nas minhas veias era to quente como o da minha me, que tantos problemas lhe criara, primeiro com o pai de Paul e depois com o meu pai.

-No entendo - exclamou Beau, comeando a vestir as roupas.

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-No interessa - comentei, recuperando o controlo de mim mesma e voltando-me para ele. - No estou a querer culpar-te de nada, Beau. No me obrigaste a fazer nada 
que, no fim, j no desejasse fazer.

- Gosto muito de ti, Ruby - declarou. - Acho que gosto de ti como nunca gostei de nenhuma outra rapariga.

-A srio, Beau? No dizes tudo isso sem sentir? -Claro que no. Eu...

Ouvimos passos no corredor que dava para o meu atelier. Acabei depressa de me vestir e Beau entalou a camisa nas calas, enquanto algum tentava abrir a porta. Bateram 
a seguir  porta e ouviu-se a voz de Daphne.

-Abre imediatamente a porta! - gritou.

-Corri para a entrada e destranquei a porta. Ali estava Daphne, olhando para ns e lanando-me um olhar to duro e acusador que comecei logo a tremer.

- O que estavam a fazer? - inquiriu. - Porque trancaram a porta?

- Estvamos a ensaiar os papis e no queramos ser interrompidos - respondi rapidamente, com o corao a bater muito. Tinha a certeza de que devia estar despenteada 
e que as minhas roupas estariam, decerto, desalinhadas. Daphne passou os olhos por mim da mesma forma que, antes da guerra civil, um fazendeiro sulista devia analisar 
um escravo  venda em hasta pblica. Em seguida observou Beau, cujo tmido sorriso veio confirmar as suas suspeitas.

- Onde esto os vossos guies? - perguntou, de sobrancelhas franzidas.

-  Aqui - respondeu Beau, apanhando-os do cho para os mostrar a Daphne.

-Hum... - murmurou ela, volvendo de novo na minha direco o olhar frio. - Estou ansiosa por ver os resultados deste trabalhoso ensaio - afirmou, endireitando os 
ombros e ficando assim com um porte ainda mais correcto e firme. Esta noite temos convidados para o jantar. Veste-te mais formalmente - ordenou no seu habitual tom 
frio e rspido.

e penteia-te. Sabes onde est a tua irm? -No - respondi. - Ainda no voltou.

- Se por acaso eu no a vir antes do jantar, repete-lhe as instrues que acabei de te dar - mandou. Olhou mais uma vez para Beau, franziu mais as sobrancelhas e 
depois voltou a pousar os olhos em mim, disparando as palavras como balas:
- Em minha casa, no gosto de portas fechadas  chave. Quando se tranca uma porta, normalmente  porque se quer es-
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conder algo ou porque se est a fazer qualquer coisa que os outros no devem ficar a saber. - e ,depois, Daphne deu meia volta e saiu. Era como se a sala tivesse 
sido invadida por um vento frio. Deixei escapar um suspiro e Beau fez o mesmo.  melhor ires andando, Beau. - Ele concordou.

Venho buscar-te amanh de manh - prometeu. Ruby...

- Espero que estejas a ser sincero, Beau. Espero que gostes realmente de mim.

- Gosto muito, juro - respondeu, beijando-me. - At amanh. - Beau estava ansioso por sair. Os olhares de acusao de Daphne agrediam como setas a sua aparente inocncia.

Depois de Beau partir, sentei-me durante alguns minutos. Os acontecimentos da ltima hora pareciam-me um sonho e foi apenas quando me levantei e vi de novo o desenho 
de Beau que conclu que afinal algo se passara. Cobri o esboo e sa, sentindo-me to leve que receava abrir a janela para no ser levada pelo vento.

Gisselle no regressou a tempo para jantar, mas telefonou antes a avisar que iria ficar mais um pouco na companhia dos amigos. Daphne no gostou nada dessa atitude; 
porm, com a chegada dos convidados, Monsieur Hamilton Davies e sua mulher, Beatrice, depressa disfarou o enfado. Monsieur Davies era um homem que aparentava ter 
cinquenta e muitos ou sessenta e poucos anos e era dono de uma companhia de barcos a vapor destinados unicamente a navegar em passeio turstico pelo rio Mississpi. 
Daphne informara-me que se tratava de um dos homens mais ricos de Nova Orlees, a quem eles queriam interessar num dos investimentos do meu pai e acrescentara tambm 
com bastante clareza que o meu comportamento e a impresso que eu causaria eram da mxima importncia.

-Fala s quando algum se dirigir a ti e ,quando isso acontecer, responde pronta e rapidamente. Eles vo observar a forma como te comportas, por isso lembra-te de 
tudo quanto te ensinei acerca da etiqueta  mesa - lembrou ela.

- Se receia que o meu comportamento vos possa envergonhar, talvez fosse melhor eu jantar sozinha - sugeri.

- Disparate! - respondeu ela, abruptamente. - Os Davies vm jantar connosco s porque querem conhecer-te. So os primeiros amigos que convidei, eles sabem que estamos 
a conceder-lhes uma honra - acrescentou, no seu tom mais rspido e arrogante.

Seria eu alguma espcie de trofu, uma curiosidade que Daphne utilizava para aumentar a sua importncia aos olhos
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dos amigos?, pensei, sem ter coragem de perguntar. Mas vesti-me como ela ordenara e ocupei o meu lugar  mesa, atenta  minha postura e maneiras.

Os Davies eram um casal interessante, mas o interesse que manifestavam pela minha histria deixava-me nervosa. Madame Davies, especialmente, colocou-me inmeras 
questes acerca da minha vida no bayou, com "esses terrveis cajuns", s quais era obrigada a responder com a primeira ideia que me ocorria, lanando depois um olhar 
a daphne para verificar se tinha respondido acertadamente.

-  compreensvel a tolerncia da Ruby em relao a essa gente do pntano - afirmou ela aos Davies, quando uma das minhas respostas no revelou suficiente ressentimento. 
- Viveu toda a sua vida convencida que era um deles e que eles eram a sua famlia.

- Que tragdia! - exclamou Madame Davies. - e ,no entanto, esta rapariga est a ficar muito bem-educada. Tens feito um ptimo trabalho, daphne.

-  Obrigada - murmurou daphne, satisfeita pelo elogio.
- Devamos publicar nos jornais o que sucedeu com ela, Pierre - sugeriu Hamilton Davies.

- Se o fizssemos, a Ruby ia ter de enfrentar ainda mais curiosidade alheia, querido Hamilton - respondeu daphne prontamente. - Na verdade, s contmos o que se 
passou aos nossos amigos mais ntimos - acrescentou. A forma como sorriu, como pestanejou os olhos e voltou os ombros na sua direco fez com que os olhos de Hamilton 
Davies brilhassem de satisfao. - e pedimos a todos o mximo de discrio. Para qu dificultar ainda mais a vida da pobre criana? - acrescentou.

- Com certeza - concordou Hamilton, lanando-me um sorriso. - De facto, isso no seria de todo aconselhvel. Como sempre, a daphne consegue pensar com muito mais 
sabedoria e clareza do que ns, homens de negcios.

daphne baixou os olhos para depois erguer as pestanas de uma forma coquete e provocante. Ao observ-la, pareceu-me estar a assistir s manobras de um perito na arte 
de manipular os homens. Durante todo esse tempo, o meu pai manteve-se sentado para trs, com um sorriso de admirao nos lbios e um olhar de adorao. Apesar de 
tudo, fiquei satisfeita quando o jantar terminou e eu tive licena para me retirar.

Umas horas depois, ouvi Gisselle chegar a casa e ir para o seu quarto e fiquei  espera de ver se ela bateria  porta que servia de ligao aos dois quartos, mas, 
em vez disso, foi direc-
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tamente para o telefone. No conseguia ouvir o que dizia, mas ouvi a sua voz at muito tarde, pois certamente Gisselle deveria ter muitos amigos a quem telefonar. 
Sentia-me naturalmente curiosa acerca do motivo para tantas conversas, mas no lhe quis dar a satisfao de ir ao seu encontro, porque ainda me sentia zangada com 
aquilo que ela me tinha feito.

Na manh seguinte, a minha irm era toda sorrisos, cheia de alegria e vigor, conversando animadamente durante o pequeno-almoo. Fui cordial com ela em frente do 
pap, mas estava decidida a no voltar a ser to amigvel como antes, at Gisselle me pedir desculpas. Para minha surpresa, assim como de Beau, Martin veio busc-la 
para a levar  escola, mas, antes de descer para ir ter com ele, Gisselle murmurou o que conhecia de mais parecido com uma desculpa.

- No me culpes pelo que aconteceu. Algum lhes contou que tnhamos ido a "Storyville", e senti-me na obrigao de lhes contar que conhecias aquela mulher - justificou-se. 
Vemo-nos daqui a pouco na escola, querida mana - acrescentou, com um sorriso.

Antes que pudesse responder, j ela tinha desaparecido. Alguns instantes depois, entrei no carro de Beau e seguimos para o colgio, mas este estava ainda preocupado 
com daphne.

-Perguntou mais alguma coisa depois de eu ter sado? quis saber.

- No, depois s se preocupou em agradar aos nossos convidados.

- Ainda bem - desabafou, visivelmente aliviado. - Os meus pais foram convidados para jantar em vossa casa no prximo fim-de-semana. Vamos ter de acalmar um pouco 
afirmou.

No entanto, a calma no me estava destinada; mal entrei na escola, pressenti uma atmosfera diferente em meu redor. Beau julgava que no passava de imaginao minha, 
mas eu sabia que a maior parte dos colegas me fitavam com sorrisos mal-intencionados, alguns tentando em vo tapar a boca com as mos e outros murmurando exclamaes 
imperceptveis, embora a maioria nem sequer tentasse disfarar. S no final da aula de Ingls,  que descobri o motivo.

Quando a aula terminou, um dos rapazes colocou-se a meu lado e empurrou-me com o ombro.

- Ah, desculpa - exclamou em seguida.

- No faz mal. - Preparava-me para sair, mas ele agarrou-me o brao e puxou-me de novo para o seu lado.

- Ouve, ests com um sorriso lindo nesta fotografia
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ironizou, estendendo a mo para revelar a minha imagem sem roupa. Era uma das fotografias que haviam sido tiradas na festa de Claudine, na qual acabara de me voltar 
para trs com o corpo quase todo a descoberto, apesar da expresso chocada que tinha no rosto.

Ele riu e correu a juntar-se a um grupo de rapazes e raparigas que o esperavam na esquina do corredor, os quais espreitavam por cima do seu ombro para poder ver 
a fotografia. Senti-me invadida por uma espcie de dormncia, como se as minhas pernas tivessem sido pregadas ao cho. De repente, Gisselle apareceu e juntou-se 
ao grupo.

- Vejam se no se esquecem de dizer a toda a gente que essa  a minha irm, no sou eu - gracejou, fazendo todos rir, sorriu para mim e seguiu em frente, de brao 
dado com Martin.

As lgrimas turvavam-me a viso e todos os vultos me pareciam desfocados e enevoados. At mesmo a imagem de Beau a avanar pelo corredor na minha direco, visivelmente 
preocupado, me pareceu distorcida. De repente, senti estalar algo dentro de mim e deixei escapar um grito agudo. Todos os que se encontravam no corredor, incluindo 
alguns professores, pararam e olharam para mim.

- Ruby! - gritou Beau.

Abanei a cabea, negando a realidade daquilo que acontecia diante dos meus olhos. Alguns colegas riam e outros apenas esboavam um sorriso, mas quase ningum se 
mostrou preocupado nem incomodado.

- Vocs so... uns animais! - gritei. - Cruis e selvagens!

Voltei-lhes as costas, atirei os livros para o cho e corri para a porta de sada mais prxima.

- Ruby! - gritava Beau atrs de mim. Precipitei-me pela porta e desci os degraus a correr. Beau, ainda veio atrs de mim, mas eu corria mais depressa do que alguma 
vez conseguira e quase fui atropelada por um carro quando cheguei  rua. O condutor foi obrigado a fazer uma paragem repentina mas, mesmo assim, no parei. corri 
at sentir picadas de agulhas nas costas e depois, com os pulmes quase a rebentar, deixei-me cair junto de um enorme carvalho velho, no relvado de uma manso. A, 
solucei at esgotar todas as lgrimas e o peito me doer de cansao.

Fechei os olhos e tentei imaginar-me longe dali; vi-me de novo no bayou, passeando de canoa por um dos canais, num dia quente e ensolarado de Primavera.

As nuvens desapareceram e o cu cinzento de Nova Orlees
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deu lugar ao sol da minha infncia. A canoa aproximava-se cada vez mais da margem e ,dentro de casa, conseguia distinguir a voz da grandmre Catherine a cantar, 
enquanto pendurava a roupa que acabara de lavar.

- Grandmre - chamei. Ela inclinou-se para me ver chegar, com um sorriso feliz e alegre. Estava mais jovem e mais bonita do que nunca. - Grandmre - murmurei, com 
os olhos cerrados. - Quero ir para casa, quero viver consigo no bayou. No importa se ramos muito pobres ou se a vida no era fcil, porque eu era mais feliz a. 
Por favor, no morra nem desaparea, faa acontecer um milagre e apague o tempo. Faa com que tudo isto no passe de um pesadelo, deixe-me abrir os olhos e acordar 
ao seu lado na nossa sala de trabalho, a bordar. Vou contar at trs e depois acordo; um... dois...

- Oia - exclamou a voz de um homem perto de mim. Abri os olhos. - O que est aqui a fazer? - Um homem de idade com o cabelo completamente branco estava parado na 
porta da casa a que eu tinha ido parar, com uma vara preta apontada na minha direco. - O que quer daqui?

-Estava s a descansar - respondi.

-Isto no  nenhum parque, sabia? - respondeu, observando-me com mais ateno. - No devia estar na escola? inquiriu.

-Devia, sim - admiti, levantando-me. - Desculpe murmurei, afastando-me rapidamente. Quando estava a chegar  esquina, fiz um esforo para me orientar e subi depressa 
a rua mais perto, apercebendo-me de que estava muito perto de casa. Quando cheguei, o pai e daphne j tinham sado.

- Mademoiselle Ruby? - exclamou Edgar, abrindo a porta e olhando para mim com admirao. Desta vez, no havia como tentar disfarar o rosto vermelho e inchado e 
fingir que estava tudo bem. Edgar franziu as sobrancelhas, preocupado e irritado. - Venha comigo - ordenou. Segui-o pelo corredor e entrmos na cozinha. - Nina - 
chamou Edgar. Nina voltou-se para ns, olhou alternadamente para mim e para ele e depois acenou com a cabea.

- Vou tratar dela - afirmou; Edgar, satisfeito com a promessa de Nina, saiu enquanto ela se aproximava de mim.
- O que aconteceu? - perguntou.

- oh!, Nina - chorei. - Faa o que fizer, ela arranja sempre uma forma de me magoar.

Nina fez um gesto afirmativo.

- Mas isso vai acabar. Venha com a Nina, vamos pr um fim nisso tudo. Espere aqui - pediu, deixando-me na cozinha
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sozinha. Ouvi os seus passos no corredor e depois nos degraus da escadaria principal. Uns minutos depois, Nina regressou e deu-me a mo. Julguei que ela me levaria 
novamente para o seu quarto a fim de praticar um ritual vodu, mas fiquei espantada por ver Nina tirar o avental e conduzir-me para a porta de trs.

- Aonde vamos, Nina? - perguntei, ao ver que nos encaminhvamos para a rua.

- Ver Mama Dede. A menina precisa de um gris-gris muito forte, e s a Mama Dede pode faz-lo. Mas tem de me prometer uma coisa, menina - exclamou, detendo-se na 
esquina e aproximando o seu rosto do meu, com os olhos muito abertos de excitao. - No pode contar ao monsieur, nem  madame onde eu a levei, est bem? Vai ser 
um segredo nosso, sim? -Quem ?...

-Mama Dede  agora a rainha vodu de Nova Orlees.
- O que vai fazer a Mama Dede?

- Vai fazer com que a sua irm pare de a magoar, vai tirar o Papa La Bas do corao dela e torn-la boa. A menina quer que isso acontea"

- Sim, Nina, quero - respondi.

- Ento tem de jurar manter o segredo. Jure!
- Juro, Nina.

- Bem, ento vamos - respondeu ela, retomando o nosso caminho. Estava suficientemente revoltada para ir a qualquer lado e fazer tudo quanto ela me pedisse.

Apanhmos um elctrico e depois um autocarro que nos levou at a um bairro bastante degradado, o qual eu no conhecia. Os edifcios no tinham melhor aparncia do 
que barracas e ,nas ruas, as crianas de cor brincavam nos degraus das casas, sujos e ridos. Automveis velhos e avariados, alguns quase a desmembrar-se, estavam 
estacionados ao longo dos passeios, que por sua vez estavam negros e tinham as sarjetas cheias de latas, garrafas e papis. Aqui e ali, um sicmoro solitrio - por 
sobreviver naquele ambiente pouco propcio, no qual at o sol detestava brilhar. Por muito luminoso que fosse o dia, tudo continuava sem cor, enferrujado e poludo.

Nina percorria apressadamente a rua, parando ao chegar a uma espcie de barraca, igual a todas as outras casas do bairro. Todas as janelas tinham cortinas escuras 
a cobr-las e os passeios tinham fendas e fissuras, tal como os degraus e at mesmo a porta de entrada. Na ombreira da porta, estava pendurada uma srie de penas 
e ossos.

-  aqui que mora a rainha? - indaguei, estupefacta, esperando encontrar um outro tipo de residncia.

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- ,pois - confirmou Nina. Atravessmos a passagem estreita que ligava o passeio  porta e Nina tocou  campainha. Aps uns breves segundos, uma mulher negra j 
muito velha, sem dentes e com o cabelo to fino que deixava a descoberto o couro cabeludo, veio  porta espreitar. Trazia vestido uma espcie de saco de batatas, 
ou pelo menos foi o que a mim me pareceu. Com as costas curvadas, ergueu o olhar cansado na nossa direco, mais baixa ainda do que eu. Calava uns tnis de homem, 
manchados, sem atacadores e sem meias.

- Preciso de ver a Mama Dede - exclamou Nina; a senhora velha fez que sim com a cabea e afastou-se para nos dar passagem. Dentro de casa, as paredes estavam rachadas 
e tinham a tinta a descascar, o cho era de madeira, mas parecia ter estado coberto por alcatifa, pois em alguns cantos restavam ainda pedaos colados e pregados 
s tbuas, como se tivesse sido arrancada h muito pouco tempo. No ar pairava o aroma de algo bastante adocicado que vinha das traseiras da casa. A senhora velha 
indicou com um gesto uma diviso  nossa esquerda na qual Nina, de mos dadas comigo, entrou de imediato.

A sala parecia uma autntica loja, iluminada apenas por meia dzia de enormes velas. Os amuletos, ossos, bonecos, molhos de penas, cabelo e pele de cobra estavam 
por toda parte. Numa parede, havia uma estante ocupada apenas por muitos potes com vrios ps,  e noutra estavam amontoados caixotes de carto com velas de    muitas 
cores.

No meio de toda esta desordem, havia um sof pequeno e duas cadeiras muito velhas, uma das quais tinha j a palha a sair do assento. Entre as cadeiras e o sof estava 
uma caixa de madeira, com desenhos de objectos de ouro e prata embutidos.

- Sentem-se - ordenou a velha. Nina indicou-me a cadeira da esquerda, na qual me sentei, e ela dirigiu-se para a outra.
- Nina...      comecei.

- Schiu...     sussurrou, fechando os olhos. - Espere. Momentos depois, vindo algures de dentro de casa, ouvi o som de um tambor, uma batida lenta e ritmada, que 
me provocou imediatamente mais temor. Muito nervosa, perguntava-me por que motivo tinha concordado que me levassem quele lugar.

De repente, o cobertor que estava pendurado na porta  nossa frente foi afastado e apareceu outra mulher negra, muito mais nova do que a primeira. Tinha as tranas 
negras e compridas enroladas  volta da cabea, amarradas no cimo com uma fita vermelha, da qual saam sete pontas. Era alta e trazia um vestido preto que chegava 
at  ponta dos ps descalos.  primeira vista, achei-lhe o rosto bonito, com as faces bem delinea-

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das e uma boca sem defeito, mas, quando essa mulher se voltou para mim, estremeci: os olhos eram cinzentos como granito. Era cega.

-Mama Dede, preciso muito de ajuda. - Nina foi a primeira a quebrar o silncio. Mama Dede acenou com a cabea e avanou, movendo-se como se no fosse cega e sentando-se 
com leveza e graciosidade no sof. Cruzou as mos sobre o colo e ficou  espera, com os olhos aparentemente mortos voltados na minha direco. Imvel, eu mal conseguia 
respirar. -Fala, irm - disse ela.

-Esta menina que eu trouxe tem uma irm gmea que, por cimes e maldade, lhe faz muitas coisas ms, que a fazem sofrer muito.

-- D-me a tua mo - pediu-me Mama Dede, estendendo a sua. Olhei para Nina, que me fez sinal que devia obedecer; estendi ento a mo, que ela agarrou firmemente 
com os dedos quentes.

- Tu e a tua irm... - comeou Mama Dede - no se conhecem h muito tempo, no  assim?

-  verdade - respondi, pasmada. -e a tua me no pode ajudar-te?
- No.

-J morreu e passou para outro lado h muito tempo concluiu depois, meneando a cabea. Em seguida, largou-me a mo e voltou-se para Nina.

- Papa La Bas est a alimentar-se do corao da irm dela afirmou Nina. - Est a ench-la de dio, Mama, e agora temos de proteger esta menina. Ela acredita, tinha 
uma grandmre que foi traiteur no bayou.

Mama Dede acenou suavemente a cabea e voltou a estender a mo, desta vez com a palma voltada para cima. Nina procurou na mala e retirou da carteira uma moeda de 
prata, a qual colocou na mo de Mama Dede; esta fechou imediatamente a mo e voltou-se na direco da porta onde a senhora velha que nos atendera ainda estava parada. 
Logo em simultneo, aproximou-se e retirou a moeda da mo de Mama Dede, guardando-a num bolso do seu estranho vestido.

- Queima duas velas amarelas - receitou Mama Dede. A senhora mais velha foi at junto dos caixotes e retirou duas velas da cor indicada, as quais colocou em castiais 
e acendeu em seguida. Julguei que no se fosse passar mais nada, mas, subitamente, Mama Dede inclinou-se e agarrou a caixa ornamentada, colocando-a a seu lado em 
cima do sof. Nina mostrava-se satisfeita e esperei que Mama Dede se concentrasse,
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enquanto procurava algo dentro da caixa. Quando finalmente retirou as mos, senti-me quase a desmaiar.

O que Mama Dede retirara da caixa era uma jibia pequena que mal se mexia, com os olhos fechados como se estivesse adormecida. Contive a respirao para sufocar 
um grito, enquanto Mama Dede aproximava a cobra do seu rosto. Quase instantaneamente, a cobra soltou a lngua e tocou-lhe na face; mal o fez, Mama Dede voltou a 
deposit-la dentro da caixa, tapando-a em seguida.

-  da cobra que a Mama Dede recebe o poder e a viso murmurou Nina. - Diz a lenda antiga que o primeiro homem e a primeira mulher vieram ao mundo cegos e a cobra 
restituiu-lhes a viso.

- Como se chama a tua irm, filha? - interrogou Mama Dede. A minha lngua emudeceu, receando revelar o nome e causar alguma desgraa.

-Deve ser a menina a dar o nome - instruiu Nina. Diga o nome  Mama Dede.

- Gisselle - acedi. - Mas...

- Eh! Eh bomba hen hen! - comeou Mama Dede a cantar, contorcendo e movimentando o corpo debaixo das vestes, obedecendo ao som do tambor e ao ritmo da sua prpria 
voz.

- Canga bafie te. Danga moune de te. Canga do ki li Gisselle! - terminou com um grito.

O meu corao batia tanto que levei a mo contra o peito. Mama Dede voltou-se de novo para Nina, que comeou a procurar dentro da mala o que segundos depois verifiquei 
ser uma fita de cabelo de Gisselle. Fora esse o motivo que levara Nina a subir ao primeiro andar antes de sair comigo. Quis impedi-la de entregar a fita a Mama Dede, 
mas foi demasiado tarde, pois a rainha vodu j a tinha segura nas mos.

- Espere! - gritei, mas Mama Dede abriu a caixa e depositou a fita de Gisselle l dentro.

Em seguida, comeou de novo a contorcer-se e a entoar um novo cntico.

- Lappe vini, Le Grand Zombi. Lappe vini, pou fe gris_gris.

- Ele est a chegar - traduziu Nina. - O Grande Zumbi est a chegar para fazer gris-gris.

Mama Dede parou de repente e deixou escapar um grito agudo e estridente, que fez o meu corao parar por momentos e fugir-me para a garganta; no conseguia engolir 
e mal podia respirar. Ela continuou imvel e depois caiu para trs no sof, com a cabea tombada para um lado e os olhos fechados. Du-

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rante alguns instantes, nada nem ningum fez o mnimo barulho. Depois, Nina tocou-me no joelho e ,com um gesto de cabea, indicou-me a porta. Levantei-me rapidamente. 
A velha senhora foi  nossa frente e abriu-nos a porta.

- Por favor, agradea  Mama, grandmre - pediu Nina; ela indicou que o faria e ns seguimos.

At chegarmos a casa, o meu corao no parou de pular dentro do peito, apesar de Nina estar absolutamente certa de que, a partir daquele dia, tudo iria comear 
a correr melhor. No sabia o que esperar, mas, quando Gisselle regressou das aulas, vinha exactamente igual ao que sempre fora. Ainda me censurou por ter fugido 
e culpou-me por tudo o que da resultara.

- Por teres fugido daquela maneira, o Beau comeou a bater no Billy e foram os dois levados ao director - informou, parada  porta do meu quarto. - Agora, o Beau 
s pode sair da escola quando os pais o forem buscar.

"Ficaram todos a pensar que eras maluca e ,afinal, foi s uma brincadeira! Mas fui tambm chamada ao gabinete do director e agora ele vai falar com o pap e a mam, 
graas a ti. Agora estamos as duas envolvidas neste problema.

Voltei-me para Gisselle devagar, sentindo tanta raiva no corao que julguei no conseguir falar sem gritar. Mas o tom controlado da minha voz surpreendeu-me a mim 
mesma e assustou a minha irm.

- Lamento que o Beau se tenha envolvido numa luta e tenha tido problemas, se apenas estava a tentar proteger-me. Mas no lamento o que te aconteceu.

" verdade que vivi num mundo considerado inferior quele em que sempre viveste, Gisselle. e  tambm verdade que as pessoas so mais simples e que no bayou acontecem 
coisas que quem vive na cidade considera terrveis, cruis e at imorais.

"Mas tudo aquilo a que de mau assisti no bayou, comparado com as atitudes maldosas que tens tido para comigo e que tens permitido que os outros tambm tenham, no 
passam de brincadeiras de criana. Pensei que pudssemos ser irms, irms verdadeiras, que sentem vontade de se proteger uma  outra, porque tm carinho e afeio 
nos coraes, mas vejo que ests decidida a magoar-me de todas as formas possveis e imaginrias - discursei, com as lgrimas a comear a cair pelo rosto, apesar 
do esforo que tinha feito para no chorar diante de Gisselle.

- Pois - respondeu ela, com a voz tambm chorosa agora ests a fazer de mim a m da fita. Mas foste tu que apareceste  nossa porta e que puseste as nossas vidas 
de cabea
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para baixo. Tu  que conseguiste que todos gostassem mais de ti do que de mim. Roubaste-me o Beau, no foi?

- No o roubei. Disseste-me que j no gostavas dele lembrei.

- Bem... no gosto, mas tambm no gosto que algum mo roube - acrescentou, ficando ali parada por alguns instantes, ainda zangada. - Aconselho-te a no me criares 
mais problemas, quando o director te chamar - ameaou, saindo em seguida.

O Dr. Storm chamou-me, de facto. Um dos professores, depois de separar Beau e Billy, levara a fotografia ao director; este comunicou o caso a daphne, que, por sua 
vez, quis falar comigo e com Gisselle no estdio. Estava to furiosa e to envergonhada que tinha as feies do rosto alteradas: os olhos estavam maiores e raivosos, 
a boca esticada e as narinas inchadas.

- Qual de vocs duas permitiu que uma fotografia destas fosse tirada? - inquiriu. Gisselle baixou imediatamente os olhos.

- Nenhuma de ns, me - respondi. - Na festa da Claudine, uns rapazes conseguiram entrar sem serem notados e ,enquanto eu vestia uma roupa para um determinado jogo, 
conseguiram tirar essa fotografia.

- Nesta altura, aposto que o colgio inteiro e todos os vizinhos devem estar 'a rir-se de ns - declarou daphne. - e os Andreas vo ser chamados pelo director, pois 
acabei agora de falar ao telefone com a Edith Andreas, que est tambm muitssimo chocada. Nunca antes o Beau se tinha envolvido em qualquer problema srio, e tudo 
por tua causa - acrescentou.
- Mas...

- Costumavas comportar-te assim no bayou? -No, claro que no - respondi de imediato.

- No sei como consegues envolver-te em tantos episdios desagradveis, uns a seguir aos outros! At eu decidir o contrrio, ficas proibida de sair e de aceitar 
convites! Acabaram-se as festas, os outros encontros e os jantares elegantes, percebeste?

Engoli as lgrimas; qualquer defesa seria intil, pois para daphne apenas importava o quanto ela prpria havia sido envergonhada.

- Sim, me.

- O teu pai ainda no tem conhecimento de nada, mas, assim que chegar a casa, vou contar-lhe com muita calma o que aconteceu. Sobe e fica no teu quarto at seres 
chamada para o jantar.

Sa e fui para o quarto, com uma estranha sensao de dor-
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mncia; era como se j nada daquilo me importasse, como se daphne pudesse castigar-me de todas as formas. No tinha importncia.

Gisselle parou  porta do meu quarto antes de entrar no seu, lanando-me um sorriso de auto-satisfao; mas eu nem sequer lhe dirigi a palavra e ,nessa noite, tivemos 
o jantar mais silencioso de todos, desde que chegara quela casa. O meu pai estava cabisbaixo, devido  desiluso e tambm, tinha quase a certeza, s palavras duras 
e maliciosas de daphne. Evitei encontrar o seu olhar e senti-me aliviada quando eu e a Gisselle obtivemos licena para nos retirarmos. Ela mal pode esperar por correr 
para o telefone e relatar todo o desfecho daquela noite.

Nessa noite, adormeci a pensar em Mama Dede, na cobra e na fita de cabelo. Como desejava que houvesse um fundo de verdade em tudo aquilo! O meu desejo de vingana 
era incontrolvel.

Contudo, dois dias mais tarde, acabei por me arrepender.

19 O DESTINO VOLTA A DECIDIR

Na manh seguinte, sentia-me terrivelmente deprimida, quase como uma sombra de mim prpria. Desci para tomar o pequeno-almoo, com o corao pesado e as pernas trmulas 
e incertas. Martin veio buscar a Gisselle para a levar  escola, mas nem ela se ofereceu para me levar com eles, nem eu teria querido aceitar. Assim, como Beau fora 
com os pais, fui sozinha para a escola, seguindo em frente como se estivesse em transe: a cabea voltada para diante, sem desviar os olhos nem para a esquerda, nem 
para a direita.

Quando cheguei ao colgio, senti-me uma autntica pria; nem mesmo Mookie quis ser vista comigo e no veio, como era hbito, ao meu encontro antes da primeira aula 
para falarmos sobre os trabalhos de casa ou sobre algum programa de televiso. Apesar de ser eu a vtima daquele episdio, aquela que fora verdadeiramente humilhada, 
ningum mostrava ter pena de mim. Era quase como se tivesse contrado uma terrvel doena contagiosa que impedia todos os outros de se preocuparem comigo, por medo 
de adoecerem eles prprios.

Mais tarde, nesse dia, encontrei Beau no corredor a correr para a sala de aula; ele e os pais tinham acabado de ter a reunio com o Dr. storm.

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- Estou de castigo - comunicou-me ele, de sobrolho franzido. - Se voltar a fazer algum disparate e desobedecer outra vez  mnima regra de comportamento, sou imediatamente 
suspenso e expulso da equipa de basebol.

- Desculpa, Beau. No queria criar-te nenhum tipo de problemas.

-No faz mal. Revoltei-me com aquilo que te fizeram respondeu, baixando os olhos; o que se seguiu no foi surpresa para mim, j o esperava. - Tive de prometer aos 
meus pais que ia passar uns tempos sem te ver, mas no tenciono cumprir essa promessa - acrescentou, com um brilho de raiva e desafio a iluminar os lindos olhos 
azuis.

-No, Beau, tens de obedecer aos teus pais. Se no, s complicas ainda mais a tua situao e eu ainda posso ser culpada por tudo isso. Deixa passar algum tempo.

-No  justo - queixou-se ele.

- O que  ou deixa de ser justo no interessa muito, principalmente quando se trata dos interesses das famlias crioulas ricas - comentei com amargura, enquanto 
ele mostrava com um movimento da cabea que concordava comigo. Tocou ento a campainha para a prxima aula.

- No posso chegar atrasado s aulas - afirmou Beau. -Nem eu. - e comecei a afastar-me.

- Depois telefono - gritou ainda Beau, apesar de eu no me ter voltado. No quis que ele visse as lgrimas que me enevoavam a vista, as quais me apressei a engolir, 
respirando fundo antes de entrar na sala. Como em todas as outras aulas, sentei-me calmamente, tirei apontamentos e respondi apenas s perguntas que me eram feitas 
directamente. Quando terminava alguma hora de aulas, esperava que a maior parte dos outros alunos sasse da sala, para depois sair sozinha.

A hora mais difcil era a do almoo. Ningum sentia vontade de se sentar a meu lado e ,quando eu ocupava um lugar numa das mesas, aqueles que tambm a ocupavam levantavam-se 
e mudavam de lugar. Beau ficava na mesa dos colegas de basebol e Gisselle ficava na companhia habitual do seu grupo de amigos. Sentia os olhos de todos fixos em 
mim, mas no olhava para ningum.

Mooke, por fim, acabou por arranjar coragem para vir falar comigo, mas, a julgar pelas notcias que me contou, teria sido prefervel que no o fizesse.

- Todos acham que fizeste deliberadamente uma sesso de striptease.  verdade que tens uma amiga prostituta? - interrogou, de imediato. Uma onda de sangue quente 
subiu-me  cabea.

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- Em primeiro lugar, no fiz nenhuma sesso de striptease e ,em segundo, no tenho uma amiga prostituta. Quem me pregou esta estpida partida, Mookie, e quem est 
a espalhar histrias a meu respeito, para tentar diminuir as prprias culpas. Pensei que fosses a primeira a compreender isso - retorqui.

- Acredito em ti - afirmou ela. - Mas ningum fala de outro assunto e ,quando tentei dizer  minha me que no eras to m quanto todos queriam fazer crer, ela irritou-se 
e proibiu-me de ser tua amiga. Lamento - acrescentou. A justificao de Mookie fortaleceu a minha revolta.

- Eu tambm - respondi, engolindo apressadamente o resto do almoo, de forma a poder sair o mais rapidamente possvel dali.

No final do dia, fui falar com Mr. Saxon, o professor de arte dramtica, para lhe comunicar que desistia do meu papel na pea. Pela sua expresso, era evidente que 
ele tinha conhecimento do episdio da famosa fotografia.

- No vejo que isso seja necessrio, Ruby - respondeu, apesar de parecer francamente aliviado por eu ter expressado tal ideia. Podia compreender o seu receio de 
que a minha actuao trouxesse apenas fama injustificada ao elenco, retirando todo o valor das interpretaes. Os espectadores viriam assistir  pea apenas para 
verem de perto a famosa rapariga cajun, a devassa". - Mas se estiveres realmente disposta a desistir, agradeo que o faas antes que seja demasiado tarde para te 
substituir - acrescentou ento.

Sem abrir mais a boca, pousei o guio em cima da sua secretria e fui para casa.

Nessa noite, o pap no veio jantar, pois, quando desci, encontrei apenas Daphne e Gisselle sentadas  mesa. Com um olhar furibundo, daphne explicou-me ento que 
ele cara em mais uma das suas crises depressivas.

- Alguns negcios mal sucedidos, conjugados com a desgraa dos ltimos acontecimentos fizeram-no cair em profunda depresso - continuou.

Olhei para Gisselle, que continuava a comer como se j tivesse ouvido muitas vezes aquelas palavras.

- No seria melhor chamar um mdico ou dar-lhe algum medicamento? - perguntei.

- O nico remdio que lhe devemos dar so bons motivos para se alegrar - respondeu intencionalmente. Gisselle ergueu de imediato a cabea.

-Ontem tive noventa por cento no teste de Histria anunciou ela.

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-  uma boa notcia, querida. No vou esquecer-me de a comunicar ao teu pai.

Tive vontade de dizer que, no mesmo teste, tinha obtido noventa e cinco por cento, mas tinha a certeza de que Gisselle e provavelmente Daphne interpretariam essa 
minha novidade como uma forma de diminuir a minha irm; assim, preferi ficar em silncio.

Mais tarde, nessa mesma noite, Gisselle veio ter comigo ao quarto. Pelo que pude perceber, apesar do estado miservel do nosso pobre pai, a minha irm no sentia 
o mnimo de culpa ou remorsos. Senti uma vontade terrvel de gritar com ela e abalar a sua aparente calma e indiferena. Queria arrancar-lhe os sorrisos da mesma 
forma como se descasca o tronco de uma rvore, mas deixei-me ficar em silncio, receando provocar ainda mais problemas.

- A Deborah Tallant vai dar uma festa neste fim-de-semana - anunciou ela. - Vou acompanhada pelo Martin, mas o Beau tambm vem connosco - acrescentou, com um prazer 
sdico; via-se bem que estava a sentir um enorme gozo em abrir as minhas feridas. - Ele est arrependido de me ter deixado assim to depressa, tenho a certeza, mas 
agora tambm no vou facilitar-lhe a vida: deixo-o sozinho e fao-o sofrer.. ainda deves lembrar-te como se faz - disse, esboando um enjoativo sorriso mal-intencionado. 
- Beijo apaixonadamente o Martin e dano colada a ele, mesmo diante do Beau... alm de outras coisas.

-Porque gostas de ser assim to cruel?

-No sou cruel, o Beau merece sofrer um pouco. Bem, gostava de poder levar-te  festa, mas a Deborah fez-me prometer que no o faria, porque os pais dela no iriam 
gostar comunicou.

- Mesmo que ela me convidasse, no ia - afirmei. Os lbios de Gisselle retorceram-se, numa expresso cnica.

- Ias, sim - comentou, rindo -, ias, ias.

Em seguida, Gisselle saiu, deixando-me em plena fria. Fiquei sentada durante uns minutos at me sentir mais calma e at mesmo indiferente. Depois, deitei-me na 
cama a reviver as lembranas que tinha do bayou e da minha vida com a grandmre Catherine, que constituam agora o meu nico conforto. Paul veio ao pensamento, e 
subitamente senti-me cheia de remorsos por ter abandonado tudo sem ao menos me ter despedido, apesar de naquela altura me ter parecido a atitude mais acertada.

Levantei-me de imediato e retirei uma folha de papel do
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meu caderno; depois, sentei-me  secretria e comecei a escrever-lhe uma carta.  medida que escrevia, as lgrimas am-se acumulando nos meus olhos e ,no peito, 
o corao transformava-se num pesado pedao de chumbo.

Querido Paul,

J passou algum tempo desde que deixei o bayou, mas no me esqueci de ti. Primeiro que tudo, quero pedir-te desculpas por me ter vindo embora sem ao menos me ter 
despedido de ti. S no o fiz por um simples motivo: teria sido demasiado doloroso para mim, e tive receio que o fosse tambm para ti. Tenho a certeza de que, tal 
como eu, devias estar muito abatido e transtornado com os acontecimentos do nosso passado e ,provavelmente, tambm revoltado. Mas o destino  algo que no podemos 
modificar; seria mais fcil tentar impedir a fora de uma mar.

Mesmo assim, suponho que passaste muito tempo a imaginar o que me teria levado a abandonar o bayou daquela forma. A razo principal foi o grandpre Jack estar a 
planear o meu casamento com o Buster Trahaw. Como deves entender, preferia morrer a casar-me com esse homem! Mas houve tambm outros motivos, e bem mais profundos, 
sendo o mais importante o facto de ter descoberto quem  o meu pai e de me ter decidido a fazer o que a grandmre Catherine me pedira como seu ltimo desejo: ir 
ao seu encontro e iniciar uma nova vida.

Foi o que fiz. Vivo agora num mundo completamente diferente, em Nova Orlees. Somos ricos e vivemos numa manso com cozinheiros e mordomos. O meu pai  muito bom 
e gosta de mim. Assim que soube que eu pintava, ofereceu-me um atelier e contratou um professor de pintura para me dar aulas particulares. Mas o que te deve surpreender 
mais  que tenho uma irm gmea!

Gostava de poder dizer-te que aqui onde estou agora  tudo maravilhoso, e que ser rico e possuir muitas coisas bonitas melhorou muito a minha vida. Mas no  o caso.

A vida do meu pai tambm no tem sido fcil. A tragdia que ocorreu com o seu irmo mais novo, em conjunto com outros acontecimentos do seu passado, transformaram-no 
num homem triste e profundamente perturbado. Tive esperana de poder modificar um pou-
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co a sua vida, trazendo-lhe alegria suficiente para o curar da sua tristeza e depresso, mas ainda no consegui atingir esse objectivo e comeo a duvidar se algum 
dia o farei.

Na verdade, neste exacto instante, o meu desejo era poder regressar ao bayou, regressar queles dias em que nenhum de ns dois sabia ainda do nosso terrvel passado, 
antes da morte da grandmre Catherine; mas no posso. Mal ou bem, este  o meu destino e tenho de aprender a aceit-lo da melhor forma possvel.

Agora, s posso pedir-te que me perdoes por no me ter despedido e peo-te tambm que, quando tiveres oportunidade, seja dentro ou fora da igreja, rezes uma pequena 
orao por mim.

Sinto muito a tua falta. Que Deus te ajude sempre. Com amor,

Ruby.

Coloquei a carta dentro de um sobrescrito, escrevi a morada de Paul e ,no dia seguinte, enviei-o pelo correio, no caminho para a escola. O dia no foi muito diferente 
do anterior, mas comecei a verificar que,  medida que o tempo ia passando, a excitao e o interesse que os outros alunos manifestavam a meu respeito e acerca daquilo 
que acontecera se ia desvanecendo. Nada tinha menos interesse do que novidades j antigas. No que aqueles que antes haviam sido amigos e cordiais comigo o voltassem 
a ser; no, para isso voltar a acontecer, teria de me esforar muito. De momento, tratavam-me apenas como se no existisse.

Encontrei Beau algumas vezes e ,em todas essas ocasies, ele fitava-me com uma expresso pesarosa e envergonhada. Sentia mais pena de Beau do que ele sentia por 
mim e tentava evit-lo o mais possvel, de forma a no lhe complicar ainda mais a vida. Sabia que, caso Beau desafiasse tudo e todos e fosse visto a meu lado, muitos 
rapazes e raparigas iriam a correr contar aos pais e ,em poucas horas, o telefone tocaria repetidas vezes em casa de Beau, que teria que enfrentar de novo a fria 
dos seus pais.

No entanto, no fim desse dia, quando ia a caminho de casa, Gisselle e Martin pararam o carro numa curva e chamaram-me. Espantada, aproximei-me do carro de Martin.

- O que foi? - perguntei.

- Se quiseres, podes vir connosco - sugeriu Gisselle, co-
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mo se estivesse a conceder-me um favor. - O Martin conseguiu um bom produto e ,como no est ningum em casa dele, vamos agora para l - informou ela. Detectei imediatamente 
no ar o cheiro da marijuana e apercebi-me de que o suposto divertimento deles j tinha comeado.

- No, obrigada - respondi.

- No vou continuar a convidar-te para sair se insistires em responder sempre que no - ameaou Gisselle. - e assim nunca mais voltas a ter uma vida normal e a ter 
amigos outra vez.

-  Estou cansada e tenho ainda de acabar um trabalho justifiquei.

- Que divertido! - exclamou Gisselle.

Martin fumou mais um pouco e sorriu para mim.

- No queres voltar a rir e a chorar? - indagou ele. Desataram os dois a rir e eu afastei-me da janela, enquanto Martin arrancava, acelerando tanto que os pneus 
do carro chiaram na curva do final da rua.

Cheguei a casa e fui logo para o meu quarto fazer o trabalho a que me referira. Mas, menos de uma hora depois, ouvi gritos no andar de baixo e ,curiosa, sa do quarto 
e fui at ao cimo da escadaria. Estavam dois polcias na entrada, ambos com o chapu na mo. Instantes depois, Daphne surgiu espavorida, com Wendy Williams a correr 
atrs dela, com o casaco de Daphne no brao. Desci alguns degraus.

-O que se passa? - perguntei.

Daphne parou em frente dos dois polcias.

- Foi a tua irm - gritou ela. - Sofreu um grave acidente de carro com o Martin. O teu pai vai ter comigo ao hospital.
- Vou consigo - respondi, descendo depressa os degraus

que faltavam. - O que aconteceu? - quis saber, quando me sentei no carro ao lado de Daphne.

-A Polcia disse que o Martin estava a fumar aquela... droga nojenta! O carro bateu nas traseiras de um autocarro.
- oh!, no! - O meu corao comeou a bater descontroladamente. Em toda a minha vida, s assistira a um nico acidente de carro: no bayou, um condutor de uma carrinha 
de caixa aberta bebera demasiado e acabara por se precipitar contra o muro de uma barragem. Tinha visto o corpo ensanguentado do condutor pendurado no vidro da frente, 
com a cabea tombada.

-O que se passa com os jovens de hoje em dia? - interrogava Daphne. - Tm tudo e mesmo assim ainda tomam estas atitudes estpidas. Mas porqu? - gritava. - Porqu?
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Estive quase a responder que era porque alguns de ns tnhamos coisas em excesso, mas contive-me, sabendo que ela interpretaria esse meu comentrio como uma crtica 
ao seu papel de me.

- Os polcias disseram que eles ficaram muito feridos? preferi perguntar.

- Disseram que ficaram gravemente feridos - respondeu ela. - Gravemente...

O pai estava j na sala de urgncias do hospital  nossa espera, muito abatido e enfraquecido, e subitamente mais velho.
- J tiveste novidades? - perguntou imediatamente daphne, mas ele abanou a cabea.

-Ela ainda est inconsciente. Parece que bateu no pra-brisas e sofreu vrias fracturas. Esto neste momento a tirar radiografias.

- oh!, meu Deus - murmurou Daphne. - S faltava mais isto!

- e o Martin? - perguntei eu. - O meu pai pousou os olhos tristes e sem brilho nos meus e abanou a cabea. - No morreu, pois no?

O pap fez sinal que sim. Senti o sangue gelar e fugir para os ps e uma estranha sensao de dor e vazio no peito.

- Foi h poucos minutos - comunicou ele a Daphne, que empalideceu, agarrando o brao do marido.

- oh, Pierre, que horror!

Recuei at junto de uma das cadeiras que estavam encostadas  parede e deixei-me cair. Perplexa, fiquei ali sentada a observar o movimento de pessoas para l e para 
c. Depois vi o pai e daphne conversarem com os mdicos.

Quando eu tinha cerca de nove anos, Dylan Fortier, um menino de quatro anos, cara de uma piroga e afogara-se. Quando chamaram a grandmre Catherine para o tentar 
salvar, eu acompanhei-a at  margem do canal onde estava o pequeno corpo contorcido. Mas, mal o viu, a grandmre benzeu-se, sabendo que era j demasiado tarde.

Com nove anos de idade, a morte, julgava eu, estava destinada apenas s pessoas velhas. Ns, os jovens, ramos invulnerveis, protegidos pela promessa de muitos 
anos de vida, que ouvramos ao nascer. Usvamos a juventude como um escudo; podamos adoecer, podamos at ficar muito mal, podamos sofrer acidentes graves, ou 
at ser picados por serpentes venenosas, mas de alguma forma surgiria sempre algo que, mesmo no ltimo momento, nos impediria de morrer.

Porm, a imagem daquela criana, com a pele baa e cn-
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zenta, o cabelo colado  testa, os pequenos dedos dobrados, os olhos fechados e os lbios azuis, fora algo que sempre me assombrara durante muitos e muitos anos.

Nesse momento, s conseguia lembrar-me do sorriso irnico que Martin esboara antes de arrancar. "E se eu tivesse entrado no carro?", pensei. Estaria nesse momento 
deitada numa maca de hospital ou teria conseguido convencer Martin a abrandar e a guiar com mais cautela?

O destino... tal como escrevera a Paul na carta, no podia ser desafiado nem negado.

daphne foi a primeira a regressar, com a aflio e o desgaste emocional estampados no rosto.

- Como  que ela est? - perguntei, com o corao aos saltos.

- J recobrou a conscincia, mas detectaram um problema na coluna - explicou ela, num tom seco e mortio. Estava ainda mais plida e tinha a mo no peito, pousada 
sobre o corao.

- Que quer isso dizer? - continuei, com a voz a falhar.
- A Gisselle no consegue mexer as pernas - explicou daphne. - Vamos ter uma invlida na famlia... cadeiras de rodas e enfermeiras - exclamou, contorcendo os lbios. 
- oh, no me sinto bem - acrescentou logo a seguir. - Vou  casa de banho. V se o teu pai precisa de alguma coisa - ordenou, gesticulando.

Olhei na direco do corredor e depressa o vi ao lado do mdico, to chocado como algum que acabara de ser atropelado por um combio. O mdico pousou a mo no seu 
ombro e depois afastou-se, mas nem por isso o pai se mexeu. Levantei-me devagar e fui ao seu encontro; quando me viu aproximar, ergueu a cabea, com as lgrimas 
a cair e os lbios trmulos.

- A minha menina... - exclamou. - A minha princesa... pode ficar aleijada para toda a vida.

- Oh, paizinho! - Abanei a cabea, com as minhas lgrimas a competir agora em quantidade com as de meu pai. corri para ele e abracei-o, enquanto ele enterrava o 
rosto no meu cabelo.

- A culpa  minha - soluava ele. - Ainda estou a ser castigado por tudo o que fiz.

- Ah, no, paizinho, a culpa no  sua.

-,  sim - insistia ele. - Nunca vou ser perdoado, nunca! e todos os que eu amo vo sofrer por isso!

Enquanto continuvamos abraados, s conseguia pensar que a culpa no era, de forma nenhuma, do meu pai... era mi-
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nha. "Tenho de pedir  Nina para me levar de novo a ver a Mama Dede; tenho de desfazer o feitio."

Eu e Daphne fomos as primeiras a regressar a casa. Nessa altura, j metade da cidade tomara conhecimento do acidente e o telefone no parava de tocar. Daphne subiu 
directamente para os seus aposentos, pedindo a Edgar que tomasse nota de todos os nomes de quem ia ligando e que explicasse a todos que ainda no estava em condies 
de falar com ningum. O pai estava ainda mais abalado, retirando-se imediatamente para o quarto do tio Jean mal chegou a casa. Tinha um recado de Beau, por isso 
resolvi telefonar-lhe antes de ir falar com Nina.

- No posso acreditar - dizia ele, tentando reprimir as lgrimas. - No posso acreditar que o Martin tenha morrido. Contei a Beau o que sucedera antes do acidente, 
relatando a forma como eles me tinham falado.

- Ele sabia, sabia que no se pode conduzir e fumar aquilo ou a beber!

- Saber  uma coisa e ouvir a voz da sabedoria e obedecer-lhe  outra - respondi, secamente.

- Deve estar um ambiente horrvel a em casa... -Est sim, Beau.

- Os meus pais devem ir a hoje  noite para verem o Pierre e  Daphne, tenho quase a certeza. Se me deixarem, vou tambm - afirmou.

- Posso no estar em casa.

- Aonde vais esta noite? - indagou ele, abismado.
- Tenho de ir visitar uma determinada pessoa.

- Ah...

- No  nenhum outro rapaz, Beau - respondi prontamente, detectando o desapontamento na voz dele.

- Bem, se calhar tambm no me deixam ir de qualquer forma - comentou. - Sinto-me mal... se no tivesse tido um treino de basebol, teria provavelmente entrado naquele 
carro.

- O destino no apontou os seus dedos negros e compridos na tua direco - disse-lhe eu.

Logo que terminmos a conversa, fui ter com Nina. Tanto ela como Edgar e Wendy estavam a consolar-se uns aos outros na cozinha. Assim que ela me viu entrar e os 
seus olhos encontraram os meus, apercebeu-se do motivo da minha visita.

- A culpa no  da menina - afirmou logo. - Aqueles que acolhem o diabo no corao atraem um gris-gris mau para as suas vidas.

- Quero ir ver a Mama Dede, Nina, agora - acrescentei. Ela olhou para Wendy e para Edgar.

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-Ela vai dizer o mesmo que eu - afirmou.

- Quero ir v-la, Nina - insisti. - Leva-me l - ordenei. Nina suspirou, mas acabou por concordar.

- Se a madame ou o monsieur pedirem alguma coisa, eu levo - prometeu Wendy.

Nina levantou-se, pegou na carteira e samos as duas de casa, entrando no primeiro elctrico que apareceu. Quando chegmos a casa de Mama Dede, a me desta parecia 
saber o motivo da nossa visita, pois ela e Nina trocaram longos e expressivos olhares. Mais uma vez, espermos na sala at a rainha vodu entrar e ,durante esse tempo, 
no consegui tirar os olhos da caixa que continha a cobra e a fita de cabelo da Gisselle.

Mama Dede entrou mal se ouviram os tambores, e ,mais uma vez, tomou o seu lugar no sof e fitou-me com os olhos cinzentos.

-Porque vieste outra vez ver a Mama, filha?

- No queria que tivesse acontecido uma coisa to horrvel
- comecei. - O Martin morreu e a Gisselle ficou paraltica.
- O que queres ou no queres no faz a menor diferena

para o vento. Quando lanas no ar a tua raiva, j no pode ser reprimida.

- A culpa  minha - gemi. - No devia ter vindo aqui, no devia ter-lhe pedido para fazer nada.

- Vieste aqui, porque assim estava destinado. O Zumbi trouxe-te at mim, para fazer o que tinha de ser feito. No foste tu que atiraste a primeira pedra, criana. 
O Papa La Bas encontrou a porta de entrada no corao da tua irm e instalou-se confortavelmente l dentro. Foi ela que permitiu que ele atirasse as pedras com o 
nome dela, no tu.

- e agora no podemos fazer nada para a ajudar? - implorei.

- Quando ela expulsar de uma vez o Papa La Bas do corao, tu voltas e a Mama v o que o Zumbi quer fazer. Mas s nessa altura - declarou, com firmeza.

- Estou muito arrependida - desabafei, baixando a cabea. - Por favor, arranje uma maneira de nos ajudar..

- D-me a tua mo, filha - pediu Mama Dede. Levantei os olhos e estendi a mo; ela segurou-a firmemente entre as suas, cada vez mais quentes.

- Tudo isto tinha de acontecer, criana - afirmou. Vieste at aqui por causa do vento que o Zumbi soprou. Agora queres ajudar a tua irm, torn-la uma pessoa melhor 
e afastar o diabo do seu corao?

- Sim - respondi.
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- No tenhas medo - pediu, puxando lentamente a minha mo para a caixa. Lancei um olhar desesperado a Nina, que fechou simplesmente os olhos e comeou a baloiar 
ao som do cntico que entoava. - No tenhas medo - repetiu Mama Dede, abrindo o tampo da caixa. - Agora toca no fundo e tira a fita da tua irm. Tira-a e nada acontecer 
alm do que j aconteceu.

Hesitei. Meter a mo dentro de uma caixa que continha uma cobra? Sabia que aquelas serpentes no eram venenosas, mas mesmo assim...

Mama Dede soltou-me a mo e sentou-se para trs,  espera. Pensei no pai, na tristeza do seu olhar, no peso que lhe tombava sobre os ombros e ,lentamente, de olhos 
fechados, meti a mo dentro da caixa. Os meus dedos tocaram ento na pele fria e escamada da cobra adormecida, que comeou a contorcer-se; continuei a procurar freneticamente 
a fita da Gisselle, a qual finalmente encontrei. De imediato, agarrei-a e tirei a mo da caixa.

- Abenoada! - exclamou Nina.

- Essa fita - afirmou Mama Dede - esteve noutro mundo e regressou. Guarda-a bem, conserva-a como se fosse um rosrio e talvez um dia consigas tornar a tua irm numa 
pessoa melhor. - Levantou-se ento e olhou na direco de Nina. Vai acender uma vela na campa da Marie Laveau.

Nina acenava com a cabea. -Vou sim, Mama.

- Filha - chamou Mama, voltando-se de novo para mim o bom e o mau tambm so irmos. As vezes, enrolam-se um no outro como se fossem cordas e fazem ns nos nossos 
coraes. Desfaz primeiro os ns do teu corao e depois ajuda a tua irm a desfazer os dela.

Em seguida, voltou-nos as costas e desapareceu atravs do cortinado, enquanto o tambor soava mais forte.

- Vamos para casa - indicou Nina. - Temos muito que fazer agora.

Quando regressmos, no havia grandes modificaes em casa, com excepo da lista de telefonemas,  qual Edgar j acrescentara pelo menos mais doze nomes. Daphne 
estava ainda a descansar nos seus aposentos, e o pai continuava trancado no quarto do tio Jean. Mas depois, um pouco mais tarde, Daphne desceu mais repousada e elegante, 
pronta para saudar todos os amigos que vinham consol-la a ela e ao marido. Conseguiu tambm convencer o pai a descer para jantar.

- No  altura para perder as foras, Pierre. Temos de en-
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frentar responsabilidades muito pesadas e no tenciono carregar sozinha todo esse peso, como tenho feito em muitos outros aspectos - comunicou ela. Ele fez que sim 
com a cabea, reagindo com a submisso de um menino pequeno. - Controla-te
- ordenou ela. - Temos de receber muitos dos nossos amigos esta noite e no desejo acrescentar mais nenhuma vergonha a toda aquela que j temos de suportar.

-No deveramos preocupar-nos mais com a sade da Gisselle do que com a nossa vergonha? - interrompi imediatamente, sem poder reprimir a fria que sentia. Detestava 
a forma como Daphne falava com o meu pai, j to fraco e vencido.

- Como te atreves a falar comigo dessa forma? - retorquiu ela, saltando da cadeira.

- No quero parecer insolente, mas...

- Se queres um conselho, minha menina, acho melhor teres muita cautela com aquilo que vais fazer e dizer durante as prximas semanas. Desde que chegaste, a Gisselle 
nunca mais foi a mesma, e tenho a certeza de que foi alguma das tuas atitudes que a influenciou e acabou por proporcionar o acidente de hoje!

- Isso  mentira! Nada disso  verdade! - gritei, olhando para o pai.

-Vamos tentar manter a calma entre ns - pediu ele. Voltou-se para mim, com os olhos vermelhos e inchados de tantas horas de choro e de sofrimento. - Agora no! 
Por favor, Ruby, ouve a tua me. - Olhou ento para Daphne. - Nestas alturas, a Daphne  a mais forte da famlia, sempre foi - declarou, com a voz sumida e derrotada.

Daphne no escondeu o orgulho e a satisfao que as palavras do meu pai lhe causaram e continumos os trs em silncio at ao final da breve refeio. Nessa noite, 
o casal Andreas veio fazer uma visita, mas Beau no acompanhou os pais; depois vieram outros amigos e eu decidi retirar-me e ir para o meu quarto pedir a Deus que 
me perdoasse por ter procurado uma vingana. Depois adormeci, mas, durante longas horas, detive-me na fase inicial do sono, sem conseguir atingir o esquecimento 
que to desesperadamente procurava.

No dia seguinte, algo de estranho me sucedeu na escola. O dramatismo e o impacte do horrvel acidente de viao colocou todo o conjunto de estudantes do colgio 
em estado de choque. No havia ningum que no estivesse dominado pela tristeza e pelo luto. As amigas de Martin choravam pelos cantos, consolando-se umas s outras 
pelos corredores e nas casas de banho. O director, o Dr. Storm, fez ecoar pela escola um dis-
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curso de condolncias, oferecendo a todos a sua solidariedade, e os professores, incapazes de conduzir as aulas como de costume, mandavam-nos fazer trabalhos para 
nos manter ocupados, sabendo que os estudantes tambm no estavam no seu estado habitual.

Porm, o mais estranho era ter-me transformado de um dia para o outro em algum que precisava de consolo, que j no podia ser ignorado, nem desprezado. Todos os 
colegas vieram falar comigo, confessando as esperanas que ainda alimentavam em que tudo acabasse da melhor forma para Gisselle. At as suas melhores amigas, Claudine 
e Antoinette, procuraram a minha companhia e mostraram-se arrependidas pela partida na festa e por tudo o que de mau tinham dito a meu respeito.

Mais importante que tudo, Beau esteve sempre a meu lado e foi a minha principal fonte de apoio e consolo. Como era um dos melhores amigos de Martin, era com ele 
que os outros rapazes vinham ter quando queriam manifestar a sua tristeza. Durante o almoo, um grande nmero de colegas reuniu-se em nosso redor, confessando em 
voz baixa a sua tristeza.

Depois do final das aulas, eu e Beau seguimos directamente para o hospital, e encontrmos o meu pai a beber um caf no corredor. Tinha acabado de falar com os especialistas.

- A coluna foi afectada, a Gisselle ficou com os movimentos paralisados da cintura para baixo. Dos outros ferimentos, vai recuperar rapidamente.

- H alguma possibilidade de ela voltar a caminhar? perguntou Beau em voz baixa.

O paizinho abanou a cabea.

-  pouco provvel. Ela vai precisar de muita terapia e de muito carinho - afirmou. - Vou contratar uma enfermeira para ficar permanentemente ao seu lado quando 
a Gisselle voltar para casa.

- Quando  que a podemos ver, paizinho? - perguntei.
- A tua irm ainda est na Unidade de Cuidados Intensivos. S permitem visitas  famlia mais chegada - respondeu ele, voltando-se para Beau, que mostrou logo que 
entendia.

Comecei de imediato a dirigir-me para os cuidados intensivos.

- Ruby - chamou o pai; voltei-me para trs. - Ela ainda no sabe o que aconteceu com o Martin - comunicou. - Julga que ele est apenas gravemente ferido e eu achei 
melhor no lhe dizer ainda. J teve ms notcias que cheguem.

- Est bem, paizinho - respondi, seguindo logo depois na enfermaria. Mal entrei, uma enfermeira veio ao meu encontro
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para me indicar a cama de Gisselle. v-la ali deitada com o rosto completamente enfaixado e com os tubos de soro ligados s veias encheu-me de dor. Engoli as lgrimas 
e aproximei-me; ela abriu os olhos e fitou-me.

-Como te sentes, Gisselle? - perguntei suavemente.
- Como  que achas? - Fez um trejeito e voltou o rosto para o outro lado. - Deves estar muito contente por no teres entrado no nosso carro. Se quiseres, podes dizer: 
"Eu bem te disse ... "

- No - respondi. - Lamento muito o que aconteceu. Estou muito triste.

- Porqu? Agora j ningum mais vai ter dificuldade em nos distinguir. Eu sou a que no pode andar, vai ser fcil ver afirmou. - Sou a que no pode andar... - O 
seu queixo tremia.

- oh, Gisselle, vais poder andar, sim. Vou fazer todos os possveis para te ajudar - prometi.

- O que  que podes fazer?... Rezar alguma orao cajun pelas minhas pernas? Os mdicos vieram falar comigo e j me contaram a verdade.

- No podes perder a esperana, nunca deixes que isso acontea. Foi o que a... - Ia continuar a contar-lhe que tinha sido a grandmre Catherine quem mo ensinara, 
mas preferi no o fazer.

-  fcil para ti dizeres isso. Vieste aqui a andar pelas tuas pernas e  assim que vais sair daqui - gemeu ela, respirando fundo e soltando um suspiro. - Viste 
o Martin? Como est ele?

-  No, no o vi. Vim directamente para aqui - respondi, mordendo o lbio.

- Lembro-me que ainda lhe disse que ia depressa de mais, mas ele estava a achar divertido. Tal como tu, de repente, achou que era tudo muito divertido! Aposto que 
agora no est a rir-se... Vai fazer-lhe uma visita - pediu. - e diz-lhe o que aconteceu comigo, est bem?

Respondi que sim com a cabea.

- Espero que ele fique cheio de remorsos, espero que... oh, mas que diferena faz aquilo que eu espero? - Ficou a olhar para mim. - Ests contente por isto me ter 
acontecido, no ests?

-No, nunca desejei que atingisse esta gravidade, eu... -O que queres dizer? Que desejaste que algo de menos grave acontecesse? - Gisselle ficou a estudar por alguns 
segundos a minha fisionomia. - Foi isso?

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- Foi - admiti. - Foste to m para mim, causaste-me tantos problemas e magoaste-me tanto que fui visitar uma rainha vodu.

-O qu?!...

-Mas ela disse-me que no sou eu a culpada pelo que aconteceu. A culpa foi tua, por teres tanto dio no corao acrescentei rapidamente.

-No quero saber do que ela disse. Vou contar ao pap o que fizeste e ele vai odiar-te para sempre! Talvez agora te mande de volta para os pntanos!

-  o que queres que acontea, GiSselle?

Ela ficou alguns minutos a pensar e depois esboou um sorriso to fechado que me provocou arrepios.

-No. Quero que fiques para poderes compensar-me. Daqui por diante, vais ter de me compensar at eu querer. -O que queres que faa?

- Tudo o que eu pedir - respondeu. - e vais ter de obedecer..

- J te disse que tenciono ajudar-te, Gisselle, e vou faz-lo porque quero, e no por causa das tuas ameaas - declarei.
- Ests a aumentar a minha dor de cabea - queixou-se ento.

- Desculpa. Vou andando.

- S quando eu mandar - respondeu Gisselle. Fiquei parada a olhar para ela. - Est bem, agora podes ir. Mas vai visitar o Martin e diz-lhe o que eu te pedi e logo 
 noite volta para me contares como foi. Vai - ordenou, fazendo um trejeito de dor. Voltei-me e comecei a afastar-me. - Ruby! - chamou ela.
- Sim?

- Sabes qual  a nica forma de voltarmos a ser gmeas?
- indagou. Abanei a cabea, vendo-a sorrir. - Fica tambm paraltica - respondeu, fechando os olhos.

Baixei a cabea e sa. O conselho de Mama Dede seria muito mais difcil de seguir do que eu imaginara. Desatar os ns do amor e do dio no corao de Gisselle? Talvez 
fosse mais fcil tentar impedir a escurido da noite, pensei, enquanto caminhava ao encontro do pai e de Beau, que me esperavam no corredor.

Dois dias depois, comunicaram a Gisselle a morte de Martin. A notcia deixou-a em estado de choque. Antes disso, era como se acreditasse que tudo quanto lhe acontecera, 
as sequelas e a paralisia, no passava de um sonho que em breve terminaria. Os mdicos receitar-lhe-iam uns comprimidos e mand-la-iam para casa retomar a sua vida 
da forma como sempre a vivera. Mas quando soube da morte de Martin, cujo funeral estava a

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decorrer nesse mesmo dia, Gisselle esmoreceu, perdeu toda a cor e manteve os lbios cerrados. No verteu uma lgrima diante do pai ou de daphne e ,quando ficou sozinha 
comigo, tambm no chorou  minha frente. Mas, mal comecei a afastar-me para acompanhar os meus pais ao funeral, ouvi o seu primeiro soluo e corri para ela.

- Gisselle! - exclamei, acariciando-lhe o cabelo. Ela voltou o rosto na minha direco, mas, em vez de se mostrar reconhecida por eu ter voltado para junto dela, 
os seus olhos revelavam claramente toda a raiva que sentia.

- Ele tambm gostava mais de ti! Gostava, sim! - lamentou-se. - Sempre que estvamos juntos, era de ti que falava, e foi ideia dele convidar-te para vires naquele 
dia connosco. e agora morreu - acrescentou, como se tambm isso se devesse a mim.

- Lamento muito. Gostava de poder fazer alguma coisa para modificar o que se passou - respondi.

-Volta a visitar a tua rainha vodu - retorquiu, voltando de novo o rosto para outro lado.

Depois de ter ficado ali parada mais uns instantes, fui depressa ao encontro do pai e de daphne.

O funeral de Martin estava repleto de gente. Muitos dos colegas da escola fizeram questo de ir, e os colegas de Martin e Beau  que seguraram o caixo. Sentia-me 
terrivelmente maldisposta e foi com muito alvio que senti o pai dar-me a mo para nos irmos embora.

Nesse dia, bem como no dia seguinte, choveu o tempo todo. Julguei que o cinzento nunca mais abandonaria as nossas vidas e os nossos coraes, mas uma manh acordei 
com a luz do Sol e ,quando cheguei  escola, verifiquei que a nuvem de tristeza tinha-se por fim dissipado. Todos voltavam ao seu estado normal: Claudine assumiu 
o papel de lder que anteriormente pertencia a Gisselle, mas isso em nada me afectou, pois passava muito pouco tempo com os amigos da minha irm. S estava verdadeiramente 
interessada em aprender e ter boas notas na escola, alm de passar com Beau o mximo tempo possvel.

Finalmente, chegou o dia em que Gisselle pde regressar a casa. No hospital, tinha iniciado os exerccios teraputicos mas, segundo o que daphne contara, at ento 
mostrara muito pouco desejo em cooperar. O paizinho contratara uma enfermeira particular, uma tal Mrs. Warren, que trabalhara em hospitais e cuidara dos feridos 
da guerra, com muita experincia em doentes que sofriam de paralisias. Tinha cerca de cinquenta anos, era alta, usava o cabelo castanho-escuro bem curto e tinha 
feies
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duras, quase masculinas. Reparei nos seus braos fortes logo na primeira vez que a vi pegar em Gisselle para a acomodar melhor, pois as veias tornaram-se salientes. 
Havia algo de militar no seu comportamento, dava ordens aos empregados e repreendia Gisselle como se fosse uma recruta e no uma invlida. Estive presente da primeira 
vez que Gisselle se queixou, mas Mrs. Warren no era mulher para tolerar lamentaes.

- J Passou a altura de sentir pena de si prpria - declarou logo. - Agora  tempo de se esforar para conseguir ser o mais auto-suficiente possvel. No vai tornar-se 
uma bola nessa cadeira, por isso tire essas ideias da cabea. Quando eu terminar o meu trabalho, vai conseguir fazer quase tudo sozinha, percebeu?

Gisselle ficou parada a olhar para ela e depois voltou-se para mim.

- Ruby, d-me o meu espelho de mo - pediu. - Quero pentear o cabelo. De certeza que alguns amigos devem vir visitar-me assim que souberem que j estou em casa.

- V busc-lo sozinha - retorquiu Mrs. Warren. - Rode a cadeira e v buscar o espelho.

-A Ruby faz-me esse favor - insistiu Gisselle. - No fazes, Ruby? - indagou, fixando em mim o seu olhar duro. Fui buscar o espelho.

- Fazendo-lhe as vontades, no est a ajudar a sua irm em nada - afirmou Mrs. Warren.

- Eu sei - respondi, entregando apesar disso o espelho a Gisselle.

- Ela acaba por vos tornar a todos seus escravos, estou j a avisar!

- A Ruby no se importa de ser minha escrava. Somos irms, no  Ruby? - afirmou Gisselle. - Diz-lhe - ordenou. -No me importo - afirmei.

- Pois eu importo-me. Saia daqui at eu acabar a terapia!
- mandou Mrs. Warren.

- Eu  que digo  Ruby quando deve ou no deve sair gritou Gisselle. - Fica, Ruby.

- Mas, Gisselle, se Mistress Warren acha melhor eu sair, talvez eu deva obedecer.

Gisselle cruzou os braos e lanou-me um olhar penetrante, com as plpebras semicerradas.

-No saias da!       ordenou.

- Vamos l ver...      comeou Mrs. Warren.

- Est bem - concordou Gisselle, sorrindo. - Podes ir, Ruby. A, telefona por favor ao Beau e diz-lhe que estou  espera dele daqui a uma hora.

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- Daqui a duas horas - avisou Mrs. Warren. Concordei e sa.

Pelo menos numa ideia era obrigada a concordar com Daphne: com a Gisselle invlida, a vida iria ser muito mais complicada e desagradvel para todos ns. O acidente, 
a terrvel doena e a convalescena em nada haviam contribudo para modificar a sua personalidade. Tal como antes, Gisselle continuava a pensar que tudo lhe era 
devido, talvez agora ainda com maior certeza. Apercebia-me agora de que nunca deveria ter-lhe confessado nada, pois ela aproveitara essa confisso como uma excelente 
oportunidade de me transformar em sua escrava.

Se, por alguma hiptese, abrigasse ainda esperana de que as condies presentes tornassem a minha irm mais insegura no que dizia respeito aos rapazes, depressa 
teria desistido dessa ideia depois de ver a forma como Gisselle reagiu  visita de Beau e dos outros colegas. Comportando-se como uma espcie de deusa, demasiado 
divina para que os seus ps tocassem o cho, Gisselle insistiu que Beau a levasse de sala em sala, em vez de ir pelos seus prprios meios. Reuniu todos os amigos 
 sua volta e pediu a Todd Lambert que lhe massajasse os ps enquanto falava, aproveitando principalmente para se queixar de Mrs. Warren e do momento terrvel que 
ningum a ajudava a suportar.

- Juro - dizia ela - que, se vocs no vierem visitar-me todos os dias, comeo a dar em maluca! Prometem? Prometem que vm? - perguntava, pestanejando os olhos. 
Claro que eles o fariam! e enquanto durava essa visita, ela fazia questo de me dar bastantes ordens, pedindo-me copos de gua ou almofadas para as costas, dirigindo-se 
a mim como se fosse realmente sua escrava.

Depois de ter dado um beijo de despedida a cada um dos rapazes e de Beau a ter levado ao colo para o quarto, eu e ele tivemos finalmente oportunidade para ficar 
alguns momentos a ss.

- Estou a ver que os tempos mais prximos vo ser especialmente difceis para ti - comentou Beau.

-No me importo.

- Ela no te merece - afirmou com suavidade, inclinando-se para me dar um beijo de despedida. Exactamente nesse instante, ouvimos os passos de Daphne no corredor. 
Surgira repentinamente do escuro, trazendo algumas sombras  volta dos olhos enfurecidos. Parou a pouca distncia de ns e cruzou os braos debaixo do peito, fitando-me.

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-Preciso de falar imediatamente contigo, Ruby - afirmou. - Beau, agradecia que te retirasses.

- Quer que me v embora?

- Sim, o mais depressa possvel - respondeu, com a voz a falhar.

-- Aconteceu alguma coisa? - indagou Beau com o mximo de calma.

-Prefiro discutir isso com os teus pais - respondeu ela. Beau lanou-me um ltimo olhar e foi depois juntar-se ao grupo de amigos que o esperava l fora.

-O que se passa? - perguntei a daphne.

- Segue-me - ordenou. Deu meia volta e percorreu o corredor, comigo atrs, seguindo-a com o corao agitado e inquieto. Parou ento na porta do meu atelier e voltou-se 
para mm.

- Se o Beau no tivesse trocado a Gisselle por ti, ela nunca teria entrado naquele carro com o Martin - declarou. Nunca percebi o que o levara a deixar uma jovem 
crioula sofisticada por uma cajun ignorante, mas ontem  noite descobri o motivo - continuou. - Foi uma espcie de inspirao divina, que vim a comprovar estar mais 
do que certa. - Abriu violentamente a porta. - Entra.

- Porqu? - perguntei, fazendo o que ela me pedia. Daphne fitou-me com um olhar furibundo e depois encaminhou-se directamente para perto do cavalete. Virou pgina 
aps pgina, at encontrar o esboo que eu fizera de Beau nu. Abri a boca.

- Est demasiadamente bem feito para ser baseado apenas na tua imaginao pecadora - declarou. - No est? No mintas! - acrescentou rapidamente.

Respirei fundo.

- Nunca lhe menti, Daphne - respondi. - e tambm no vou mentir-lhe agora.

-Ele pousou para ti?

- Sim - confessei. Ela fez um gesto de quem j sabia. Mas...

- Sai daqui e no te atrevas a colocar de novo um p dentro deste atelier! Quanto a mim, a porta vai ficar para sempre fechada para ti. Sai - ordenou, de brao estendido 
e dedo apontado para a porta.

Voltei-lhe as costas e sa apressadamente. Quem seria a verdadeira invlida naquela casa, interroguei-me ento, Gisselle ou eu?
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COMO UM PSSARO NUMA GAIOLA DOURADA

Desde o dia do terrvel acidente, o pai arrastava-se pela casa como se tivesse perdido todo o interesse pela vida. Trazia sempre uma expresso apagada, os olhos 
mortios e os ombros cados; mal se alimentava, mostrando cada vez menos cuidado com a aparncia e passando a maior parte do tempo trancado no quarto que pertencera 
ao tio Jean.

O tom com que daphne lhe falava era sempre crtico e agressivo. Em vez de se mostrar compreensiva e caridosa, queixava-se quase sempre dos seus problemas, insistindo 
na ideia de que o meu pai estava a causar-lhe ainda mais dificuldades. Nunca colocou o marido e o seu sofrimento em primeiro lugar.

Assim, no me surpreendeu nada que daphne corresse a contar ao meu pai o que tinha encontrado no meu atelier e o que isso significava. Senti mais pena do meu pai 
do que de mim prpria, pois calculava como essa notcia, depois de tudo o que se passara, o deveria ter abalado. Completamente transtornado por acreditar que Deus 
estava a castig-lo pelos seus pecados do passado, aceitou as novidades de daphne como um homem condenado ouviria dizer que o ltimo pedido de misericrdia lhe tinha 
sido negado. No se ops minimamente  deciso de daphne de encerrar o meu atelier e de cancelar as minhas aulas particulares de pintura, nem sequer pronunciou uma 
s palavra de protesto quando ela me condenou quilo que, de uma forma prtica, se resumia a me manter presa dentro de casa.

como seria de esperar, estava proibida de ver e de falar com Beau. Todos os dias, no final das aulas, tinha de vir directamente para casa e auxiliar Mrs. Warren 
a cuidar de Gisselle ou ento fazer os trabalhos de casa. Para reforar ainda mais o poder que exercia sobre mim e sobre o marido, daphne chamou-me ao estdio com 
a ideia de me interrogar exaustivamente diante de meu pai, de forma a demonstrar, sem deixar dvidas, que eu era realmente to prfida quanto ela previra.

- Tens-te comportado como uma autntica ordinria - declarou. - Chegaste ao ponto de utilizar o teu talento artstico como forma de te tornares sexualmente promscua. 
e dentro da minha casa!

"E o mais embaraoso  que corrompeste o filho de uma das mais respeitadas famlias crioulas de Nova Orlees. Eles esto desgostosssimos com tudo o que se passou!

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"Tens alguma coisa a dizer em tua defesa? - indagou como se fosse juiza de um tribunal.

Ergui os olhos e fitei o pai, que continuava sentado com as mos pousadas no colo e os olhos vidrados. No estado de apatia em que se encontrava, no valia a pena 
falar. Tinha a certeza de que ele no conseguiria ouvir uma s palavra e daphne decerto diminuiria e destruiria qualquer argumento que eu apresentasse para me desculpar 
e justificar. Assim, limitei-me a abanar a cabea e voltar a baixar os olhos.

- Ento vai para o teu quarto e faz exactamente aquilo que te mandei fazer - ordenou antes de eu sair.

Beau tambm foi castigado. Os pais retiraram-lhe o carro e restringiram-lhe as sadas durante um ms. Sempre que o encontrava na escola, via de que forma se encontrava 
deprimido e cabisbaixo. Os amigos sabiam que ele estava de castigo por algum motivo, mas no estavam a par de mais pormenores.

- Desculpa - pediu-me ele, a uma dada altura. --- Tudo isto aconteceu por minha culpa, fui eu o responsvel por estarmos ambos no centro deste furaco.

- No me obrigaste a nada, Beau. e ns dois gostamos um do outro, no  verdade?

- Sim - admitiu. - Mas neste momento no posso fazer nada. Pelo menos, at todos se acalmarem, se  que isso algum dia ir acontecer.. Nunca vi o meu pai to zangado! 
A Daphne conseguiu influenci-lo bem. Atribuiu-te quase toda a culpa confessou, acrescentando logo em seguida. -  e injusto, claro. Mas agora o meu pai julga que 
s uma espcie de sedutora, at te chamou femme fatale, o que quer que seja que isso signifique... - Beau lanou um olhar nervoso em nosso redor.

Se ele souber que estou a falar contigo...

- Eu entendo - respondi com tristeza, relatando-lhe em seguida todos os castigos a que tambm estava sujeita. Beau desculpou-se mais uma vez e depois saiu apressado.

Quanto a Gisselle, essa ficou extasiada. Da primeira vez que a vi, depois de Daphne a ter posto a par de todos os pormenores, a minha irm transbordava de alegria. 
At mesmo Mrs. Warren comentou que Gisselle estava mais exuberante e vigorosa do que nunca, sem sequer se queixar dos exerccios teraputicos dirios.

- Implorei  me que me deixasse ver o desenho -- contou-me -, mas ela disse que j o tinha destruido. Senta-te aqui e conta-me todos os pormenores - ordenou ela. 
- Como  que o convenceste a tirar a roupa toda? Em que posio  que ele estava enquanto tu desenhavas? O que  que desenhaste?... Tudo?

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- No quero falar sobre esse assunto, Gisselle - respondi.
- Ah, queres, sim - retorquiu ela. -- Eu fico aqui fechada todo o dia a fazer estpidos exerccios com aquela enfermeira rabugenta ou ento a fazer os trabalhos 
de casa que o tutor manda, enquanto tu andas por a a divertir-te! Tens de me contar tudo! Quando foi que isso aconteceu, foi h pouco tempo? e ,depois de o teres 
desenhado, o que fizeste? Tiraste tambm a roupa? Responde-me! - gritou.

Como desejei nessa altura que fosse possvel sentar-me a seu lado e ter uma conversa com Gisselle! Desejava tanto ter uma irm em quem pudesse confiar, uma irm 
que me desse bons conselhos e se preocupasse comigo! Mas a nica inteno de Gisselle era deleitar-se com o relato, ignorando todo o meu sofrimento e vergonha.

- No posso falar desse assunto - insisti, voltando-lhe as costas.

- Mas acho bem que o faas - gritava ela -, porque, se no falares, conto tudo acerca da rainha vodu! Ruby! Ruby, volta aqui imediatamente!

Sabendo que ela levaria a cabo as suas ameaas, e calculando que, depois de tudo, essa notcia mergulharia o pai numa depresso to profunda que nunca mais teria 
cura, dei meia volta e voltei para o lado de Gisselle; encurralada, permiti que ela me arrancasse todos os pormenores.

- Eu sabia! - comentou ela, sorrindo de satisfao. Sabia que o Beau ia acabar por te seduzir!

- Ele no me seduziu. Ns gostamos um do outro - insisti ainda em lhe explicar, mas ela deu uma gargalhada.

- O Beau Andreas s gosta de uma pessoa: do Beau Andreas. s uma idiota, uma cajun tola e idiota! - afirmou, sorrindo de novo. - Vai buscar o bacio, preciso de fazer 
chichi.

- Vai busc-lo sozinha! - retorqui, levantando-me rapidamente.

- Ruby!

No parei. Dessa vez, corri para o meu quarto e atirei-me para cima da cama, enterrando o rosto na almofada. "Teria sido mais maltratada por Buster e pelo grandpre 
Jack?", questionei-me.

Algumas horas depois, fiquei espantada por ouvir que algum batia  porta do meu quarto. Limpei algumas das lgrimas que tinha chorado e gritei: "Entre!" Estava 
 espera que fosse o meu pai, mas deparei com Daphne, que cruzava os braos e me olhava, desta vez, sem parecer zangada.

- Tenho andado a pensar em ti - comeou ela, num tom
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de voz mais tranquilo do que era hbito. - A opinio que tenho a teu respeito no se modificou, nem tenciono diminuir os teus castigos, mas resolvi dar-te uma oportunidade 
de te redimires e de compensares o teu pai. Ests interessada em ouvir?

- Sim - respondi, sustendo a respirao. - O que devo fazer?

- Neste prximo sbado,  o dia do aniversrio do teu tio Jean. O Pierre costuma ir sempre visitar o irmo nesse dia, mas ele no est em estado de fazer visitas 
a ningum, especialmente ao irmo mais novo, psicologicamente incapacitado - afirmou. - Por isso, como j vai sendo hbito, os deveres mais desagradveis caem sempre 
em cima de mim. Vou ter de o ir visitar e lembrei-me que seria justo que me acompanhasses em representao do teu pai.

"Claro que o Jean no vai compreender quem tu s, mas...
- oh, sim! - exclamei, mal contendo o meu entusiasmo. Sempre tive vontade de o conhecer.

- Sim? - daphne conservou-me alguns instantes na mira do seu olhar crtico, comprimindo os lbios. - Ento, est bem. Vamos sbado de manh cedo, escolhe uma roupa 
apropriada. Espero que compreendas qual foi a minha inteno acrescentou.

- Sim, me. Obrigada.

- Ah, s mais uma coisa... - murmurou, antes de sair. No comentes este assunto com o Pierre, ele s ia ficar ainda mais perturbado. Contamos-lhe depois da visita, 
de acordo? -De, acordo - respondi.

- Espero ter tomado a deciso acertada - concluiu, saindo em seguida.

"A deciso acertada?" Claro que tinha sido uma deciso acertada! Finalmente, iria poder contribuir de uma forma significativa para a felicidade de meu pai. Mal chegasse 
da visita, iria a correr contar a meu pai cada momento passado com o tio Jean, descrevendo todos os pormenores. Resolvi ir logo nesse momento escolher a roupa para 
esse dia.

Quando contei a Gisselle que iria acompanhar daphne na visita ao tio Jean, ela ficou bastante admirada.

- O aniversrio do tio Jean? S a me conseguia lembrar-se disso!

-Mas acho que foi simptica em me ter pedido para a acompanhar - retorqui.

- Ainda bem que no me pediu a mim! Detesto aquele lugar,  to deprimente! Todos os que l vivem so diminudos, e h jovens da nossa idade tambm...

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Porm, no havia nada que Gisselle pudesse dizer para diminuir o meu entusiasmo e ,quando a manh de sbado chegou finalmente, arranjei-me muito antes da hora marcada, 
tomando especial cuidado com o meu cabelo e vendo-me vrias vezes ao espelho para assegurar que nenhum fio estava fora do lugar. J sabia como daphne podia ser crtica.

Fiquei desapontada ao verificar que o pap no tinha ainda descido para tomar o pequeno-almoo. Mesmo sabendo que no podia contar-lhe aonde iria, gostava que ele 
pudesse apreciar o cuidado que tivera com a minha aparncia.

- Onde est o paizinho? - perguntei a daphne.

-O Pierre sabe que dia  hoje - explicou ela, enquanto me examinava da cabea aos ps -, e deve estar mergulhado numa das suas crises de melancolia mais profundas. 
A Wendy depois leva-lhe l acima o pequeno-almoo.

Comemos e samos logo em seguida. daphne manteve-se em silncio durante a maior parte do trajecto, exceptuando as alturas em que respondia s minhas perguntas.

- Que idade tem o tio Jean actualmente? - inquiri. -Tem trinta e seis anos - respondeu daphne.

- A me conheceu-o antes?

- Claro que sim - afirmou. Julguei detectar um leve sorriso nos seus lbios. - Receio que, em toda Nova Orlees, no houvesse uma s mulher solteira de classe que 
no o conhecesse. --- H quanto tempo est ele internado?

-H quase quinze anos.

- Como est ele? Quer dizer, qual  o seu estado de sade actual? - continuei. daphne no mostrava muita vontade de responder.

-Porque no esperas mais um pouco e tiras as tuas prprias concluses? - falou, por fim. - Guarda as perguntas para os mdicos e as enfermeiras - acrescentou, deixando-me 
a pensar que era uma estranha forma de responder.

A clnica ficava a mais de trinta quilmetros da cidade, distante da auto-estrada, no cimo de uma estrada longa e sinuosa. Erguia-se num stio lindo, rodeada por 
enormes chores verdejantes, pequenos jardins, fontes e caminhos empedrados onde estavam espalhados uns curiosos bancos de madeira.  medida que nos amos aproximando, 
vi algumas pessoas de idade, acompanhadas por enfermeiros.

Depois de ter estacionado o carro, daphne voltou-se para mim.

- Quando entrarmos, no quero que converses com ningum, nem que faas perguntas. Isto  uma clnica, um hospi-
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tal... no  um colgio. Limita-te a vir ao meu lado e a esperar, at nos dizerem o que fazer. Percebeste bem? - interrogou.

- Sim -- respondi. Mas havia algo na voz e nos olhos de Daphne que fazia o meu corao bater mais depressa.

O edifcio de quatro andares feito em estuque cinzento erguia-se  nossa frente, lanando ameaadoramente a sua sombra sobre o carro. Quando nos aproximmos da porta 
principal, reparei que as janelas estavam protegidas com grades e que quase todas tinham as cortinas corridas.

Visto da auto-estrada, e mesmo do tal caminho sinuoso, a clnica parecia um local calmo e agradvel, mas agora, visto de perto, revelava o seu verdadeiro objectivo 
e recordava aos visitantes que quem nele se abrigava no tinha condies de funcionar normalmente no mundo exterior. As grades das janelas sugeriam at que alguns 
dos ocupantes dos quartos podiam ser perigosos. Engoli em seco e fui seguindo atrs de daphne pela entrada principal. Esta, como sempre, mantinha a sua postura rgia 
e a cabea erguida, com os saltos altos a acentuar cada passo que avanava pelo imaculado trio de mrmore polido. Numa cabina envdraada diante de ns, uma mulher 
vestida de uniforme branco completava uns grficos mas, assim que nos viu aproximar, ergueu a cabea e ficou atenta.

- Chamo-me Daphne Dumas - declarou daphne, com autoridade -, e desejava falar com o doutor Cheryl.

- Vou j avis-lo que chegou; Madame Dumas - respondeu a recepcionista, levantando de imediato o auscultador que tinha ao seu lado. - Se desejarem, podem sentar-se 
enquanto esperam -- informou, indicando as cadeiras da recepo. daphne voltou-se e ,com um gesto, mandou-me sentar, o que de imediato fiz. Enquanto esperava, com 
as mos no colo, aproveitei para observar tudo em meu redor. As paredes estavam nuas, sem um quadro, um relgio, absolutamente nada.

- O doutor cheryl est  sua espera, madame -- informou a recepcionista.

- Ruby - chamou daphne. Levantei-me e caminhei a seu lado at uma porta lateral. A recepcionista fez-nos entrar e seguimos ento por outro corredor.

- Por aqui - indicou a recepcionista, guiando-nos pelo corredor at uma sucesso de gabinetes de escritrio. O primeiro da direita tinha inscrito na porta "Dr. Edward 
Cheryl, Director Administrativo". A recepcionista abriu a porta e entrmos finalmente no gabinete.

Era uma diviso ampla e sem grades nas janelas, as quais, nesse momento, tinham as cortinas apenas ligeiramente corri-
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das. Do lado direito, havia um grande sof de pele castanho-claro e do lado esquerdo havia um cadeiro a condizer. As paredes estavam forradas com estantes cheias 
de livros, aqui e ali enfeitadas com quadros impressionistas, os quais na sua maioria retratavam cenas rurais. Um desses quadros chamou-me a ateno, pois ilustrava 
uma paisagem do bayou.

Na parede atrs da secretria, o Dr. cheryl pendurara todos os seus certificados e diplomas. Vestido com uma bata de laboratrio, levantou-se da secretria mal viu 
Daphne entrar. Era um homem com no mais de cinquenta a cinquenta e cinco anos, com farto cabelo castanho-escuro, olhos pequenos cor de avel, nariz pequeno e boca 
franzina. Sendo de estatura baixa, tinha uma compleio esbelta e braos compridos, e o seu sorriso era leve, como o de uma criana insegura com vergonha de rir. 
Por mais estranho que parecesse, notava-se que ficava nervoso na presena de Daphne.

-Madame Dumas - exclamou, estendendo-lhe a mo. Ao erguer o brao, a manga da sua bata deslizou at ao cotovelo. Daphne segurou-lhe apressadamente os dedos, como 
se detestasse qualquer tipo de contacto, receando que, de alguma forma, ele pudesse contamin-la. Depois de o cumprimentar, Daphne sentou-se na cadeira de pele que 
existia diante da secretria e eu permaneci de p atrs dela.

A ateno do mdico passou rapidamente para mim, e a intensidade do seu olhar quase me fez sentir acanhada. Finalmente, aps uma pausa que me pareceu interminvel, 
dedicou-me tambm um sorriso, mas to tnue quanto o primeiro.

 esta a jovem? - indagou, dando a volta  secretria. Sim, a Ruby - respondeu Daphne, franzindo a boca como se o meu nome fosse uma das palavras mais ridculas 
que conhecia. Ele meneou a cabea, ainda de olhos fitos em mim. Recordando as ordens de Daphne, no pronunciei uma s palavra at ele se dirigir directamente a mim.

- Como se sente hoje, Mademoiselle Ruby? - perguntou. -Muito bem.

-Ele voltou a menear a cabea e voltou-se ento para Daphne.

- Fisicamente, a sua filha est bem de sade? - indagou. "Que pergunta to estranha", pensei, franzindo as sobrancelhas com curiosidade.

- Olhe bem para ela. Parece-lhe que tem algum problema de sade? - respondeu Daphne, dirigindo-se a ele no mesmo tom rspido com que falava com os empregados. No 
entanto, ele no parecia importar-se e continuou a analisar-me pormenorizadamente.

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- Bem, ento vou comear por lhe mostrar esta nossa casa
- afirmou, aproximando-se de mim e afastando-se de daphne. Lancei um olhar a Daphne, mas ela manteve os olhos distantes dos meus. - Gostava que se sentisse  vontade 
aqui - acrescentou. - To confortvel quanto possvel.

O sorriso dos seus lbios aumentou, mas havia ainda algo de falso naquele homem.

- Obrigada - respondi, sem saber o que dizer. Sabia que o meu pai e Daphne, alm de pagar as despesas com o tio Jean, contribuam com generosas quantias para a manuteno 
da clnica, mas era ainda estranho ser tratada com tanta gentileza.
- Tem quase dezasseis anos, no  ?- perguntou.

- Sim, monsieur.

- Por favor... chame-me doutor cheryl. Gostava que nos tornssemos amigos, bons amigos. Se assim o desejar, evidentemente - acrescentou.

- Com certeza, doutor cheryl. - Ele fez um gesto afirmativo.

- Madame> - afirmou, dirigindo-se de novo a Daphne.
- Eu espero aqui - respondeu ela, sem se voltar para trs. "Porque estar a Daphne a comportar-se de uma forma to estranha?", pensei.

- Muito bem, madame. Mademoiselle - continuou o Dr. Cheryl, indicando uma porta lateral e deixando-me hesitante e confusa.

-Aonde vamos?

- Como j disse, gostava de lhe mostrar a nossa instituio, se assim o desejar,  claro.

- Est bem - respondi, encolhendo os ombros. Fui at  porta, ele abriu-a, conduziu-me por outro corredor e depois por uma pequena escadaria. Aquele local era um 
autntico labirinto, pensei, enquanto dvamos mais uma curva e seguamos por mais um corredor, noutra direco. Continumos at chegarmos a uma janela envidraada 
muito grande, de onde se podia observar uma sala de recreio. Pacientes de todas as idades, desde adolescentes a pessoas idosas, entretinham-se a jogar s cartas, 
ao domin e a outros jogos. Alguns viam televiso e outros ocupavam-se com trabalhos manuais, entranando cordes e fazendo bordados e croch; havia tambm quem 
estivesse simplesmente a ler revistas. Um rapaz com cabelo ruivo, que aparentava ter dezassete ou dezoito anos, estava sentado a olhar  volta sem fazer nada. Alguns 
enfermeiros e assistentes caminhavam pela sala, vigiando todas as actividades e parando ocasionalmente para dirigir umas palavras aos pacientes.

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- Como v, esta  a zona recreativa. Os pacientes que esto em condies de a utilizar podem vir aqui durante os seus tempos livres e fazer aquilo que quiserem. 
Podem at no fazer nada, como  o caso do jovem lyle Black ali sentado.

- O meu tio tambm costuma vir at aqui? - perguntei.
- Ah, sim. Mas agora est no quarto  espera de Madame Dumas. Tem um quarto muito bom - acrescentou o Dr. cheryl.
- Venha por aqui - indicou. Parmos diante de outra porta, que dava, evidentemente, para a biblioteca.

- Temos nesta biblioteca mais de dois mil volumes e recebemos milhares de revistas tambm - explicou.

-Que bom - comentei.

Continumos at chegarmos a um pequeno ginsio.

- No negligenciamos o bem-estar fsico dos nossos pacientes. Esta  a nossa sala de exerccios, todas as manhs  utilizada. Alguns dos pacientes podem mesmo nadar 
na piscina, que fica nas traseiras do edifcio. Aqui - continuou, avanando alguns passos e apontando para o lado direito do corredor -, so as salas de tratamento. 
Recebemos regularmente um dentista, bem como mdicos de clnica geral. At temos um salo de beleza! - comentou, sorrindo. - Por aqui - indicou, apontando para o 
corredor do lado contrrio.

Lembrei-me de Daphne e imaginei o que a levaria a esperar to pacientemente no gabinete do Dr. cheryl. Ela no fizera questo de esconder que odiava aquele local, 
e eu tinha a certeza de que Daphne deveria querer entrar e sair o mais depressa possvel dali. Preocupada e confusa, seguia o Dr. cheryl. No queria ser antiptica 
nem mostrar pouco interesse, mas estava desejosa de poder conhecer o meu tio.

Virmos numa esquina e entrmos no que parecia ser uma rea administrativa inteiramente nova. Havia uma enfermeira sentada a uma secretria, conversando com dois 
assistentes que no aparentavam mais de vinte e muitos anos, ambos altos e bem constitudos. Quando nos aproximmos, ambos nos fitaram.

- Bom dia, Mistress McDonald - cumprimentou o Dr. cheryl. A enfermeira levantou a cabea e eu pude ver que tinha uma expresso mais doce do que Mrs. Warren, apesar 
de ter mais ou menos a mesma idade; o cabelo era cinzento-azulado cortado rente  nuca.

-Bom dia, doutor.

- Rapazes - dirigiu-se ele aos assistentes. - Est tudo a correr bem esta manh?

Eles responderam ambos que sim, de olhar fito em mim.
- Muito bem, Mistress McDonald. Como sabem, Madame
Dumas trouxe-nos a filha, a Ruby - afirmou, voltado para mim.

Fiquei a fit-lo por alguns instantes. O que quereria ele dizer com "trouxe-nos a filha"? Por que motivo no terminara a frase e comunicara: "Trouxe-nos a filha 
para ver o seu tio Jean"?

- Ruby, Mistress McDonald  quem manda aqui, quem est encarregue de tratar de toda a gente. No encontra melhor enfermeira-chefe em qualquer outra clnica psiquitrica 
do pas. Temos muito orgulho em a ter na nossa equipa.

-No estou a perceber - afirmei. - Onde est o meu tio?

-  Est num outro piso - respondeu o Dr. Cheryl, esboando outro daqueles seus tmidos e rpidos sorrisos. - Este andar  dedicado especialmente a pacientes temporrios. 
Como no contamos que fique aqui muito tempo...

- Como? - Recuei um passo. - Eu, ficar aqui? O que quer dizer?

Mrs. McDonald e o Dr. cheryl trocaram um olhar rpido.
- Julguei que a sua me lhe tivesse explicado tudo, Ruby
- respondeu ele.

-Explicar o qu?

-A Ruby veio aqui para lhe fazermos uma anlise, uma observao. No est de acordo?

- O senhor est doido! - gritei, provocando sorrisos nos dois assistentes, mas irritando levemente o Dr. cheryl.

- oh!, meu Deus! - exclamou ele. - Julguei que fosse um caso mais simples.

- Quero voltar para junto da minha me - insisti, lanando um olhar ao corredor, subitamente to perturbada e amedrontada que j no sabia qual a direco a tomar.

- Tenha calma - pediu o Dr. Cheryl, avanando para mim.

- Calma? Julga que eu vim aqui como uma doente vossa e agora pede-me que tenha calma?

-No, a Ruby ainda no  considerada uma doente. Est aqui apenas para ser observada.

-Para qu?

- Porque no se instala primeiro no seu quarto, para depois podermos ter uma conversa! Se no houver nada de mal, vai directamente para casa - prometeu, exibindo 
de novo o seu sorriso fechado.

-No h nada de mal! - recuei de novo. - Quero voltar para junto da minha me, agora mesmo. Vim aqui para visitar o meu tio,  esse o nico motivo por que estou 
aqui.

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O Dr. cheryl lanou um olhar na direco de Mrs. McDonald, que logo se levantou.

- Se no nos ajudares, s vais complicar ainda mais a tua situao, Ruby - afirmou ela, dando a volta  secretria. Os dois assistentes prepararam-se para a seguir, 
enquanto eu continuava a recuar, abanando a cabea.

- Isto  um engano. Levem-me daqui!
- Tenha calma - pedia o Dr. cheryl. -No, no quero ter calma.

O assistente que estava do meu lado direito avanou de forma a impedir a minha passagem. No me tocou, mas permaneceu atrs de mim, intimidando-me com a sua presena. 
Comecei a chorar.

- Por favor - pedi -, quero ir ter com a minha me. H aqui um grande engano. Levem-me daqui...

- No devido tempo, prometo-lhe que o farei - respondeu o Dr. cheryl. - Podemos agora mostrar-lhe o seu quarto? Assim que vir como  confortvel...

-No, no quero ver quarto nenhum!

Dei meia volta e tentei passar pelo assistente, mas este agarrou-me pelo brao e apertou com tanta fora o pulso que me magoou. Dei um grito e Mrs. McDonald veio 
tambm para perto de mim.

- Arnold - chamou o outro assistente, que segurou o meu outro brao.

- No a magoem - recomendou o Dr. cheryl. - Tenham cuidado. Ruby, deixe que eles lhe mostrem o seu quarto. V, minha querida.

Lutei em vo por me libertar durante alguns minutos, ao fim dos quais acabei por permitir que eles me conduzissem para outra sala, em pranto. Mrs. McDonald tocou 
uma campainha e a porta abriu-se. As minhas pernas mal se moviam, apesar de ser praticamente arrastada por eles. O Dr. cheryl seguia-nos de perto. Levaram-me ento 
atravs do corredor onde ficavam os dormitrios e detiveram-se numa porta j aberta.

- Veja - comentou o Dr. cheryl entrando primeiro que ns. - Este  um dos nossos melhores quartos. As janelas do para poente, por isso tem sol da parte da tarde 
e no de manh, o que a poderia acordar demasiado cedo. e repare nesta cama
- continuou, indicando a cama a imitar madeira. - Tem tambm uma cmoda, um armrio e uma casa de banho privativa, com chuveiro. e tem tambm uma secretria e uma 
cadeira. Se quiser escrever uma carta a algum, tem aqui papel de carta e canetas - acrescentou, sorrindo.

362
- Passei os olhos pelas paredes nuas e pelo cho frio. Como poderia algum pensar que aquele era um quarto confortvel? Mais parecia uma cela de priso; afinal, 
as janelas tinham grades, no tinham?

- No podem fazer isto - declarei, cruzando os braos  volta do peito. - Levem-me imediatamente daqui ou eu juro que vou chamar a Polcia na primeira oportunidade 
que tiver!

- A sua me pediu-nos que lhe fizssemos umas anlises afirmou ele com firmeza. - Os pais tm direito a fazer isso, desde que os filhos sejam ainda considerados 
menores. Agora, se colaborar connosco, esta experincia ser rpida, agradvel e indolor. Contudo, se continuar a resistir e a desobedecer a tudo quanto lhe pedimos 
para fazer, ser desagradvel para todos ns, mas principalmente para si - ameaou. Sente-se aqui - ordenou, apontando para uma cadeira.

Permaneci imvel e ele endireitou os ombros como se eu lhe tivesse cuspido para a cara.

- J estamos a par de alguns acontecimentos do seu passado, sabemos que tipo de atitudes tem tomado e como aceita mal a disciplina. Mas asseguro-lhe, minha menina, 
que nada disso  permitido aqui dentro. A partir deste momento, ou comea a ouvir e a obedecer, ou mando transferi-la para o andar de cima, onde todos os pacientes 
passam a maior parte do tempo de camisa-de-foras!

Com o corao destroado, dirigi-me obedientemente para a cadeira e sentei-me.

-,- Assim j est melhor - comentou ele. - Tenho de ir atender a sua me e acompanhar a visita, mas depois mando cham-la para termos a nossa primeira entrevista. 
At l, gostava que lesse estes impressos - afirmou, retirando da gaveta da cmoda um conjunto de folhas amarelas encadernadas. - Aqui esto as nossas regras, a 
descrio do nosso estabelecimento e a nossa misso. Damos isto a ler somente aos pacientes que esto em estado de o compreender, queles que se empenham em melhorar. 
Existe at uma folha em branco onde pode escrever as suas sugestes. Veja! - Abriu o prospecto para me mostrar a folha. - Levamo-las sempre em considerao, temos 
recebido ptimas sugestes por parte de alguns pacientes antigos.

-No tenho nenhuma sugesto a fazer, s quero ir para casa.

- Ento colabore connosco e depressa ir - respondeu, afastando-se.

- Porque me trouxeram para aqui? Por favor, responda s a essa pergunta antes de sair - implorei.

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O Dr. cheryl lanou um olhar na direco dos dois assistentes, que de imediato se retiraram; depois fechou a porta e voltou-se para mim.

- Tem um passado bastante promscuo, no  verdade, minha querida?

- Como? O que quer dizer?

- Em psicologia, chamamos-lhe ninfomania. J conhecia esse termo?

Abri a boca de espanto.

-O que pensam ento a meu respeito? - quis saber.
- Est a ter dificuldade em controlar os relacionamentos com o sexo oposto?

-No, isso no  verdade, doutor cheryl.

-Admitir um problema  o primeiro passo para a cura, minha querida. Vais ver que, depois disso,  muito mais fcil
- afirmou, sorrindo.

-Mas no tenho nenhum problema para admitir. Ele ficou a analisar-me durante alguns segundos.

- Est bem, depois vemos isso - respondeu por fim.

 para isso que aqui est, para ser examinada. Se no existir nenhum problema consigo, mando-a directamente para casa. No lhe parece uma soluo justa?

- No, nada disto  justo. Estou aqui como prisioneira.
- Somos todos prisioneiros das nossas enfermidades, querida Ruby, especialmente das nossas enfermidades mentais. O objectivo deste local e o meu propsito  libert-la 
da aberrao mental que a acorrentou a esse tipo de comportamento negativo e que a leva a odiar-se a si prpria. - Ele sorriu. - Temos uma ptima percentagem de 
curas, sabia? D-nos uma oportunidade - concluiu.

- Por favor, acredite, a minha me est a mentir! A daphne est a mentir! Por favor... - gritei. Ele fechou a porta, e eu, apesar de saber de antemo que era intil 
tentar, ainda corri para a porta, mas verifiquei que estava trancada. Frustrada e derrotada, ainda em profundo choque, sentei-me e esperei. Tinha a certeza de que 
o pai nada saberia acerca do que estava a acontecer comigo e fiquei a imaginar que gnero de mentiras daphne iria inventar para justificar o meu desaparecimento. 
Talvez lhe dissesse que eu tinha fugido por no ser capaz de suportar a educao e disciplina que ela tentava administrar-me. e o pobre pap acreditaria.

Nina Jackson no deveria ter entregue a fita de Gisselle para ser lanada na caixa da serpente, pensei ento; deveria, sim, ter entregue um objecto que pertencesse 
a daphne.

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Finalmente, depois do que me pareceram longas horas de espera, Mrs. McDonald destrancou a porta e entrou.

-O doutor cheryl vai atend-la agora - afirmou. - Se me seguir calmamente, no haver motivo para desordens. Levantei-me de imediato, pensando que, na primeira oportunidade, 
fugiria dali. Mas antevendo esse meu pensamento, um dos assistentes estava  minha espera no corredor.

- O que esto a fazer comigo... - gemi -  um autntico rapto.

- Vamos, Ruby, no pode ficar obcecada dessa forma. As pessoas que se preocupam consigo e que a amam querem simplesmente saber o que pode ser feito para melhorar, 
 apenas isso - afirmou, com uma voz to doce que parecia estar a ouvir os conselhos de uma av. - Ningum vai fazer nada para a magoar.

- J fui magoada o suficiente para no conseguir perdoar.
- Mas a minha resposta provocou apenas um sorriso nos lbios de Mrs. McDonald.

- Vocs, os jovens de hoje, so muito mais dramticos do que ns ramos - comentou ela, inserindo uma chave na porta do corredor, que logo ficou aberta. - Venha 
por aqui.

Seguimos pelo corredor a que o Dr. cheryl se havia referido como,a zona de tratamentos. Lancei um olhar para outro corredor e pensei em fugir, mas lembrei-me que 
existiam muitas portas trancadas e que todas as janelas tinham grades. De qualquer forma, o assistente aproximou-se mais de mim. Por fim, parmos diante de uma porta 
que Mrs. McDonald voltou a abrir, fazendo-me entrar numa diviso que continha apenas um sof, duas cadeiras e uma mesa. Havia tambm uma espcie de projector de 
cinema pousado numa outra mesa mais pequena, e um ecr pendurado na parede em frente. No existia nem uma janela, mas havia uma outra porta e um espelho grande do 
lado direito.

- Sente-se a - instruiu Mrs. McDonald. Obedeci, enquanto a enfermeira batia suavemente na outra porta, que abriu em seguida para anunciar: - A Ruby j est aqui, 
doutor.

- Muito bem - ouvi o Dr. cheryl responder. Mrs. McDonald virou-se na minha direco e sorriu.

- Lembre-se que - comeou ela - se colaborar, demorar muito menos tempo. - Depois fez um gesto ao assistente e comearam ambos a dirigir-se para a porta. - Se precisar 
de alguma coisa, o Jack est l fora  sua espera - acrescentou, como uma ameaa velada. Olhei para ele, que me retribuiu o olhar com os seus escuros e frios olhos. 
Suficientemente intimi-

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dada, sentei-me sem fazer barulho e fiquei sozinha  espera. Alguns minutos depois, entrou o Dr. cheryl.

-Ento - comeou ele, esboando um largo sorriso. Como se sente agora? Um pouco mais calma, espero? -No. Onde est a Daphne?

-A sua me est neste momento a visitar o cunhado informou, aproximando-se do projector e pousando um dossier a seu lado.

- Ela no  minha me - declarei veementemente. Se alguma vez desejara neg-lo, nesse momento desejei ainda mais.
- Compreendo aquilo que est a sentir.

- No, no compreende. Ela no  a minha verdadeira me, e a minha me verdadeira j morreu.

-Mas... - contraps, meneando a cabea - ela est a tentar ser uma boa me para si, no est?

- No. Est a ser aquilo que sempre foi: uma bruxa! - retorqui.

-A raiva e a agressividade que est agora a sentir so muito compreensveis - afirmou. - Gostava apenas que reconhecesse a causa desses sentimentos: reage dessa 
forma, porque est a sentir-se ameaada. Sempre que tentamos que um paciente reconhea os seus erros, as suas fraquezas ou doenas,  natural que ele, de incio, 
se ressinta e oferea resistncia. Pode acreditar que a maior parte dos nossos pacientes se sente bem com os seus problemas morais e de comportamento, porque sempre 
os tiveram e  como se j fizessem parte deles mesmos.

- No fao parte desse grupo de pessoas. No tenho nenhum problema moral nem de comportamento - insisti.

- Talvez tenha razo. Deixe-me apenas tentar fazer-lhe umas perguntas para descobrir como encara o mundo que a rodeia, est bem? Por hoje, faremos apenas esse exerccio 
para ter tempo de se adaptar a este ambiente novo. Sem pressas. -Mas eu tenho pressa de ir para casa.

- Est bem, vamos comear. Vou projectar umas imagens neste ecr diante de si e quero que me diga imediatamente o que lhe vem ao pensamento quando vir cada uma delas, 
de acordo? No pense sobre as imagens, reaja o mais rapidamente que puder.  fcil, no ?

- No preciso de nada disso - gemi.

- Ento encare isto como um jogo e utilize o seu sentido de humor - respondeu, apagando a luz da sala. Em seguida, ligou o projector e colocou o primeiro slide no 
ecr. - Por favor - pediu -, quanto mais depressa terminarmos, mais depressa poder descansar.

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Com bastante relutncia, comecei a responder. -Parece a cabea de uma enguia.

- Muito bem, uma enguia. e isto?
- Uma espcie de mangueira.

- Continue.

- Um ramo retorcido de um sicmoro... a cauda de um aligator.. um peixe morto.

- Morto porqu?

-No se mexe - justifiquei. Ele deu uma gargalhada.

- Claro. e isto? -Me e filho.

-O que faz a criana?

- Alimenta-se do leite da me.
- Sim.

Depois de ter projectado mais uma srie de imagens, o Dr. cheryl acendeu a luz.

- Agora - disse, sentando-se na minha frente com um caderno na mo -, digo uma palavra e a Ruby responde imediatamente, sem pensar. Diz o que lhe vier primeiro ao 
pensamento, percebe? - Baixei os olhos. - Percebe? - respondi com um gesto afirmativo.

-No podemos ir ter com a daphne e acabar logo com isto?,

- Na devida altura - respondeu. - Lbios.
- Como?

- De que se lembra quando ouve a palavra "lbios"? De um beijo.

Mos.
- Trabalho.

Respondi a uma sucesso de palavras, e todas as minhas reaces foram anotadas. Por fim, ele recostou-se na cadeira e meneou a cabea.

-Posso ir agora para casa? - indaguei. Ele levantou-se, sorrindo.

- Temos mais alguns testes para fazer, ainda vamos ter de conversar mais. Mas no vai demorar muito tempo, prometo. Como colaborou, vou deix-la ir para a sala de 
recreio antes do almoo. V buscar algum livro para ler ou entretenha-se com qualquer outro trabalho, que em breve voltar a ser chamada, est bem?

- No, no est nada bem - respondi. - Quero telefonar ao meu pai. Posso ao menos fazer uma chamada?

- No permitimos que os nossos pacientes faam telefonemas.

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- Ento porque no lhe telefona o senhor? Se falar com o meu pai, vai ver que ele no quer que eu fique aqui internada.

- Lamento muito, Ruby, mas o seu pai concordou com a sua vinda - afirmou o Dr. Cheryl, retirando do dossier uma ficha. - V? Aqui est a assinatura do seu pai - 
continuou, apontando para a linha em que estava escrito o nome "Pierre Dumas".

- Ela forjou a assinatura, tenho a certeza - respondi de imediato -, e agora vai dizer ao meu pai que fugi. Por favor, telefone-lhe. Promete?

Ele levantou-se sem me dar uma resposta.

-Tem ainda algum tempo livre antes do almoo. Aproveite para conhecer as nossas instalaes e tente relaxar. Assim, quando nos voltarmos a encontrar, ser mais fcil 
- afirmou, abrindo a porta. O assistente continuava no corredor  minha espera. - Leve-a para a sala de recreio - ordenou-lhe o Dr. cheryl. O assistente fez um gesto 
afirmativo e ficou de olhos fitos em mim. Muito lentamente, levantei-me.

- Quando o meu pai descobrir o que a daphne fez e o que o senhor est a fazer comigo, vai ter um srio problema para resolver -- ameacei. Mas o Dr. cheryl no respondeu 
e no tive outra alternativa seno seguir o assistente at  sala de recreio.

- Ol, chamo-me Mistress Whidden - informou uma enfermeira com cerca de quarenta anos, que estava  porta da sala. - Bem-vinda. Estou aqui para ajud-la. Se quiser 
fazer algo em especial... um bordado, talvez?

--No - respondi.

- Bem, ento d uma volta pela sala e veja se h algo que lhe chame a ateno. Chame-me depois para a ajudar, est bem? - sugeriu. Sabendo no existir vantagem em 
estar constantemente a protestar, acedi e entrei na sala. Comecei por dar uma volta, observando os doentes. Havia uns que me fitavam com curiosidade, outros com 
um olhar raivoso e outros ainda que parecia no me verem. O rapaz ruivo em que eu reparara nessa manh continuava sentado sem fazer nada. Contudo, vi que ele me 
seguia com os olhos. Fui at  janela que ficava ao p dele e observei os campos, em busca da minha liberdade.

-Detestas estar aqui, no  ?- ouvi de repente e voltei-me. Parecia ter sido esse rapaz quem fizera a pergunta, mas ele continuava sentado e hirto, olhando em frente.

- Fizeste-me alguma pergunta? - inquiri. Ele no se mexeu, nem pronunciou uma palavra. Encolhi os ombros e continuei a ver a paisagem, mas ouvi de novo a mesma pergunta:
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-Detestas estar aqui, no  ?Virei-me.

- Como?

Imvel e sem se virar, ele falou outra vez.
- Sei que no gostas de estar aqui.

-  verdade. Fui raptada e trancaram-me num quarto antes de poder aperceber-me do que estava a passar-se - expliquei. A minha resposta animou-o o suficiente para, 
pelo menos, erguer uma sobrancelha. Voltou-se para mim devagar, apenas movimentando a cabea, e fitou-me com um olhar to frio e indiferente como o de um manequim.

- Ento e os teus pais? - perguntou.

- O meu pai ainda no sabe o que a minha madrasta fez, tenho a certeza - respondi,

-Qual  a acusao?
- Desculpa?

-Qual  a razo por que te mandaram para aqui? J sabes... o teu problema?

- Preferia no responder. Tenho vergonha e  demasiado ridculo.

- Parania? Esquizofrenia? Ou sers manaco-depressiva? Estou quase a adivinhar, no?

--No. e tu, porque ests aqui? - quis saber.

-- Imobilidade - declarou ele. - No sou capaz de tomar decises, de lidar com as minhas responsabilidades. Quando sou confrontado com algum problema, fico simplesmente 
imvel. Nem aqui consigo decidir o que quero fazer -- acrescentou, casualmente. -- Por isso, deixo-me ficar sentado e espero que chegue a hora de ir almoar.

- e porque s assim? - perguntei. - Quer dizer, aparentemente tens conscincia do que se passa contigo.

- Insegurana - afirmou, sorrindo. - A minha me no me queria, se calhar como a tua madrasta. No oitavo ms de gravidez, tentou abortar, mas eu no morri, apenas 
acabei por nascer prematuro. Desde essa altura, vim sempre a piorar: sofri de parania, autismo e incapacidade de aprendizagem - recitou, secamente.

--No pareces ser incapaz de aprender - comentei. -No consigo funcionar num ambiente escolar normal. No respondo s perguntas, no levanto a cabea e ,quando me 
do um teste, fico s a olhar para o papel. Mas sei ler - acrescentou. -  s isso que sei fazer.  seguro... -- Levantou os olhos na minha direco. - Ento, porque 
foi que te internaram? No tenhas medo de me contar, no vou repetir a nin-

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gum. Mas, se no consegues confiar em mim, eu entendo acrescentou rapidamente.

Deixei escapar um suspiro.

-Fui acusada de ter uma vida sexual muito libertina expliquei.

-Ninfomania. ptimo Ainda no tnhamos ningum assim.

No pude deixar de me rir.

-e ainda no tm - afirmei. -  tudo mentira. -No faz mal, esta casa vive de mentiras. Os doentes mentem uns aos outros, mentem a eles mesmos e aos mdicos, e os 
mdicos tambm mentem porque dizem que podem ajudar-nos, quando no podem. Tudo o que podem fazer  cuidar de ns - concluiu, amargamente. Em seguida, levantou de 
novo os olhos cor de ferrugem. - Podes dizer-me o teu nome verdadeiro, ou, se quiseres, podes mentir.

- Chamo-me Ruby, Ruby Dumas. J sei que o teu primeiro nome  Lyle, mas no me lembro do teu apelido.

- Black. Como o fundo de um poo vazio... Dumas - repetiu. - Dumas... H aqui mais algum com esse nome.

- O meu tio - respondi. - Jean. Foi para lhe fazer uma visita que concordei em vir aqui.

- Ah... Ento s a sobrinha do Jean?
- Sou, mas nunca o vi.

- Gosto muito do Jean.

- Ele costuma conversar contigo? Como  que ele  ?e como  que est? - perguntei apressadamente.

- Ele nunca conversa com ningum, o que no significa que no o possa fazer, porque sei que pode. O Jean  sempre... muito calado, mas  to obediente como um menino 
pequeno e ,s vezes, fica tambm muito assustado. Comea a chorar sem nenhuma razo, mas eu sei que ele deve pensar em alguma coisa que o faz chorar. J o apanhei 
a rir sozinho. Mas no diz nada a ningum, muito menos aos mdicos e enfermeiros.

- Se o pudesse ver.. seria a nica coisa boa de tudo isto desabafei.

- Vais puder v-lo, sim. Ele costuma estar no refeitrio,  hora de almoo.

- Mas no o conheo - afirmei. - Importas-te de mo indicar?

- No vai ser difcil.  o homem mais bem vestido e mais bonito da clnica. Que tal, h, Ruby? - comentou, franzindo em seguida as sobrancelhas como se tivesse acabado 
de dizer algo terrvel.

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-Obrigada - agradeci, olhando em meu redor. - No sei o que fazer agora. Tenho de sair daqui, mas isto  pior que uma priso: as portas s abrem com toques de campainha, 
as janelas so gradeadas e h assistentes em toda a parte...

- oh!, mas eu posso ajudar-te a sair - afirmou ele, despreocupadamente. - Se for mesmo essa a tua vontade.

- Podes, Como?

- H uma sala que no tem grades na janela: a lavandaria, onde esto as mquinas de lavar roupa.

-A srio? e como  que se vai at l?

- Eu mostro-te... mais tarde. Depois do almoo, se quisermos, eles deixam-nos ir passear l fora, e no terrao h uma entrada para essa sala.

O meu corao estremeceu de esperana. -Como  que sabes tudo isso?

- Sei tudo o que se passa aqui - respondeu.

- Sabes? H quanto tempo ests aqui? - perguntei-lhe.
- Desde os sete anos - respondeu. - H dez anos.

- Dez anos! e nunca tiveste vontade de fugir? - indaguei. Ele olhou em frente durante uns segundos e depois deixou cair uma lgrima, que rolou pelo seu rosto.

- No - respondeu, voltando-se para mim com os olhos mais tristes que alguma vez vira. - Este  o meu lugar. J te expliquei que no consigo tomar uma deciso. Prometi 
ajudar-te, mas depois, quando chegar a altura, no sei se conseguirei faz-lo. - Olhou em frente. - No sei se consigo.

, A minha disposio perdeu toda a leveza quando compreendi que ele poderia estar a fazer o mesmo que garantira antes que todos ali faziam: mentir.

Soou ento o toque de uma campainha e Mrs. Whidden anunciou que era hora de almoar. Voltei a ficar mais animada. Pelo menos agora iria finalmente poder conhecer 
o tio Jean; a no ser,  claro, que a sua existncia fosse tambm uma mentira.

NOVAMENTE TRADA

Contudo, no era mentira e nem foi preciso que me indicassem o tio Jean. No tinha mudado muito em relao  imagem de rapaz que eu conhecia das fotografias e era, 
tal como Lyle

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afirmara, o homem mais bem vestido do refeitrio. Trazia um blazer desportivo azul-claro listado, com calas largas a condizer, camisa branca e gravata azul, e uns 
sapatos desportivos impecavelmente brancos. O cabelo castanho-claro estava cuidadosamente penteado e puxado para trs de ambos os lados e via-se bem que ainda mantinha 
a boa figura. Parecia autenticamente algum que estava de frias e tinha ido ali visitar algum parente doente. Comeu mecanicamente e olhou em volta, observando o 
refeitrio sem nenhum interesse.

- Ali est ele - afirmou Lyle, apontando na direco do tio Jean.

- J reparei. - Senti dentro do peito o corao comear a pulsar com um ritmo mais acelerado.

- Como vs, apesar do problema que tem, seja l qual for comentou Lyle, secamente -, ele continua muito preocupado com a aparncia. Devias ver o quarto dele, como 
est arrumado. No princpio, ainda julguei que o Jean era paranico com a limpeza: se tocares em qualquer objecto do quarto dele, ele pega-lhe logo a seguir para 
ver se no o sujaste ou se o mudaste um centmetro do lugar.

- Sou praticamente o nico que ele deixa entrar no seu quarto - declarou lyle com orgulho. - Mas no conversa comigo, porque o Jean no fala com ningum. Pelo menos, 
a mim, tolera-me. Se se sentar algum na mesa dele, o Jean fica logo irritado.

-O que  que ele costuma fazer? - perguntei. -Pode comear a bater com a colher no prato ou ento grita muito alto at vir um dos assistentes e mud-lo a ele ou 
 outra pessoa de lugar - explicou lyle.

- Se calhar,  melhor no me aproximar - comentei, receosa.

- Talvez, ou talvez no. No me peas para decidir por ti, mas, se quiseres, posso ao menos dizer-lhe quem tu s.

- Talvez ele me reconhea - afirmei. -Julgava que o Jean no te conhecia...

Mas conhece a minha irm gmea e vai pensar que sou eu. Tens uma irm gmea? A srio? Que engraado! - exclamou lyle.

- Se querem comer,  melhor irem para a fila - avisou um dos assistentes.

-No sei se quero comer - murmurou lyle.

- Bem, lyle - comeou o assistente -, sabes que no tens o dia todo para tomar essa deciso.

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-Tenho fome - exclamei, para o ajudar a avanar. Fui at  pilha de tabuleiros, retirei um, e em seguida posicionei-me na fila, verificando que lyle continuava ainda 
atrs a pensar. Por fim, a minha atitude acabou por convenc-lo e ele veio ter comigo.

- Por favor, escolhe o mesmo para mim - pediu. -e se no gostares daquilo que eu escolher?

-J no sei do que gosto, tem tudo o mesmo sabor afirmou.

Escolhi o guisado e ,para sobremesa, trouxe duas taas de gelatina. Depois ficmos a ver onde poderamos sentar-nos e olhei para a mesa do tio Jean, sem saber se 
deveria aproximar-me ou no.

-- Vai - afirmou lyle. -- Sento-me onde tu quiseres. Com os olhos colados nele, dirigi-me  sua mesa. O tio Jean continuou a comer mecanicamente e a olhar para a 
esquerda e para a direita, combinando cada olhar com uma nova garfada. No reparou na minha presena at estar j muito perto dele. Ento, os seus olhos deixaram 
de deambular pela sala e parou igualmente de comer, com o garfo estendido a meio caminho da boca. lentamente, analisou as minhas feies; no sorriu, mas reparei 
que ele me reconhecera como sendo a Gisselle.

-- Ol, tio Jean - cumprimentei, trmula. - Importa-se que me sente ao seu lado?

No respondeu.

-Diz-lhe quem s - sussurrou lyle.

- Chamo-me Ruby, no sou a Gisselle. Sou a irm gmea da Gisselle, algum que o tio nunca conheceu.

Ele pestanejou muito rapidamente e levou o garfo at  boca.

-O Jean ficou interessado ou, pelo menos, est a achar graa - explicou lyle em voz baixa.

-Como  que sabes?

- Porque, se no estivesse interessado, tinha comeado a bater com o garfo no prato ou ento tinha gritado - justificou ele. Com a sensao de um cego a ser guiado 
por outro cego, inclinei-me sobre a mesa e pousei devagar o tabuleiro. Esperei ainda uns segundos, mas o tio Jean continuava a comer, com os olhos azuis fitos em 
mim. Resolvi ento sentar-me.

- Ol, Jean -- cumprimentou lyle. - Hoje os nativos esto um pouco mais calmos, no te parece? - gracejou, sentando-se ao lado dele. O tio Jean pousou nele os olhos, 
mas continuou calado, voltando em seguida a concentrar-se em mim.

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- verdade, sou a irm gmea da Gisselle, tio Jean. Os meus pais contaram a todos que tinha sido raptada ao nascer e que s recentemente tinha conseguido voltar.

- Isso  verdade? - quis saber Lyle, perplexo.

- No. Mas foi a histria que eles resolveram contar a toda gente - respondi. lyle comeou entretanto a comer.

- Porqu?

- Para encobrir a verdade - afirmei, voltando-me             mais uma vez para o tio Jean, que piscou de novo os olhos, muito depressa. - O meu pai, o seu irmo, 
conheceu a minha me no bayou, apaixonaram-se e ela engravidou. Mais tarde, convenceram-na a entregar o filho, s que ningum ainda sabia que eram gmeos. No dia 
em que eu e a Gisselle nascemos, a minha grandmre Catherine escondeu-me, enquanto o grandpre Jack entregava o primeiro beb, a Gisselle,  sua famlia que estava 
 espera dentro da limusina.

- Grande histria! - exclamou Lyle, com um sorriso irnico. ,

-  tudo verdade! - retorqui, dirigindo-me depois ao tio Jean. - A daphne, a mulher do paizinho, no gosta de mim. Desde que cheguei que tem sido muito m para mim. 
Disse-me que vnhamos aqui para lhe fazer uma visita, mas secretamente planeou com o doutor cheryl deixarem-me aqui internada para me examinarem. Ela est a fazer 
todos os possveis para se ver livre de mim, e

- Aaaa... - gritou o tio Jean. Parei de falar, com o corao aos saltos dentro do peito. Iria ele comear a gritar e a bater com os talheres no prato?

- Devagar - aconselhou        lyle. - Ests a ir depressa de mais para ele.

- Desculpe, tio Jean - murmurei ento. - Mas queria muito conhec-lo e dizer-lhe que o paizinho sofre muito por o tio estar aqui. A angstia dele  tanta que o pai 
vai muitas vezes ao quarto que era seu s para chorar de desgosto. Ultimamente, tem andado to deprimido que nem pde vir visit-lo no dia do seu aniversrio.

- Qual aniversrio? Hoje ningum faz anos! - afirmou lyle. - Sempre que  o dia do aniversrio de algum, h sempre uma grande festa aqui. e o aniversrio do Jean 
 s daqui a um ms.

- No me espanta. A daphne mentiu-me para me convencer a acompanh-la at aqui. Mas eu teria vindo de qualquer forma, tio Jean - afirmei, voltada para ele. - Queria 
tanto v-lo!

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- Comea a comer - aconselhou de novo lyle. - Faz de conta que  um dia como os outros.

Segui o conselho e ,de facto, o tio Jean comeou a ficar mais descontrado. Levantou o brao e fez teno de levar o garfo at  boca, mas continuou parado a olhar 
para mim, em vez de continuar a comer. Sorri para ele.

-  Vivi toda a vida com a grandmre Catherine - contei-lhe. - A minha me morreu logo a seguir a eu ter nascido. S h muito pouco tempo  que soube quem era o meu 
pai e prometi  grandmre Catherine que iria ao seu encontro quando ela morresse.

"Nem imagina como todos ficaram espantados quando me viram! - comentei.

O tio Jean esboou um sorriso.

-Fantstico! - exclamou lyle. - Ele gosta de ti.
- Gosta?...

- Tenho a certeza. Continua a conversar - ordenou num sussurro.

- Tentei adaptar-me, tentei aprender a ser uma rapariga crioula educada, mas a Gisselle comeou a ter muitos cimes de mim, porque pensa que lhe roubei o namorado, 
e fez vrios planos contra mim.

- e tem razo? - perguntou lyle. '-Sobre qu?

-Roubaste-lhe o namorado?

- No. Pelo menos, no planeei nem facilitei nada - respondi.

- Mas ele gostou mais de ti do que dela? - perseguiu lyle.

-Por culpa dela. No entendo como algum pode gostar dela. A Gisselle mente muito e gosta de ver as pessoas a sofrer. Engana todos, at mesmo a si prpria.

- Pelos vistos, a tua irm  que devia ficar aqui - concluiu lyle.

Voltei-me de novo para o tio Jean.

-A Gisselle no descansava at me arranjar mais problemas - continuei.

O tio Jean contorceu o rosto.

-A daphne ficou sempre do lado dela e o paizinho... o paizinho tem demasiados problemas.

O tio Jean continuou a contorcer o rosto com maior intensidade e de repente comeou a ficar zangado. Levantou o lbio superior e cerrou os dentes.

-Mau, mau - exclamou lyle. -  melhor parares, ele est a ficar aborrecido.

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- No, ele tem de saber a verdade. - Voltei a encar-lo.
- Fui ter com uma rainha vodu para lhe pedir ajuda. Ela concentrou-se na Gisselle e ,pouco tempo depois, a minha irm sofreu um grave acidente de carro, com um amigo. 
Ele morreu, tio Jean, e a minha irm ficou paraltica para sempre... Sinto-me culpada, e o paizinho... o paizinho ficou de rastos.

A fria de Jean atenuou-se.

-- Gostava que falasse comigo, tio Jean. Gostava de poder levar ao pai um recado seu, quando eu sair daqui.

Fiquei  espera, mas ele limitou-se a fixar os olhos em mim.

-No fiques triste. J te tinha dito, ele no fala com ningum, s...

- Sim, mas gostava que o meu pai acreditasse que estive com o tio Jean - insisti. - Queria que...

-O que est ele a tentar dizer?
- No sei - respondeu lyle.
- Ji-b-b-jib-jib...

-Jib? O que significa isso? lyle ps-se a pensar.

- Jib? Jib! - repetiu, com um brilho nos olhos -  um termo de navegao.  isso, no  ,Jean>

- Jib -- exclamou o tio Jean, meneando a cabea. - Jib.
- Depois fez uma careta como se sofresse uma enorme dor, encostou as costas  cadeira, levou as mos  cabea e gritou:
- Jib!

- oh!' no!

- Ento, Jean? - exclamou o assistente que estava mais perto da nossa mesa, aproximando-se imediatamente.

- Jib! Jib!

Veio mais um assistente e ainda mais outro e todos ajudaram o tio Jean a levantar-se.  nossa volta, os doentes comearam a ficar enervados. Alguns gritavam, outros 
riam e uma rapariga nova, talvez cinco ou seis anos mais velha que eu, desatou a chorar.

O tio Jean ofereceu bastante resistncia aos assistentes e depois voltou a fixar o olhar em mim. Tinha saliva a escorrer dos cantos da boca, devido ao esforo de 
repetir: "Jib, Jib!" Por fim, conduziram-no para fora.

Apareceram logo enfermeiras e mais assistentes para ajudar os doentes a acalmar-se.

- No te culpes - afirmou lyle -, estas coisas acontecem muitas vezes aqui.

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lyle continuou a comer, mas eu no conseguia engolir mais nada. Sentia-me indisposta, vazia e derrotada. Tinha de sair daquele stio, tinha de sair dali!

- O que se passa agora? - perguntei a lyle. - O que lhe vo fazer?

- Levam-no para o quarto e normalmente o Jean fica logo mais calmo.

-e o que  que costumam fazer depois do almoo?

--- Levam-nos l fora para passear um pouco, mas h cercas em toda a volta, portanto no julgues que podes sair a correr.
- Ensinas-me a sair daqui, Lyle, ensinas? Por favor... implorei.

- No sei. Sim - respondeu para logo a seguir acrescentar: - No sei, pra de me fazer perguntas.

- Est bem, Lyle, eu paro - respondi de imediato. Ele ficou mais calmo e comeu a sobremesa.

Tal como lyle afirmara, mal terminou a hora de almoo, veio uma srie de assistentes para conduzir os doentes para o jardim. Quando ia a caminho, ao lado de Lyle, 
a enfermeira-chefe, Mrs. McDonald, aproximou-se de ns,

- O doutor Cheryl vai observar-te de novo ainda esta tarde, mais logo - informou. - Quando chegar a hora, vou buscar-te. como tem sido o teu dia? J fizeste alguns 
amigos? perguntou, lanando um olhar a Lyle, que vinha um ou dois passos atrs. No respondi. - Ol, Lyle. Como ests hoje?
- No sei - respondeu ele rapidamente.

Mrs. McDonald dedicou-me um sorriso e foi falar com outros doentes.

O jardim da parte de trs no era muito diferente do ptio e dos recantos da entrada. Tinha tambm pequenos trilhos e bancos, fontes, canteiros com magnlias em 
flor e sombras fornecidas pelos enormes carvalhos. Havia um lago com peixes e com sapos, tambm. Era evidente que os campos eram bem mantidos, pois os canteiros 
ornamentados com pedras, os diversos tipos de flores e os bancos polidos resplandeciam  luz do Sol,

-  um lindo jardim - admiti com relutncia perante lyle.

- Tem obrigao de ser muito bem cuidado. Todos os doentes vieram de famlias ricas e no  do interesse deles deixar de receber tanto dinheiro. Se visses como isto 
fica quando eles organizam festas para os familiares dos doentes. Tudo muito limpo e arrumado, no se v uma erva daninha, um gro de p ou uma cara sem um sorriso 
- afirmou, com uma careta de desagrado.

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- s muito crtico em relao a eles, Lyle, mas, mesmo assim, queres continuar aqui. Porque no comeas a pensar em reiniciar uma nova vida l fora? s muito mais 
inteligente do que a maioria dos rapazes que conheo - afirmei. lyle empalideceu, mas desviou rapidamente os olhos.

- Ainda no estou preparado - respondeu. - Mas, s por este pouco tempo que passei contigo, sei muito bem que este lugar no  para ti.

-Tenho mais uma hora marcada com o doutor cheryl e sei que ele vai arranjar uma forma de me manter aqui internada, tenho a certeza - gemi. - A daphne d-lhes muito 
dinheiro, eles no podem deixar de fazer a vontade dela... - Coloquei os braos em redor do peito e continuei de olhos postos no cho.  nossa volta e atrs de ns, 
os assistentes observavam-nos.

-Pede-lhes para ir  casa de banho - disse subitamente lyle. - Fica  direita da porta de entrada das traseiras, eles no te vo incomodar.  esquerda da casa de 
banho h uma escada pequena que d para a cave. A segunda porta  direita  a lavandaria. Hoje j acabaram de pr a roupa a lavar, eles fazem sempre isso de manh, 
por isso agora no est l ningum. -Tens a certeza?

- J te expliquei que estou aqui h dez anos. Conheo os relgios que adiantam e os que atrasam, as portas que rangem e as janelas que no tm grades - acrescentou.

- Obrigada, lyle.

Ele encolheu os ombros.

- Ainda no fiz nada - respondeu, como se desejasse convencer-se a si prprio, mais do que a mim, que ainda no tinha tomado uma deciso.

- Deste-me esperana, Lyle, e isso j  fazer muito. Sorri-lhe e ele ficou a fitar-me durante alguns instantes, com os olhos cor de ferrugem a piscar. Depois voltou-se 
e afirmou: -Vai l, faz como te expliquei.

Fui ter com uma assistente e pedi-lhe para ir  casa de banho.

- Vou mostrar-te onde fica - respondeu, voltada para a porta.

-No  preciso, obrigada, j sei onde fica - respondi apressadamente. Ela encolheu os ombros e afastou-se. Fiz exactamente o que lyle dissera e desci a correr os 
degraus. A sala da lavandaria era grande, tinha o cho e as paredes em cimento, e uma fila de mquinas de lavar, de secar e de tulhas. Voltadas para as traseiras 
ficavam as janelas que lyle descrevera, mas no estavam abertas.

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- Depressa - ouvi-o dizer ao entrar atrs de mim. Corremos ambos para as traseiras. - Vira o fecho do meio e desliza a janela para o lado esquerdo - sussurrou. - 
No esto trancadas.

- Como  que sabes, Lyle? - perguntei, desconfiada. Ele baixou os olhos, mas depressa voltou a fitar-me.

- J estive aqui vrias vezes antes. At j cheguei ao ponto de pr um p no cho, mas depois... ainda no estou preparado - concluiu.

- Espero que dentro em breve o estejas, lyle.

- Eu ajudo-te a subir. Vamos, antes que dem pela nossa falta - afirmou, entrelaando os dedos de forma a que eu pudesse colocar um p.

- Gostava que viesses comigo, lyle - disse, enquanto pousava o p nas mos dele. Ele ergueu as mos e eu agarrei-me ao parapeito para continuar segura. Conforme 
a descrio de Lyle, o fecho cedeu facilmente e pude ento deslizar a janela para a esquerda. Olhei ainda para baixo, na direco de lyle.
- Despacha-te - murmurou.

- Obrigada, lyle. Sei que no foi fcil ajudares-me a fazer isto.

-No, no foi - confessou. - Mas queria ajudar-te. Despacha-te!

Comecei a descer a janela olhando em volta para ter a certeza de que no havia ninguem por perto. No outro lado do relvado via-se um pequeno aglomerado de rvores 
e atrs ficava a auto-estrada. Quando estava j no cho, voltei-me e olhei de novo pra lyle.

- Sabes como sair daqui? - perguntou-me ele. -No, s sei que tenho de fugir.

- Vai em direco a sul. Encontrars uma paragem de autocarros que vo para Nova Orlees. Toma - afirmou, retirando dos bolsos das calas uma mo cheia de dinheiro. 
- Aqui no me faz falta.

Entregou-me as notas.
- Obrigada, lyle.

- Tem cuidado e no levantes suspeitas. Sorri s pessoas, como se estivesses apenas a dar um passeio - aconselhou, repetindo tudo aquilo que eu calculava que lyle 
afirmara a si prprio uma srie de vezes antes, mas em vo.

- Eu volto para te vir visitar, Lyle, prometo. A no ser que saias antes daqui. Mas se decidires sair, telefona-me.

- Desde os seis anos que no uso um telefone - admitiu. Olhando para baixo e vendo-o parado ao p da janela, senti
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uma enorme pena de lyle. Parecia mais pequeno e mais s, prisoneiro das suas prprias inseguranas. - Mas - acrescentou, sorrindo -, se eu resolver sair, telefono-te.

-Que bom.

- Vai andando... depressa - aconselhou. -       Lembra-te de agir com naturalidade.

lyle voltou-me as costas e desapareceu. Levantei-me, respirei fundo e comecei a afastar-me do edifcio. Quando me encontrava ainda a muito pouca distncia, olhei 
para trs e vi que estava algum a olhar por uma janela do terceiro andar. Uma nuvem tapou por alguns instantes o Sol e a sombra permitiu que eu visse atravs do 
reflexo do vidro.

Era o tio Jean!

Ele olhou para mim e levantou a mo       muito devagar. Detectei facilmente um sorriso no seu rosto. Acenei-lhe e corri ento o mais depressa que pude em direco 
s rvores e s parei quando a cheguei. O edifcio e os campos que haviam ficado atrs de mim continuavam sossegados. No ouvi nenhum grito, nem vi ningum a correr 
 minha procura. Tinha conseguido fugir, graas a lyle. Voltei a olhar para a janela do quarto do tio Jean, mas desta vez j no o consegui ver. Voltei ento as 
costas ao edifcio e caminhei atravs das rvores, at chegar  auto-estrada.

Segui na direco sul, tal como lyle aconselhara, e cheguei pouco depois  paragem, que era uma pequena estao com postos de gasolina. Havia uma loja onde se vendiam 
bolos, gelados e refrescos. Felizmente, tinha de esperar apenas vinte minutos pelo prximo autocarro para Nova Orlees. Comprei o bilhete  rapariga que estava atrs 
do guich e esperei dentro da loja, folheando revistas. Passado alguns minutos, decidi comprar uma, apenas com a inteno de no me verem do exterior, no caso de 
terem dado pela minha falta na clnica e de ter vindo algum  minha procura.

Suspirei de alvio quando o autocarro chegou na hora marcada, Entrei apressadamente, mas, seguindo o conselho de Lyle, tentei parecer o mais calma e o mais inocente 
possvel. Sentei-me no lugar indicado, li a revista e ,logo depois, o autocarro seguiu para Nova Orlees. Passmos pela entrada principal da clnica, mas s quando 
ultrapassmos o edficio  que deixei escapar um outro suspiro de alvio. Sentia-me to feliz por estar livre, que no consegui deter as lgrimas. Temendo que algum 
reparasse, enxuguei-as rapidamente e fechei os olhos, mas de sbito veio-me ao pensamento os murmrios do tio Jean: "Jib... Jib ... "

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O ritmo dos pneus pisando a auto-estrada repetiu a mesma cantlena: "Jib... Jib. .. Jib. "

"0 que estaria ele a tentar dizer-me?", pensei.

Quando avistei os primeiros edifcios de Nova Orlees, cheguei a pensar em no regressar para casa, mas sim para o bayou. No estava propriamente desejosa de receber 
as boas-vindas de daphne, mas a herana do orgulho cajun que a grandmre Catherine me havia deixado falou mais alto e decidi ficar, aprumando-me no assento, mais 
determinada do que antes, Afinal, o meu pai amava-me. Eu era uma Dumas        e o meu lugar era junto dele. daphne no tinha o direito de agir daquela forma comigo.

Dado o tempo que demorei a apanhar um outro autocarro no centro da cidade e depois um elctrico, tinha a certeza de que o Dr. cheryl j teria telefonado a daphne 
para lhe comunicar o meu desaparecimento. A minha suspeita ficou confirmada, mal Edgar me abriu a porta e pude ver a sua expresso.

- Madame Dumas est  sua espera - afirmou, com. os olhos em alvo, indicando haver algo que corria mal. -- Na sala de estar.

- Onde est o meu pai, Edgar? -- perguntei.

Ele abanou primeiro a cabea e depois respondeu num tom mais suave:

- Est no andar de cima, mademoiselle.

-Informe Madame Dumas que subi para ir falar primeiro com,' o meu pai - ordenei. Edgar abriu os olhos, surpreendido com a minha insubordinao.

- No, no vais -- gritou daphne da porta da sala, mal Pus um p no trio de entrada. - Primeiro, vens imediatamente aqui falar comigo. - daphne continuou  porta 
de brao estendido, apontando para a sala. A sua voz era fria e dominadora. Edgar afastou-se rapidamente e retirou-se pela porta que o levaria a atravessar a sala 
de jantar em direco  cozinha, onde decerto iria relatar a Nina o que estava a passar-se.

Avancei uns passos na direco de daphne, que mantinha o brao estendido e o dedo apontado para o interior da sala.
- Como se atreve a dizer-me o que posso ou no posso fazer depois da forma como agiu comigo? - comecei, avanando devagar na sua direco, com a cabea erguida.

- Fiz o que achei ser necessrio para proteger esta famlia
-   respondeu friamente, baixando devagar o brao,

- No, no fez. Fez o que achou ser necessrio para se ver livre de mim, para me afastar do meu pai - acusei, desafiando
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o seu olhar furibundo com a raiva que os meus olhos disparavam. daphne vacilou um pouco com o peso da minha acusao e desviou o olhar. - A daphne tem cimes meus... 
Desde que cheguei que sente cimes. Odeia-me, porque eu lhe fao lembrar que o meu pai aMOu mais outra pessoa.

- Isso  ridculo!  apenas mais uma tpica ideia cajun...
- Pare! - gritei. - Pare de se referir dessa forma aos Cajuns. A daphne sabe a verdade, sabe que no fui raptada nem vendida a nenhuma famlia cajun, por isso no 
tem direito de se achar superior. Conheo muito poucos cajuns capazes de agir com a maldade e a falsidade com que a daphne me tratou!

- Como te atreves a gritar assim comigo? - exclamou daphne, tentando recuperar o seu porte altivo, apesar dos lbios trmulos e da postura pouco firme. - Que atrevimento!

- Como se atreveu a deixar-me naquela clnica? - retorqui. - O meu pai vai saber o que se passou, vai saber a verdade e depois...

daphne sorriu.

- Pateta!... Sobe e vai ter com o teu pai. Vai... e v o lindo estado em que se encontra o teu salvador, sentado no quarto que transformou em santurio do irmo 
a soluar como uma criancinha! Para te dizer a verdade, estou a pensar em intern-lo tambm em breve, no posso continuar a viver assim.

Avanou ento na minha direco com renovada segurana. -Quem  que julgas que tem orientado a nossa vida? Quem  que pensas que torna tudo isto possvel? O teu 
fraco pai? No! O que achas que acontece quando ele entra em depresso? Julgas que as empresas Dumas ficam calmamente  espera que melhore?

"No - gritava, batendo com o polegar no peito com tanta fora que me fazia estremecer. - Cabe-me sempre a mim remediar a situao. H anos que sou eu quem tem de 
conduzir as empresas! Pudera... O Pierre nem sabe quanto dinheiro temos ou onde est aplicado!

-No acredito - afirmei, mas j no to confiante como estivera de incio. daphne soltou uma gargalhada.

- Acredita naquilo que quiseres, -me indiferente. - e recuando uns passos: - Vai ter com ele e conta-lhe todas as maldades que te tentei fazer - sugeriu, avanando 
de novo para mim e fechando as plpebras at os seus olhos ficarem apenas duas ameaadoras fendas -, que depois encarrego-me de contar a todos quantos quiserem ouvir 
como quase causaste uma ruptura familiar com a tua conduta destrutiva. Obrigo o rapaz dos Andreas a confessar os jogos sexuais que resolveste fazer
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no atelier e peo  Gisselle que testemunhe a tua amizade com a prostituta de Storyville!

daphne abriu ento muito os olhos e cravou-os nos meus, antes de continuar.

- Ser muito fcil convencer a maioria das pessoas que viveste a tua adolescncia no bayou como prostituta. Por aquilo que sei a teu respeito, nem est longe da 
verdade.

- Isso  uma mentira infame, uma acusao nojenta! protestei, mas sem conseguir diminuir a fria da minha madrasta. O seu rosto, o perfil de alabastro iluminado 
pelos lindos olhos azuis cravados em mim, transformou-se no rosto frio de uma esttua.

- Ser? - daphne esboou de novo um sorriso leve e to comprimido que deu aos seus lbios a espessura de duas linhas finas. - J tenho em meu poder as concluses 
iniciais do doutor Cheryl: ele considera que ests completamente obcecada por sexo e ,se eu quiser, ele ofereceu-se para testemunhar a esse respeito. e agora conseguiste 
fugir da clnica, causando-nos ainda maior embarao!

Abanei a cabea, mas no havia como negar a perniciosa determinao de daphne em abafar os meus protestos. -Vou falar com o paizinho - comuniquei, com a voz

transformada num sussurro -, e vou contar-lhe tudo.

i, - Vai! - Inclinou-se e ,agarrando-me pelos ombros, obrigou-me a voltar para a direco das escadas. - Podes ir, sua cajun idiota! Vai contar ao paizinho! - daphne 
empurrou-me para as escadas e ,lanando-lhe ainda um olhar furibundo, comecei a subir os degraus, com as lgrimas a saltar dos olhos.

Quando cheguei ao andar de cima, verifiquei que a porta do quarto do tio Jean estava trancada, mas sabia que tinha de conseguir falar com o meu pai, tinha que conseguir 
convenc-lo a deixar-me entrar. Fu-me aproximando devagar e depois colei o rosto molhado  porta e continuei a chorar, soluando.

- Paizinho, por favor... por favor, abra a porta e deixe-me entrar. Por favor, deixe-me falar consigo e contar-lhe o que a daphne me fez. Estive com o tio Jean, 
paizinho, estive com o seu irmo... Por favor - implorei, continuando a chorar. Por fim, quando cheguei  concluso que no tinha conseguido convenc-lo, deixei-me 
cair no cho com a cabea tombada sobre os braos, soluando tanto que at os ombros estremeciam. Depois de tudo quanto me haviam feito e aps todo o esforo que 
fizera por regressar, continuava a ser rejeitada; a vitria era sempre de Daphne. Levantei a cabea para poder respirar e depois deixei-a cair contra a porta. Fiquei 
ali prostrada at finalmente a porta se abrir e deparar com o meu pai.

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Tinha os olhos vermelhos e o cabelo despenteado, a camisa por fora das calas e o n da gravata desapertado. Dava a impresso que tinha dormido com aquelas roupas 
e tinha a barba ainda por fazer.

Levantei-me com esforo e limpei rapidamente as lgrimas.
- Paizinho, preciso de conversar consigo - repeti. Ele lanou-me o mais desesperado olhar, deixou descair os ombros e recuou para me dar passagem.

As velas que rodeavam as fotografias do tio Jean estavam j quase todas ardidas; por isso, havia muito pouca luz no quarto. O pai sentou-se numa cadeira ao lado 
das fotografias, com o rosto oculto pelas sombras.

- O que se passa, Ruby? - perguntou, como se necessitasse de empregar toda a sua fora de vontade apenas para pronunciar aquelas breves palavras. corri para ele 
e procurei a sua mo, caindo de joelhos a seus ps.

- Paizinho, ela levou-me esta manh  clnica para ir visitar o tio Jean, mas, quando chegmos, j tinham ordens para me internar. Ela queria que eu ficasse l fechada. 
Foi horrvel, mas consegui fugir com a ajuda de um rapaz novo muito simptico.

Levantando a cabea, o pai fixou-me com o seu olhar triste a revelar apenas um pouco de espanto. Abanou ento a cabea, completamente aturdido, com lgrimas ainda 
a brotar dos olhos inchados.

-Quem  que fez isso?

- A Daphne - respondi. - A Daphne. -A Daphne?

- Mas consegui ver o tio Jean, paizinho. Almocei com ele e estivemos a conversar.

- Sim? - Notei que o interesse dele aumentava. - Como  que ele est?

-Est com ptimo aspecto - afirmei, limpando as faces molhadas com as mos -, mas tem medo das pessoas e no conversa com ningum.

O meu pai acenou com a cabea e baixou os olhos.

- Mas ainda consegui que ele falasse comigo, paizinho. -Conseguiste? - repetiu, novamente interessado.

- Sim. Ped-lhe para me dizer qualquer coisa que eu pudesse repetir ao paizinho e ele disse: ".Jib." O que significa essa palavra, pai?

- Jib? Foi o que ele disse?

Confirmei, mas tinha de lhe contar o resto.

-- Depois, comeou a gritar e a levar as mos  cabea. Tiveram de o levar de volta para o quarto.

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-Pobre Jean - afirmou o pai -, meu pobre irmo... O que lhe fiz eu? - indagou, numa voz pesada e sem entoao. A chama de uma das velas apagou-se e uma sombra veio 
escurecer ainda mais o seu olhar.

- Porqu, paizinho? Porque disse o tio Jean aquela palavra? O tal rapaz que me ajudou a fugir disse que era um termo de navegao...  verdade?

- Sim - confirmou ele, endireitando as costas e conservando o olhar distante, como se observasse uma cena passada. Comeou ento a falar como se estivesse em transe: 
- Estava um dia lindo quando samos. Eu no tinha muita vontade de ir, mas o Jean insistiu, sempre a brincar comigo por no gostar de desporto.

"- Ests branco como a cal - costumava ele dizer. No admira que a Daphne goste mais de estar comigo. Vamos, tens de apanhar ar. Tens de exercitar os msculos!

"Finalmente, acabei por ceder e acompanhei-o at ao lago, mas entretanto o tempo tinha comeado a mudar e havia nuvens negras na linha do horizonte. Ainda o avisei, 
mas o Jean apenas riu e disse que eu estava s a inventar outra desculpa. Samos para velejar. Mas eu no sabia to pouco sobre vela como fazia crer e no gostava 
que o meu irmo mais novo me desse ordens como se d a um escravo de gal.
Nesse dia, o Jean estava especialmente arrogante. Como detestava a sua autoconfiana! Porque no podia ele ter algumas inseguranas, tal como eu tinha? Porque se 
mostraria sempre to seguro na presena de mulheres, principalmente da Daphne?

"As nuvens foram-se aproximando, cada vez maiores e mais negras e depois levantou-se um forte vento. O nosso barco  vela era levantado pelas ondas e caa depois 
sem defesa. O mar estava cada vez mais bravo, mas, todas as vezes que pedi a Jean para voltar para trs, ele riu, respondendo que me faltava esprito de aventura.

"- e nestas alturas que um homem mostra que e homem declarou. - Quando olha a Natureza nos olhos e no pestaneja.

"Roguei-lhe que fosse mais sensato, mas ele continuou a troar de mim por ser demasiado sensvel.

"- As mulheres no gostam dos homens que so sempre razoveis, sensatos e lgicos, Pierre - dizia ele. - Gostam de um pouco de perigo e de insegurana. Se quiseres 
conquistar a Daphne, tr-la aqui num dia como este e deixa-a gritar quando o mar lhe molhar a cara e o barco balanar para cima e para baixo, como agora - gritava.

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"Mas a tempestade aumentou ainda mais do que o Jean esperava e eu sentia-me cada vez mais irritado com ele por nos expor quele perigo desnecessrio. Sentia tanta 
raiva e tantos cimes que durante a nossa luta contra a tempestade...
- O meu pai deixou escapar um suspiro, fechou os olhos e depois finalmente concluiu: -... Atirei o Jib  cabea dele. No foi um acidente - confessou, baixando a 
cabea e pousando-a entre as mos.

- oh!, pap! - Endireitei-me e dei-lhe a mo, enquanto o ouvia de novo soluar. - Tenho a certeza de que no queria mago-lo tanto, e sei que se arrependeu logo 
a seguir.

- Sim - respondeu, levantando um pouco a cabea. - verdade. Mas isso no modifica em nada o que se passou... V como ficou e como est agora. Repara como ele era
- continuou, segurando uma das molduras de prata com a fotografia do tio Jean. - O meu irmo, sempre to cheio de charme! - As recordaes daquele tempo trouxeram 
de novo as lgrimas aos seus olhos. Soltou ento um suspiro to profundo que me fez temer pelo seu corao, baixando em seguida o queixo at ao peito.

- O tio Jean ainda e o seu irmo e continua cheio de charme, paizinho. e penso que pode melhorar o suficiente para sair daquele stio, tenho quase a certeza. Quando 
conversei com o tio Jean e lhe contei algumas coisas, senti que ele percebia tudo.

- Sim? - Os olhos do pai iluminaram-se e levantou outra vez a cabea. - oh!, como gostava que isso fosse verdade!... Abdicava de tudo o que tenho agora... de toda 
a minha fortuna, se preciso fosse!

-  verdade, pai. Mas tem de ir visitar o tio Jean mais vezes. Talvez devesse proporcionar-lhe um tratamento melhor, encontrar um outro mdico e uma outra clnica 
- sugeri. - Naquele stio no fazem mais nada alm de lhe darem boas acomodaes em troca de muito dinheiro - conclu, com amargura.

- sim,   talvez tenhas razo. - Fez ento uma pausa e sorriu, de olhos postos em mim. - s muito boa, Ruby. Se pudesse acreditar no meu perdo, conclua que me tinhas 
sido enviada como um sinal de que fui perdoado. No te mereo.

- Mas fui quase afastada desta casa, paizinho - afirmei, regressando ao meu tema inicial.

-Sim - continuou ele -, conta-me melhor o que se passou.

Relatei-lhe como Daphne me convencera a acompanh-la  clnica psiquitrica e tudo o que depois se seguira. O pai ouvia atentamente, cada vez mais indignado.

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- O paizinho tem de arranjar foras - afirmei. - Ela acabou de me dizer que tambm quer intern-lo a si. No pode deixar que ela faa este tipo de coisas consigo, 
comigo e at com a Gisselle.

- Sim - respondeu. - Tens razo. Deixei-me levar demasiado tempo pela autocompaixo e perdi por completo o controlo da situao.

- Temos de pr um fim a tantas mentiras, paizinho. Temos de nos livrar delas como se faz quando um barco ou uma canoa carregam demasiado peso. So as mentiras que 
esto a afundar-nos - disse-lhe.

Ele acenou com a cabea, enquanto me levantava.

- A Gsselle tem de conhecer a verdade, paizinho, tem de saber toda a verdade sobre as nossas origens. A Daphne tambm no devia temer a verdade. Devia ser nossa 
me por causa da sua forma de agir e no por causa de um monte de mentiras! O paizinho suspirou.

- Tens razo. - Levantou-se ento, passou a mo pelo cabelo e ajeitou a gravata, apertando-lhe o n. Depois entalou cuidadosamente a camisa nas calas. - Vou descer 
para ter uma conversa com a Daphne. Ela no vai voltar a fazer o que fez contigo, Ruby, prometo-te.

-e eu vou falar com a Gisselle e contar-lhe a verdade. Mas ela no vai acreditar em mim, paizinho. Vai ter de vir depois ter connosco e conversar tambm com ela 
- pedi-lhe. Ele acedeu.

-Est bem. - Em seguida deu-me um beijo e ficou alguns instantes abraado a mim. - A Gabrielle teria tanto orgulho em ti, filha!

Recuperou depois a sua postura, endireitou os ombros e saiu. Fiquei a observar a fotografia do tio Jean por mais alguns minutos e fui ento ter com a minha irm 
para lhe revelar quem era a sua verdadeira me.

- Onde estiveste? - inquiriu Gisselle. - A me j chegou h muito tempo a casa. Perguntei por ti uma srie de vezes, mas todos me diziam apenas que no estavas em 
casa. Depois a me veio falar comigo e contou-me que tinhas fugido, mas eu sabia que no ias conseguir aguentar-te muito tempo fora de casa - comentou, com toda 
a segurana. - Para onde  que irias? De volta para o bayou, para viveres com aquela gente nojenta dos pntanos?

Como no me opus imediatamente, o sorriso de satisfao de Gsselle desvaneceu-se dos seus lbios.

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-Porque ests a parada? Onde estiveste? - lamuriou-se,
- Fizeste-me falta, j no consigo suportar aquela enfermeira...

- A me mentiu-te, Gisselle -- comecei por dizer, com muita calma.

- Mentiu?

Avancei at  cama e sentei-me de forma a ficar de frente para a cadeira de rodas.

- No fugi - revelei. - No te lembras? Fomos  clnica visitar o tio Jean, mas...

-Mas o qu?

- Ela tinha outras intenes. Levou-me at l para me internar como doente - continuei. - Fui enganada e presa como se estivesse perturbada mentalmente.

- Foste? - Gisselle abriu muito os olhos.

- Houve um rapaz, muito simptico, que me ajudou a fugir. J contei tudo ao paizinho...

Gisselle abanou a cabea, sem conseguir acreditar no que ouvia.

-No acredito que a me tenha feito isso!

-Mas eu acredito - retorqui de imediato -, porque a daphne no  a nossa verdadeira me.

--- O qu? - Gisselle ainda esboou um sorriso, mas detive-a e conquistei de novo toda a sua ateno ao segurar a sua mo entre as minhas.

-Ns duas nascemos no bayou, Gisselle. H vrios anos, o paizinho costumava ir l caar com o av Dumas. Foi ento que conheceu e se apaixonou pela nossa verdadeira 
me, Gabrielle Landry, que engravidou dele. O grandpre Dumas queria muito ter um neto e ,como a daphne no podia ter -filhos, fez um acordo com o nosso outro grandpre, 
o grandpre Jack, para comprar a criana. S que ramos duas. A grandmre Catherine manteve-me no bayou em segredo e o grandpre Jack entregou-te a ti  famlia 
Dumas.

Gisselle ficou alguns segundos em silncio e depois retirou a sua mo das minhas.

-- Ests louca - acabou por dizer. - Se achas que vou acreditar numa histria dessas!

-  a verdade - respondi calmamente. - A histria do rapto foi inventada quando aqui cheguei, para que todos continuassem a acreditar que a daphne era nossa me.

Gisselle rodou a cadeira para trs, abanando a cabea. -No sou tambm cajun! No sou! - declarou.

- Cajun, crioula, rica ou pobre, nada disso tem importncia, Gisselle. S a verdade importa e chegou a altura de a en-
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frentar - afirmei, secamente. Comeava a sentir-me muito cansada, oprimida pelo peso de um dos dias mais dificeis e emotivos da minha vida. - No cheguei a conhecer 
a nossa me, porque ela morreu logo depois de nos dar  luz. Mas, segundo aquilo que a grandmre Catherine e o paizinho me contaram sobre ela, sei que a teramos 
amado muito. Era muito bonita,

Gisselle continuou a abanar a cabea; porm, o meu discurso calmo e sereno comeava a ter efeito sobre ela, pois o queixo tremia-lhe. Reparei que tinha tambm os 
olhos enevoados,

-Espera - pedi, abrindo a porta que dava para o meu quarto. Fui at  mesa-de-cabeceira e retirei a fotografia da nossa me. - - Gabrielle - informei, mostrando-lhe 
a fotografia. Gisselle lanou-lhe um olhar rpido e logo em seguida voltou a cabea para outro lado.

- No quero ver a fotografia dessa mulher cajun que tu insistes ser a nossa me.

-- Mas  a nossa me. e h mais... Ela teve tambm um outro filho... Temos um meio-irmo... o Paul.

-Ests doida, completamente louca! Devias mesmo ser internada! Quero o pap, quero falar com o pap. Pap! Pap! Pap! - gritou ela.

Mrs. Warren veio a correr do seu quarto. -O que se passa? - indagou.

-Quero falar com o meu pai, v j chamar o meu pai -No sou nenhuma empregada, sou...

- V cham-lo! - gritou Gisselle, com o rosto muito vermelho, devido ao esforo de tanto gritar. Mrs. Warren voltou-se para mim.

-Vou cham-lo - comuniquei, deixando Gisselle a ss com a enfermeira, que empregava todos os esforos para a acalmar.

O paizinho e Daphne estavam na sala de estar. Foi com bastante espanto que vi daphne, sentada no sof, muito abatida, enquanto o paizinho estava de p diante dela, 
com as mos na cintura, bastante mais determinado do que era hbito. Olhei alternadamente para ele e para Daphne, que logo desviou os olhos, com a conscincia culpada.

- Contei a verdade  Gisselle - comuniquei a ambos.
- Ests satisfeito? --- perguntou Daphne ao marido, visivelmente irritada. - Avisei-te que ela ia acabar por destruir a frgil teia que mantinha a nossa famlia 
unida. Avisei-te!

- Fui eu que quis que a Ruby contasse a verdade  irm anunciou ele.

Como?
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-Chegou a altura de todos enfrentarmos a verdade, por mais dolorosa que seja, daphne. A Ruby tem razo, no podemos continuar a viver num mundo de mentiras. O que 
lhe fizeste foi horrvel, mas o que eu lhe fiz foi ainda pior: nunca devia t-la obrigado a mentir.

-  fcil para ti chegares a essa concluso, Pierre - retorquiu daphne, com os lbios trmulos e os olhos inesperadamente molhados. Nesta sociedade, todos vo perdoar 
muito facilmente o teu deslize do passado e vo achar natural que tenhas tido um affair. Mas j pensaste no papel que me cabe nesta situao! De que forma poderei 
voltar a enfrentar a sociedade? - gemeu, chorando. Nunca pensei que chegasse a ver sar lgrimas daqueles olhos gelados e endurecidos, mas, nesse momento, daphne 
sentia tanta pena de si prpria que no conseguia reprimir-se.

De certa forma, apesar de tudo quanto daphne me fizera, senti tambm pena dela. O seu mundo, baseado em tantas falsidades e iluses e ornamentado com tantas mentiras, 
desmoronava-se diante dos seus olhos e no havia nada que ela pudesse fazer para o impedir.

- Todos ns vamos ter de aprender a lidar com os nossos erros, daphne. Eu, principalmente, vou ter de reunir foras para reparar os estragos que fiz nas vidas daqueles 
que amo. -Vais, sim - gemeu ela.

O paizinho acenou com a cabea.

- Mas tu tambm ters de o fazer! Como sabes, no ests isenta de culpas.

daphne fitou-o insistentemente.

- Temos de arranjar forma de perdoar uns aos outros, se quisermos continuar a ser uma famlia - continuou ele.

Em seguida, endireitou os ombros.

- Vou conversar com a Gisselle - declarou. e depois vou visitar o meu irmo. Tenciono ir visit-lo as vezes que forem necessrias para fazer com que me perdoe e 
comece a fazer progressos.

daphne desviou os olhos. O meu pai sorriu para mim e em seguida saiu para ir ter uma conversa com a minha irm e confirmar o que eu acabara de contar-lhe, revelando-lhe 
finalmente a verdade.

Durante um longo perodo de tempo, fiquei ali parada de olhos postos na minha madrasta. Depois, por fim, daphne voltou o rosto para mim, deixando-me ver que j no 
tinha os olhos enevoados, nem os lbios trmulos.

-No conseguiste destruir-me - declarou com firmeza. No fiques convencida do contrrio.

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- No pretendo destru-la, Daphne, s quero que desista de tentar destruir-me a mim. No posso dizer que j perdoei tudo quanto me fez, mas estou disposta a comear 
de novo e a tentar relacionar-me bem consigo. Quanto mais no seja, para tornar feliz o meu pai.

"E, talvez um dia - acrescentei, embora de momento me parecesse ainda totalmente impossvel -, consiga dar-lhe o nome de me com convico.

Daphne voltou-se para mim com os olhos semicerrados e o rosto endurecido.

-Conseguiste conquistar todos os que foste conhecendo. Ser que agora tambm vais tentar conquistar-me a mim, mesmo depois de tudo o que aconteceu hoje?

- S depende de si... No acha... me? - retorqui, deixando-a a ss para melhor ponderar o futuro da famlia Dumas.
EPLOGO

A verdade, tal como as construes do bayou, tem de ser semeada em terreno fundo para ganhar solidez, especialmente num mundo onde a mentira pode irromper a qualquer 
momento e arrastar na corrente as paredes frgeis da iluso. A grandmre Catherine costumava dizer que as rvores mais fortes so aquelas cujas raizes so mais profundas. 
"A Natureza sabe muito bem distinguir as que tm raizes fundas das que no tm, e essas acabam sempre por ser derrubadas nas inundaes e nos vendavais. Mas isso 
no  mau,  at um bom sinal, porque pelo menos assim sabemos que vivemos num mundo em que podemos sentir-nos mais seguros, um mundo no qual podemos confiar. Cava 
as tuas raizes o mais fundo possvel, filha; o mais fundo possvel."

Agora, para o bem ou para o mal, as minhas raizes estavam j firmadas no jardim da famlia Dumas. Passara da tmida e insegura menina cajun, que apareceu a tremer 
de medo  porta de casa, a algum que comeara a compreender melhor quem realmente era.

Nos dias que se seguiram. Gisselle sofreu uma estranha transformao e passou a ser muito mais fraca e dependente de mim. Vrias vezes a encontrei a chorar e fui 
eu quem a consolou. De incio, recusava-se a ouvir falar das nossas origens cajuns, mas depois, lentamente, comeou por fazer uma ou outra pergunta, que me davam 
oportunidade de descrever os lugares e as pessoas do bayou.  certo que Gisselle no aceitava da melhor forma a verdade e fez-me jurar repetidas vezes que no contaria 
nada a ningum at ela estar preparada para o admitir. Jurei que o faria.
Passado algum tempo, numa tarde em que me encontrava no quarto de Gisselle a contar-lhe como tinham corrido os exames finais, Edgar veio ao nosso encontro.

Peo desculpa, Mademoiselle Ruby - interrompeu, de-
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pois de ter batido com a maaneta na porta para chamar a nossa ateno -, mas chegou uma visita para si:  um rapaz seu amigo.

- Um rapaz! - exclamou Gisselle, antes que eu pudesse responder o que quer que fosse. - Como se chama, Edgar? -Paul, Paul Tate.

Senti que o sangue abandonava por instantes a minha cabea, para depois retornar com tanta intensidade que quase me fez desmaiar.

- Paul?...

-Quem  o Paul? - quis saber Gisselle.

-  o nosso meio-irmo - informei. Gisselle abriu muito os olhos.

- Tr-lo aqui acima - ordenou.

Desci as escadas a correr e encontrei Paul ainda de p na entrada. Pareceu-me muito mais velho, mais alto e muito mais bonito do que me lembrava que fosse.

- Ol, Ruby - cumprimentou, oferecendo-me um enorme sorriso de alegria.

- Como  que conseguiste encontrar-me? - exclamei, estupefacta. Nem sequer tinha escrito o remetente na carta que lhe enviara, exactamente porque no queria que 
ele me encontrasse.

,, -No foi muito difcil. Depois de receber a tua carta, fiquei pelo menos a saber que estavas em Nova Orlees. Depois, foi s ir ter uma noite com o grandpre 
e levar uma garrafa de bourbon!

- Que feio! - repreendi. - No tiveste vergonha de tirar partido de um bbedo?

- Era capaz de beber com o diabo, se preciso fosse, s para te encontrar, Ruby. - Ficmos de olhos nos olhos durante um minuto, incapazes de interromper aquele instante.

- Posso cumprimentar-te com um beijo? - perguntou Paul.

-Claro que sim.

Beijou-me a face e depois recuou para olhar  volta.

- No exageraste nada. Ests mesmo rica! Como est a tua situao aqui desde que me escreveste aquela carta? Melhorou?
- Sim - respondi, verificando que a minha resposta o desapontava.

- Tinha esperana que respondesses que no... Assim, talvez pudesse convencer-te a voltar comigo para o bayou. Mas percebo muito bem que no queiras abandonar esta 
casa.

-  aqui que mora a minha famlia, Paul.

393
- Sim, tens razo. Ento, e onde est a tal irm gmea? indagou. Resumidamente, pu-lo a par do acidente de viao que Gisselle sofrera. - oh,... exclamou Paul. - 
Lamento muito. Ela ainda est no hospital?

- No, est no quarto, ansiosa por te conhecer. Contei-lhe j tudo a teu respeito - afirmei.

- Contaste?

- Vem comigo. Nesta altura, a Gisselle j deve estar aos gritos pela nossa demora!

Conduzi-o ao andar de cima e ,pelo caminho, Paul contou-me que a vida do grandpre Jack continuava a mesma de sempre.

- A no ser a casa,  claro. J no irias reconhec-la, ele transformou-a na mesma pocilga em que vivia no pntano. e o terreno  volta est cheio de buracos... 
Sabes,  que o grandprre ainda no desistiu de procurar o dinheiro enterrado.

"Durante algum tempo, quando desapareceste, as autoridades locais pensaram que tinha sido ele o responsvel. O teu desaparecimento foi uma espcie de escndalo, 
mas depois, como no encontraram nenhuma prova, a Polcia parou as investigaes e deixou-o em paz. Mas  bvio que h ainda muita gente que lhe atribui as culpas.

- Que horror! Vou ter de escrever s amigas da grandmre a contar-lhes onde estou, para que fiquem a saber que est tudo bem comigo.

Paul concordou e em seguida entrmos no quarto de Gisselle.

Nada trazia mais cor s faces de Gisselle, nem mais brilho aos seus olhos, do que ver diante de si um rapaz atraente. Passados cinco minutos, sem nos termos ainda 
sentado, Gisselle j se valia de todo o seu charme, piscando os olhos, contorcendo os ombros e oferecendo a Paul uma sucesso de sorrisos. Apesar de divertido, Paul 
ficou tambm um pouco aturdido com tanta ateno feminina.

Porm, o que mais me surpreendeu, foi o desejo que Gisselle manifestou antes de sairmos: irmos ambas visitar Paul ao bayou numa prxima oportunidade.

- A srio? - exclamou Paul, deliciado. - Levava-te a passear, mostrava-te stios como nunca viste antes. Tenho um barco meu, e agora tenho tambm cavalos e

-No sei se iria poder andar a cavalo - gemeu Gisselle.
- Claro que ias - retorquiu Paul. - e ,se no pudesses, vinhas comigo no meu cavalo.

A ideia agradou bastante  minha irm.
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- Agora que j sabes onde vivemos, tens de aparecer mais vezes - pediu Gisselle. - temos de nos conhecer melhor.
- Est bem. Quero dizer., obrigado.

- No queres ficar para o jantar? - perguntou ela.

- No, no posso. Tenho de apanhar boleia de um amigo, que alis j deve estar  minha espera - informou. Percebi logo que Paul inventara essa desculpa, mas no 
disse nada. Gisselle, apesar de ter ficado desapontada, assim que Paul lhe deu um beijo de despedida voltou a animar-se.

- Prometes que no demoras a voltar? - ainda perguntou, quando ele se dirigia para a porta.

- Podias ter ficado para o jantar - disse a Paul, quando estvamos j a ss. - O meu pai ia gostar de te conhecer. A minha madrasta, Daphne,  um pouco snobe, mas 
no ia ser antiptica contigo.

-No, tenho mesmo de me ir embora. No contei a ningum onde vinha - confessou.

- Ah...

- Mas agora que j sei onde ests, e depois de ter conhecido a minha outra meia-irm, vou voltar mais vezes. Se quiseres,  claro.

- Sabes que sim. e um destes dias, vou levar a Gisselle ao bayou.

,Seria ptimo! - exclamou Paul. Depois, baixou os olhos e passado alguns instantes pousou-os rapidamente em mim.     Desde que te foste embora, nunca mais gostei 
de ningum     confessou.

-Isso no est certo, Paul.

-No depende de mim - respondeu ele.

- Tenta, por favor - implorei. Paul acedeu apenas com um gesto, depois inclinou-se sobre mim e beijou-me. Um momento depois, como se no passasse de uma memria 
do passado que invadira os meus pensamentos, j tinha desaparecido.

Em vez de voltar para junto de Gisselle, preferi ir dar um passeio pelo jardim. Estava um dia lindo, com o azul do cu a fazer lembrar uma pintura, salpicado aqui 
e ali por pequenas nuvens fofas. Fechei os olhos e estava quase a adormecer quando ouvi a voz do paizinho.

- Pensei, no sei porqu, que iria encontrar-te aqui fora declarou ele. - Vi este cu to azul e pensei: "A Ruby est l fora a gozar o final da tarde."

- Est uma tarde linda, paizinho. Como correu o seu dia?
- Correu bem, Ruby - comeou, sentando-se diante de mim e mostrando uma expresso muito sria -, tomei uma

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deciso. Gostava que tu e a Gisselle frequentassem, no prximo ano, um colgio interno. A tua irm precisa de uma ateno especial e muito francamente, precisa tambm 
de ti, apesar de ela nunca o admitir.

- Um colgio interno? - Fiquei a pensar que isso significaria que tinha de abandonar os novos amigos que tinha feito nesse ano, e especialmente que teria de abandonar 
Beau. A situao entre ns ainda no estava fcil, devido a tudo quanto daphne dissera aos pais de Beau, mas amos conseguindo sempre arranjar maneira de nos vermos 
de tempos a tempos.

-- Seria melhor para todos se vocs duas frequentassem um colgio privado, onde ficassem a viver - acrescentou, deixando muito claro o significado das suas palavras. 
- Vou sentir muito a vossa falta, mas vou visitar-vos sempre que possvel prometeu. - No fica longe de Nova Orlees. Ento, o que dizes?

- Um colgio cheio de meninas crioulas, todas elas ricas e presunosas? - indaguei.

- Muito provavelmente - admitiu. - Mas, sabes, julgo que isso j no te intimida. Sei que vais conseguir modific-las antes de elas te modificarem a ti -- previu 
ele. - Nesse colgio, terias oportunidade de participar em grandes festas, celebraes e excurses de turismo, alm de teres os melhores professores e ptimas acomodaes. 
Porm, mais importante de tudo, terias oportunidade de voltar a praticar a tua pintura e a Gisselle teria acesso ao cuidado especial de que necessita.

- Est bem, paizinho - respondi. - Se acredita que isso  o melhor para ns.

-Acredito. Eu sabia que podia contar contigo! Ento continuou ---, como vai a tua irm? Como  que te deixou ter este tempo livre? - gracejou.

- Deve estar a pentear o cabelo e a telefonar s amigas, para lhes contar todos os pormenores acerca do nosso visitante
- respondi.

- Qual visitante?

Nunca tinha conversado com o pai acerca de Paul, mas quando comecei a referir o assunto foi com muito espanto que verifiquei que j sabia de tudo.

-  A Gabrielle era incapaz de esconder um facto desses afirmou, -- Tenho pena de no o ter visto.

-- Mas ele vai voltar, e ns prometemos ir visit-lo um dia
- expliquei.

-- Gostava muito de vos acompanhar. Nunca mais voltei ao bayou desde que... desde aquela altura.

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O pai levantou-se ento da cadeira.

-- Vou ver a minha outra princesa - declarou. -- Queres vir?

-  Preferia ficar aqui mais um pouco, paizinho.

- Fica, filha - respondeu, inclinando-se sobre mim para me dar um beijo e afastando-se em seguida para ir ver a minha irm.

Recostei-me e pousei os olhos no jardim, mas, em vez de ver as lindas e bem cuidadas flores e rvores, vi o bayou. Vi-nos a ambos, Paul e eu, jovens e inocentes, 
a passear de canoa; Paul remava, enquanto eu gozava a brisa fresca do golfo, que brincava com os fios do meu cabelo. O nosso barco virou numa curva do canal, e deparmos 
ento com um falco do pntano pousado num ramo, observando a cena. Depois, abriu as asas, como se estivesse a cumpri mentar-nos e a dar as boas-vindas, guiando-nos 
ao mundo secreto onde repousavam os nossos mais queridos sonhos, na profunda quietude dos nossos coraes.

Mas depressa o falco abandonou o ramo onde estava pousado e levantou voo, sobrevoando o topo das rvores no azul do cu, deixando-nos a ss rumo ao amanh.
